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A' Cerca de Coimbra


Sexta-feira, 23.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 6

A caminho de um Organismo Autónomo de Futebol para o século XXI

 A 12 de janeiro de 1990, Fernando Mendes Silva toma posse como presidente da Direção da Associação Académica de Coimbra / Organismo Autónomo de Futebol (AAC/OAF), após ter sido eleito para exercer um mandato válido para o biénio de 1990/91.

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Primeiro emblema da Académica (1926-28).  Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema (1928-1974). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Primeiro emblema enquanto CAC (1974-1977). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema (1977-1979). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema (1979-1980). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema (1980-1982). Acedido em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Último emblema enquanto CAC (1982-1984). Acedido em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

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Emblema, após 1984 e até ao presente. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Acad%C3%A9mica_de_Coimbra_%E2%80%93_Organismo_Aut%C3%B3nomo_de_Futebol

 E voltaria a ser reeleito e reempossado a 31 de janeiro de 1992 para cumprir um segundo mandato, o qual foi interrompido, abruptamente, com o seu falecimento em desastre automóvel ocorrido a 31 de maio de 1992. A grandeza e a afirmação do seu carácter, enquanto cidadão e dirigente desportivo, ficaram então uma vez mais comprovados, pelo facto de Fernando Mendes Silva se ter candidatado pela primeira vez à presidência da AAC/OAF, numa conjuntura particularmente adversa, em termos desportivos e financeiros, uma vez que a Académica disputava o campeonato da então designada 2.ª Divisão – Zona Centro. É preciso ter presente também que no final da época de 1987/1988 a equipa havia sido despromovida àquele escalão, despromoção essa que, por sua vez, desencadeou o início de uma longa disputa nos órgãos de justiça da Federação Portuguesa de Futebol, a qual transitaria mais tarde para os tribunais comuns, e tudo em torno do famigerado “caso N'Dinga”. Nesta altura da vida pública democrática, ocorre perguntar para quando é que as decisões dos órgãos de justiça desportivos ficarão subordinadas às leis da República? Seja como for, o facto é que os enormes prejuízos financeiros avultadas quebras na angariação de patrocínios e consequente continuação de cumprimento das obrigações fiscais, vencimentos em atraso dos técnicos da formação, etc. e desportivos, que resultaram da descida de divisão traduziram-se numa situação calamitosa para as direções do OAF, cujo mandato diretivo decorreu ao longo dos anos noventa.

          Portanto, foi numa conjuntura de enormes dificuldades na vida desportiva do OAF e, consequentemente, num momento pouco propício para a afirmação do arrivismo no dirigismo potenciado e propiciado, por sua vez, pelo nepotismo, pela corrupção, tráfico de influências e pelo oportunismo mediático que predominam em torno das estruturas e do jornalismo do futebol português que Mendes Silva decidiu candidatar-se à presidência do futebol profissional da Académica. O que significava ter a consciência clara de que não colheria os efeitos diretos das “luzes da ribalta” propiciados pelos programas televisivos direcionados e pela imprensa especializada no futebol praticado por três clubes dois de Lisboa e um do Porto e segundo esta rigorosa proporção de ocupação e de difusão do tempo comunicacional que disputam o campeonato principal do futebol português, ordem comunicacional que, no essencial, foi herdada do Estado Novo para cumprir o seu papel de “nacionalização das massas” agora em contexto democrático. Com efeito, é possível constatar que trinta e três anos decorridos sobre o 25 de Abril de 1974 e da instauração de um Estado de Direito democrático, a organização e a colonização do espaço público comunicacional futebolístico em Portugal, continua a ignorar o sentido mais profundo da reflexão ensaística sobre a cultura desportiva que Sílvio Lima iniciou e empreendeu durante a década de trinta do século passado, ou seja, durante os “tempos sombrios” para utilizar a conhecida expressão de um livro de Hannah Arendt do Estado Novo, segundo a qual: “O desporto constitui uma escola (ou ginásio) permanente de sã democracia.” Vivemos hoje num contexto social e mediático, onde o espaço público comunicacional é uniformizado e domesticado, segundo uma lógica ditatorial e um discurso que transmitem, subliminarmente, um clima de guerrilha protagonizada, ao nível do “espetáculo” futebolístico nacional, pelos denominados “Três Grandes”. Esta última expressão é, por sua vez, o testemunho mais acabado de uma cultura desportiva periférica assente numa lógica provinciana patente na forma passiva como a massa dos “adeptos” e dos “comentadores”, cirurgicamente selecionados, assistem e comentam o “espetáculo” do futebol, uma vez que, normalmente, todos eles possuem um traço comum entre si, a saber: o de não terem qualquer passado relevante como atletas e tão pouco serem praticantes de desporto. A este propósito, poderíamos adaptar a reflexão de Fernando Pessoa ao campo da cultura desportiva em Portugal e constatar que o provincianismo que a caracteriza em linhas gerais não é um problema geográfico, mas sim uma pretensa atitude mental de incapacidade de organização democrática da sociedade portuguesa, no sentido de se “pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação consciente e feliz” (cf. O Provincianismo Português, in Fernando Pessoa – Páginas de Doutrina Estética. Lisboa: Inquérito, [s. d.], p. 137). Este é o resultado de vivermos num país e numa sociedade, cuja história é em geral, pontuada e marcada pela inexistência de uma política de cidades e, consequentemente, pelos baixos níveis de cultura e de consciência urbana cidadãs. Em consequência, acumula-se um enorme défice coletivo em termos da vivência efetiva da cidadania participativa, na qual a relação com o corpo no espaço urbano passaria pela promoção e vivência de uma cultura ativa no confronto com a diferença, esclarecida e responsável, de promoção de hábitos e da prática desportiva no quotidiano. A este propósito, a Direção presidida por Mendes Silva, conhecedora das manobras de “bastidores” típicas do “espetáculo” do futebol e dos poderes fácticos instalados na sociedade portuguesa, tomou uma posição ética e desportivamente irrepreensível perante o alastrar do fenómeno do nepotismo e da corrupção endémicas nas estruturas federativas do futebol no início dos anos 90, a propósito do balanço desportivo de uma época em que a Académica tinha obtido o 6.º lugar como classificação final, tendo afirmado Mendes Silva: “A influência dos 'bastidores' (árbitros, aliciantes pecuniários a adversários, etc.) foi uma área onde indiscutivelmente o OAF saiu prejudicado. Não tem o nosso clube qualquer interesse em enveredar por este caminho.” (in Reunião dia 13.05.1991, Actas da Direcção da AAC/OAF). Neste sentido, se compreende também o seu empenhamento pessoal na procura de uma solução associativa alternativa e nova para o futebol profissional em Portugal, facto que levaria Mendes Silva a integrar o grupo restrito de dirigentes desportivos que estiveram nas reuniões preparatórias e fundadoras da Liga de Futebol Profissional Português (LPFF), procurando promover os interesses superiores do desporto em Portugal e da Académica em particular, e sobretudo encontrar uma alternativa à ditadura da “ordem vigente” (cf. www.lpfp.pt/default.aspx?CpContentId=285919). A criação da Divisão de Honra contou então com todo o seu empenho e entusiasmo associativos.

Grandeza de carácter como dirigente desportivo em prol da Académica que já tinha ficado evidenciada, por sua vez, pela sua discrição e generosidade, em outros momentos críticos e particularmente difíceis para a existência do futebol profissional praticado ao mais alto nível em Coimbra. É que, em 1976, Mendes Silva estivera disponível para integrar o grupo de cento e quatro notáveis cidadãos – damos à palavra notável, uma vez mais, o sentido sociológico que Max Weber deu ao termo que constituiu a PROCAC, uma sociedade anónima fundada com o objetivo específico de comprar o edifício n.º 37, na Rua Alexandre Herculano, aos Arcos do Jardim. Edifício que está hoje classificado como sendo de interesse municipal. Uma vez adquirido o edifício, este foi cedido a título gracioso para nele instalar o então novo Clube Académico de Coimbra (CAC), para que este pudesse disputar o principal campeonato do futebol português.

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Sede do Clube Académico de Coimbra, aos Arcos do Jardim. Acervo RA

 E mais tarde, também foi Mendes Silva que, no ano de 1978, vendeu ainda ao CAC, e por uma quantia quase simbólica, a maior das três parcelas de terreno para que esta agremiação pudesse vir a construir o Pavilhão Gimnodesportivo Jorge Anjinho, edificado na Solum,

 

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Pavilhão Gimnodesportivo Jorge Anjinho, em parte construído em terrenos vendidos a preço simbólico pela SOLUM. Acervo Carlos Ferrão.

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Pavilhão Gimnodesportivo Jorge Anjinho. Inauguração, com o patrono a hastear a bandeira do Clube. Acervo Carlos Ferrão

o qual integra hoje o património da AAC/OAF, e cujas instalações desportivas têm a finalidade social de servir “além dos sócios do Clube a comunidade em geral” (Cf. Escritura de Compra e Venda, fls.4).

Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

 

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por Rodrigues Costa às 10:59

Quinta-feira, 15.12.22

Coimbra: Mendes Silva, um conimbricense de eleição 4

O desporto constitui uma escola (ou ginásio) permanente de sã democracia”

Não é possível afirmar com segurança, como é óbvio, que Mendes Silva tivesse lido esta frase que quase inaugura o livro de Sílvio Lima (1904-1993) Ensaios sobre o Desporto e que viera a público em 1937, ou seja, durante a infância de Fernando Mendes Silva (cf. Sílvio Lima – Obras Completas. Lisboa: FCG, 2002. Vol II, p. 951). No entanto, toda a sua trajetória como dirigente desportivo parece indicar que ele procedeu e agiu em conformidade, no que respeitou ao trabalho de organização e de fomento da prática do desporto em Coimbra. Aliás, não deixa de ser curioso constatar que Sílvio Lima refletira, escrevera e publicara um conjunto único e valioso de ensaios sobre desporto em Portugal, entre 1937 e 1939, durante o período de sete anos em que permaneceu afastado compulsivamente do ensino universitário na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, ensino que só viria a retomar em 1942, embora impedido de fazer qualquer concurso público que o pudesse levar a ocupar e a titular uma cátedra universitária. Além de Sílvio Lima, também o seu colega Aurélio Quintanilha (1892-1987) tinha sido vítima, naquele ano de 1935, desta decisão arbitrária e iníqua de Salazar, que não tivera suporte em qualquer inquérito ou processo de natureza disciplinar (cf. Luís Reis Torgal – A Universidade e o Estado Novo: O Caso de Coimbra 1926-1961. Coimbra: Minerva, 1999, pp. 87-95). No entanto, quer Aurélio Quintanilha professor catedrático na Faculdade de Ciências e introdutor da investigação em genética em Portugal – quer Sílvio Lima, frequentaram durante os anos trinta as instalações desportivas da Associação Cristã da Mocidade (ACM). Aurélio Quintanilha, inclusive, e antes de se exilar de Portugal, tinha ficado conhecido em Coimbra pelo seu comportamento iconoclasta e, entre outras “ousadias”, destacara-se por praticar desporto com os seus alunos (cf. Palavras de Abílio Fernandes Introdutórias à Última Lição do Prof. Dr. Aurélio Quintanilha. Coimbra: Separata do Anuário da Sociedade Broteriana, 1975, p. 16).

          Seja como for, foi dotado de um espírito urbano arrojado, criativo e lúdico, europeu «avant la lettre», que Fernando Luís Mendes Silva virá a compreender como poucos, em Coimbra e porventura em Portugal, a importância da promoção sustentada da prática desportiva em idade escolar e em ambiente urbano. Talvez por isso, aceitou ocupar o cargo de Delegado Distrital da Direcção-Geral dos Desportos ao longo de 14 anos, antes e depois de 25 de Abril de 1974. Por esta altura, o apoio ao desporto escolar passou a ser efetivo na cidade, sendo exemplo acabado do que afirmamos o estímulo à aprendizagem, ao ensino generalizado e à prática competitiva da natação entre escolas.

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“Esperamos por Ti. Coimbra, cidade-piloto de iniciação desportiva”  In: “A Voz Desportiva” de 7 de janeiro de 1969. Acervo Braga da Cruz

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Esperamos por Ti. In:Pirolito da Piscina”, n.º 8, 10.07.1970. Acervo Braga da Cruz

 Uma modalidade que é fundamental para a formação do carácter e para o desenvolvimento harmonioso do corpo humano passou a dispor de apoios para o transporte de jovens das escolas para as piscinas municipais e ao fornecimento gratuito de refeições ligeiras após o exercício físico para as crianças mais carenciadas. Em consequência, e durante os anos setenta e oitenta, a Académica e mais tarde o Clube Académico de Coimbra passam a possuir e a trabalhar nadadores de excelência, com vista ao desporto de alto rendimento e a integrar nas suas equipas atletas que chegaram a representar Portugal nos Jogos Olímpicos.

          No âmbito do fomento da prática desportiva propriamente dita, permanecem na memória coletiva da cidade e na memória individual – pelo menos daqueles que nelas tiveram a felicidade de participar – um conjunto diversificado de iniciativas de promoção das mais diversas modalidades desportivas e de grande alcance em termos de adesão da população, que foram fruto da sua ousadia e capacidade de organização, sempre com o objetivo de criar e desenvolver hábitos desportivos entre os mais jovens e os adultos, de que são exemplos concretos entre outras as seguintes realizações:

24 Horas a Nadar; De Coimbra ao Brasil em Natação; Primavera/74; Aposta/77; As Beiríadas; Natal Desportivo; e Choupal – Desporto para Todos.

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De Portugal ao Brasil a nadar. Acervo Carlos Ferrão

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Torneio de Xadrez. Acervo Braga da Cruz

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"Beiríadas" 1977. Estádio Universitário, Fernando Vale (Governador civil de Coimbra) e Mendes Silva, preparam-se para içar a bandeira das "Beiríadas”. Acervo Carlos Ferrão

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“Beiríades” 1977. Piscinas Municipais. O presidente da República, General Ramalho Eanes e Mendes Silva.  Acervo Carlos Ferrão

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Choupal – Desporto para Todos. Acervo Braga da Cruz

Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.

 

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por Rodrigues Costa às 10:01


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