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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 13.01.16

Coimbra: o tempo do In Illo Tempore 3

E também os futricas: os livreiros … os funcionários, os alfaiates … os comerciantes … os tipógrafos, os penhoristas … as serventes, as figuras típicas, desde o negociante pretensioso ao vagabundo castiço, e estou-me a lembrar do Merzendó, do Rabino, do Pitonó, do Newton, assim chamado porque sabia de cor o binómio do célebre cientista, do Cobra Ladrão, do Jinó e do Horta, que uma noite estava estendido como morto junto a uma tasca, e que quando um estudante condoído lhe perguntou se estava a sentir-se mal, a resposta veio rápida – qualquer coisa como isto:
“ – Não senhor doutor. Estou à espera que venha a polícia para me levar às costas, porque estou muito cansado para ir a pé.”

E os litógrafos, que faziam as úteis e odiadas sebentas, como o cego Pacheco ou o Manuel das Barbas, a quem em vida fizeram o famoso epitáfio:
‘Aqui jaz Manuel; descansa!
Trabalho muito, e bebeu …
Litografava as sebentas
Mas foi feliz: - nunca as leu!’

Sebentas que, à noite, eram distribuídas de porta em porta, pela célebre Maria Marrafa, figura central do Centenário da Sebenta, de parceria com o “Almirante Rato” … que fazia umas caldeiradas maravilhosas.
E já se vê, as tascas, como a da Ana dos Ossos ou a da Tia Camela, que pontificava, e que durante o curso de Trindade Coelho foi por Deus chamada para o céu, para continuar ali a cozinhar o seu delicioso peixe frito, que regalara durante anos sucessivas gerações de académicos.
E quando, depois das aulas, os quintanistas iam para a Baixa com as suas fitas para as mostrar, “… das janelas, lindas donzelas, atrás dos vidros, a suspirar”.
E é claro, as fogueiras, com a lendária ligação do estudante e da tricana, em que o calor das cantigas e da música provocava, quantas vezes, as tradicionais desavenças, mais ou menos violentas, entre os “filhotes” e os “sacas de carvão”.

… o autor do ‘In Illo Tempore’ soube relatar, como pouco, a sua vivência, dar-nos um testemunho vivo, alegre e vibrante dos acontecimentos, das pessoas e das situações. E transporta-nos, nas asas da imaginação às ruas de Coimbra, às récitas e às fogueiras, ao tédio das aulas e à alegria das festas. E sentimo-nos figurantes do livro, vestidos com a pele dos seus personagens, vendo e ouvindo com os nossos olhos e os nossos ouvidos as preleções monocórdicas dos mestres, o ruido das latas nas pedras das ingremes ruas da cidade, as piadas chistosas, a voz dos mandadores das fogueiras, o colorido das fitas, os harmoniosos cânticos e os maneios das tricanas.
E sentimos os encontrões nos tumultos, as vozes altissonantes das assembleias, o fragor das festas académicas, o grito estridente dos gaiteiros e o som ensurdecedor dos bombos zurzidos sem piedade.

Andrade, C.S. 2003. O ‘In Illo Tempore’ de Trindade Coelho. In Centenário da Publicação do ‘In Illo Tempore’ deTrindade Coelho. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 34 a 36

 

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por Rodrigues Costa às 10:23

Terça-feira, 12.01.16

Coimbra: o tempo do In Illo Tempore 2

Trindade Coelho tinha todos os ingredientes para escrever o se livro, fazendo jus ao subtítulo: ‘Estudantes, Lentes e Futricas’.

Os primeiros, os colegas, como não podia deixar de ser: as suas aventuras e desventuras, a que acrescenta, aqui e além, episódios de gerações anteriores que andavam na memória de todos, de João de Deus ou João Penha, de Guerra Junqueiro ou Gonçalves Crespo. E, numa galeria cheia de cor, passam a vida das repúblicas, os “ursos” e os “flautistas”, as praxes, as tertúlias dos cafés, o “Lusitano” e o “anda a Roda”, as ceias, as inflamadas assembleias, os despiques literários, os habituais conflitos com a polícia e as autoridades, as festas das latas, as récitas, o Orfeon Académico, de João Arroio, fundado no seu tempo, aquando das celebrações do centenário camoniano. E será aqui de recordar a risada que acompanhou as palavras que aquele dirigiu a Trindade Coelho, comentando as suas “aptidões” orfeónicas: “- É que você e o porco … só têm três notas”.

E os lentes, claro. E na galeria passa agora o “velho” Pereira Jardim, que na sua juventude aproveitava os intervalos do seu ofício de tanoeiro para estudar e que chegou a catedrático; o Padre Pita, em cujas aulas se jogava a “santa lotaria”; Lopes Praça ou Avelino Calisto, que se passeava a cavalo pelas ruas de Coimbra fardado de granadeiro; Bernardo de Albuquerque, com os seus grandes bigodes, que foram imortalizados em verso:
‘Não haverá por aí quem merque
(Gritava um homem na feira)
Vassouras da bigodeira
Do Bernardo de Albuquerque?’

E Sanches da Gama, figura avantajada que fazia jus à sua fama e proveito de apreciador da boa mesa; Pedro Monteiro, de seu nome completo Pedro Monteiro de Azevedo Castelo Branco, tão célebre como a quadra que o retratou:
‘Se vires um homem de pernas muito altas
Olhos em guerra e cara de mau
Prostrai-vos por terra, beijai-lhe as sandálias.
É Pedro Penedo da Rocha Calhau.’

E tantos outros, como Assis Teixeira, que mais tarde o Pad’Zé imortalizaria … E Chaves e Castro … Cronómetro vivo, o “praxista-mor” rigoroso no cumprimento dos regulamentos universitários, e que também não escapou à veia poética de um aluno, inspirado pela figura de Minerva que, lá no alto, estava colocada sobre o professor:
‘Minerva, faz-nos a esmola,
Se o pai dos deuses consente.
Deixa cair essa bola
Sobre a cabeça do lente’

… E assim se ia quebrando a monotonia das aulas sempre iguais, com os expedientes das “farpas” e das “dispensas” … Quanto ao que o mestre debitava, lá estava o aluno “sebenteiro” que se encarregava de coligir diariamente a lição …

Andrade, C.S. 2003. O ‘In Illo Tempore’ de Trindade Coelho. In Centenário da Publicação do ‘In Illo Tempore’ deTrindade Coelho. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 32 a 34

 

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por Rodrigues Costa às 10:48

Segunda-feira, 11.01.16

Coimbra: o tempo do In Illo Tempore 1

A bibliografia coimbrã de memórias académicas é hoje bastante vasta. Ao longo dos anos, vários artigos estudantes, quando o cabelo começa a branquear e as saudades a estarem mais presentes, deixaram-nos o seu depoimento em letra de forma. Mas entre os vários livros publicados - de tão desigual merecimento, diga-se de passagem – o ‘In Illo Tempore’ ocupa um lugar com um relevo muito especial, sendo ainda hoje uma das obras mais representativas da vida académica coimbrã.
Quais as razões desse facto? Julgo que, para o êxito do livro, que logo no ano da publicação teve duas edições, muito contribuiu a colaboração de António Augusto Gonçalves com os seus desenhos que, infelizmente, não acompanharam as edições posteriores.

O livro seria editado … por Júlio Monteiro Aillaud, ele próprio natural de Coimbra, descendente de uma família de livreiros … Aillaud não deixou de pôr a sua marca no cólofon da obra que, apesar de impressa em Paris, era tão coimbrã:
“Este livro com desenhos originais de António Augusto Gonçalves e photografias coligidas em Coimbra por Antonio Luiz Teixeira Machado e Adriano Marques acabou de imprimir em Paris nas oficinas do editor Julio Monteiro Aillaud, natural de Coimbra, aos 27 dias do mês de Abril de MDCCCCII”.
… Trindade Coelho não se limitou a pôr no papel as suas recordações coimbrãs, recorrendo apenas às suas memórias. Ao longo da obra insere documentos que, certamente durante a sua vida académica foi recolhendo, copiando, quer se tratasse de folhetos, programas ou poemas que, de mão em mão, circulavam pelas aulas ou pelos locais frequentados pela Academia. E valoriza-os, anotando cada nome, referindo pos seus autores, explicando o seu significado, um trabalho que é precioso para o seu melhor conhecimento e as circunstâncias em que foram feitos e que, de outra forma, seriam hoje desconhecidas ou ininteligíveis. E todos esses elementos complementam as suas histórias, as figuras que retrata, os episódios que descreve. Com uma vivência estudantil muito participativa, movimentando-se no meio académico mas também com à-vontade na vida citadina, relacionando-se com as personagens da urbe de diversos quadrantes.

Andrade, C.S. 2003. O ‘In Illo Tempore’ de Trindade Coelho. In Centenário da Publicação do ‘In Illo Tempore’ deTrindade Coelho. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 31 e 32

Tags: Coimbra séc. XX, In Illo Tempore, Trindade Coelho, António Augusto Gonçalves, Júlio Monteiro Aillaud, António Luiz Teixeira Machado, Adriano Marques, Vida académica

 

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por Rodrigues Costa às 11:18


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