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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 03.05.18

Coimbra: Queima das Fitas de 1931

Começa hoje à meia-noite mais uma Queima da Fitas, esta envolta em alguma polémica. Para melhor compreender esta tradição académica apresentam-se algumas notas sobre a sua génese, assentes na recordação da Queima de 1931.

 

A Tradição Académica encontra-se associada a diversas celebrações que pontuam o calendário estudantil. Em Coimbra, as primeiras manifestações deste tipo remontam aos festejos do centenário da sebenta, aos que marcavam o início e o fim das aulas, aos do enterro do grau, etc.

Contudo, ao longo dos tempos foram ganhando raízes toda uma série de iniciativas relacionadas com o desenrolar do calendário académico e que, obviamente passaram a integrar a Tradição. Refira-se sem qualquer preocupação exaustiva, a queima das “Fitas” dos Quartanistas surgida por volta de 1896; a prática da Pastada na década de 1920; a introdução da Garraiada em 1929/30; a missa de Bênção das Pastas, em 1930; a invenção das Cartolas e Bengalas por 1931; a introdução da Venda da Pasta pelos finalistas de Medicina da UC, em 1932; o Baile de Gala das Faculdades, em 1933; a Imposição de Insígnias dos Quartanistas Grelados em 1946; a inclusão da Monumental Serenata no programa da Queima das Fitas, em 1949; as latadas de abertura do ano escolar inventadas nos inícios da década de 1950; a adoção do ritual da compra/roubo do grelo às vendedeiras do Mercado Municipal, costume adotado a partir da Revolta do Grelo acontecida em 1903.

Mas, no século passado, a festa de maior impacto realizada em Coimbra e que assinalava, grosso modo, o final do ano letivo era a “Queima das Fitas”.

Em 1931 integrava o cortejo um carro de bois que transportava alguns caloiros, dois deles identificados pela pessoa que nos facultou a fotografia.

Queima das Fitas. 1931 ou 32.tif

 Data desse mesmo ano de 1931 o cartaz da Queima das Fitas que, deteriorado pelo passar dos anos, não permite uma leitura integral.

No entanto, face ao interesse do documento, apresentamos a transcrição possível e pedimos que nos auxiliem na sua leitura integral. Permitimo-nos chamar a atenção não só para estilo da escrita, como para o aliciante programa nele anunciado.

Queima das Fitas 1931.jpg

 Coimbra da tradição e da lenda

QUEIMA DAS FITAS

As mais bizarras festas académicas que se realizam na Europa

De 24 a 27 de maio de 1931

 

Domingo, 24

Imponente garraiada, no Colizeu de Coimbra, em homenagem aos Quartanistas de todas as Faculdades «Diestros» dos mais afamados de Coimbra.

À NOITE Maravilhoso festival no Parque da Cidade

 

Segunda Feira, 25

À TARDE Grandioso desafio de foot-ball no campo de Santa Cruz entre… de Lisboa

À NOITE Na Associação Académica conferência sobre … académicos do passado

 

Terça Feira, 26

À TARDE Entram os caloiros em Coimbra. Grande … caloiral no Largo da Feira e entrega das insígnias e mais atributos

À NOITE Imponente Sarau no Teatro Avenida promovido pelo nosso Orfeon

 

Quarta Feira, 27

A Queima das Fitas

Grandioso cortejo burlesco que sairá da Universidade pelas 14 horas. Queima dos Grêlos no Largo da Feira, desfile do imponente cortejo pelas ruas da Cidade.

Carros….

À NOITE … no Parque da Cidade. Maravilhoso fogo de artificio dos … de Viana do Castelo

….

 

Uma breve nota informativa para dizer que o Colizeu de Coimbra referido no cartaz era a praça de touros, inaugurada em 26 de julho de 1925, e destruída por um grande incêndio no dia 4 de abril de 1935. Estava erguida no atual Parque Verde do Mondego, justamente no local da Praça da Canção.

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por Rodrigues Costa às 09:06

Terça-feira, 01.05.18

Coimbra: Teatro Avenida, uma saudade 2

... Ao longo dos anos passaram pelo Avenida e lá atuaram muitas e famosas companhias, mas o velho teatro também teve papel de relevo na vida académica. No entanto, logo em 1894, se verificou uma tentativa de mudança de donos, que não sabemos se realmente veio a concretizar-se e em 1902 o Sr. António Jacob Júnior passou a ser o novo proprietário do imóvel, embora se falasse no surgimento de uma empresa que passaria a explorá-lo». Anacleto, R. O fim do Teatro Avenida?, In Domingo, Coimbra.

Teatro-Avenida 1962.jpg

Teatro Avenida em 1962

Sarau da TAUC.jpg

 Sarau da Tuna Académica em 1959, cartaz

Filme cartaz 1964.jpg

 Filme 1964, cartaz

Espetáculo cartaz.jpg

 Espetáculo 1964, cartaz

Bilhete.jpg

 Bilhete, fevereiro de 1964

Nos finais dos anos 70 do século XX, o “Teatro Avenida” é demolido e no início dos anos 80 foi construído um edifício que albergou o Centro Comercial “Galerias Avenida”.

Galerias Avenida.jpg

 Galerias Avenida

 O espaço que tinha sido preservado do antigo “Teatro Avenida”, inserido no edifício do Centro Comercial, abriria em 12 de Novembro de 2010 com cara e nome novos, o “Theatrix”, um espaço noturno e sala de espetáculos, vocacionada sobretudo para a música, com concertos e sessões de DJ, stand-up comedy, novo circo, dança e também cinema. Viria a encerrar, creio que em 2014.

Theatrix.jpg

 “Theatrix” (foto do espetáculo Opsis, realizado pela Tuna Académica)

 

Nota – Para completar e corrigir estas informações, consultar a entrada publicada neste blogue em 2016.12.26, com o título Coimbra: o desaparecido Teatro Avenida.   

Restos de Colecção (blogue). Teatro Avenida em Coimbra. Acedido em 2018.04.12, em

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2017/11/teatro-avenida-em-coimbra.html

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por Rodrigues Costa às 09:25

Quinta-feira, 26.04.18

Coimbra: Teatro Avenida, uma saudade 1

O “Teatro-Circo do Principe Real D. Luiz Filipe”, [num primeiro momento apenas Theatro-Circo] após 5 de outubro de 1910 renomeado de Teatro Avenida, na Avenida Sá da Bandeira em Coimbra, propriedade de António Jacob Júnior, Moraes Silvano e Mendes d'Abreu [e outros], foi projetado pelo arquiteto Hans Dickel, e inaugurado em 20 de janeiro de 1892.

Teatro Avenida (Principe Real) a.jpg

 Teatro-Circo a seguir à sua inauguração

Enquadramento do Teatro.jpg

 Enquadramento do Teatro na Avenida Sá da Bandeira

 A sua construção, em terrenos cedidos pela Câmara Municipal de Coimbra, teve início em 1891 e nela trabalharam cerca de 100 operários. Dos estuques encarregou-se Francisco António Meira. As grades dos camarotes, as colunas que os sustentam e as cadeiras para a prateia foram fundidas na oficina de Manuel José da Costa Soares.

Este Teatro, oferecia: 28 camarotes de uma só ordem, 8 frisas, 28 lugares de balcão, 450 cadeiras e 450 lugares de geral.

A inauguração do, então, “Teatro Circo do Principe Real D. Luiz Filipe”, contou com a atuação de uma «companhia equestre, gymnástica, acrobática, cómica e mimíca, do Real Coilyseo, de Lisboa, de que é director o sr. D. Henrique Diaz»

A sala de espetáculos, com um «pano de boca» pintado por mestre António Augusto Gonçalves, tinha capacidade para 1.700 espectadores e o seu custo ultrapassou os 20 000$000 réis. Podiam lá realizar-se espetáculos equestres, de declamação e canto. Embora os espaços de receção e hall de entrada fossem construídos em alvenaria de pedra, o espaço central e cúpula tinham estrutura metálica, vinda de um Teatro mais antigo, o «Teatro-Circo Do Arnado». [Esta informação não nos foi confirmada por uma historiadora deste período]

Projeccionista_thumb5B15D.jpg

 Projecionista do “Teatro Circo do Principe Real D. Luiz Filipe”, em 1902

 «Para qualquer companhia é o theatro alugado por 80$000 réis. O actual emprezario, que procura sempre variar os espectaculos com peças escolhidas das melhores companhias e que é fiel cumpridor dos seus deveres, é o sr. Manoel Francisco Esteves. Tem o theatro orchestra e banda, sob a direcção do habil e intelligente professor Dias Costa. É esta casa de espectaculos muito elegante e tem commodidades. Na epocha propria é muito frequentado pelos academicos.» in: “Diccionario do Theatro Portuguez” - Sousa Bastos - 1908.

Sarau Acdémico.jpg

 Sarau académico

 

Nota – Para completar e corrigir estas informações, consultar a entrada publicada neste blogue em 2016.12.26, com o título Coimbra: o desaparecido Teatro Avenida.   

Restos de Colecção (blogue). Teatro Avenida em Coimbra. Acedido em 2018.04.12, em

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2017/11/teatro-avenida-em-coimbra.html

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por Rodrigues Costa às 22:13

Quinta-feira, 08.06.17

Coimbra: Avenida Sá da Bandeira na leitura de um coimbrinha

Mão amiga enviou-me o texto de um artigo de autor só identificado pelas iniciais C e F, publicado no início do século XX que reflete, de uma forma expressiva, uma das facetas menos positivas de uma figura típica da nossa Cidade: o “coimbrinha” que crítica, crítica e... não passa da crítica!

Sendo um texto que reflete uma época, penso que pela sua graça importa rever e analisar.

 

A minha architectura. Raul Lino

No sud express de anteontem, chegou a esta cidade o architecto Raul Lino, artista de mérito e rapaz muito sympáthico, que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente, e que, com mais um amigo meu, acompanhei num pequeno passeio pelo bairro de Santa Cruz, onde brevemente se levantaram algumas construcçõces delineadas por aquelle novo architecto.

Encaixados num caleche, sob um sol abrazador, aí pela 1 hora, passámos pela Avenida, e mostrámos-lhe, primeiro que as nossos bellezas architectónicas, aquella galeria de monstrosinhos, que os honestos, mas pouco artistas, mestres de obras, cá da terra, e mais alguns, têem ido poisando por êsse bairro de Santa Cruz fóra.

Manutenção. Anais. 1920-1939.TIF

Edifício da Manutenção Militar

 Apresentámos lhe aquelle mostrengo da padaria militar, sellado na frontaria, como todas as coisas, e fizemo lo admirar aquelle caprichosinho ingénuo e ridiculo, de uma casolita de boneca, feita de tijolo, e encarrapitada na chaminé da mesma padaria.

Teatro Avenida (Principe Real) a.jpg

Teatro Príncipe Real, depois Avenida

 Mostrámos lhe depois a pequena cartonagem da casa de bombeiros e a boceta - Theatro, barriguda e atarracada, como o Santos Lucas, e, por fim, aos pouco, fomos-lhe apontando aquellas frontarias chatas, em rectangulo, com janellas em rectangulo, e portas em rectangulo, monótonas variações sobre o mesmo thema, - o rectangulo, ou então construcções estylo cartão de visita, como espirituosamente lhes chama um amigo nosso.

Olhar de alguma consideração mereceu-nos apenas uma casa, que fica quasi ao meio da rua, e que é a melhor casinha do sitio.

Ao chegar ao largo, fallámos-lhe desta nossa geral e exaggerada preoccupação das frontarias, e do absoluto desprezo das fachadas lateraes, justificado, provavelmente, por uma razão análoga á que podem apresentar os sujeitos que não cuidam da roupa branca, porque ella se não vê.

Para confirmar as nossas maldizencias, apresentamos-lhe uma das fachadas dum grande edifício, pintado de côr de rosa, na frente, e de branco, nos lados, onde, aos zig-zags, corria a bicha amarella da do canno das latrinas, e onde, apenas se abriam umas estreitas frestas.

... Sou má lingua, e não percebo nada disto. Sou o que quizerem; mas deixem-me fallar.

Eu sempre embirrei com esta mania de pôr chalets numa rua urbana, com est’outra de trazermos para o seio do nosso clima ameno, edifícios carrancudos dos paises frios, com telhados de lousa, empinados por causa das neves ... Eu quero que a casa diga com o clima e com o morador.

Ver um castello no meio dum jardim, e avistar-lhe, nos minaretes, os calções e as fraldas dos meninos a enxugar, embirro.

Ver um brutamontes, mettido num destes edificiosinhos, caixas de bonbons, que a França nos tem mandado, estragando com as botifarras, o encerado do parquet, - ou arrotando, em mangas de camisa, os gazes do jantar na sua varanda janota, embirro.

Ver estas casas burguesas, pretenciosas, com ornamentações de mausoleu, embirro e embirrarei.

Quero luz, quero limpeza, quero hygiene. Concordo em que as janelas sejam bem rasgadas, os quartos amplos, as estrebarias em pavilhões affastados, as latrinas isoladas e as casinhas á parte. Mas não quero que se façam casas como quem faz caixotes.

... Diz se que a casa, que se suppõe ser nossa, existe lá fora, nas habitações da mesma epocha. Concordo; mas imprimimos-lhes ou não lhes imprimimos um cunho nosso? Adaptamo-las ou não?

... E agora, meus amigos. Terei dicto muita asneira, nesta minha carta; o Quim se cá estivesse talvez me tivesse puxado as orelhas, por castigo, mas, ao menos, fico com a consolação de que disse o que sentia.

F., C. A minha architectura. Raul Lino, “Resistencia”, Coimbra, 1902.09.28.

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por Rodrigues Costa às 10:52

Segunda-feira, 26.12.16

Coimbra: o desaparecido Teatro Avenida

Extintas em 1834 as ordens religiosas, os seus bens foram alienados pelo Estado e posteriormente vendidos a particulares. Esta também, na cidade mondeguina, a sorte da Quinta de Santa Cruz, propriedade dos crúzios, que mais tarde, a 18.01.1885, a Câmara Municipal adquiriu pela soma de 22 000$000 réis.

... No dia 27.11.1890 a Câmara Municipal de Coimbra levou à praça uma série de 21 lotes, situados na Avenida Sá da Bandeira, mas, a pedido de vários cidadãos que queriam construir naquele local um Teatro Circo, retirou os terrenos números 4, 5 e 6 ... um grupo de 20 proprietários com quem o Presidente da Vereação teve de se entender, a fim de chegar a acordo. Terminou por ser cedida uma área de 1602 m2 ao preço de 300 réis por unidade ... Mas não o fez sem imposições. A cedência dos terrenos obedeceu à feitura de uma escritura pública, datada de 14.02.1891, em que ficaram estipuladas, entre outras, as seguintes cláusulas:

“Condição 4.ª O terreno não pode ser aplicado a outro fim, voltando nesta hipótese para a posse do município."

... A construção do Teatro, que em 1892 ... passou a ostentar o nome de Teatro Circo Príncipe Real, iniciou-se logo de seguida, nos primeiros meses de 1891.

Em 1910, depois da implantação da República, passou denominar-se Teatro Avenida.

... o arquiteto austríaco Hans Dickel (foi) o responsável pelo projeto. Em Dezembro de 1891 trabalhavam na feitura do imóvel aproximadamente 100 operários. Dos estuques encarregara-se Francisco António Meira. As grades dos camarotes, as colunas que os sustentam e as cadeiras para a prateia foram fundidas na oficina de Manuel José da Costa Soares.

A capacidade da sala era de 1.700 lugares e o seu custo ultrapassou os 20 000$000 réis. Podiam lá realizar-se espetáculos equestres, de declamação e canto.

Parece que o «pano de boca» seria pintado por mestre António Augusto Gonçalves.

Depois de inaugurado o teatro, a 20.01.1892 com a atuação de uma «companhia equestre, gymnástica, acrobática, cómica e mimíca, do Real Coilyseo , de Lisboa, de que é director o sr. D. Henrique Diaz»

... Ao longo dos anos passaram pelo Avenida e lá atuaram muitas e famosas companhias, mas o velho teatro também teve papel de relevo na vida académica. No entanto, logo em 1894, se verificou uma tentativa de mudança de donos, que não sabemos se realmente veio a concretizar-se e em 1902 o Sr. António Jacob Júnior passou a ser o novo proprietário do imóvel, embora se falasse no surgimento de uma empresa que passaria a explorá-lo.

E o Teatro Avenida, melhor ou pior, mas com uma grande tradição na vida da cidade, ao longo de quase uma centúria, lá tem vindo a servir o fim para que foi construído.

Anacleto, R. O fim do Teatro Avenida?, In Domingo, n.º 458, Coimbra de 1983.07.24

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por Rodrigues Costa às 10:20


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