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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 14.04.22

Coimbra: Faculdade de Farmácia e a sua história 2

Em 1921 as Escolas Superiores de Farmácia passaram ao estatuto de Faculdades. Contudo foi no ano-letivo de 1921/1922 que se implementou a nova reforma de estudos cujo regulamento data de agosto de 1921.

AUC. Insignias 2.png

AUC. Insignias 1.png

Insignias doutorais da Faculdade de Farmácia

Pelo meio ficavam outras etapas e reformas relevantes: por exemplo, em 1902 houve uma reforma profunda da Escola de Farmácia e do plano de estudos e pela primeira vez o ensino farmacêutico passou a ser considerado superior.

Em 1911 uma nova reforma do plano de estudos conferiu autonomia do curso relativamente à Faculdade de Medicina, na senda das reformas de ensino promulgadas pela jovem República.

Em 1915 a Escola de Farmácia inaugurou instalações próprias na chamada Casa ou Palácio dos Melos cedida anos antes para o ensino farmacêutico e que se veio a transformar num símbolo do ensino da farmácia em Portugal.

Casa dos Melos. Faculdade de Farmácia. 1937.jpg

Faculdade de Farmácia. Casa dos Melos.1937. Imagem acedida em https://www.uc.pt/ffuc/patrimonio_historico_farmaceutico 

 Em 1918 uma nova reforma do plano de estudos e da Escola estabeleceu a designação de Escola Superior de Farmácia. Um ano depois a Escola de Farmácia passou a conceder o grau de licenciado. Em 1928 foi decretada a extinção da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, embora tenha continuado o seu funcionamento, surgindo novamente em 1932 com a designação de Escola.

Estas medidas de extinção e de ressurgimento da Escola enquadram-se num conjunto de medidas restritivas nas instituições de ensino executadas no Estado Novo. Somente em 1968 a Escola de Farmácia da Universidade de Coimbra passou, novamente, ao estatuto de Faculdade.

De então para cá, a Faculdade teve novos Estatutos, passou por diferentes reformas de ensino e fixou-se em novas e modernas instalações no Pólo III da Universidade em 2009 de acordo com os mais adequados parâmetros internacionais.

Faculdade de Farmácia Polo III.jpg

Faculdade de Farmácia nos dias de hoje. Polo III, da Universidade de Coimbra. Imagem acedida em https://www.uc.pt/ffuc 

Toda esta história do ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra, que é parte da história do ensino farmacêutico em Portugal, está bem conservada no Arquivo da Universidade de Coimbra (AUC). Os estudos que temos realizado na história da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra ao longo de mais de três décadas dão-nos autoridade para afirmar que, com efeito, esta prestigiada instituição conserva documentação importantíssima relativa ao ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra.

A exposição comemorativa do centenário da Faculdade de Farmácia dá a conhecer uma pequeníssima parte desses documentos em vários momentos da história da instituição e que se encontram magnificamente conservados e catalogados. Leva-nos a uma viagem no tempo, justamente através das diferentes etapas do ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra.

AUC. Espólio da FFUC.png

Imagem acedida em https://www.uc.pt/ffuc 

 Gostaríamos de salientar a boa receção que a proposta de exposição teve por parte da Senhora Diretora do AUC, Professora Doutora Maria Cristina Freitas, o nosso bem-haja. Também queremos expressar o nosso mais sentido agradecimento à Senhora Dr.ª Ana Maria Bandeira pela seleção dos documentos e organização da exposição que acompanhámos desde a primeira hora, bem como ao Senhor Dr. Ilídio Barbosa Pereira pela execução do catálogo.

Tal como em 1996, ano em que o Arquivo da Universidade também se associou às comemorações do 75.º centenário da Faculdade de Farmácia, também no centenário da nossa instituição o Arquivo da Universidade se associa numa manifestação de solidariedade institucional e de importante demonstração de vitalidade científica.

AUC. 100 anos de Faculdade de Farmácia. Universidade de Coimbra. Exposição documental. Arquivo da Universidade de Coimbra. Fevereiro-Março 2022. Acedido em https://www.uc.pt/auc/article?key=a-cb0df61dab

 

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por Rodrigues Costa às 10:19

Terça-feira, 12.04.22

Coimbra: Faculdade de Farmácia e a sua história 1

No Arquivo da Universidade de Coimbra esteve patente uma muito interessante exposição intitulada 100 anos de Faculdade de FarmáciaDo seu Catálogo

AUC. 100 anos da FFUC, capa do catálogo.png

Catálogo, capa

extraímos as imagens, sem referência, que integram a entrada de hoje, bem como o texto, assinado pelo Professor daquela Faculdade, Doutor João Rui Pita, com o título Comemoração do centenário da Faculdade de Farmácia no Arquivo da Universidade de Coimbra (1921-2021) que abaixo se cita.

O ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra é o mais antigo de Portugal e dos mais antigos no panorama internacional.

Com efeito, foi nos finais do século XVI que se iniciou na Universidade de Coimbra a aprendizagem da arte de botica com a fundação de um curso de boticários. Reinava em Portugal D. Sebastião. Era um curso prático com matrícula na Universidade e aprendizagem prática em boticas.

AUC. Livro do Receituário.png

Há outras datas e momentos igualmente muito marcantes na história do ensino farmacêutico na Universidade de Coimbra. Desde logo, o curso de boticários fundado em 1772 pela reforma pombalina da Universidade de Coimbra e que foi herdeiro do curso anteriormente referido.

AUC Carta de Farmácia.png

Carta da Arte de Boticário, passada aos 21 de novembro de 1777

 Com a reforma de Pombal, pela primeira vez, a Universidade de Coimbra passou a ter um local para o ensino da farmácia – o Dispensatório Farmacêutico do também recém-fundado Hospital Escolar.

AUC. Instrumentos de Farmácia.png

 Instrumentos da indústria famacêutica. Património histórico-farmacêutico da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra. Foto: Paulo Amaral©DCom.UC
[cf. https://www.uc.pt/ffuc/patrimonio_historico_farmaceutico]

Em 1836 foi fundada a Escola de Farmácia anexa à Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e que resultou de uma profunda alteração do regime de estudos de 1772. Foram também fundadas congéneres escolas em Lisboa e Porto, resultando esta institucionalização das medidas levadas a bom termo no ensino em Portugal, por Passos Manuel.

AUC. 100 anos de Faculdade de Farmácia. Universidade de Coimbra. Exposição documental. Arquivo da Universidade de Coimbra. Fevereiro-Março 2022. Acedido em https://www.uc.pt/auc/article?key=a-cb0df61dab

 

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por Rodrigues Costa às 10:15

Quinta-feira, 07.04.22

Coimbra: António Nobre, aluno da Universidade 3

Mas, se a Cidade consolidou um Poeta, a Universidade não formou um Bacharel.

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Universidade, Via Latina, in: Passear na Literatura. António Nobre

 

“Olha... São os Gerais, no intervalo das aulas.

Bateu o quarto. Vê! Vêm saindo das jaulas

Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes.”

«Só — Carta a Manuel»

 

De novo reprovado, António Nobre sai de Coimbra:

Quando vem Julho e deixo esta cidade,

Batina, Cais, tuberculosos céus,

Vou para o Seixo, para a minha herdade:

Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

O regresso, em Outubro, é breve. Demora-se o suficiente para tratar de papéis que precisará para se matricular em Paris, na Faculdade de Direito, cujo curso terminará em 1895.

E também para as despedidas. E nesses breves dias instala-se na “sua” Torre de Anto “onde um só homem vivia, que era o Anto encantado, na sua Torre”, e que para sempre ficará ligada ao poeta do “Só”.

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Torre de Anto, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Mas que surpresa ao despertar: imaginarás o que é a gente abrir o olho, repleto de tanta imagem deste século XIX e deparar encantado com a Idade Média em frente, pelos lados, sobre e sob? Oh, a Torre! Levantei-me entusiasmado e fui abrir as ogivas talhadas nestas pedras milenares e, ao ver toda a Coimbra outonal, essa paisagem religiosa, milagrosa, o Mondego sem água, os choupos, meus queridos corcundas, sem folhas e Vergados pelos anos, — pareceu-me que estava num mundo extinto, todo espiritual, onde só um homem vivia, que era o Anto encantado, na sua Torre.”

«Carta a Alberto de Oliveira, 4 Outubro 1890»

Partia de Coimbra, dizia adeus às margens do Mondego. Mas transportava consigo a saudade.

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Coimbra, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Que lindas coisas a lendária Coimbra encerra!

Que paisagem lunar que á a mais doce da terra!

Que extraordinárias e medievas raparigas!

E o rio? e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?”

«Só – Carta a Manuel»

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Monumento a António Nobre, no Penedo da Saudade, inaugurado em 30 de Outubro de 1939. in: Passear na Literatura. António Nobre

E, muitos anos mais tarde, quando procura em Lausana a cura para o mal que em breve lhe leva a curta vida, evoca, emocionado, a “Coimbra sem par, flor das Cidades”:

"Todas as tardes, vou Léman acima,

(E leve o tempo passa nessas tardes)

A pensar em Coimbra. Que saudades!

Diogo Bernardes deste meigo Lima.

 

Na solidão, pensar em ti, anima,

Oh Coimbra sem par, flor das Cidades!

Os rapazes tão bons nessas idades

(Antes que a vida ponha a mão em cima)

 

Alegres cantam nos teus arrabaldes,

Por mais que tire vêm cheios os baldes,

Mar de recordações, poço sem fundo!

 

Freirinhas de Tentúgal, passos lentos!

É chá com bolos, dentro dos conventos!

Meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo!"

 

Carlos Santarém Andrade

Andrade, C.S. Passear na Literatura. António Nobre. S/d. Coimbra, Câmara Municipal

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por Rodrigues Costa às 12:18

Terça-feira, 05.04.22

Coimbra: António Nobre, aluno da Universidade 2

António Nobre não passa despercebido na Coimbra de então. Os poemas dispersos já publicados, o esguio da sua figura, a palidez do rosto, o singular modo de vestir a capa e batina, fazem-no sobressair de entre os seus pares.

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Fotografia do Poeta. In: Passear na Literatura. António Nobre

 À mesa do «Lusitano», sede das tertúlias boémias e literárias, naquele século XIX de todos os poetas, vai nascer uma revista, grito de uma geração que quer deixar em páginas impressas a afirmação do seu pensar. E surge assim A «Bohemia Nova», que na sua efemeridade, é a presença de uma nova poesia, que desencadeará um vendaval de apaixonadas discussões literárias.

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Imagem acedida em https://almamater.uc.pt/republica/item/65714

 O fim do ano escolar aproxima-se, e com ele a deceção dolorosa de um ano perdido, com a “quadrilha” de lentes, nas suas próprias palavras, a negar-lhe a aprovação.

Após as férias, no regresso a Coimbra, António Nobre, no acto da matrícula, dá como morada a “Estrada da Beira”.

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Estrada da Beira. In: Passear na Literatura. António Nobre

“Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,

Donde ouvia arrulhar as pombas no telhado;

Oiço o relógio a dar as horas vagamente,

Devagar, devagar, como os ais dum doente;”

«Só — Na Estrada da Beira»

 Se aí não vem a viver, ficará para sempre ligado a essa rua pelo grande amor da sua vida, Margarida Lucena, a sua Margareth, que cantou em versos, com o nome de «Purinha»:

«Aquela, que, um dia, mais leve que a bruma,

Toda cheia de Véus, como uma espuma,

O Senhor Padre me dará para mim

E a seus pés, me dirá, toda coroada: Sim!»

E entre os fugazes encontros no Jardim Botânico e as novenas nas Ursulinas, a casa amada na “Estrada da Beira”:

«Vejo o teu Iuar e a ti, tão pura, tão singela,

E vejo-te a sorrir, e vejo-te à janela

Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,

Ansiosa, olhando dentre as folhas do arvoredo,

Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,

Que às vezes não me fosse um carro atropelar.»

Durante o ano letivo, mora numa casa que dá, por um lado, para a Rua do Correio (hoje Joaquim António de Aguiar) e por outro, para o Beco da Carqueja, mesmo ao pé “de uma das melhores coisas de Coimbra, a Sé Velha; é uma esplêndida igreja, estilo mourisco, que eu tanto desejaria transportar para a Boa Nova, fazendo dela o tão desejado Torreão”.

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Beco da Carqueja, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Moro, já sabes, no Beco da Carqueja: beco célebre, a que se refere, na sua História de Portugal, o Oliveira Martins. Aqui, numa casa vizinha (nesta quem sabe?), houve uma associação secreta composta de estudantes e conhecida popularmente pelo “Bando da Carqueja”, cujos fins, atém de políticos olhavam a guerrear os Isentes e aquela Universidade:”

«Carta a Alfredo de Campos, 9 Janeiro 1890»

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Beco da Carqueja, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Não escrevi e gastei, ou antes estraguei duas folhas de papel: uma por hesitar na preferência das minhas duas adresses— Beco da Carqueja, 114 Correio;

...Queria antes de acabar, falar-te desta República a que os meus companheiros, talvez influenciados pela epidemia-Dandy— chamam Le Château jaune.

«Carta a Alberto de Oliveira, 9 Janeiro 1890»

 Das janelas da sua nova casa, espraiando a vista, olha-se o rio, que lhe inspira quadras como esta, que irá entrar no folclore coimbrão:

«Vou encher a bilha e trago-a

Vazia como a levei!

Mondego, qu’é da tua água.

Qu’é dos prantos que eu chorei?»

E lá mais longe, o Choupal, que lhe guia a mão nos versos que compôs:

«O choupo magro e velhinho,

Corcundinha, todo aos nós,

Es tal qual meu avôzinho:

Falta-te apenas a voz.

 

Fui plantar o teu cabelo

Entre os choupos, no Choupal,

E nasceu, anda lá vê-lo,

Um choupinho tal e qual.

 

Ó boca dos meus desejos

Onde o padre não pôs sal,

São morangos os teus beijos,

Melhores que os do Choupal!»

 

Andrade, C.S. Passear na Literatura. António Nobre. S/d. Coimbra, Câmara Municipal

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:48

Quinta-feira, 31.03.22

Coimbra: António Nobre, aluno da Universidade 1

Carlos Santarém Andrade organizou há alguns anos uma série de percursos que intitulou Passear na Literatura, tendo elaborado, para cada um, textos ilustrados que merecem ser relembrados. Recordamos o percurso dedicado a António Nobre.

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Passear na Literatura. António Nobre, capa

«Vem a Coimbra. Hás-de gostar, sim meu amigo.

Vamos! Dá-me o teu braço e vem daí comigo.»

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Passear na Literatura. António Nobre, pormenor de capa

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Passear na Literatura. António Nobre, contracapa

Em Outubro de 1888, após a pacatez das férias, Coimbra retoma o seu bulício característico, com o regresso às aulas e a chegada de novos alunos que vêm frequentar a Universidade. Entre eles está António Nobre, que vem cursar Direito.

Instala-se numa casa junto ao Penedo da Saudade, então fora do perímetro urbano, de cuja janela disfruta a bucólica paisagem a que o Penedo é sobranceiro, cuja amplidão recortada de quintas e olivais contrasta com o estreito emaranhado das ruas da cidade.

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“O Penedo da Saudade é, na verdade, o único sítio em que se podia viver: à janela do meu quarto, que dá para as bandas de onde nasce o sol, passo eu infinitos segundos meditando  na minha vida que é ainda mais triste do que eu.”

Carta Augusto de Castro, 18 Outubro 1888

As duras praxes estudantis, o tédio das aulas, o rigor universitário, são para o poeta uma amarga experiência:

«Hoje, mais nada tenho que esta

Vida claustral, bacharelálica, funesta,

Numa cidade assim, cheirando, essa indecente,

Por toda a parte, desde a Alta à Baixa, a tente

E ao pôr do Sol, no Cais, contemplando o Mondego,

Honestos bacharéis são postos em sossego

E mal a cabra bala aos ventos os seus ais,

“Speech" de quarto de hora em palavras iguais,

Os tristes bacharéis recolhem às herdades,

Como na sua aldeia, ao baterem as Trindades.»

Mas o fascínio da cidade não o pode deixar indiferente:

«Contudo, em meio desta fútil coimbrice,

Que lindas coisas a lendária Coimbra encerra!

Que paisagem lunar que é a mais doce da Terra!

Que extraordinárias e medievas raparigas!

E o rio? e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?»

E, depois, há ainda os amigos:

«O que, ainda mais, nesta Coimbra de salgueiros

Me vale, são os meus alegres companheiros

De casa. Ao pé deles é sempre meio-dia:

Para isso basta entrar o Mário da Anadia.

Até a morte é branca e a Tristeza vermelha

 E riem-se os rasgões desta batina velha!»

E, para quebrar a “vida claustral”, nada como os passeios pelos arrabaldes:

«Manuel, vamos por aí fora

Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,

Por esses doces, religiosos arredores,

Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:

Torres, Condeixa, Santo António dos Olivais,

Lorvão, Cernache, Nazaré, Tentúgal, Celas!

Sítios sem par! onde há paisagens como aquelas?

Santos lugares onde jaz meu coração,

Cada um é para mim uma recordação…»

Andrade, C.S. Passear na Literatura. António Nobre. S/d. Coimbra, Câmara Municipal

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:15

Terça-feira, 21.09.21

Coimbra: Bartolomeu de Gusmão, aluno da Universidade

Prosseguindo no cumprimento dos objetivos traçados que passam por divulgar documentos com interesse existentes no Arquivo da Universidade de Coimbra, inéditos ou praticamente desconhecidos do público, a ilustre investigadora Dr.ª Ana Maria Bandeira debruçou-se, recentemente, sobre a documentação relativa à presença, no acervo do referido Arquivo, de registos relacionados com a conhecida figura do apelidado “padre voador”.

Com a devida autorização, partilhamos este relevante texto.

No final de julho (não há indicação de mês, mas, habitualmente, eram feitas as reuniões das informações no final de julho ou início de agosto) de 1720 “na salla da Universidade”, certamente a Sala dos Capelos, teve lugar a reunião para a atribuição das informações gerais, ou informações finais, do ano letivo de 1719-1720.

Bartolomeu de Gusmão 1.jpg

Fig. 1 - Informação final de Bartolomeu Lourenço de Gusmão, como Doutor em Cânones (penúltimo da lista) - (AUC - IV-1.ªD-2-1-52)

Quando se matriculou na Faculdade de Cânones, em 1 de dezembro de 1708, com o nome de Bartolomeu Lourenço, já como sacerdote, desconhecia-se, ainda, a célebre figura em que se tornaria, no ano seguinte, devido ao prodigioso invento de um aeróstato, recebendo, por isso, o epíteto de “padre voador”. Era o primeiro balão de papel que se ergueria no ar, sem fazer grande voo, tendo recebido do Rei D. João V a exclusividade da construção de “máquinas voadoras”. A primeira apresentação pública, feita em Lisboa, no Palácio Real, não teve sucesso e o balão ardeu, sem ter feito qualquer voo. Só numa segunda tentativa, em 8 de agosto de 1709, se ergueu no ar, em voo de 4 metros de altura. A ”passarola voadora”, de que se conhecem diversos desenhos e gravuras, não seria mais do que um projeto que o engenhoso inventor nunca chegou a construir.

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Fig. 2 - Bartolomeu Lourenço de Gusmão, filho de Francisco Lourenço, “de Santos no Brazil” recebeu como informação M.to Bom estudante.

O período em que esteve ausente da frequência universitária, entre os anos de 1710 a 1717 ficou a dever-se a ausências para o estrangeiro, no sentido de aperfeiçoar os seus conhecimentos aerostáticos.

Regressado à Universidade, viria a obter o doutoramento na Faculdade de Cânones, em 16 de junho de 1720.

Dois outros estudantes brasileiros, seus contemporâneos, figuram na mesma folha de registo de informações finais. São eles o Padre Vicente Correa Gomes, de Pernambuco e o Padre José Ferreira de Abreu, do Rio de Janeiro.

No final da atribuição das informações finais (vide fl. 50v) encontram-se as assinaturas de quem presidiu à reunião: o Reitor Pedro Sanches Farinha de Baena e os lentes Manuel Borges de Cerqueira, Francisco de Almeida Cayado, Manuel da Gama Lobo e Giraldo Pereira Coutinho.

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Fig. 3 - Gravura francesa com representação da “passarola”. De acordo com a legenda da gravura, teria espaço para dez viajantes.

Bandeira, A.M. 2021. O inventivo Bartolomeu de Gusmão, “padre voador”, aluno da Universidade de Coimbra. Acedido em

https://www.uc.pt/cultura/voos/inventivo/?fbclid=IwAR1SqYA4LfmA0QvHXcwGOxJ6jFVRFlyHIZAN0q84alXt_UMCZ9Jmy0NYlHk

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:30

Quarta-feira, 25.08.21

Coimbra: Hino dos Quintanistas de Direito do ano de 1876 a 1877

O Arquivo da Universidade de Coimbra apresenta mensalmente um documento do seu vasto e riquíssimo espólio.

No Boletim do mês de agosto deu a conhecer a interessante folha do rosto do Hymno dos Quintanistas de Direito do anno de 1876 a 1877.

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PT/AUC/COL/SG – Salema Garção (COL); Documentos Relativos a Coimbra (SR) - cota AUC – VI-3.ª-1-2-28

A imagem do documento é enriquecida com o seguinte texto explicativo:

A despedida dos alunos da Faculdade de Direito, no seu último ano de curso, 5.º ano, em 1876-1877, foi marcante no conjunto de todas as manifestações congéneres. Foi assinalada por uma récita de despedida e por um hino em cuja autoria participaram os dois condiscípulos, o elvense António Simões de Carvalho Barbas e o brasileiro, natural do Rio de Janeiro, António Cândido Gonçalves Crespo1.

Ambos os autores, um na colaboração musical e outro em colaboração poética, manifestavam já o que haveria de ser a sua vida futura, em que não singraram tanto pela carreira do direito, mas sim pela artes.

Efetivamente Simões de Carvalho que adotaria o nome de Carvalho Barbas, viria a ser professor da cadeira de Música que estava anexa à Capela da Universidade, lecionando a partir de 1888, sendo também o fundador, nesse ano, da Estudantina Académica.

Estudantina de Coimbra em 1888 (Photo Moderna. Por

Estudantina de Coimbra no ano de 1888 (Photo Moderna. Porto)

Quanto a Gonçalves Crespo, que já era casado com a poetisa Maria Amália Vaz de Carvalho, quando estudante, percorreria junto com sua mulher uma carreira literária e a animação do seu próprio salão literário, até falecer tísico, prematuramente, tendo apenas 37 anos, em 1883. Neste salão conviveram escritores ilustres como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, etc.

Muitas das récitas de finalistas2 tinham lugar no Teatro Académico que existia no local onde hoje se encontra a Biblioteca Geral e onde antes estivera edificada a antiga Faculdade de Letras.

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Colégio real de S. Paulo Apóstolo. Fachada norte (Des. de Giacomo Azzolini)

Teatro Academico. Palco.jpg

Sebastião Sanhudo, apontamento de «As festas do Centenário de Camões em Coimbra», in “O Sorvete”, Porto, nº 157, 14.05.1881.

Mas os alunos deslocavam-se também para Teatros fora de Coimbra, no sentido de angariar pecúlio que lhes permitisse organizar as suas festas de finalistas ou contribuir para atos de filantropia. Não esqueçamos que foi com o contributo de donativos angariados com récitas do Orfeão Académico que, em 1882, foi possível inaugurar a construção do primeiro Jardim Escola João de Deus, em Coimbra.

Jardim Escola em construção.jpg

Jardim Escola João de Deus em construção

Este bifólio, de quatro páginas, do qual se apresenta a folha de rosto, contém a partitura para piano, com indicação das vozes e coro, que foi regido por Simões Barbas. É hoje um raro exemplar, pois estes folhetos apenas sobreviveram na posse de bibliófilos e amantes das tradições coimbrãs, como é o caso do colecionador Eng.º Salema Garção que o doou ao Arquivo da Universidade, integrado num acervo conimbricense3.

Por último, uma chamada de atenção para o belo trabalho litográfico, com motivos vegetalistas e grinaldas de flores pendentes, muito ao gosto da época. É visível uma pasta de estudantes, fitada, e decorada, podendo interpretar-se que seja a “pasta de luxo” que começou a ser usada, no final do séc. XIX.

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PT/AUC/COL/SG – Salema Garção (COL); Documentos Relativos a Coimbra (SR) – cota AUC – VI-3.ª-1-2-28. Pormenor

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Pasta de luxo de um quartanista de Direito. 1934 (Coleção particular)

1 Foi já divulgado um exemplar desta récita de sua autoria, existente na BGUC. Foi representada no Teatro Académico, intitulada Phantasias do Bandarra, e ficou registada na exposição A Universidade de Coimbra e o Brasil: percurso iconobibliográfico. Coimbra: IUC, 2010. p. 176.

2 SILVA, Armando Carneiro da – «As Récitas do V ano». Arquivo Coimbrão (1955), vol. 13, pp. 149-281.

3 PAIVA, José Pedro (coord.) - Guia de Fundos do Arquivo da Universidade de Coimbra. Coimbra: IUC, 2015, pp. 150-151.

Hymno dos Quintanistas de Direito do anno de 1876 a 1877 / Música de A. Simões de Carvalho; Poesia de A. Gonçalve[s] Crespo. Coimbra: Lith. Academica, 1877.

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por Rodrigues Costa às 19:15

Quinta-feira, 21.03.19

Coimbra: Universidade de Coimbra e a Devassa de 1619-1624

Na Biblioteca Nacional de Lisboa… encontra-se um Manuscrito … resultado de uma «sindicância» ou «devassa» feita à Universidade de Coimbra, de 1619 a 1624, por D. Francisco de Meneses, na qualidade de reformador da Universidade.
…. Durante os longos cinco anos por que se prolongou aquela «reformação» (ou como hoje se diria, aquela «inspeção, sindicância ou devassa…») [foram inquiridas] cerca de 300 pessoas, entre lentes, opositores, doutores, clérigos, estudantes, oficiais da Universidade e civis, chegando à conclusão de que a Universidade padecia de «muitos e prejudiciais vícios», os quais nos dão uma ideia geral do estado de decadência em que, nos começos do século XVII, se encontrava a Universidade Portuguesa, situação, aliás, partilhada, naquela época, pela maioria das Universidades estrangeiras.
[Salientamos alguns exemplos] desses aspetos negativos da vida da Universidade:

- Os ornamentos e paramentos da Capela da Universidade nem sempre eram bem tratados e, por vezes, eram mesmo emprestados e até alugados.
- Alguns capelães da Capela da Universidade não estudavam ou até nem sequer se matriculavam.
- Nem o Reitor nem o Vice-Reitor haviam mandado pôr éditos na porta das Escolas a lembrar aos estudantes a obrigação que tinham de se confessar.
- O Secretário da Universidade … levava 1 vintém aos estudantes pela matricula.
- O mesmo Secretário aceitava dinheiro, presentes, peitas ou dádivas para «dar» a alguns estudantes «tempo» que lhes faltava para se poderem reformar ou para poderem «provar cursos»,
- O Vice Conservador da Universidade … era grosseiro, caloteiro, venal, devasso e, em geral, não cumpria os seus deveres.
- Os três Bedéis da Universidade, mas, de modo mais notório, o de Cânones e Leis e o de Medicina, eram «corruptos», não marcando as faltas dos estudantes, aceitando dinheiro e outros presentes aos estudantes e graduados que trocassem as «sortes» para os atos de conclusão, ou para marcarem a data dos atos.
- Alguns estudantes tinham pistoletas, espingardas, terçados, facalhões e outras armas.
- Alguns funcionários e estudantes viviam em mancebia.
- Alguns religiosos e eclesiásticos, alguns estudantes entregavam-se a práticas de homossexualidade e sodomia ou, como se dizia na linguagem da época eram «fanchonos».
- Havia lentes, bedéis e estudantes que se entregavam ao vinho em excesso.
- Alguns estudantes e até funcionários da Universidade falsificavam documentos, nomeadamente «certidões» de cursos.
- O encarregado da Livraria da Universidade …. retirou dela alguns livros e até algumas das cadeias que os prendiam.
- Alguns estudantes de Medicina exerciam a profissão médica sem haverem completado os seus cursos.
- Alguns funcionários e sobretudo professores … praticavam o suborno por ocasião das oposições às cadeiras.
. Na eleição dos Reitores e Vice-Reitores se praticavam subornos.

Eis alguns dos «muitos e prejudiciais vícios» de que, segundo a Devassa de 1619-1624, enfrentava a Universidade de Coimbra. Esses «vícios» não enlamearam, porém toda população universitária quer do corpo docente quer do corpo discente.

Francisco Suarez o «Doctor eximius» (1548-1617).

Francisco Suarez o «Doctor eximius» (1548-1617). Acedido em
https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=1y2Mq1iW&id=F3F749EA4929C27039780A7AED5A554B7F898ECC&thid=OIP.

Frei Amador Arrais. Dialogos.jpg

Frei Amador Arrais. Dialogos. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt/html/10316.2/8655/item1_index.html

Pedro Mariz. Dialogos de varia historia.jpgPedro Mariz. Dialogos de varia historia. Acedido em http://purl.pt/22932 

Efetivamente, durante o primeiro vinténio do século XVII, professaram em todas as Faculdades da Universidade de Coimbra alguns Mestres de excecional valor. Bastaria lembrar … Francisco Suarez, o «Doctor eximius» … Cristóvão Gil … Frei Amador Arrais, Gabriel Pereira de Castro e Pedro Mariz.

Gomes, J.R. 1987. Alguns vícios da Universidade de Coimbra no século XVII, segundo a Devassa de 1619-1624. Lisboa, Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa.

 

 

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por Rodrigues Costa às 09:58

Quinta-feira, 14.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 4

Vista geral da Alta, antes das demolições.jpg

Vista geral da Alta, antes das demolições

Durante o primeiro terço do século XX, os grandes projetos de remodelação urbana centravam-se na Baixa, mas foi na Alta que, quase subitamente, eles se começaram a aplicar. Por razões que não cabem neste momento explicar, o Estado Novo encetou em 1942 um vasto projeto de reconstrução das instalações universitárias, que ocasionou a demolição de mais de duzentos prédios e a construção de grandes blocos destinados a Faculdades.

Prédios demolidos durante as obras da Cidade Universitária segundo o número de pisos

Tipos de prédios  Número  Percentagem

Um piso                          1                   0,5
Dois pisos                     10                   5,0
Três pisos                     46                 22,8
Quatro pisos                 95                 47,0
Cinco pisos                   49                 24,3
Seis pisos                       1                   0,5
TOTAL                        202               100,1

Localização dos prédios demolidos.jpg

Localização dos prédios demolidos

…. Na véspera da construção da cidade universitária, a Alta era mais importante do que hoje não só por razões simbólicas, mas também pelo número e proporção de habitantes relativamente ao total de Coimbra e pelo superior relevo económico. O crescimento urbano verificado até 1940 não diluíra a polarização Alta-Baixa e o incremento da circulação automóvel ainda não tornara obsoletas as suas íngremes e estreitas ruas.
Ao contrário do que pretendeu e em grande parte realizou o Estado Novo, durante séculos não houve segregação entre zonas residenciais e escolares. A vizinhança entre os locais de ensino e os quarteirões de habitação, associada à dispersão dos colégios e dos próprios estudantes, implicava as zonas mais afastadas da Alta na atividade universitária sem que, no seu núcleo, fosse sentida qualquer necessidade de isolamento. Mas o plano de Cottinelli Telmo, responsável pela revolução urbanística realizada ao longo dos anos quarenta e sessenta, no seguimento de sugestões anteriores, assumiu a ideia de monofuncionalizar a área universitária.
A demolição sistemática da zona superior da Alta permitiu construir o Arquivo (1943-1948), a Faculdade de Letras (1945-1951), a Faculdade de Medicina (1949-1956) e os edifícios da Matemática (1964-1969) e de Física e Química (1966-1975): quatro imóveis de estudada monumentalidade, que provocaram uma profunda rutura urbanística e arquitetónica. E ainda ficou por construir o hospital previsto para o local dos Colégios de S. Jerónimo e das Artes, e os pórticos unindo os edifícios.

Alta de Coimbra. Rua Larga.jpg

Alta de Coimbra. Rua Larga. Década de 40

Vista geral da Alta, depois das demolições.jpg

Vista geral da Alta, depois das demolições

…Toda a zona se encontrava vivificada por um ativo comércio, ocupando o rés-do-chão de inúmeros prédios, vocacionando para a satisfação das necessidades diárias e ocasionais da população. Lucília Caetano … concluiu pela existência, na área demolida, dos seguintes «artesãos e pequenas empresas artesanais»: em 1942, havia seis alfaiatarias, duas modistas de vestidos, um marceneiro e restaurador, quatro encadernadores e douradores, duas tipografias, duas latoarias, cinco barbearias e uma relojaria. De acordo com a mesma autora, havia em 1910 sessenta e sete estabelecimentos comerciais e artesanais na Alta destruída e quarenta e sete fora dela.
… O plano de Cottinelli Telmo não alterou apenas o rosto da acrópole universitária. Devido ao âmbito das expropriações e à inerente necessidade de realojamentos, o seu impacto estendeu-se ao resto da cidade.

Vista geral do Bairro de Celas.jpg

Vista geral do Bairro de Celas

Em 1952, o reitor Maximino Correia calculou em dois a três milhares o número de pessoas que foram obrigadas a abandonar a Alta, ou seja, cerca de 5% da população da cidade, que em início dos anos quarenta rondava os cinquenta mil habitantes. A construção de bairros de realojamento apressaram e em parte definiram esse desenvolvimento urbano.

Rosmaninho, N. Coimbra no Estado Novo. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 65-92.

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por Rodrigues Costa às 09:45

Quinta-feira, 03.01.19

Coimbra: Instituto de Coimbra

A Academia Dramática, criada em 1836, onde alunos e professores preparavam e exibiam peças teatrais. Os estatutos da nova academia, aprovados em 4 de dezembro de 1840 … previam a existência de três conservatórios (Dramático, de Música e de Pintura), que passaram a designar-se Institutos e que se viriam a fundir numa única entidade conhecida por “Instituto”. Ao Instituto incumbia a realização de trabalhos literários e artísticos, sendo por isso constituída por indivíduos versados nas artes de declamação, música, pintura e literatura, na sua maioria lentes da Universidade de Coimbra.
Os atritos e afrontamentos que foram surgindo entre os membros do Instituto e os restantes elementos da Academia Dramática originaram uma dissensão, efetivada pela comissão que dirigia o Instituto em 1851.
… A nova sociedade académica foi iniciada a 3 de janeiro de 1852, com a aprovação em Assembleia-geral dos novos estatutos que declaravam como objetivos “a cultura das ciências, belas letras e belas artes.” Com a fundação do “novo” Instituto de Coimbra incorporou-se uma área vocacionada para a cultura das ciências.
Toda a história do Instituto de Coimbra se entrelaçou com a história da Universidade, não sendo possível “dar conta da vida desta instituição científica isolando-a da Universidade de Coimbra, onde as suas raízes vão colher constantemente a seiva que o vivifica, e a todo o momento lhe fornece novas e pujantes forças” (Lobo, 1937, p. 6). Alguns consideraram o Instituto de Coimbra um “rebento juvenil” da alma mater que era a antiga Universidade (idem, p. 9).

Instituto sala.jpgPrimeira sala do Museu de Antiguidades do Instituto de Coimbra

… O Instituto de Coimbra compreendia três classes, que tinham de ser escolhidas pelos seus associados, designadamente: I Classe - Ciências morais e sociais, dedicada aos assuntos relacionados com a economia e o direito; II Classe – Ciências Físico-matemáticas, que englobava todas as ciências naturais e exatas; e III Classe – Literatura, belas letras e artes, composta pelas secções de literatura, literatura dramática e belas artes.
… A primeira reformulação dos estatutos originais, de 3 de Janeiro de 1852, surgiu nos já referidos estatutos de 1860. Em Assembleia geral de 4 e 7 de Junho de 1882 foram aprovadas alterações dos estatutos, onde se destacou a descrição da medalha de prata a ser usada pelos sócios efetivos. Esta teria a inscrição – Instituto de Coimbra 1852, de um lado e a insígnia da sociedade no outro, com a legenda Auro Pretiosior1, devendo ser usada suspensa de um duplo colar de prata.

Instituto.jpgColar com a insígnia do Instituto de Coimbra

Desde o início, a publicação de um jornal científico e literário surgiu como a principal ferramenta de prossecução dos objetivos definidos para a nova sociedade académica.
Proveniente da primeira corporação científica do país (Sampaio, 1852, p. 1) O Instituto título atribuído à publicação, não se assumiu de modo nenhum como um periódico popular, mas antes como um meio de divulgar os trabalhos dos seus sócios entre os seus pares, mesmo que de áreas distintas, e um espaço de debate de ideias ao promover “diálogo entre intelectuais” (Xavier, 1992, p. 91).O Insituto. Volume Primeiro. 1853.jpgO Instituto. Jornal Scientifico e Litterario. Volume Primeiro. 1853

… A revista científica e literária O Instituto adquiriu, pela sua longevidade, singularidade no panorama nacional. Ganhou prestígio ao tornar-se uma obra de troca. Em 1935, O Instituto era permutado com mais de 200 periódicos nacionais e internacionais. Ao longo de 130 anos foram publicados 141 volumes, o último dos quais em 1981, prenunciando já o fim do Instituto de Coimbra. Em 1942, quando se publicou o centésimo volume de O Instituto, o Secretariado da Propaganda Nacional, órgão do Estado Novo, ofereceu uma lápide comemorativa descerrada na sede do Instituto de Coimbra, onde, ainda hoje, se pode ler: “Neste edifício tem a sua sede a mais antiga revista literária do país.”

Leonardo, A.J., Martins, D.R. e Fiolhais, C. O Instituto de Coimbra e a Ciência na Universidade de Coimbra. Acedido em 2018.11.12, em file:///C:/Users/Rodrigues%20Costa/Desktop/Blogue%20entradas%20a%20fazer/Instituto/Instituto%20de%20Coimbra.pdf

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por Rodrigues Costa às 20:28


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