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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 30.04.19

Coimbra: Petições de grau na Universidade

No Arquivo da Universidade de Coimbra encontram-se guardadas cinco pastas forradas a veludo que, até à entrada em vigor da “Lei da Separação do Estado das Igrejas”, publicada a 20 de abril de 1911, depois da implantação da República, eram utilizadas nas cerimónias de imposição dos graus de Bacharel, de Licenciado e de Doutor.

Petição de grau. Faculdade de.jpg

Pasta das petições de grau, utilizada na Faculdade de Medicina

A diferença existente entre elas residia na cor do veludo que correspondia a cada uma das Faculdades. De notar que as cores mencionadas diferem das atualmente usadas.

- amarelo para Teologia,
- vermelho para Direito,
- castanho claro para Medicina,
- azul escuro para Matemática e Filosofia.

Dentro da cada pasta podem observar-se dois documentos impressos, escritos em latim, com as fórmulas que seguidamente se referem.
No primeiro pode ler-se:

Quid petis.jpgQuid Petis?

Os Quid Petis? – o que pedes – são todos de teor similar e eram usados na atribuição do Grau de Bacharel, Grau de Licenciado, Grau de Doutor (Quando há um só doutorando) e Grau de Doutor (quando sam dois os mais doutorandos).

No segundo documento encontra-se o texto do juramento que o candidato tinha de proferir antes de lhe ser entregue o respetivo documento comprovativo da concessão do grau.

Professio Fidei Catholicae.jpg

Professio Fidei Catholicae

Trata-se da atribuição do canudo, como é designado na gíria coimbrã.

Canudo, porque o comprovativo do grau, escrito em latim sobre pergaminho e assinado pelas entidades competentes, incluindo o Magnífico Reitor, fixa ainda umas fitas da cor da respetiva Faculdade presas a uma caixa de prata que contém, no seu interior, o selo da Universidade. O documento encontra-se enrolado e inserido numa caixa de lata com forma tubular.

Canudos e diplomas.jpg

Canudos e comprovativos de curso

Carta de curso Letras selo.JPG

Comprovativo de um curso da Faculdade de Letras, pormenor do selo

Carta de curso Direito selo.jpg

Comprovativo de um curso da Faculdade de Direito, pormenor do selo

Deste ritual resta, atualmente, a cerimónia da imposição de insígnias que concede ao candidato, de forma solene e oficial, o grau de doutor. É evidente que o Quid Petis? se encontra adaptado aos tempos hodiernos.

Doutoramento. 1959.jpg

Cortejo de um doutoramento. 1959

Agradeço à Senhora Dr.ª Ana Maria Bandeira, Técnica do Arquivo da Universidade de Coimbra a ajuda para chegar aos documentos citados.

Fonte: Arquivo da Universidade de Coimbra (Quota: Petições de Graus V-3.ª-Mov. 8-Gav. 1)

 

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por Rodrigues Costa às 10:56

Terça-feira, 16.04.19

Coimbra. Gíria dos Estudantes 3

O estudante de Coimbra nas suas relações com a sociedade em geral.

Nas transcrições efetuadas, optamos por citar as palavras e as expressões da gíria a negrito.

Água, Meter – Fazer asneira; ter um deslize.
Arder – Pagar (Todos comeram, mas só ardeu um).
Berro, Dar o – Findar; acabar (Passado um mês o jornal deu o berro).
Brasa – Mulher bonita.
Buzina – Boca (E não foram capaz de lhe fazer calar a buzina).
Cagança – Vaidade; prosápia.
Calino – Estúpido; Diário de Coimbra (Quem já leu o Calino de hoje?)
Costumes, Estudar – Ir à Baixa (… às vezes iam para a Baixa estudar costumes)

Café Montanha na Rua da Saboaria.jpgEstudantes no primitivo Café Montanha

Dependurar – Pôr na casa de penhores (No mês passado tive que dependurar o fato, porque já não tinha dinheiro).

Casa de penhores.jpg

Desempregado, Estar – Não ter namoro (Não há rapariga que o queira … está desempregado).
Desinfetar – Retirar-se; ir-se embora (Desinfeta imediatamente, aqui só atrapalhas).
Encostanço – Baile.
Fateixa, Arreganhar a – Rir (Arreganha a fateixa por tudo e por nada).
Futrica – Todo o indivíduo de Coimbra que não é estudante.
Galheiro, Ir ao – Ser vencido; derrotado. (A Académica foi ao galheiro no último desafio).
Gancho, Ser de – Ser mau (Tenham cautela, porque ele é de gancho).
Japão – Todas as que, não sendo naturais de Coimbra, a visitam acidentalmente (Hoje vai tudo para a Baixa porque chegou muito Japão).
Malvada, Encher a – Comer; comer muito.
Mangueira, Estender a – Estender a mão (foi o primeiro a estender a mangueira, quando viu o doce).
Milho – Soco; pancadaria (Deu-lhe tamanho milho que caiu logo por terra).
Mona, Cozinhar a ou Cozer a carraspana – Esperar que passe o estado de embriaguez.
Mula – Pessoa reservada, que nunca dá a conhecer as suas intenções.
Pacote – Nádegas (Deram-lhe um pontapé no pacote).
Pername – As pernas das mulheres (As bailarinas tinham um pername).
Pêro – Soco; murro.
Peva ou Pevide – Nada (durante os dias de férias, não fez pevide)
Pirisca – Velocidade; ponta de cigarro (passou agora um caro com uma pirisca; Não tinha tabaco, recorri às piriscas).
Pocha – Bolso.
Resina – Bebedeira (Durante os oito dias da Queima apanhou outras tantas resinas).

Na Queima.jpg

Estudantes na Queima

Semiscarúnfio – Quase cego de razão; esquisito, maldisposto.
Serena – Ventosidade que não provoca ruídos (Deram uma serena que fez desaparecer toda a gente).
Seringa – Guarda-chuva (É melhor levar a seringa, porque pode chover).
Tiro, Dar o – Pedir dinheiro
Traço – Diz-se da mulher que é bela e elegante (Essa mulher é um traço como nunca vi).
Trunfa – Cabeleira
Unhas, Aparar as – Impedir que alguém faça mal.
Vidro – Copo de qualquer medida (Antes do cinema, fomos beber uns vidros).

Castro, A.F. 1947. A Gíria dos Estudantes de Coimbra. Suplementos de Biblos. Série Primeira, 7. Coimbra, Faculdade de Letras

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por Rodrigues Costa às 10:02

Quinta-feira, 11.04.19

Coimbra: Gíria dos Estudantes 2

O estudante de Coimbra, a vida escolar e as Instituições Académicas.
Nas transcrições efetuadas, optamos por citar as palavras e as expressões da gíria a negrito.

Aguentar-se – Dar uma lição sofrível («Não brilhou, mas aguentou-se pelo menos»).
Amélia – Elemento do naipe dos primeiros tenores do Orfeão Académico. («O Orfeão este ano tem falta de Amélias»). Este termo foi possivelmente pedido ao calão lisboeta, onde significa homem efeminado. Como os primeiros tenores são os que têm a voz mais próxima da feminina, foi-lhes dada aquela designação depreciativa.

Orfeon Arroyo (1881).jpgOrfeon Académico, dirigido por João Arroyo (1881)

Apitar – Dizer baixinho ao colega que está a ser chamado à lição o que deve responder («Se não me apitas, estou perdido»)
Barca – Nome dado ao aluno do quinto ano que protegia muitos caloiros à passagem na Porta-Férrea. («Lá vem a Barca!»).

Troças à Porta Ferrea. Novato levando às costas

À passagem da Porta-Férrea, o caloiro estava sujeito ás troças e à praxe chamada canelão, que consistia em os caloiros apanharem caneladas dos mais antigos. Para lá se passar sem perigo era necessário ir protegido por um quintanista.
Bestialógico – Exposição em que o aluno fala muito bem, mas diz poucas coisas acertadas («Concordo: fez um bestialógico, como nenhum de nós é capaz»).
Bicho – Aluno do liceu («Pertencer à briosa era o sonho dourado dos rapazes, sem embargo de saberem quanto era ingrata a vida do caloiro, só comparável à que levavam os bichos e os formigões, os seminaristas»).
Bicicleta – 8 valores («Contava passar, mas apanhei uma bicicleta»).
Boroa, Estudante de – Aluno da Escola Agrícola.
Briosa – Academia («deram-se nomeados para representar a Academia nos funerais; e, quando a briosa soube da história, já iam todos a caminho de Lisboa»).
Broeiro – Estudante pobre dos arredores de Coimbra, a quem os pais enviavam todos os géneros alimentícios.
Bufar - O mesmo que apitar.
Cabra – Sino da Torre da Universidade de Coimbra, que toca todos os dias às 18 horas, avisando os estudantes de que é tempo de recolher ao estudo.


Universidade. A Cabra.jpg

Cabrão – Sino da Torre da Universidade de Coimbra, que toca todas as manhãs, anunciando aos estudantes que há aulas. … este sino tinha um som mais grave, motivo porque lhe foi dado o nome do macho da cabra.
Cabulite – Falta de vontade para estudar («Portador de uma sintomatologia de inesperadas consequências, diagnosticada como cabulite aguda»).
Canudo – Diploma de licenciatura ou, de bacharelato. Tal designação, dada à carta de curso, provém do facto de ela ser entregue outrora ao novo bacharel ou licenciado, dentro de um canudo de lata.
Chichar – Anotar os livros escolares, nas entrelinhas ou à margem («Estava a traduzir muito bem, quando o mestre se levantou e descobriu que eu tinha o livro chichado»).
Cornos, meter nos – Decorar, fixar («Ainda que tenho que meter nos cornos toda esta coisa, apenas com dois dias antes dos atos»).
Coxo, passar – Transitar de classe, reprovado numa disciplina.
Cu, frequência de – Diz-se quando o aluno vai à aula só para marcar a presença, não ligando importância às preleções do mestre nem as acompanhando do estudo necessário («Não podia passar, só tinha frequência de cu»).
Cuspo, lição colada com – Lição estudada à última hora e que facilmente se esquece.
Empinar – Decorar («Adeus! Vou para casa empinar umas fórmulas»).
Espalhanço – Má lição.
Fera – Mestre muito exigente e que reprova muito.
Lebre, andar à – Recorrer aos amigos, quer para se alojar, quer para comer.
Mergulhar – Diz-se do aluno que se deixa escorregar pela carteira, para que o mestre não veja e não o chame à lição.
Patavina, não saber ou não pescar – Não saber nada.
Rabeca – Cama de estudante.
Rasgar [posteriormente, rasganço] – Ação de fazer em tiras todas as peças do vestuário do estudante, exceto a capa, no dia que conclui o seu curso. (Já hoje rasgaram cinco em Medicina).

Rasganço.jpg

Rasgar, ou rasganço

Sebenta – Espécie de apontamentos coligidos pelos alunos segundo as lições do mestre e, muitas vezes, revistos por este.
Tapar – Dar o número máximo de faltas permitido pela lei.

Castro, A.F. 1947. A Gíria dos Estudantes de Coimbra. Suplementos de Biblos. Série Primeira, 7. Coimbra, Faculdade de Letras

 

 

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por Rodrigues Costa às 19:59

Terça-feira, 09.04.19

Coimbra: Gíria dos Estudantes 1

Centramo-nos hoje numa dissertação de licenciatura em Filologia Românica, publicada em 1947, e que aborda a gíria dos estudantes de Coimbra no final do século XIX e na primeira metade do século XX.
A obra encontra-se, fundamentalmente, dividida em três partes: Introdução; O estudante de Coimbra, a vida escolar e as Instituições Académicas; e O estudante de Coimbra nas suas relações com a sociedade em geral.
Determinámos dedicar uma entrada a cada parte.
Nas transcrições efetuadas, optamos por citar as palavras e as expressões da gíria a negrito.

As gírias não têm uma sintaxe sua e, por esse motivo, não nos é permitido considerá-las como línguas propriamente ditas ou mesmo dialetos. São antes, para nos exprimirmos com mais rigor, vocabulários usados por determinados grupos cujos termos aparecem «enxertados» na língua corrente.
… Os processos de formação das gírias … de uma maneira geral, são os mesmos que usa a língua comum, e, sob este aspeto, a gíria e a linguagem comum chegam a identificar-se.
O que caracteriza, depois, as gírias é o facto de elas não serem compreendidas senão pelos iniciados, tornando-se secretas para todos os outros, e um como que elemento de defesa do grupo que a fala.
… Assim a gíria académica serve-se, por vezes, do latim para exprimir certas ideias … quando querem dizer que um estudante não sabe nada da lição, por a não ter estudado, traduzem esse facto pela expressão in albis … usam mesmo a forma latina decretus,

Decreto c.jpg

para designar as decisões respeitantes às praxes emanadas do Conselho de Veteranos ou pecunia para significar dinheiro, como no próprio latim; se alguém não tem dinheiro diz-se que anda a pauperibus. Outras vezes chega até a dar feição latina às palavras portuguesas, o que se verifica na expressão ir a calcantibus, querendo significar ir a pé.
… Na linguagem dos estudantes encontraremos, pois, palavras como trupe grupo de académicos que depois do toque da cabra, à tarde, anda em busca de caloiros ou bichos para lhe cortar o cabelo, e que se foi buscar ao francês troupe.
O inglês contribui também com alguns elementos para a formação da gíria académica coimbrã. Lembremos, por exemplo, cow-boy, pessoa simpática e divertida; o seu derivado, já aportuguesado, cowboiada, filme interpretado por cow-boys … mas significando também qualquer situação divertida; e poney com o significado de elegante. Temos também o nome próprio Power, lindo entre nós por póver, e que é dado aos homens que andam rigorosamente na moda … Não pegar nos books é outra expressão em que entra a língua inglesa, e que quer dizer não estudar nada.
… podemos citar [do italiano] o vocábulo nente para significar nada, proveniente, segundo alguns, da palavra italiana niente.
… a gíria académica usa da composição. Temos em primeiro lugar, a composição por meio de dois elementos…pinga-amor, indivíduo que dedica a maior parte do seu tempo a dirigir galanteios às raparigas … lagarto-azul, nome porque eram conhecidos os alunos da Escola Industrial.
… Quanto à composição por meio de prefixos … desgranizar era o termo empregado na aceção de dar, passar, etc., já caído em desuso. Tem a sua origem no facto de existir em Coimbra, no tempo do célebre boémio Pad-Zé, autor do termo, um merceeiro chamado Graniza que fornecia os estudantes, por vezes a crédito, embora mui custosamente. Então, quando desejava alguma coisa, Pad-Zé, seu vizinho, pedia mesmo da janela: Ó Graniza, desgraniza para cá isto ou aquilo! … E o nosso homem, embora com muita pouca vontade, sempre desgranizava.

Pad'Zé 02.jpg

O Pad-Zé

… A gíria académica serve-se dos sufixos que a língua comum lhe pode oferecer e utiliza outros que lhe são próprios.
No primeiro caso deparamos com as palavras do tipo de amélice, ato do que é Amélia: Falcoada, derivada de Falcão, designando a ação em que um grupo de estudantes deixa de pagar qualquer despesa feita; fiteiro o que simula qualquer coisa; gazeteiro, o que falta às aulas; manteigueiro … o que designa o que é adulador; martelão, o aluno que estuda muito; chumbaria na aceção de grande quantidade de chumbos; coelheira, as últimas carteiras da sala de aula.
… No segundo caso copianço de copiar, que designa a ação de copiar; rapanço de rapar, cortar os cabelos aos caloiros ou bichos; encostanço de encostar, para traduzir a ação de dançar.
… Um outro elemento de que as gírias se servem é a perífrase … um indivíduo foi armado com asas de pau querendo significar que foi sovado … se um estudante diz a outro que pagou cinquenta escudos para a Banda da Polícia não significará nada mais do que … esteve preso
… Não podemos esquecer, ao tratar da criação das gírias, do papel representado pelo eufemismo… Um exemplo … é o facto de um estudante chamar Museu a um determinado … prostibulo de Coimbra … Em qualquer parte, mesmo num salão, poderemos ouvir um académico perguntar a outro se vai para leste, quando deseja saber se ele se dirige a qualquer casa de prostituição. A origem da expressão é engraçada e nasceu do facto de quase todas essas casas se encontrarem naquela direção, nas diversas terras percorridas pelo Orfeão Académico numa das suas viagens.
A prostituta será denominada de uma maneira mais atenuada: chamar-se-lhe-á borboleta, imagem de certo modo agradável.

Castro, A.F. 1947. A Gíria dos Estudantes de Coimbra. Suplementos de Biblos. Série Primeira, 7. Coimbra, Faculdade de Letras

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por Rodrigues Costa às 09:51

Quinta-feira, 23.06.16

Coimbra: O ensino na Universidade na transição do século XVII para o século XVIII

Relativamente ao período que se segue à “Restauração”, damos a palavra ao Doutor M. Lopes d’Almeida:

“Na segunda metade do século XVII e na primeira do século XVIII... pode dizer-se que não houve modificações importantes na orientação dos estudos superiores em Portugal ... A corporação académica desviara-se do seu trilho normal e deixara tornar regulares e frequentes certos abusos prejudiciais às boas normas do ensino e à atividade docente.”

... A Universidade tinha então um avultado número de estudantes, que só o eram, os mais deles, por assim se designarem, e a atividade discente empregava-se sobretudo no jogo dos partidos e nas questões extraescolares.

O estudante limitava-se a escrever as “postilas” ditadas e rubricadas pelo mestre de modo a poder provar a sua frequência, mas esta formalidade era iludida frequentemente com a aquisição das “postilas” e a atestação de assiduidade comprovada por dois condiscípulos.

A assistência nas aulas tornou-se por vezes tão rara que no primeiro quartel do século XVIII se deixara quase totalmente de ler nas escolas, chegando os estudantes teólogos a preferir as lições nos seus colégios às da própria Universidade. Houve que obrigá-los a frequentar os gerais.

Uma grande parte dos estudantes só vinha a Coimbra para se matricular acostumados a provar os seus cursos ‘os mais deles sem residir nem cursar’ (as matrículas realizavam-se três vezes por ano: na abertura da Universidade a 18 de Outubro, a meio do ano escolar, e finalmente a 15 de Maio). O mal era já bastante antigo, pois que em Novembro de 1640 Filipe IV... entendia que a ‘causa principal de os estudantes serem menos curiosos procede da falta que os lentes proprietários fazem na lição de suas cadeiras’.

Como só havia exames nos últimos anos e a matéria sobre que versavam era conhecida muitas vezes com antecedência, faziam-se então os estudantes lecionar para esse efeito por um graduado, na generalidade um doutor. Assim, ‘qualquer estudante, por mais ignorante que fosse, podia aspirar ao doutoramento’.

Para obviar à falta de residência dos estudantes ordenou-se que se fizessem duas matrículas incertas... medida não resultara... É que aos estudantes chegava sempre notícia do primeiro dia de tais matrículas, e prevenidos por pressurosos correios pagos apresentavam-se no momento preciso.

Esta irregularidade de frequência escolar corria parelhas com as turbulências provocadas pelos estudantes na cidade, que se agrupavam para cometer os maiores excessos, cuja repressão teve de ser violenta e tenaz.

Em 1648, 1651 e 1671, várias provisões tentaram expungir os escândalos originados pela vida ociosa e libertina dos estudantes, que persistiam ainda na primeira metade do século XVIII, em andar de dia e de noite com capotes por toda a parte, com espadas e outras armas debaixo do braço.

... ‘que todo e qualquer estudante que por sua obra ou por palavra ofende a outro com o pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos’

Ribeiro, A. 2004. As Repúblicas de Coimbra. Coimbra, Diário de Coimbra. Pg. 36 a 38

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por Rodrigues Costa às 09:46

Quarta-feira, 13.01.16

Coimbra: o tempo do In Illo Tempore 3

E também os futricas: os livreiros … os funcionários, os alfaiates … os comerciantes … os tipógrafos, os penhoristas … as serventes, as figuras típicas, desde o negociante pretensioso ao vagabundo castiço, e estou-me a lembrar do Merzendó, do Rabino, do Pitonó, do Newton, assim chamado porque sabia de cor o binómio do célebre cientista, do Cobra Ladrão, do Jinó e do Horta, que uma noite estava estendido como morto junto a uma tasca, e que quando um estudante condoído lhe perguntou se estava a sentir-se mal, a resposta veio rápida – qualquer coisa como isto:
“ – Não senhor doutor. Estou à espera que venha a polícia para me levar às costas, porque estou muito cansado para ir a pé.”

E os litógrafos, que faziam as úteis e odiadas sebentas, como o cego Pacheco ou o Manuel das Barbas, a quem em vida fizeram o famoso epitáfio:
‘Aqui jaz Manuel; descansa!
Trabalho muito, e bebeu …
Litografava as sebentas
Mas foi feliz: - nunca as leu!’

Sebentas que, à noite, eram distribuídas de porta em porta, pela célebre Maria Marrafa, figura central do Centenário da Sebenta, de parceria com o “Almirante Rato” … que fazia umas caldeiradas maravilhosas.
E já se vê, as tascas, como a da Ana dos Ossos ou a da Tia Camela, que pontificava, e que durante o curso de Trindade Coelho foi por Deus chamada para o céu, para continuar ali a cozinhar o seu delicioso peixe frito, que regalara durante anos sucessivas gerações de académicos.
E quando, depois das aulas, os quintanistas iam para a Baixa com as suas fitas para as mostrar, “… das janelas, lindas donzelas, atrás dos vidros, a suspirar”.
E é claro, as fogueiras, com a lendária ligação do estudante e da tricana, em que o calor das cantigas e da música provocava, quantas vezes, as tradicionais desavenças, mais ou menos violentas, entre os “filhotes” e os “sacas de carvão”.

… o autor do ‘In Illo Tempore’ soube relatar, como pouco, a sua vivência, dar-nos um testemunho vivo, alegre e vibrante dos acontecimentos, das pessoas e das situações. E transporta-nos, nas asas da imaginação às ruas de Coimbra, às récitas e às fogueiras, ao tédio das aulas e à alegria das festas. E sentimo-nos figurantes do livro, vestidos com a pele dos seus personagens, vendo e ouvindo com os nossos olhos e os nossos ouvidos as preleções monocórdicas dos mestres, o ruido das latas nas pedras das ingremes ruas da cidade, as piadas chistosas, a voz dos mandadores das fogueiras, o colorido das fitas, os harmoniosos cânticos e os maneios das tricanas.
E sentimos os encontrões nos tumultos, as vozes altissonantes das assembleias, o fragor das festas académicas, o grito estridente dos gaiteiros e o som ensurdecedor dos bombos zurzidos sem piedade.

Andrade, C.S. 2003. O ‘In Illo Tempore’ de Trindade Coelho. In Centenário da Publicação do ‘In Illo Tempore’ deTrindade Coelho. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 34 a 36

 

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por Rodrigues Costa às 10:23

Terça-feira, 12.01.16

Coimbra: o tempo do In Illo Tempore 2

Trindade Coelho tinha todos os ingredientes para escrever o se livro, fazendo jus ao subtítulo: ‘Estudantes, Lentes e Futricas’.

Os primeiros, os colegas, como não podia deixar de ser: as suas aventuras e desventuras, a que acrescenta, aqui e além, episódios de gerações anteriores que andavam na memória de todos, de João de Deus ou João Penha, de Guerra Junqueiro ou Gonçalves Crespo. E, numa galeria cheia de cor, passam a vida das repúblicas, os “ursos” e os “flautistas”, as praxes, as tertúlias dos cafés, o “Lusitano” e o “anda a Roda”, as ceias, as inflamadas assembleias, os despiques literários, os habituais conflitos com a polícia e as autoridades, as festas das latas, as récitas, o Orfeon Académico, de João Arroio, fundado no seu tempo, aquando das celebrações do centenário camoniano. E será aqui de recordar a risada que acompanhou as palavras que aquele dirigiu a Trindade Coelho, comentando as suas “aptidões” orfeónicas: “- É que você e o porco … só têm três notas”.

E os lentes, claro. E na galeria passa agora o “velho” Pereira Jardim, que na sua juventude aproveitava os intervalos do seu ofício de tanoeiro para estudar e que chegou a catedrático; o Padre Pita, em cujas aulas se jogava a “santa lotaria”; Lopes Praça ou Avelino Calisto, que se passeava a cavalo pelas ruas de Coimbra fardado de granadeiro; Bernardo de Albuquerque, com os seus grandes bigodes, que foram imortalizados em verso:
‘Não haverá por aí quem merque
(Gritava um homem na feira)
Vassouras da bigodeira
Do Bernardo de Albuquerque?’

E Sanches da Gama, figura avantajada que fazia jus à sua fama e proveito de apreciador da boa mesa; Pedro Monteiro, de seu nome completo Pedro Monteiro de Azevedo Castelo Branco, tão célebre como a quadra que o retratou:
‘Se vires um homem de pernas muito altas
Olhos em guerra e cara de mau
Prostrai-vos por terra, beijai-lhe as sandálias.
É Pedro Penedo da Rocha Calhau.’

E tantos outros, como Assis Teixeira, que mais tarde o Pad’Zé imortalizaria … E Chaves e Castro … Cronómetro vivo, o “praxista-mor” rigoroso no cumprimento dos regulamentos universitários, e que também não escapou à veia poética de um aluno, inspirado pela figura de Minerva que, lá no alto, estava colocada sobre o professor:
‘Minerva, faz-nos a esmola,
Se o pai dos deuses consente.
Deixa cair essa bola
Sobre a cabeça do lente’

… E assim se ia quebrando a monotonia das aulas sempre iguais, com os expedientes das “farpas” e das “dispensas” … Quanto ao que o mestre debitava, lá estava o aluno “sebenteiro” que se encarregava de coligir diariamente a lição …

Andrade, C.S. 2003. O ‘In Illo Tempore’ de Trindade Coelho. In Centenário da Publicação do ‘In Illo Tempore’ deTrindade Coelho. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 32 a 34

 

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por Rodrigues Costa às 10:48

Segunda-feira, 11.01.16

Coimbra: o tempo do In Illo Tempore 1

A bibliografia coimbrã de memórias académicas é hoje bastante vasta. Ao longo dos anos, vários artigos estudantes, quando o cabelo começa a branquear e as saudades a estarem mais presentes, deixaram-nos o seu depoimento em letra de forma. Mas entre os vários livros publicados - de tão desigual merecimento, diga-se de passagem – o ‘In Illo Tempore’ ocupa um lugar com um relevo muito especial, sendo ainda hoje uma das obras mais representativas da vida académica coimbrã.
Quais as razões desse facto? Julgo que, para o êxito do livro, que logo no ano da publicação teve duas edições, muito contribuiu a colaboração de António Augusto Gonçalves com os seus desenhos que, infelizmente, não acompanharam as edições posteriores.

O livro seria editado … por Júlio Monteiro Aillaud, ele próprio natural de Coimbra, descendente de uma família de livreiros … Aillaud não deixou de pôr a sua marca no cólofon da obra que, apesar de impressa em Paris, era tão coimbrã:
“Este livro com desenhos originais de António Augusto Gonçalves e photografias coligidas em Coimbra por Antonio Luiz Teixeira Machado e Adriano Marques acabou de imprimir em Paris nas oficinas do editor Julio Monteiro Aillaud, natural de Coimbra, aos 27 dias do mês de Abril de MDCCCCII”.
… Trindade Coelho não se limitou a pôr no papel as suas recordações coimbrãs, recorrendo apenas às suas memórias. Ao longo da obra insere documentos que, certamente durante a sua vida académica foi recolhendo, copiando, quer se tratasse de folhetos, programas ou poemas que, de mão em mão, circulavam pelas aulas ou pelos locais frequentados pela Academia. E valoriza-os, anotando cada nome, referindo pos seus autores, explicando o seu significado, um trabalho que é precioso para o seu melhor conhecimento e as circunstâncias em que foram feitos e que, de outra forma, seriam hoje desconhecidas ou ininteligíveis. E todos esses elementos complementam as suas histórias, as figuras que retrata, os episódios que descreve. Com uma vivência estudantil muito participativa, movimentando-se no meio académico mas também com à-vontade na vida citadina, relacionando-se com as personagens da urbe de diversos quadrantes.

Andrade, C.S. 2003. O ‘In Illo Tempore’ de Trindade Coelho. In Centenário da Publicação do ‘In Illo Tempore’ deTrindade Coelho. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 31 e 32

Tags: Coimbra séc. XX, In Illo Tempore, Trindade Coelho, António Augusto Gonçalves, Júlio Monteiro Aillaud, António Luiz Teixeira Machado, Adriano Marques, Vida académica

 

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por Rodrigues Costa às 11:18


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