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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 08.02.18

Coimbra: S. Frutuoso, ou «Uma tempestade num copo de água»

Deu-se neste edifício (o do Colégio dos Grilos)... um facto extraordinário e estrondoso, que muito deu que falar, e que eu descrevi há anos num periódico de Coimbra. É interessante. Aqui reproduzo quase integralmente esse meu artigo, com o título que o encimava. Ei-lo:

«Uma tempestade num copo de água»

Entre os numerosos Colégios universitários, suprimidos em 1834, contava-se o dos eremitas descalços de S.to Agostinho, vulgarmente chamados «Grilos», erguido na rua deste nome. Expulsos os proprietários ... foi depois alugado a uma república de estudantes ... Foi em 1844 que o Dr. Forjaz realizou a compra da casa dos Grilos, onde imediatamente se instalou com a sua família, adaptando o vasto edifício a vivenda particular, na qual recebia fidalgamente. Eram afamados, em especial, os bailes que todos os anos dava na noite de Natal.

Querendo aproveitar devidamente a referida sala, que havia sido capela, e que se achava desfeada por um tabique, erguido pelos frades a vedar a janela fronteira à porta de entrada, mandou demolir essa vedação, mas qual não foi a surpresa quando, por trás dela, no grande vão cavado na espessura da parede, se encontrava um altar, cuja urna tinha à frente um vidro, pelo qual se via a gentil figura, ricamente vestida de brocados, de um jovem reclinado, cingindo espadim, bela máscara de cera, abundante cabeleira negra, caindo-lhe em anéis sobre os ombros! Através dos coturnos, das luvas, das vestes divisavam-se os ossos de um esqueleto, embutidos na massa que dava a forma ao corpo.

Era evidentemente um desses esqueletos de Mártires, retirados as catacumbas de Roma, admiravelmente preparados como só lá o sabem fazer, e remetidos de presente pela Santa Sé a algumas igrejas beneméritas.

Martírio de Frutuoso, Eulógio e Augúrio. Séc.

 Martírio de Frutuoso, Eulógio e Augúrio. Séc. XVIII. Pintura catalã

Guardou-se em segredo o precioso achado... Eram as relíquias de S. Frutuoso Mártir, com este nome enviadas de Roma no meado do século XVIII para o Colégio dos Grilos, ao mesmo tempo que vieram também... para o Seminário, as relíquias de S. Liberato, S. Fortunato e S. Clemente, igualmente preparadas, e igualmente autenticadas.

... durante alguns dias observou relativo segredo; mas foram-se abrindo algumas exceções... Rapidamente alastrou pela cidade o rumor de que no colégio dos Grilos aparecera um autêntico Santo de carne e osso; da sensacional notícia irrompeu naturalmente o desejo, em toda a gente, de ir ver por seus olhos tamanha maravilha.

... Não se tratava já do cadáver incorrupto dum Santo: era um Santo vivo, autenticamente vivo, que passava os dias a dormir na urna do seu altar, mas de noite acordava, erguia-se e passeava pelos corredores, umas vezes vestido com o hábito de eremita agostiniano, outras vezes de guerreiro; e ai do atrevido que se arriscasse a aproximar-se, para curiosamente o apalpar! Uma tremenda bofetada do Santo castigava o atrevimento curioso.

Então começam a vir ranchos, multidões, não só da populaça de Coimbra, mas de muitas léguas ao redor; estacionam junto ao edifício dos Grilos, e em gritaria desordenada, e em tumulto ameaçador, exigem que as portas se lhe abram. Tornou-se necessário consentir, dando ingresso, por turnos de doze visitantes; depois duma turma ter visto e orado, saía, e então entrava outa dúzia.

Mas o povo não se sujeitava de boa mente a estas entradas a conta-gotas, e forçavam a porta, e invadiam tumultuariamente a casa, vexando os seus proprietários. Por esta forma o Santo misterioso ia dando ocasião a tumultos graves, a sedições populares perigosas .. Era insuportável a situação... começam a afluir ao paço episcopal requerimentos de várias paróquias e confrarias de Coimbra, a pedirem que lhes seja confiado o corpo milagroso do Santo; pois deve saber-se que já a esse tempo se atribuíam ao famoso Santo grandes milagres, e as ofertas dos beneficiados começavam a afluir em abundância, que prometia rápido aumento.

... resolveu que o Santo fosse trasladado solenemente para o Seminário, onde ficaria exposto à veneração na igreja. Marcou-se para o ato de trasladação o dia da festa da Ascensão do Senhor, 16 de maio daquele ano de 1844.

Foi um ato soleníssimo, que entusiasmou os habitantes de Coimbra, e trouxe muitos milhares de pessoas dos arredores.

... E daí em diante todos os anos, em quinta-feira da Ascensão, vinham numerosos ranchos dos arredores de Coimbra ao Seminário, visitar S. Frutuoso, orar junto dele... esta romaria anual era ainda muito concorrida nos meus tempos de estudantes, e muito depois, até há poucos anos.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 282-286, do Vol. I

 

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por Rodrigues Costa às 09:21

Terça-feira, 06.06.17

Coimbra: Cidade ECHO?

Assisti no passado domingo, dia 4 de Junho, pela segunda vez, a um concerto dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

Tomei então conhecimento da existência da ECHO (Europae Civitates Historicorum Organorum) que foi fundada em 1997 e tem como objetivo desempenhar um papel unificador em projetos a nível europeu das cidades com órgãos de valor histórico e de origem europeia.

Integram esta rede Alkmaar (Holanda), Bruxelas (Bélgica), Freiberg (Alemanha), Fribourg (suíça), Innsbruck (Áustria), Mafra (Portugal). Toulouse (França), Treviso (Itália) e Trondheim (Noruega).

 

Igreja de Santa Cruz. Orgão 02.jpg

 Órgão da Igreja de Santa Cruz

Coimbra, por direito próprio, podia e devia pertencer a este Rede, porque:

- Dispõe de três grandes órgãos históricos – Igreja de Santa Cruz, Universidade e Sé Nova – recentemente recuperados, e ainda o órgão do Seminário de Coimbra de muito boa qualidade e operacional e o da Igreja do Colégio Novo que foi objeto de recuperação no início da segunda metade do século passado;

 

Capela Universidade Orgão.jpg

 Órgão da Capela da Universidade

- Existem ainda nos Concelhos limítrofes dois outros órgãos recentemente recuperados e de valor inestimável: o do Mosteiro de Lorvão (Penacova); e o do Convento de Semide (Miranda do Corvo);

- Teve Coimbra duas escolas de música de referência do nosso País, com produção organística própria: a do Mosteiro de Santa Cruz; e a da Universidade.

De tudo o que atrás refiro sugiro o seguinte conjunto de perguntas:

- Quantas cidades do Mundo se podem orgulhar de um património organístico desta dimensão?

- Depois dos vultuosos investimentos feitos e sendo condição necessária para a boa manutenção destes instrumentos o seu uso regular, o que se tem feito a Cidade para que a mesma aconteça?

- Não tem Coimbra capacidade económica para ter um organista residente que assegure aquele uso regular?

- Não será este um elemento muito importante não só para a vida cultural de Coimbra e da Região onde se insere, bem como para o desenvolvimento do turismo cultural que todos defendem?

- Não é possível a conjugação de vontades entre os Municípios de Coimbra, de Penacova, de Miranda do Corvo, da Diocese, da Universidade, da Misericórdia de Coimbra, da Direção Regional de Cultura do Centro e da Região de Turismo Centro de Portugal, tendo em vista a potenciação do património organístico aqui existente?

Eu tenho as minhas respostas. Acho que todos devem ter as suas.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 09:05


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