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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 18.04.23

Coimbra: A Tricana, outra visão 4

Vejamos o tradicionalismo das Fogueiras de S. João.

….. A. A. Gonçalves, na publicação literária, «O Zephyro, n.° 2», Coimbra, 29 de Fevereiro de 1872, sob o titulo «Fonte do Castanheiro».

«O movimento do rapazio, animados pela folgança da sua rua, começava ao pôr do sol. E as raparigas, de roupagens alvas e o tentador lenço branco a comprimir-lhes o seio e a abraçar-lhes a cintura, afinavam a voz pela afinação da viola e ansiavam pela noite.

«O esguio pinheiro lá se ostentava com o pé cercado de lenha. Arcos e grinaldas de folhagens e flores enfeitavam o largo, e as bandeiras variadamente coloridas tremulavam altas.

«E o estalar dos foguetes, anunciando festa, convidava para a reunião, e incitava à vertigem festiva do bailado.

«Aglomeravam-se em massa, eles e elas, em torno da pira; estalavam as fagulhas; redemoinhavam línguas de fogo; redobravam as gargalhadas; todos falavam; ninguém se entendia; moviam-se em redor com lentidão; retiniam violas e cavaquinhos; batiam as palmas; - «Ande roda» - gritava uma voz imperiosa e reforçada.

OS. Tricanas de Coimbra. Op. cit., pg. 584.jpg

Op. cit., pg.584

«Estava começada a dança !... «Agora é vê-las travessas, ruborizadas, ofegantes, mas teimosas e incansáveis naquele lidar frenético!

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 582.jpg

Op. cit., pg. 582

 E ouvia-se então, constantemente, a voz de um «marmanjão», marcando, corno se fosse um besouro, as voltas e reviravoltas:

- E virou!

- E vá de volta!

- E lá vai uma!

- Chegadinhos!

- Ainda outra!

- E vá mais. outra!

Assim até pela manhã! 

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 594.jpg

Op. cit., pg. 594

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 589.jpg

Op.cit., pg. 589

 Pela manhã roda forte e de braço dado para a «Fonte do Castanheiro», um arrabalde, onde as fogueiras todas .se juntavam!» 

OS. Tricanas de Coimbra. Op. cit., pg. 586.jpg

Op. cit., pg. 586

A tradição mandava a visita à Fonte do Castanheiro, ali para os lados da Estrada da Beira, e nessa fonte murmurante, recanto gracioso dessa paisagem de maravilha que é a encosta da Lomba da Arregaça, terminavam os folguedos os ranchos já quando as estrelas se recolhiam, braço dado os pares, corações em uníssono sentir, cantando alegremente a marcha:

Vamos seguindo,

Tocando no pandeiro...

Vamos beber água

À Fonte do Castanheiro.

 Ou então:

Está-nos chamando

Cupido brejeiro...

Cantar e dançar

Na Fonte do Castanheiro.

Sá, O. 1942. A Tricana no Folclore Coimbrão. In: O Instituto, vol. 101, pg. 361-632. Coimbra, Imprensa da Universidade. Acedido em: Acedido em: http://webopac.sib.uc.pt/search~S17*por?/tinstituto/tinstituto/1,291,309,E/l856~b1594067&FF=tinstituto&1,1,,1,0

 

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por Rodrigues Costa às 16:17

Quinta-feira, 13.04.23

Coimbra: A Tricana, outra visão 3

Foi com esta maneira de trajar que as Tricanas se apresentavam nas tradicionais fogueiras do Romal, da rua do Borralho, de Santa Clara e da Arregaça. Esse modelo foi aproveitado em pinturas, telas e cartões, e aberto na pedra por muitos artistas.

Há também o trajo referido no livro - «Cartas duma tricana» - do distinto advogado e escritor, Herlander Ribeiro, referente ao período de 1903 a 1908, assim descrito: - «saias pretas de barras de seda, meias de algodão em branco, chinela de verniz, blusas brancas e cor de rosa, de setineta, na cabeça lenços de tonalidades berrantes».

Ainda o sr. Dr. Vergílio Correia, em «Coimbra e arredores», 1939, … refere a Tricana nestes termos: «Terra de estudantes e tricanas costumam chamar a Coimbra. Se os estudantes persistem, as tricanas citadinas não aparecem senão em reconstituições literárias ou em festivais. A mulher da cidade veste-se atualmente segundo as modas correntes na classe a que pertence; mas cobrindo o busto airoso como xaile fino, e diademando a cabeça com a coifa negra, ou a mantilha, sabe distinguir-se entre todas pela elegância comedida das atitudes. A mulher dos arrabaldes conserva as suas saias de pregas, rodadas, os corpetes justos, o xaile traçado sobre o ombro, o lenço caído, elementos valorizadores da sua mobilidade desperta e da graça rítmica de movimentos, acorde com a paisagem e planura.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 578.jpgOp. cit., pg, 578

Assim, é que Mestre Quim Martins, o notável arqueólogo, crítico de arte e saudoso jornalista, já encontra a Tricana em Sexta-feira de Paixão:

- «O lenço de seda, branco enrolar de lírio, cai sobre o xaile preto retesado nos ombros delgados, puxados para diante, sobre o peito fraco, como duas asas. Adiante do cruzamento do chale cai a finura da sua mão talhada em mármore, branca como a cera, afilada como uma pétala de flor».

Rafael Salinas Calado, no seu livro - «Memórias de um estudante de Direito», no capítulo «Tricanas», indicando que ninguém definiu, com mais admiração, a donzela pobre de Coimbra que o «Quim Martins», escreve:

«Esguia, formas graciosas, estilizada, pé pequenino, de tamanquinha ou sapato de verniz, artelho fino, a saia caindo em pregas airosas, o xaile de merino cingido aos ombros delicados e ao corpo de sonho, o lencinho de seda preto deixando ver o seu rosto de delicado contorno de bandós negros, olhos grandes sonhadores e espirituosos, narizinho às vezes arrebitado, boca de maravilha sobrepujada da «ligeira penugem do pêssego a amadurecer», era, assim, a tricana de Coimbra».

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 611.jpg

Op. cit, og, 611

A forma de vestir que se encontra apontada no capítulo desse livro, revela a progressão do trajo das moças desta cidade.

Ao lenço de ramagem substitui-se o de seda e por último a mantilha.

Rocha Madail, bibliógrafo e publicista muito ilustre, no precioso livro «Alguns aspetos do trajo popular na Beira-Litoral», descreve também a Tricana, e transcreve do etnógrafo Luís Chaves estes belos períodos: «A Tricana é a mulher dos campos e baixas do Mondego inferior;  

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 600.jpg

Op. cit., pg, 600

o seu tipo taful concentra-se em Coimbra, a cidade santa de todo o ribeirinho mondeguenho. Está afeita a todos os trabalhos dos campos, pelos arrozais, nas hortas, onde trabalha corno um homem a par dos homens, ora cavando, ora ceifando, ora tirando com movimentos rítmicos a água dos poços baixos com os engenhos primitivos de pau, que surgem de todos os lados, no meio das terras rasas, um aqui, dois acolá, como pernaltas de bico em riste, à espera do peixe que passe...

«Galantes, rápidas, saia curta, amarrada às coxas pela cinta que as enleia com arregaçá-las; camisota leve, de mangas a descobrir-lhes os braços, torneados pelo trabalho; o lenço na cabeça arrochado em nó sobre a nuca ou sobre o cocuruto, arrecadas pendentes das orelhas, elas tudo correm, em toda a parte as vemos; os pés, espalmados, quase não tocam no chão; cantam e riem; sobre o ombro traçam o chale que cruza o peito e a custo cobre as costas, deixando-lhes livres os braços no ritmo da marcha.

 

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 614.jpg

Op. cit., pg. 614

 Em Coimbra enchem as margens dos rios, metidas na água como ninfas do Mondego.

Sá, O. 1942. A Tricana no Folclore Coimbrão. In: O Instituto, vol. 101, pg. 361-632. Coimbra, Imprensa da Universidade. Acedido em: Acedido em: http://webopac.sib.uc.pt/search~S17*por?/tinstituto/tinstituto/1,291,309,E/l856~b1594067&FF=tinstituto&1,1,,1,0

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por Rodrigues Costa às 18:22

Terça-feira, 11.04.23

Coimbra: A Tricana, outra visão 2

Parece ter andado confundida durante muito tempo a designação de Tricana, isto é, o mesmo título deve ter cabido à mulher do povo de Coimbra e à dos seus arredores.

No «Álbum de costumes portugueses», edição de David Corazzi, vem entre os cinquenta cromos, cópias de aguarelas originais, uma camponesa dos arredores de Coimbra, lindo trabalho do grande artista Manuel de Macedo, acompanhado dum artigo do notável escritor Manuel Pinheiro Chagas.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 574.jpg

Op. cit., pg. 574

 A confusão é manifesta, ou ter-se-á de aceitar que o trajo era por então igual nas mulheres do povo – citadinas e arrabaldinas.

A saia, o avental, o traçado do xaile, o atar do lenço é, por assim dizer, o que veio até nossos dias.

Na descrição de Pinheiro Chagas, às mulheres dos arredores de Coimbra chama-se Tricana, não distinguindo a situação ostentosa daquelas que habitavam na cidade...

Fica averiguado o caso das mulheres da cidade terem usado o trajo descrito pelo autor [Borges de Figueiredo] da «Coimbra Antiga e Moderna», ou seja o capote e lenço, e as outras, de mais elevada categoria, mantilha e mais ademanes que referi.

Ainda é dos nossos tempos o final deste trajo em mulheres do povo.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 566.jpg

Op. cit., pg. 566 

…. Parece, pois, que o trajo das raparigas da cidade, vindo até nossos dias, se afastou daquele modelo para tomar o aspeto do usado pelas mulheres dos nossos arredores. Pelo menos o figurino é tão aproximado que o próprio historiador Manuel Pinheiro Chagas, na interpretação da aguarela de Manuel de Macedo, junta-as num só epíteto — Tricanas.

Ora esse trajo, o vestir das nossas Tricanas, vindo às ruas e às Fogueiras de S. João, nesta roda de mais de meio século, é o que se considera dentro da tradição popular.

…. Está consagrado pelos literatos, poetas e prosadores, é o lindo modelo de muitos trabalhos dos nossos Artistas.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 620.jpg

 Op. cit., pg. 620

Comecemos por Manuel da Silva Gaio, conimbricense insigne, poeta e prosador de admirável sentido, verdadeiro Mestre na nossa literatura, espírito de requintada delicadeza:

 «Ninguém como ela traja

A gôsto do namorado;

Lenço de pontas atraz,

Chalinho de sobraçado,

 

Chinela curta, a fugir,

Embora o pé seja leve

E pequenino de ver

Na meia branca de neve;

 

Corpete todo a estalar,

Saia subida e ligeira,

Aventalinho tamanho

Como Rilha de figueira...»

 

Não é possível melhor descritivo, em verso, do trajo das nossas tricanas.

 Depois vem o consagrado Trindade Coelho, no seu livro sempre novo, «In illo tempore»:

«Sua chinelinha de biqueira, em que só lhe cabe metade do pé; sua meia branca, ou às riscas, muito esticada; saia de chita, das cores mais claras, deixando ver os tornozelos e acima dos tornozelos duas polegadas de perna; aquele aventalinho muito pequenino, que é mais um chic do que outra coisa; o chambre de chita clara, aberto no peito em decote quadrado; e então o xaile de barras, ou a capoteira, passando por debaixo do braço direito e lançado (com elegância que se não descreve, mas que os estudantes copiaram para as suas capas) por cima do ombro esquerdo! »..

A descrição do trajo da Tricana em Trindade Coelho é perfeita, dando-nos em pormenores a forma como se vestiam na época em que foi escolar de leis na nossa Universidade.

 Também me permiti a descrição do trajo da Tricana para uma das minhas crónicas de «O Primeiro de Janeiro», depois reproduzida no meu livro - Nos Domínios de Minerva:

- «Vestiam chambres brancos, talhados em quartos, ornamentados à altura dos peitos com uma rendinha quási gomada, a contorná-los, e muitos deles, nesses quartos que lhes subiam até ao pescoço, formando uma pequena gola de lindo enfeite, tinham umas pregas para maior realce ou fantasia. As mangas fofas, apertadas nos pulsos, terminavam por uns punhos largos e rendados, vindo esses chambres a meter-se, à altura da cinta, debaixo das saias.

Estas eram sempre de pano preto lustroso, rodadas, até à altura do artelho, tendo a maior parte dessas saias uma barra larga de veludo e debruadas em toda a roda com uma fitinha de lã.

Usavam então os saiotes encarnados, de pano próprio para ajudar a fazer o rodado das saias de fora.

As meias, confecionadas por elas, eram brancas, de interessantes rendados.

O avental, descaindo até aos joelhos, era um adorno interessante pelas fantasias delicadas, que quebravas a monotonia das saias negras.

A chinelinha, a brincar-lhes no peito do pé, a desprender-se com o andar cadenciado, saltitante, de gáspeas de verniz, formando bico, tinha arte nos pospontos ou no debruado, em arrebiques e bordados semelhando rendas de bilros.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 579.jpg

Op. cit., pg. 579

Por último, o xaile, de várias cores, liso, ou de ramos e cercadura vistosa, franjado, tomava aspetos, sobre o busto, no contorno das formas, duma graciosa e caprichosa escultura saída das mãos de artista portentoso. Vinha prender-se ao alto no ombro esquerdo, num delicado nó, para deixar livres os braços, como asas soltas para os espaços infindos...».

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 570.jpg

Op. cit., pg. 570

Sá, O. 1942. A Tricana no Folclore Coimbrão. In: O Instituto, vol. 101, pg. 361-632. Coimbra, Imprensa da Universidade. Acedido em: Acedido em: http://webopac.sib.uc.pt/search~S17*por?/tinstituto/tinstituto/1,291,309,E/l856~b1594067&FF=tinstituto&1,1,,1,0

 

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por Rodrigues Costa às 10:09

Quinta-feira, 06.04.23

Coimbra: A Tricana, outra visão 1

Ficou a dever-se a Octaviano de Sá, um historiador de Coimbra, uma visão da tricana na vivência coimbrã bem diferente daquela que nos é dada por A Soares na “Illustração Portugueza” e que temos vindo a publicar.

O artigo A Tricana no Folclore Coimbrão, inicialmente publicado em O Instituto, edição de 1942, deu lugar, ainda no mesmo ano e por iniciativa da Comissão Municipal de Turismo, a uma separata.

Estamos perante um trabalho de investigação histórica, em que o autor faz uma recolha e uma análise profunda do tema, despido de opiniões que as não decorrentes da investigação realizada.

A tricana no folclore coimbrão. Octaviano de Sá

Imagem acedida em http://www.livro-antigo.com/autor/sa-octaviano/

Desse texto aguçamos o interesse dos nossos leitores, através dos seguintes trechos do mesmo.

 «A Tricana», figura característica para o chamado «panorama coimbrão»; as cantigas os versos de inspiração vindos às suas gargantas • de oiro; e o bailar, inquieto, vivo e gracioso, interpretativo das canções próprias dos folguedos sãojoaninos.

Daqui resulta, naturalmente, um aspeto próprio, a caracterizar um povo ou um sector duma região.

Tricana de Coimbra. Imagem não identificada.jpg

Tricana de Coimbra. Imagem não identificada

 A figura singular da Tricana e os seus cantares são, pois, tema agradável e impressionante, para o qual procuro certa largueza sem a pretensão de esgotar um assunto de si dilatadamente vasto, mas simples contributo, por sinal de mera curiosidade, uma expressão bem admirável, bem distinta, desse ambiente popular.

Procuro fixar como seu determinante aqueles pontos que constituem alguns fundamentos do «folclore». Na definição de Saintyves, no seu magnífico livro «Manual de Folclore», este «é a ciência da tradição popular».

Será, pois, baseado nessa tradição e nos muitos depoimentos daqueles que se lhe referiram, que vão ser tratados os seguintes aspetos do folclore coimbrão ligados com a etnografia e a canção popular:

- O trajo das Tricanas.

- As Fogueiras de S. João.

Como subsídios para tais factos, indicarei algumas produções literárias, prosa e verso, de inspiração dessas moças, e trabalhos artísticos onde se admira o vestuário das Tricanas, o modelo maravilhoso que tem sido para pintores e escultores.

As Fogueiras de S. João são também o melhor e mais completo e sempre admirado aspeto da tradição popular desta terra.

Assim orientado este programa, começarei por apreciar a indumentária da nossa Tricana.

Borges de Figueiredo, no livro - «Coimbra antiga e moderna» - dá-nos uma impressão do trajo feminino nesta cidade pelas alturas de 1858 para 1859.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit.,, pg. 563.jpg

 Usavam então mantilha as mulheres da classe média, com este feitio, no seu dizer: — «Cumpunha-se duma tira de papelão grosso arqueada e convenientemente coberta de fazenda preta, colocada sôbre a cabeça e segura sob o queixo por fitas, caía o pano preto exterior pelas costas e peito a modo de manteo».

Por essa época havia, no entanto, outro trajo mais do povo, porque este era das damas do high-life — quem não trajava mantilha, tinha de pôr o capote de cabeção e o lenço de cambraia muito branco e muito gomado. O bico formado atrás da cabeça pelo lenço era a perfeita antítese do bico da mantilha.

O professor e arqueólogo ilustre sr. dr. Vergílio Correia, em quatro artigos -  «Sôbre o trajo regional» - no «Diário de Coimbra», trata o caso com admirável ciência e conhecimento.

…. Comenta tão erudito Mestre - «Que diferença entre a mulher, do campo e da cidade, de mantilha e tricana, e a tricana do século XIX!».

E na sua opinião - «Indubitavelmente mais graciosa, esta última, o exemplo pode servir para mostrar que a evolução do trajo popular se tem feito, em geral, no sentido da perfeição e da simplificação».

 

Sá, O. 1942. A Tricana no Folclore Coimbrão. In: O Instituto, vol. 101, pg. 361-632. Coimbra, Imprensa da Universidade. Acedido em: http://webopac.sib.uc.pt/search~S17*por?/tinstituto/tinstituto/1,291,309,E/l856~b1594067&FF=tinstituto&1,1,,1,0

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por Rodrigues Costa às 10:55

Quarta-feira, 05.04.23

Coimbra: Tricanas, uma visão 4

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Illustração Portugueza”, 5, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 149

Mas como essa - se não me falhasse o espaço - quantas historietas haveria ainda para vos contar: - da Raquelinha dos olhos em amêndoa, da Laura literata e tuberculosa, da reboluda Olívia, a bolinha de amor, da Julinha Feijó com o seu rosto arrancado a algum quadro religioso dos Primitivos, da outra Júlia que se passeava em Coimbra, trazendo numa das mãos uma guitarra, e na outra a Casa de Ramires, da Terezinha de Santa Clara, a casta, da aloirada Palmira, da Micas, da Elisa, da Silvina, de tantas mais que vejo passar em farandola, derramando em torno, como chuva de ouro, o Amor, a Vida, o Prazer, o Riso!. ..

- E depois? - inquirireis. -  Que é feito delas?

Oh! pungente coisa!... À hora em que se dissipa o sonho, em que esmaece a beleza e as carnes começam a ser flácidas, chagou a expiação. Invaginai uma rainha do ontem - rainha pela graça, pelo encanto, pelo prestígio da carne - que ao ver partir-se contra o último degrau do seu trono efémero a taça da derradeira libação votiva, é subitamente condenada a ir servir, nas noites tumultuosas das repúblicas, o triunfo das mais jovens, a quem uma nova legião de cavaleiros acaba de erguer agora nos escudos! Pensais o que isto deva ser para uma mulher, muitas vezes patrícia pelo sangue?

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Op. cit., p. 149, pormenor 1

Servente, a tricana mudou-se em animal prestável. Arruma quartos, faz recados, distribui sebentas, empresta sapatos para o ato e informa solicitamente das notas escolares dos patrões o das dificuldades prováveis da lição seguinte - isto por inconfidência dos lentes, que, conservadores e saudosos, continuam ainda a visitá-la.

Perde então os seus cognomes carinhosos. Aquela que além vedes desgrenhada, encobrindo o torso espapaçado num casibeque de chita sem enfeites, é a Clara Perna-camba, e foi outrora a mais linda tricana do seu tempo; aquela outra de tez cansada e olhar mortiço, é a Conceição Carqueja, por quem três estudantes se mataram; e - como quer que as mulheres acabem breve - a ideal amante do Hilário, poeta e cantador de fados, é hoje uma velha desleixada e beberrica, que se chama - a Cavacá...

Surge a filharada - alcateias de crianças que foram nascendo no decorrer dos anos, que ninguém jamais conseguira ver, o aos quais só a mãe pode determinar agora a exata filiação paterna.

-  Ó Conceição Pulquéria! - interroga-se - quem é este?

E ela, buscando rápido com o olhar o pimpolho apontado:

- Este é o Eduardito, filho do sr. dr. X..., conservador em Beja.

- E esta, ó Conceição, qual é?

Logo ela, dando conta do recado:

- Esta é a Madalena, filha do sr. dr. V..., tabelião em Braga.

- E mais esta, ó Conceição?

- Esta é Vitorina, filha do sr. dr. T..., juiz da Relação.

Filhos do acaso, que para o acaso se criam, esses corpitos frágeis de cândidas adolescentes já vão sonhando as noitadas de luar, o Penedo da Saudade, as estúrdias ruidosas no Choupal, e as manhãs sobre a relva, aconchegadas numa capa, a qual seria a daquele estudante de olhos como carvões, que passa todos os dias com a pasta, que lhes dá palmadas na face e fala muito, com sua mãe, nos bailes maravilhosos do palácio real...

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Op. cit., p. 149, pormenor 2

- O Jacob dos Arcos do Jardim criou e educou não sei quantas filhas esbeltas - sem proveito, porque todos os anos, fatalmente, a mais velha da casa, fosse qual fosse, tinha de fugir-lhe numa manhã de primavera, para aparecer, corridos dias, de «ménage» estabelecido com algum quintanista de Direito, dos mais irresistíveis.

Interrogado sobre as suas impressões, o Jacob encolhia resignadamente os ombros, murmurando:

- Que fazer, meu senhor, isto é fadário!...

E continuava pacificamente a criar as outras, até lhe desaparecer na primavera seguinte a que era para então indigitada - enquanto lhe duraram, está visto.

Coimbra é como esse pai bonacheirão, cercando de ternura, de desvelos, de carinho, as suas virgens, que todos os anos serão sacrificadas, uma por uma, iniludivelmente, ás exigências e mandados implacáveis do Minotauro-Amor...

Soares, A. As Tricanas de Coimbra. In: Illustração Portugueza, n.º 5. Primeiro semestre. 2.ª série. Lisboa, 1906, p. 146-149.

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por Rodrigues Costa às 10:41

Quinta-feira, 30.03.23

Coimbra: Tricanas, uma visão 3

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Illustração Portugueza”, 5, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 148

Nunca foi narrada por escrito, que eu saiba, a verdadeira história da Rosa, mais da sua tragédia; o os leitores desta «Illustração» vêm a ser os primeiros, segundo creio, que possam medir-lhe cabalmente o pitoresco.

Há dez ou onze anos estudavam em Coimbra Afonso Lopes Vieira e D. Thomaz de Noronha, um curioso topo de estudante à antiga, boémio, desfrutador, estoira-vergas, gozando em gourmet as aventuras e os grandes lances dramáticos.

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Op. cit., p. 148, pormenor 1

 Lopes Vieira, prestigioso entre as mulheres pelos seus versos e pelo estranho do seu tipo de loiro sonhador, era um pouco talvez por snobismo - porque toda a tricana é snob - um pouco, sem dúvida, por sentimento, amado e perseguido pela Rosa Espanhola, cachopa célebre, que por seu turno punha a cabeça á roda a muitos bacharelandos do tempo, desprovidos, por seu mal, do buço fino e da bagagem literária daquele outro.

As coisas seguiam os seus tramites e encaminhavam-se, provavelmente, para o desfecho habitual de incidentes tais, quando feriu lume o génio teatral de D. Thomaz.

 

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Op. cit., p. 148, pormenor 2

 Um poeta, uma tricana airosa, uma paixão - que três incomparáveis elementos para o preparo duma destas cenas de melodrama, que dão brado e deixam um autor para sempre em paz com a sua consciência !...

Isto foi pensado de noite. Na manhã seguinte, D. Thomaz faltou ás aulas, chamou a tricana à fala, e com o ar compungido e austero de quem vai dizer solenes coisas, deu parte à triste do uma grande calamidade: Lopes Vieira, prometido em casamento a uma duquesa de Lisboa, não podia de modo algum baixar os olhos até ao tugúrio humildo da mal-aventurada; mas, enternecido pela pureza dos sentimentos que animavam Rosa (e dos quais Afonso - insinuava D. Thomaz - não andaria longe, porventura) pedia-lhe resignação, convidando-a a acolher-se, ao menos temporariamente, ao severo claustro dum convento bracarense, que nomeava.

A Rosa Espanhola, quando tal ouviu, dizem que pôs a mão na anca, arrebitou o nariz, e perguntou a D. Thomaz se estava doido, ou se julgava que ela fosse parva. Porém o mistificador acudiu com cópia de argumentos, aventou a possibilidade de vir tudo a acabar em bem, volvidos meses, discorreu sobre os regalos e confortos da vida monástica, acenou com o engodo de uma abundante mesada, para as doçarias o licores: e com tais artes se houve, em suma, que a pobre moça, bastante lida em Camilo, foi atentando na proposta, no começo com desprazer, depois condescendente, e por fim com o alvoroço de uma noviça que houvesse sido catequisada, não pelo malicioso D. Thomaz, mas pelo mais virtuoso e inspirado de todos os padres da Igreja.

 

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Op. cit., p. 148, pormenor 3

 A   notícia da próxima profissão da Rosa estalou em Coimbra como um petardo. Lopes Vieira, ficou, no primeiro instante, fulminado; e mais ainda quando se empalharam pela cidade as quadras vesgas assinadas pela nova e rude Soror Mariana, mas entregues na tipografia por D. Thomaz, clandestinamente, em original escrito por seu punho...

Nada mais cómico, por esses dias, que ver a Rosa Espanhola, a Rosa das fogueiras e das ceias, atravessar desalentadamente as ruas do Coimbra, pendida a fronte, o rosto macerado, com a mala arranjada em casa para a partida - fazendo às companheiras e ao mundo pecaminoso os seus derradeiros adeuses. Alguns estudantes encontravam-na, exclamavam espantados:

- Ó Rosa, pois tu vais enterrar-te num convento?!

A Rosa logo, com um fulgor momentâneo no olhar:

- Que importa? Ao menos fico na legenda!

E este na legenda cheirava a D. Thomaz, que tresandava...

Breve lhes conto o remate da história. Não é banal: a Rosa Espanhola, cansada em curto espaço da monotonia da cela, rasgou o hábito, disse adeus á madre superiora, e reapareceu em Coimbra ao tempo em que D. Thomaz obtinha ao fim o seu solicitado emprego público.

Em virtude do que, o interessante funcionário resolveu levá-la consigo para a Índia, onde a esta hora, provavelmente, a ama entre palmares... 

Soares, A. As Tricanas de Coimbra. In: Illustração Portugueza, n.º 5, Primeiro semestre, 2.ª série. Lisboa, 1906, p. 146-149.

 

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por Rodrigues Costa às 11:03

Terça-feira, 28.03.23

Coimbra: Tricanas, uma visão 2

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llustração Portugueza”, 5, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 147

 A tricana de Coimbra é uma desterrada dos ócios aristocráticos de salão para a subalternidade vexatória e injusta da vida plebeia. Em cada qual somos forçados a ver uma princesa encantada por artifícios de fada má e constrangida a correr a sua sina enquanto um conde não vem de terras longes pronunciar a palavra misteriosa que lhe quebre o encantamento…

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Op. cit., p. 147, pormenor 1

 E não é rara, em verdade, a aparição desse conde na pessoa de um bacharel enamorado que as arranca das penas e trabalhos do ferro de engomar para o tranquilo remanso da sua casa de lavoura na província, onde elas ao depois vêm a tornar-se senhoras, e gordas.

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Op. cit., p. 147, pormenor 2

 Filha, quase sempre, de estudante e engomadeira, descendente, muitas vezes, das mais nobres casas deste reino - algumas delas sendo mesmo conhecidas e tratadas, com geral consenso, pelos seus apelidos fidalgos - a tricana tem mui pouco do povo em que arbitrariamente se encontra classificada, e herdou da degenerescência das classes altas, além da agudeza do espirito, a mórbida palidez das carnes, certa perversão das tendências e desejos, o apetite dos prazeres pouco banais, o romanticismo postiço das paixões e a queda para os ócios deleitosos, que afinam a sensualidade e dão ensejo às aladas fugas da fantasia... Tudo isto, sem fazer da tricana, positivamente, o que se chama uma boa dona de casa, a torna apta, por excelência, para o desempenho da sua missão social, que é a de tornar ligeira o alegre, quão possível, a preparação científica de quase toda a mocidade portuguesa.

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Op. cit., p. 147, pormenor 3

 Esta austeridade aristocrática a todo o instante se comprova, mesmo nos costumes instintivos da tricana.

Quem não sabe dos chás galantes da Assunçãozinha dos bandós, célebre pelo seu pálido perfil de santa bizantina, e só rival na graça, ao tempo, da flexuosa Isabel - a tricana que eu conheci antes de todas em Coimbra, e com quem joguei idiotamente a bisca nos meus primeiros dias de caloiro?...

A Assunção reunia então em sua casa tudo o que a Academia contava de melhor, nas letras, na boémia e na estirpe. Certamente, era indispensável que os convivas - o D. Thomaz de Noronha, hoje na Índia, o poeta Lopes Vieira, o estúrdio Pad-Zé, agora transmutado em   dr. Alberto Costa, Emérico d'Alpoim, D. Sebastião da Grama e outros mais - tivessem o cuidado de levar no bolso, para o festim, uma garrafa de Madeira, um pacote de chá e alguns bolos. Tornava-se mesmo necessário que um deles se prestasse a acender o fogareiro, pôr a água ao lume e agitar o abano, até que se aprontasse a infusão; mas, feito isto, a Assunção dos bandós presidia á festa com a gentileza o «donaire» que uma grande dama não excede, no «five o-clock»  mais distinto o precioso…

 

Imagem 2, pormenor 4.jpgOp. cit., p. 147, pormenor 4

 Esta parte anedótica da vida coimbrã afigura-se-me extremamente curiosa, e sobretudo muito elucidativa no que respeita á psicologia desse estranho entesinho que é a tricana, vivendo na sombra da Universidade, em êxtase, como a sonhadora do Zola no sopé da Catedral, ou amando o estudante com o amor meio carnal e meio místico, que a beata oferece aos santos o aos padres. Que pode haver mais interessante, sob este aspeto, do que a lenda da Rosa Espanhola, que por amor se foi a um convento, o que há poucos anos chamou lágrimas aos olhos de todas as donzelas da província, com a patética elegia, cantada em verso coxo, dos seus amores inditosos?

 Soares, A. As Tricanas de Coimbra. In: Illustração Portugueza, n.º 5. Primeiro semestre. 2.ª série. Lisboa, 1906, p. 146-149.

 

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por Rodrigues Costa às 21:06

Quinta-feira, 23.03.23

Coimbra: Tricanas, uma visão 1

Começamos hoje a divulgar um artigo publicado em 1906, na Illustração Portugueza, onde o autor traça um retrato amargo das tricanas de Coimbra, quiçá excessivo, mas representativo da época em que foi escrito. Como se verá, na última entrada vislumbra-se no texto a face negra desse retrato.

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Illustração Portugueza”, 5, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 146, pormenor

E considero-o excessivo e a apontar para uma face negra, porque, do que conheço sobre o assunto e face ao que com ele estive relacionado, a tricana de Coimbra não passava só pelo retratado, mas existiam outras realidades, bem diferentes das descritas.

Como acentuou Nelson Correia Borges, o que caracterizava a tricana era a forma de trajar: «O cachené emoldura-lhe o penteado feito com desvelo e o rosto, que avulta entre duas alentadas argolas.

Cinge-lhe o busto o aristocrático chambre das avós, tufado nas mangas de bofe.

O aventalinho, com aplicação arrendada, é traço quase exclusivo da mulher de Coimbra. Por sobre tudo traça o xaile naquele jeito como só ela sabe e ninguém consegue copiar. A paisagem urbana situa-a. É a tricana. É Coimbra.

Decorre de aí concluirmos que o artigo peca por generalizar o que não é generalizável. Poderá descrever, parcialmente, a realidade da época, mas é injusto e desajustado no que respeita à maioria das mulheres de Coimbra, dado que elas pisavam outros caminhos.

O artigo, profusamente ilustrado, do qual só reproduzimos parte é o seguinte.

Imagem 1.jpg

Op. cit., p. 146

 

«Ninguém como ella traja

A gosto do namorado:

Lenço de pontas atraz,

Chalinho de sobraçado,

Chinella curta, a fugir,

Embora o pé seja leve

E pequenino de ver

Na meia branca de neve;

Corpete todo a estalar,

Saia subida e ligeira,

Aventalinho tamanho

Como folha de figueira.»

 

Manuel da Silva Gaio.

 

O que maiormente enleva e surpreende, a quem aborda pela vez primeira a terra sagrada pelos amores de Inês, não é tanto a pompa dos seus lentes, o sabor das suas arrufadas ou a hirta majestade dos oito séculos de monarquia enfileirados na Sala dos Capelos, mas a subtil harmonia, a maravilhosa proporção e congruência que a Natureza estabeleceu ali, em tudo o que é criado.

Num clima benfazejo e quase sempre igual, nada de grandes traços, de fortes vegetações, ou dos coloridos berrantes na paisagem. Esta é alguma coisa como um quadro do japonês, místico sacerdote da arte, comprazendo-se em tirar os seus efeitos sempre de linhas breves, ondulantes, fugidias, de levezas de cor, de atitudes martirizadas nos caules finos e dolentes do arvoredo.

A cada passo uma colina, um montículo, um outeiro; mas até quando os horizontes se alargam, a planície a perder de vista não ganha nunca a bruteza da charneca, ou sequer a uniformidade fatigante do pastio da campina estremenha — antes fica toda feita em detalhes, e tão terna nas suas meias-tintas, que jamais a fitou um olhar nostálgico, sem pressentir nessas jardas de terreno como que a expressão dum instante de tristeza — que deveria ser branda e suavíssima — do Criador dos mundos...

O artista, por seu turno, possuído do espírito regional, buscou talhar na pedra afeiçoável das velhas construções do burgo, coisas ingénuas e sinceras, que não pudessem ofender a carinhosa melancolia das terras: e, havendo-o conseguido, só faltara que a mulher, fecho e síntese de toda a obra de beleza, não destoasse dos elementos do quadro, antes viesse traduzir, em quintessência, a alma de quanto a rodeava.

 

Imagem 1, pormenor 3.jpg

Op. cit., pg. 146, pormenor

 Ponham no campo coimbrão uma alentejana bem fornida, ou a beiroa máscula e alvar, e aí teremos anulada toda a obra, como se, numa tela delicada de Ho-Ko-Sai, alguém fosse pintar em suplemento uma «touriste» alemã, pesada, inestética, de «canotier» e mala de viagem.

Por felicidade, ainda neste ponto foi coerente e sábia a Natureza.

 

Soares, A. As Tricanas de Coimbra. In: Illustração Portugueza, n.º 5. Primeiro semestre. 2.ª série. Lisboa, 1906, p. 146-149.

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por Rodrigues Costa às 20:22


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