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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 24.04.24

Coimbra: O retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra 3

Terceira e última entrada dedicada ao trabalho do Doutor Francisco Pato de Macedo que sobre o retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra.

Sé Velha, retábulo 3.jpg

«Evangelista S. Mateus», predela do retábulo da Sé Velha de Coimbra. Op. cit.

O retábulo da Sé Velha de Coimbra, pelas suas dimensões, não apresenta a possibilidade de ser fechado, através de volantes, como era comum nos retábulos do Norte da Europa.

A predela do retábulo da Sé Velha é constituída por seis divisórias encimadas por baldaquinos finamente lavrados. Uma no prolongamento do pano central deste políptico, que se subdivide para albergar dois temas e quatro no prolongamento de cada uma folhas laterais, onde se dispõem os Evangelistas.

No lado direito, na divisória do meio, o Evangelista S. Lucas, em relevo de meia figura, tem a seus pés o boi, seu atributo, que combina, neste retábulo dedicado à Virgem, com outro dos seus atributos, o de retratista da Virgem. A pintura que se vê a executar está colocada num cavalete e voltada para os espectadores a quem é mostrada. Completa esta cena o seu auxiliar, que prepara as tintas, e que é curiosamente um negro…. A representação iconográfica de S. Lucas como retratista da Virgem foi utilizada com frequência pelos artistas flamengos, que assim contribuíram para a sua divulgação. A divisória que se situa no prolongamento da folha exterior do lado direito, é ocupada pelo Evangelista S. Mateus, que quase de costas no ato da escrita, molha a pena no tinteiro, que um anjo, seu atributo, à sua frente, lhe segura. Na folha central, do lado esquerdo, S. João, patrono dos escritores e dos teólogos, sentado numa cadeira ornada com motivos escultóricos, dedica-se à tarefa da escrita numa escrivaninha que lhe é apontada pelo bico da águia, que o simboliza, que está elegantemente colocada com as asas abertas e as patas assentes em livros.

Por último, o Evangelista S. Marcos, a escrever o Evangelho com o leão alado, o seu atributo, aos pés. Completam a predela, nas duas divisórias, que prolongam o pano central, o Presépio que, enquanto glorificação da Virgem, é subsidiário do tema central e que alude também à infância de Cristo. Neste caso, contrapõe-se à cena seguinte a Ressurreição de Cristo, símbolo de transcendência e de um poder sobre a Vida que só a Deus pertence, que é o tema principal do retábulo e que volta a repetir-se na estrutura de coroamento. A Ressurreição reflete a estética flamenga, quer na posição de Cristo com uma perna fora do sepulcro, quer na posição de terror dos soldados e nas suas armaduras.

A estrutura do coroamento é composta de duas partes, uma onde numa estrutura de marcenaria menos trabalhada se destaca a crucificação que aliás é comum encimar este tipo de retábulos. Ao centro, em posição mais elevada Cristo Crucificado, com um semblante de sofrimento e o tórax torneado a mostrar as costelas salientes e o ventre reentrante. Aos pés de Cristo, tal como aos da Virgem, D. Jorge de Almeida mandou colocar o seu brasão…. A mitra, que na sua forma triangular encima o brasão e que com o seu vértice aponta Cristo Crucificado, simboliza a Sua natureza divina. Aos lados da cruz, em pé, à direita, a Virgem, e, à esquerda, S. João, a Mãe e o discípulo favorito. Completam este tema os dois companheiros do drama, o bom e o mau ladrão.

Sé Velha, retábulo 4.jpg

«O Mau ladrão», retábulo da Sé Velha de Coimbra. Op. cit.

À direita, o bom ladrão ergue o olhar para Cristo, à esquerda o mau ladrão com a cabeça pendente torce-se nas cordas. Seguindo a tradição do Norte da Europa não estão pregados na cruz, mas com os braços atados a esta …A estrutura de coroamento é ainda, neste retábulo, composta por outra parte que se liga diretamente à estrutura arquitetónica do edifício românico. A da semicúpula absidal que foi, de uma forma bastante original, inteiramente coberta com uma estrutura de marcenaria semelhante a uma abóbada estrelada, prefiguração do espaço celeste, onde se representa o Juízo Final. Na chave central da abóbada o busto nu de Cristo Juiz, envolto em nuvens, com as mãos erguidas para deixar veras chagas e mostrar-se tal como morreu na cruz. Em cada um dos fechos da abóbada anjos tenentes seguram com as mãos veladas os instrumentos da Paixão que assumem o carácter de brasões de Cristo. Completa o coroamento, abaixo de Cristo Juiz, S. Miguel Arcanjo.

…. Na imposta do arco que encima a cena central vêem-se duas figuras enigmáticas. A do lado direito aponta com um braço demasiado comprido, em direção ao crucificado e no outro leva, provavelmente, as Tábuas da Lei. A do lado esquerdo curvada sobre si própria ergue a cabeça para o crucificado e deve, hipoteticamente, simbolizar um Profeta que, a partir do Antigo Testamento se volta em direção ao Redentor e anuncia a sua segunda vinda.

Merece ainda destaque a moldura, em escultura ornamental, que decora o «Corpus» e a predela, deste monumental retábulo, onde se podem ver dragões, sereias, anjos, cavaleiros, ursos, porcos, macacos, homens selvagens e vários monstros entrelaçados em folhagem. Em termos de conteúdo simbólico podem, entre outros, ser-lhe atribuídos os seguintes significados: elementos moralizadores, evocação do período da desordem, símbolo das forças irracionais. Estes elementos são, por si só, motivo para um estudo detalhado e aprofundado utilizando o método iconológico.

…. Ao longo dos séculos, o retábulo da Sé Velha teve vários restauros documentados. No final do século XVI, mais concretamente em 1582 …. Um século mais tarde, em 1684…. Teve ainda uma grande obra de restauro, em 1899, na qual o mestre António Augusto Gonçalves modelou em barro, o Presépio

Retábulo da Sé Velha, blogue Nova Portugalidade

O Presépio. Imagem publicada no blogue Nova Portugalidade, em 19 de dezembro de 2018. Acedida em https://www.facebook.com/100069507879227/posts/2204153486509673/

e o Evangelista São Marcos que faltavam na predela, que foram em seguida, reproduzidos em madeira por dois artistas naturais da Carregosa, o mestre António Ferreira Santos e Adelino Teixeira da Silva.

…. Este magnífico retábulo-mor continua na Sé Velha de Coimbra a exaltar a devoção que desde tempos imemoriais aqui se dedica a Santa Maria.

Macedo, F. P. O retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra In: Actas do IV Simpósio Luso-Espanhol de História da Arte - Portugal e Espanha entre a Europa e Além-Mar. 1988. Coimbra, Universidade de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 10:51

Terça-feira, 23.04.24

Coimbra: O retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra 2

Segunda de uma série de 3 entradas dedicadas ao estudo do Doutor Francisco Pato de Macedo que escreveu sobre o retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra.

A individualização do trabalho e do estilo de cada um dos artistas que realizaram o retábulo da Sé Velha apresenta, também grandes dificuldades. As obras que são atribuídas a Oliver de Gand, perderam-se na quase totalidade.

…. Acerca de Jean d'Ypres sabe-se só que, em 1510, estava a trabalhar em Santa Cruz de Coimbra, e que deve ter morrido, em 1512.

…. Conserva-se, felizmente, de Oliver de Gand e de Jean d'Ypres, o monumental retábulo de madeira dourada e policromada, nas formas exuberantes do gótico flamejante, que reveste completamente o fundo da abside da Sé Velha de Coimbra. Nele podemos individualizar um «Corpus», que constitui o centro narrativo e que ocupa a parte central da estrutura.

O «Corpus» termina num dossel trilobado e abobadado com nervuras e um remate de cogulhos, cujo centro é ocupado por dois anjos que sustentam o brasão do bispo, encabeçado pela mitra.

Abaixo sob um baldaquino filigranado, dispõe-se a narrativa central de todo o retábulo – a Assunção da Virgem. Esta cena central constitui um conjunto muito característico da escultura do Norte da Europa. A Virgem está envolta numa auréola luminosa, espécie de nimbo de todo o corpo e símbolo de beatitude eterna. Apresenta-se em posição frontal, de pé sobre uma lua crescente, em atitude de oração.

Sé Velha, retábulo 1.jpg

Assunção da Virgem. Retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra. Op. cit.

É uma figura de face gorda, cabelos frisados a cair pelos ombros e vestes de duras angulosidades. que está rodeada de anjos que a conduzem ao Paraíso. Aos pés da Virgem os Apóstolos. que vieram testemunhar a sua morte. dispõem-se num relevo em elevação e profundidade. aglomerados. cobrindo-se uns aos outros. gesticulastes, envoltos em roupagens de múltiplas pregas. elevando-se de um lado e do outro numa posição de equilíbrio.

Sé Velha, retábulo 2.jpg

Assunção da Virgem, pormenor do retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra. Op. cit.

A Assunção é um dos temas mais importantes da Glorificação da Virgem…. Existiu. desde tempos imemoriais, um templo dedicado à Virgem. no local onde no século XI, o bispo D. Miguel Salomão mandou construir a nova igreja catedral, que também a Ela consagrou. O bispo D. Jorge de Almeida, grande devoto da Virgem, não deixou de a fazer ocupar, neste retábulo, um lugar central e de lhe colocar aos pés o seu brasão.

…. A Assunção da Virgem ocupa o pano central do políptico, que é duas vezes maior que os laterais. dois de cada lado. separados por contrafortes onde se abrem nichos. de diversos tamanhos, destinados a albergar esculturas de vulto. dentro de um espírito de horror ao vazio. Em cada um dos panos laterais. seguindo uma linha quebrada. dispõem-se sob baldaquinos, figuras de santos de vulto redondo. Os baldaquinos da folha seguinte à central que terminam num triangulo rendilhado albergam. o da direita S. Pedro de cabelos encaracolados. barba espessa e curta e vestes de pregas onduladas e com o manto levantado deixando ver os atributos. as chaves e o livro. O baldaquino da esquerda S. Paulo de fronte calva e barba longa e cujo manto é decorado com imitação de. pedras incrustadas. Santos Universais que sustentaram os mesmos combates. que terão caminhado abraçados para a morte e que a Igreja festeja no mesmo dia. Nos panos seguintes. sob baldaquinos que terminam como se fossem uma coroa, os Santos Cosme (p. 308) e Damião, irmãos gémeos …. Além destes Santos, outros deveriam ocupar nichos hoje vazios. No Museu Machado de Castro conservam-se três imagens de S. Jerónimo, S. Gregório e Santa Catarina que, muito provavelmente, pertencem a este retábulo.

S. Jerónimo. MNMC.jpg

«S. Jerónimo» - Museu Nacional Machado de Castro – Coimbra. Op. cit.

S. Gregório. MNMC.jpg

«S. Gregório» - Museu Nacional Machado de Castro – Coimbra. Op. cit.

Pelas suas dimensões deveriam ocupar três dos seis nichos, situados nos contrafortes que delimitam os panos do políptico. Os outros três nichos deveriam ser ocupados pelos restantes doutores da Igreja, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e, hipoteticamente, por Santa Catarina que é muitas vezes associada a Santa Bárbara.

Macedo, F. P. O retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra In: Actas do IV Simpósio Luso-Espanhol de História da Arte - Portugal e Espanha entre a Europa e Além-Mar. 1988. Coimbra, Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 10:52

Quinta-feira, 18.04.24

Coimbra: O retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra 1

Nesta entrada e nas duas seguintes, voltamos ao trabalho do Doutor Francisco Pato de Macedo, Professor Aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no qual é contada, não só a história do retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra, bem como feita uma pormenorizada descrição do mesmo.

O interior da Sé Velha de Coimbra revela a quem transpõe o seu portal. um contraste entre as pedras nuas e frias da construção do séc. XII e o brilho dourado do retábulo-mor que, como peça de ourivesaria, refulge no ponto para onde, invariavelmente, converge o olhar.

…. O primitivo retábulo da capela-mor da Sé Velha de Coimbra, dedicado à Virgem. foi mandado executar pelo Bispo D. Miguel Salomão, nos finais do séc. XII, e era composto por uma alma de madeira revestida a prata dourada.

Três séculos depois. o bispo-conde D. Jorge de Almeida não considerou este retábulo digno de uma Sé, com a ascentralidade e a importância da de Coimbra, nem dele próprio, enquanto seu bispo já que é sempre referido pela historiografia como verdadeiro príncipe da Renascença.

…. Enriqueceu a Sé com inúmeros objetos de ourivesaria sacra …. Dentre todos, destaca-se a magnífica custódia, de prata dourada, em estilo gótico, destinada às procissões do Corpo de Deus. Deve-se ainda a D. Jorge de Almeida a introdução do gosto pelos azulejos mudéjares, que mandou comprar em 1508, em Sevilha, e com que mandou revestir totalmente, pilares e muros do interior da Sé Velha. Aí se mantiveram, a deslumbrar os fiéis com o seu brilho, até que as obras de restauro, levadas a efeito de 1893 a 1902, com critérios hoje discutíveis, os retiraram.

…. A construção do retábulo revelou-se de tal modo dispendiosa que o bispo, por carta, de 9 de Novembro de 1499, instituiu uma confraria destinada a obter esmolas para esta obra. A fábrica da igreja catedral, não tinha, como afirma, rendas suficientes e a contribuição que, conjuntamente com o Cabido, havia dado, não era suficiente.

Esta carta determina a concessão de «privillegios, perdões e indulgencias» a todos aqueles que entrassem para a confraria.

…. Para o retábulo-mor da Sé Velha, optou D. Jorge de Almeida pelo gótico flamejante que a época considerava «moderno», por oposição ao novo estilo que se estava a introduzir que se denominava de «antigo» ou «romano».

…. [ao artista flamengo] Jean d'Ypres, vai ficar a dever-se o sumptuoso retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra, hoje único entre nós, cuja data de início se desconhece, mas que deve ter sido concluído entre 1502 e 1508.

Os retábulos colocados em locais interditos aos fiéis e tornados invisíveis pela penumbra dos altares não se destinavam a ser contemplados, mas como afirma Germain Bazin «a constituirem como que uma oração permanente, fixa em imagens de que os fiéis só percebiam, ao longe, o brilho vago dos dourados e das cores».

Coimbra. Sé Velha interior.jpg

Interior da Sé Velha de Coimbra. Imagem acedida em https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9_Velha_de_Coimbra

Para a Sé Velha de Coimbra foi executado um retábulo do mesmo tipo dos da Europa do Norte.

S├® Velha. Ret├íbulo-mor 04.jpg

Retábulo-Mor da Sé Velha de Coimbra. Op. cit.

Macedo, F. P. O retábulo-mor da Sé Velha de Coimbra In: Actas do IV Simpósio Luso-Espanhol de História da Arte - Portugal e Espanha entre a Europa e Além-Mar. 1988. Coimbra, Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 21:56

Terça-feira, 02.04.24

Coimbra: Equipamentos litúrgicos primitivos da Sé Velha 1

Prosseguindo na divulgação de estudos sobre a Sé Velha primitiva, é hoje levado ao conhecimento dos nossos leitores, um trabalho da Doutora Joana Filipa Antunes, professora na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património, daquela Instituição.

A Sé Velha de Coimbra é particularmente (re)conhecida pelo seu rosto medieval. Espécie de catedral fortaleza, a sua arquitetura e a história que ela conta, confirmam e alimenta o nosso imaginário em torno de um tempo em que as catedrais eram românicas e marcavam o território de um reino em construção.

Sé Velha 4.jpgSé Velha. In: Revista Pittoresca e Descriptiva de Portugal com vistas Photograficas n.º 5. Lisboa. 1862

Pouco se sabe, contudo, sobre os equipamentos litúrgicos, os investimentos artísticos, o aspeto interior, a organização espacial e, no fundo, a paisagem visual da sé medieval.

…. Procurámos, então, reencontrar a “catedral habitada” … dos séculos medievais, ainda genericamente desconhecida. Dela sabemos hoje, em traços muito gerais, que contaria:

- Com três capelas principais, de estrutura arquitetónica perene e, portanto, sobreviventes até hoje: a capela-mor, dedicada à Virgem, a capela de São Pedro, ao Evangelho, e a capela de São Martinho (dedicada, desde o século XVI, ao Santíssimo Sacramento).

Sé Velha. Retábulo 04.jpgCapela mor, na atualidade. Acervo RA

 .... Com muitas outras capelas entretanto descaracterizadas ou desaparecidas, como a capela de Santa Clara e a capela de São Geraldo, cada uma na sua extremidade do transepto, ou a capela de Santa Maria Madalena, encostada à extremidade ocidental do coro, junto à porta do claustro ou, ainda os altares de Santa Maria, do Anjo, de São Sebastião, Santa Bárbara, São Nicolau e dos Santos Cosme Damião e que não pudemos ainda localizar com precisão mas que, a partir do século XVI, deixarão de ter existência física, canalizando-se as respetivas devoções (e imagens devocionais) para o retábulo-mor encomendado por D. Jorge de Almeida e, mais tarde, para altares menores.

- Com um coro central, ocupando dois tramos da nave central a partir do cruzeiro, dotado de uma porta ocidental encimada por um crucifixo, à maneira do que se erguia sobre o «leedoiro» do coro de Santiago de Compostela e onde a poderosa D. Vataça de Lascaris (f. 1336) se faz sepultar em monumento elevado e, nesta época, coberto com um pano com “signaes, figuras d’aguias e flores” …

 

Vataça, tumulo.jpg

Sé Velha, tumulo de D. Vataça.  Mestre Pero, 1336. Imagem acedida https://pt.wikipedia.org/wiki/Vata%C3%A7a_L%C3%A1scaris#/media/Ficheiro:Vata%C3%A7a.jpg

 - Com um cadeiral, encomendado em 1413, pintado e dourado, com o seu “almocarabez de ouro fino”, … numa solução formal cuja dimensão seria, muito provavelmente, impeditiva de uma vista ampla e desafogada da capela-mor a partir da entrada da igreja.

- Com um coro-alto, concluído em torno de 1477, ocupando os dois primeiros tramos da nave central, ao nível do trifório, e ostentando, no subcoro, um teto mudéjar de laçaria.

- Com numerosas tumulações, em campa rasa, em campas pintadas e em monumentos funerários esculpidos e dotados de jacente, dos quais nos chegaram, sobretudo, túmulos episcopais.

- Com panos, véus, cortinas, corrediças, das mais variadas cores e materiais, a comporem estruturas de capelas ou cenários efémeros, ocultarem imagens ou vesti-las de acordo com as muitas festas do calendário litúrgico.

 De todos estes espaços e equipamentos, aquele que maior atenção recebe nos dois primeiros séculos da catedral românica é, sem dúvida, a capela-mor. Espaço pequeno, não obstante a sua importância, foi sendo composto, dignificado, enobrecido e densamente preenchido nos séculos seguintes. E é a partir dele, portanto, que iniciaremos esta abordagem à Sé Velha medieval, focando-nos exclusiva e operativamente (embora não exaustivamente) nos objetos, equipamentos e imagens de que foi sendo acrescentado ao longo de quatro séculos.

Antunes, J. F. (Re)ver a Sé Velha de Coimbra: Equipamentos Litúrgicos da Capela-Mor Medieval (Séculos XII.XV). In: Actas. Congreso Internacional VIII Centenario Catedral de Burgos “El mundo de las Catedrales” celebrado en Burgos del 13 al 16 de junio de 2022. Edição Fundación VIII Centenario de la Catedral. Burgos 2021. Acedido em

https://www.academia.edu/91358706/_Re_ver_a_S%C3%A9_Velha_de_Coimbra_equipamentos_lit%C3%BArgicos_da_capela_mor_medieval_s%C3%A9culos_XII_XV_

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por Rodrigues Costa às 14:49

Terça-feira, 03.09.19

Coimbra: Jorge de Almeida bispo 2

No âmbito do estudo da simbologia heráldica de D. Jorge de Almeida consideramos relevante atentar no seguinte excerto de António de Vasconcelos a propósito do cortejo deste prelado à saída do paço episcopal para a Sé:

Armas de D. Jorge de Almeida a.JPG

Armas de D. Jorge de Almeida no retábulo da Sé Velha de Coimbra

“Era espectaculosa e digna de se ver (…) acompanhado de uma guarda militar, o alferes de D. Jorge, vestindo huma cota darmas forrada de setim roixo, com as armas do bispo sobre damasco branco e cremezim, aprumado no seu cavalo, hasteava o balsão – hum estandarte de damasco verde alionado branco e cremezim, com uma cruz douro e armas do bispo.(…) cercado dos seus familiares e creados e seguido da sua gente de armas, montado em formosa e nédia mula branca, quase inteiramente coberta pelas ephíppias e strágula pontifícias de cor violácea, e vistosa pelos belos arreios guarnecidos de seda aveludada, brochados e chapeados de prata, onde se divisavam finamente buriladas e muitas vezes repetidas as armas dos Almeidas e dos Silvas, encimadas de uma mitra ou pelo chapéu pontificial.
Trazia o bispo-conde sôbre a sotaina rôxa um comprido roquete de finíssimo linho, que lhe descia abaixo dos joelhos; aos ombros a capa-magna de cameloto violáceo com o capelo forrado de alvíssimas peles de arminhos, afagadas pela cabeleira do prelado; na cabeça o chapéu solene, de lã preta, com a parte inferior forrada de seda verde, e longos cordões da mesma côr a descerem dos lados do chapeu, caindo sôbre o peito, a cuja altura se bifurcavam uma, outra e outra vez, elaçando-se e enxadrezando-se, ornados de borlas ou frocos de seda verde em todos os pontos de união (…)”

Selo heráldico de D. Jorge de Almeida.jpg

Selo heráldico de D. Jorge de Almeida retirado de Abrantes, Marquês de. O estudo da sigilografia medieval Portuguesa

A partir deste excerto é evidente todo o aparato heráldico que rodeava este prelado, cuidadoso na composição, cor e simbologia de todas as peças que tanto ele como a sua comitiva ostentavam. Não poderia haver uma mensagem de poder mais manifesta e é interessante ver aqui a perpetuação da mitra enquanto símbolo episcopal. Conforme se mencionou, no caso português esta peça terá um protagonismo acentuado durante um maior período de tempo que noutros locais da Europa, sendo símbolo episcopal por excelência. Ainda assim, o chapéu eclesiástico tem já um papel preponderante, inclusive como elemento envergado pelo antístite no decorrer do cortejo. Uma vez mais confirmamos também, a propósito do gallerum, a utilização do negro forrado a verde, mais uma particularidade portuguesa, uma vez que já aqui se verificou ser unicamente o verde, a cor designada para representar os bispos. O efeito desta exibição de poder associado à imagem do prelado era avassalador para quem observava, algo patente na continuação do excerto acima transcrito:

Armas de D. Jorge de Almeida na Pia Batismal mitra

Armas de D. Jorge de Almeida na Pia Batismal chap

Armas de D. Jorge de Almeida na Pia Batismal da Sé Velha de Coimbra onde se verifica, alternadamente, a utilização da mitra e do chapéu eclesiástico

… “À passagem do prelado toda a gente se ajoelhava, e ele de olhar meigo, de sorriso bondoso nos lábios, ergendo a dextra com o dedo indicador ornado de hum anel que tinha duas esmeraldas, quatro rubis e uma çafira, abençoava lentamente, com os dois dedos estendidos, os seus súbditos devota e humildemente prostrados numa quase adoração.”

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes

 

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por Rodrigues Costa às 17:54

Quinta-feira, 29.08.19

Coimbra: Jorge de Almeida bispo 1

Já amplamente analisado, D. Jorge de Almeida [é uma] personagem indubitavelmente imprescindível no contexto artístico, político, religioso e social desta época, tendo constituído verdadeiramente uma retórica de aparato de onde é impossível dissociar a carga heráldica facilmente perceptível.

Armas de D. Jorge de Almeida no retábulo.jpg

Armas de D. Jorge de Almeida no retábulo da Sé Velha de Coimbra, pormenor

… Trigésimo sétimo bispo de Coimbra e segundo conde de Arganil, terá nascido em 1458 filho do 1º conde de Abrantes e de D. Beatriz da Silva. A sua distinta linhagem, terá origem em D. Pedro I e D. Inês de Castro de quem se diz o seu pai, D. Lopo, ser o terceiro neto.
… A sua presença em Itália, agora incontestada, está intrinsecamente ligada ao percurso de seu pai. Sabe-se que D. Lopo integrou o mesmo séquito para Siena que o anteriormente referido D. João Galvão … Acrescente-se a este facto a sua presença em Florença, Nápoles e Roma, focos da cultura humanista.
… O contexto familiar de D. Jorge de Almeida comprova toda uma miríade de influências e relações que certamente influenciaram a sua mundividência e gosto, tornando-o num incontestável “verdadeiro príncipe do renascimento”, nas palavras de Vítor Serrão.
O seu próprio percurso em Itália desde, pelo menos 1469, foi pautado de exemplos que iriam determinar a sua imagem e posição futuras, tendo privado com Lourenço de Médicis (conforme provam as 5 cartas agora publicadas) a quem escreveu ainda enquanto estudante em Pisa ou o título de Apotolice sedis prothonotharius que ostentou precocemente e que seria prenunciador dos muitos outros com que viria a ser agraciado ao longo da sua extensa vida conforme se confirma nas palavras de Pedro Álvares Nogueira ao discursar acerca deste “mancebo de uinte E dous annos de grandes partes de grandes esperanças q daua mostras de uir a ser hum grande prelado Como na uerdade o foi (…)”.
Tendo estudado em Pisa e Peruggia e após uma longa permanência na Cúria Romana, este antístite, que será inquisidor-mor do reino a partir de 1536, sempre demonstrou uma extrema erudição que perpetuou na obra escrita elaborada ao longo da sua vida e de onde se destacam as – “Constituyçoões do Bispado de Coimbra pollo muyto reuerendo e magnífico senhor o señor dom Jorge dalmeyda bpo de Coimbra Conde Darganil”, impressas em Braga, na Oficina de Pedro Gonçalves Alcoforado, no ano de 1521. Consta terem sido as primeiras Constituições deste bispado que se publicaram.
Peça fundamental no equilíbrio das forças culturais e políticas da cidade, protegia os seus homens e erigia à sua volta redes de dependência e patrocinato, vivendo como um grande e poderoso senhor nos seus territórios.
Teve igualmente um papel preponderante junto ao monarca, em diversos encargos diplomáticos e religiosos, tendo-se deslocado expressamente a Évora, em finais de 1497, para presenciar o primeiro matrimónio de D. Manuel. Do mesmo modo foi este mesmo prelado que, juntamente com o rei esteve presente no ritual da abertura e segunda tumulação de D. Afonso Henriques e de D. Sancho I, efectuado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Este bispo designado por António de Vasconcelos como Sacerdos Magnus, terá ainda baptizado o Infante D. Henrique em 1512.
Bispo residente em Coimbra - um dos raros exemplos de entre as nove dioceses portuguesas, era apreciador da prática da caça tendo mesmo “alcançado de D. Manuel a instituição de uma coutada privada nas terras do senhorio do bispado, em Coja, para melhor apreciar os seus gostos cinegéticos”, e foi a figura marcante do Renascimento conimbricense, numa altura de mudanças e em que se começava a vislumbrar uma nova cultura visual. Não obstante a experiência em Itália e os ilustres contactos que manteve, sempre se apresentou enquanto sujeito de carácter singular com uma preponderante “proximidade às correntes humanistas do renascimento que a sua actuação à frente da diocese de Coimbra e a sua abertura mecenática não deixam de traduzir”.

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Documento com as armas de D. Jorge de Almeida, usando os leões de negro

Documento com as armas de D. Jorge, pormenor.jpg

Documento com as armas de D. Jorge de Almeida, usando os leões de negro, pormenor

Finado em 1543, a inscrição na sua lápide que repousa ainda hoje na Sé Velha de Coimbra irá replicar a fórmula itálica do seu nome, já utilizada por Sisto IV nos idos anos da sua infância. Aquele que foi o antístite que durante mais tempo governou uma diocese em toda a história da igreja portuguesa, e que com 10 anos era já designado por “Giorgio de Almeyda clerico Egitaniensis diocesis” “falleceo dia de Santiago de1543. de idade de 85 annos. Manifesta-se do epitaphio de sua sepultura, que está na capella do Sanctíssimo Sacramento da Sè da ditta cidade.

Armas de D. Jorge de Almeida na Capela.jpg

Armas de D. Jorge de Almeida na Capela de S. Pedro, na Sé Velha de Coimbra

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes

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por Rodrigues Costa às 15:54

Terça-feira, 11.12.18

Coimbra: Sé Nova, o quadro de S. Tomás de Vila Nova

AINDA S. TOMÁS DE VILA NOVA NA SÉ DE COIMBRA
Na sacristia da Sé Nova pode ver-se um quadro de pintura que facilmente se relaciona com a mudança de titular na capela da nave da igreja, de S. Francisco Xavier para S. Tomás de Vila Nova. Representa o santo bispo de Valência e está datado de 1676, ano em que o seu culto já devia ser bem conhecido dos cónegos da Sé e das gentes de Coimbra.

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Sé Nova, quadro de S. Tomás de Vila Nova

Tomás de Vila Nova é uma das figuras gradas da igreja espanhola do século XVI, a par com outros místicos. É designado como o “S. Bernardo espanhol” pela sua teologia sobre a Virgem Maria, o amor divino e a pastoral. Nasceu em Fuenllana em 1486, mas a sua juventude decorre em Vila Nova dos Infantes, donde adotou o nome quando ingressou na congregação dos agostinianos. Desde a meninice deu provas de comovente caridade, privando-se de tudo pelos pobres. Em 1518 foi eleito superior dos agostinianos e em 1545 bispo de Valência, cargos que aceitou com relutância. Organizou várias formas de assistência a donzelas pobres e sem dote, doentes e crianças abandonadas. Para estas criou um orfanato dando-lhes o abrigo, cuidados e carinho. Chegou ao ponto de dar a sua própria cama, pois não tinha, de momento, outra coisa que dar. Mas não se limitava a dar esmolas: procurava combater a pobreza de uma forma ativa, dando trabalho aos desprotegidos. Dono de uma formação cultural fortíssima, é autor de belos sermões e obras místicas, como o Sermão do Amor de Deus e o Comentário ao Cântico dos Cânticos.

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Sé Nova, quadro de S. Tomás de Vila Nova, pormenor

Gaspar de la Huerta, um dos mestres do Século de Ouro espanhol. Nasceu em 1645 e morreu em 1714. A sua vida decorre sobretudo em Valência, onde desenvolveu atividade e foi muito apreciado. Lamentavelmente grande parte das pinturas que executou para igrejas e conventos já não existe, pelo que a tela da Sé alcança um valor reforçado.

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S. Tomás de Vilanova 1

As excelentes relações entre os cabidos das sés de Coimbra e Valência poderão justificar a existência do quadro de 1676 e do culto ao santo valenciano. Aproveitando essa maré, o cabido de Coimbra pediu ao de Valência uma relíquia do santo. Este não só ofereceu a relíquia como a própria imagem, também de cunho realista. Uma e outra chegaram a Coimbra em 18 de janeiro de 1687, sendo conduzidas em solene procissão, presidida pelo bispo D. João de Melo, desde S. Francisco da Ponte até à Sé. Nesse mesmo ano de 1687 se erigiu na Sé a Irmandade do Glorioso Santo Tomás de Vila Nova. A imagem encontra-se no altar da Sé Nova, com vimos, e o relicário foi parar ao Museu Machado de Castro.

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S. Tomás de Vilanova 2

Quando se fez a mudança da Sé Velha para a igreja dos jesuítas, o forte culto a S. Tomás de Vila Nova impôs a nova entronização da sua imA pintura que se guarda na sacristia da Sé, não obstante se encontrar em mau estado de conservação, é um documento expressivo da vida e obra deste santo. Num primeiro plano é representado Tomás de Vila Nova, sentado, paramentado de pluvial e mitra episcopal, como homem de idade madura e de face bem vincada, exprimindo afeto. Estende as mãos para dar esmola a uma criança que a recebe de olhar ansioso. A seu lado e um pouco mais à frente vê-se um velho pedinte, arrimado a um bordão e de joelhos em terra. Completam a cena cinco outros pobres de aspeto sofredor. Por detrás do santo, eleva-se um clérigo ancião, de cruz alçada. Todas as figuras são de notável vigor e realismo nas feições e atitudes, autênticos retratos, exprimindo expectativa, sofrimento, compaixão. Por fim o cenário cria o ambiente com formas arquitetónicas austeras, donde emergem ainda dois outros vultos humanos.
Trata-se de uma composição notável de um grande artista. Infelizmente o estado de conservação da tela não deixa perceber todos os pormenores, designadamente a tão importante expressão da cor. O pintor encontra-se identificado, pois o quadro está assinado: agem. O quadro integrou a sacristia, onde convive bem com as cenas das vidas de Santo Inácio e S. Francisco Xavier. Possa esta chamada de atenção para a pintura de Gaspar de la Huerta permitir que se encare como obra prioritária o seu restauro.

Nelson Correia Borges
In: Correio de Coimbra, n.º 4714, de 8 de Novembro de 2018

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por Rodrigues Costa às 09:24

Quinta-feira, 01.03.18

Coimbra: Alexandre Herculano e a sua visão da cidade 3

Passada a Sofia, a primeira coisa notável que se encontra é o velho mosteiro de Santa Cruz, fundação do nosso D. Afonso Henriques. Da primitiva obra nada ou mui pouco resta. – Consta que o antigo mosteiro era um edifício cercado e torreado, como um castelo: o templo tinha três naves; os claustros eram três, as celas oitenta e quatro. Hoje é mui diverso o estado das cousas. Porventura as celas são mais numerosas, os corredores mais elegantes, as oficinas mais acomodadas, os claustros mais magníficos; mas a igreja pareceu-nos acanhada, mesquinha, mal traçada, e de mau gosto, porque a vimos depois de ter lido pomposas descrições dela. O que ainda se conhece que realmente foi bom, é o portal lavrado de laçarias, e vultos, e mil invenções curiosas. Cremos que infelizmente entalharam esta obra em pedra de Ançã, em lugar de pedra canto; e por isso está tudo estragado e carcomido.

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 Mosteiro de Santa Cruz, pormenor da planta de Magne

 No corpo da igreja há muitas sepulturas de venerável antiguidade, e inscrições mortuárias que falam de nomes gloriosos: mas os mais notáveis sepulcros são os dos dois primeiros reis portugueses, D. Afonso e D. Sancho, colocados aos lados da capela-mor. Estes monumentos preciosos foram mandados fazer por el-rei D. Manuel, e aí se conservaram até o ano de 1832, em que D. Miguel os mandou arrombar, para ver o que continham: ainda no ano seguinte vimos as pedras quebradas, e os mal apagados sinais deste ato de barbárie.

As duas coisas mais importantes que havia no convento eram a livraria e o santuário: as preciosidades de um e de outro foram levadas para a cidade do Porto. Entre os quadros que adornavam o santuário dizem que estava uma «transfiguração» de Rafael, e a «adoração dos reis» de Rubens. Aí se mostrava uma espada, que se dizia ter sido de D. Afonso Henriques, e que se acha reunida á do moderno Afonso, o duque de Bragança, no museu do Porto, para onde também foi levada a escrivaninha e a pena com que assignaram os decretos do concilio tridentino, monumentos curiosos doados a Santa Cruz por D. Fr. Bartolomeu dos Mártires.

A quinta ou cerca de Santa Cruz é uma das mais extensas e maravilhosas de Portugal. Descrevê-la fora impossível na brevidade do nosso quadro. O lago é obra magnifica: mas as árvores que a rodeiam, cortadas em colunas e obeliscos, são apenas um dos mil exemplos de mau gosto dos antigos jardins. 

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 Sé Velha, antes do arranjo

 A paroquia de S. Cristóvão, ou Sé Velha, é o monumento de Coimbra mais digno de atenção, porque é porventura o único que resta em Portugal do tempo dos godos. A sua arquitetura não se parece, portanto, com a de outro algum edifício conhecido. As suas paredes, vistas exteriormente, assemelham-se às de um castelo; é talvez o que resta da primitiva, e um escritor moderno se enganou inteiramente, supondo os lavores da porta lateral do templo obra de arquitetos godos, quando basta vê-los para conhecer que foram lavrados no 13.º ou 14.º século. Posterior ainda a esta época é o interior da igreja.

No alto da cidade, onde estão os fundamentos do observatório novo, começado pelo marquês de Pombal, e nunca levado a cabo, jazia o antigo castelo, que foi demolido, e de que restam apenas alguns fragmentos. Este castelo era célebre pela ação heroica do leal Martim de Freitas,

A universidade está onde antigamente eram os paços reais, chamados das alcáçovas; neste edifício ainda existem muitos vestígios da sua origem remota. Nada diremos aqui acerca desse estabelecimento literário, que tantos homens ilustres tem dado a Portugal, porque o guardamos para um artigo especial.

A Sé Nova era a igreja dos jesuítas: ampla, e ao primeiro aspeto majestosa, um exame mais miúdo faz descobrir nela o ferrete de todos os edifícios daquela ordem – mau gosto de arquitetura.

Muitos outros monumentos notáveis se encontram na antiga capital dos portugueses, mas a brevidade necessária nos veda falar deles. Entretanto há aí uma cousa curiosa, de que ninguém tratou ainda, e que vale a pena de se mencionar. É esta a inquisição. Ela ainda está em pé com os seus corredores escuros, os seus carceres medonhos, as suas «espreitadeiras». Ainda aí se vê a casa dos tratos, com as paredes cheias de arranhaduras, e de manchas escuras, que porventura são de sangue!  - E não se deveria conservar este monumento de fanatismo para os vindouros, a quem parecerão impossíveis os horrores que se contam acerca da inquisição!

Nos arredores de Coimbra, pode-se dizer que cada pedra, cada campo, cada bosquezinho é um monumento histórico. – A fonte do Cidral e o Penedo da Saudade, quem os não conhece? – Atravessando a ponte para o lado de Lisboa, encontram-se à esquerda umas ruínas, e atrás delas um campo coberto de arvoredos e de hortas. Aqui houve um mosteiro ilustre: este foi o de Santa Clara, fundado por S. Isabel, e que o rio fez desaparecer. D. João 4.º edificou o novo no monte ao ocidente de onde em perspetiva se descobre a cidade.

Naquela margem do Mondego está também a Quinta das Lágrimas, e a Fonte dos Amores. No palácio pertencente à quinta sucedeu, segundo dizem alguns, o trágico sucesso da morte de D. Inês de Castro. A Fonte dos Amores, rica de recordações e pobre de adornos, lá corre ainda caudal para um tanque meio entulhado. Descrita por poetas, viajantes, e historiadores, calará acerca dela a nossa mal aparada pena, e só faremos um voto para que a mão do homem não derrube os últimos cedros que a assombram, e que são testemunhas das memórias de muitos séculos.

O Panorama. Número 51. 21 de Abril de 1838. Pg. 122-123

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por Rodrigues Costa às 22:15

Quinta-feira, 04.01.18

Coimbra: Fotografias antigas

Folheando, tempos atrás, dois catálogos impressos aquando da realização de exposições de fotografias antigas de Coimbra, pertencentes à coleção de Alexandre Ramires, escolhi, de entre muitas que ali observei, três que me pareceu interessante divulgar.

A primeira diz respeito à Sé Velha e foi retirada de Revelar Coimbra. Os inícios da imagem fotográfica em Coimbra. 1842-1900, Lisboa, Instituto Português de Museus, 2001, imagem 48.

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 Sé Velha antes do restauro

 A vetusta catedral conimbricense encontrava-se em franca deterioração e António Augusto Gonçalves, a alma, o mestre, o mentor da Escola Livre das Artes do Desenho tudo fez para que uma intervenção de fundo, capaz de preservar as velhas pedras de séculos, se viesse a concretizar.

As obras iniciaram-se a 30 de janeiro de 1893 e o portal principal foi intervencionado, já em 1898, por José Barata, que se encarregou de esculpir as colunas e por João Machado que tomou sob a sua responsabilidade o trabalho das almofadas. Eram dois artistas formados pela referida Escola e que integravam aquela “plêiade de rapazes que começavam a fazer lembrar a idade áurea da Coimbra artística do século XVI”.

A imagem leva-nos ainda a reparar na atual falta de harmonia existente no edifício, resultado do desaparecimento do terraço. Gonçalves reduziu a área desta plataforma e os Monumentos Nacionais, na reforma levada a cabo em meados da centúria de XX, sumiram-na. Filosofias de restauro mais do que discutíveis que não cabe aqui analisar.

Uma chamada de atenção para a torre sineira, um acréscimo à construção primitiva, que albergava o chamado sino balão, levado para a Sé Nova e a existência de dois janelões laterais também abertos nas grossas paredes dos inícios. No interior da Sé acolhiam-se indivíduos fugidos à justiça régia, os homiziados, pois ali, tal como na zona das lajes, isto é no terraço que circundava o templo, existia o chamado “direito de asilo”.

 

A segunda imagem refere-se à Praça de Sansão, atual Praça 8 de maio e foi retirada de Passado ao espelho. Máquinas e imagens das vésperas e primórdios da photographia, Coimbra, Museu de Física da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2006, p. 60.

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 Praça de Sansão mercado

 A Praça de S. Bartolomeu, Praça Velha ou Praça do Comércio era um dos locais onde, em Coimbra, se realizavam as trocas e a venda de produtos. A partir do momento em que este espaço se tornou exíguo para responder às necessidades da população aeminiense, a comercialização, sobretudo de aves e de grãos, transferiu-se, num primeiro momento, para a Praça de Sansão, atual 8 de maio. Posteriormente este “mercadinho” deslocou-se para a zona fronteira à esquadra da PSP e, e depois de 1867, instalou-se definitivamente mercado D. Pedro V.

À direita, a igreja de S. João, paroquial da freguesia de Santa Cruz (atual café), já se encontrava desativada, fora desamortizada e ali funcionava, ao tempo, um Armazem de Tecidos.

A fotografia é anterior a 1876, porque nesse ano se iniciou a construção do edifício da Câmara Municipal de Coimbra que aniquilou a parte esquerda do mosteiro, ainda intacta na imagem.

 

A terceira imagem que nos chamou a atenção é uma “Panorâmica de Coimbra” e encontra-se no catálogo Revelar Coimbra…, imagem 14. 

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 Vista geral, 1860 c.

 A foto, da autoria de Alfred Fillon, foi tirada c. de 1860. Numa rápida amostragem diremos que nela se pode ver, à direita, a ponte de pedra sobre o rio Mondego, o Largo da Portagem, a zona da Universidade com o Observatório Astronómico, riscado por Manuel Alves Macomboa, erguido na extremidade do Pátio e o complexo que pertencera outrora aos Jesuítas; mais para a esquerda fica a Torre de Anto, o Colégio da Sapiência e a Torre dos Sinos do mosteiro de Santa Cruz.

Visível ainda na imagem a Rua da Sofia com alguns dos seus muitos colégios e, mais em cima, uma estranha estrutura que deve ser constituída por muros da cerca de alguns colégios e suportes murados a formar socalcos que suportavam um frondoso olival outrora ali existente.

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:50

Segunda-feira, 03.07.17

Coimbra e as suas Personalidades: Sesnando Davides

Não temos qualquer dado sobre quando e aonde o alvazil nasceu, ou onde passou a infância, todavia esse facto não impediu de numerosos investigadores de afirmarem que Sesnando tinha a sua origem em Tentúgal.

... como teria Sesnando Davides, passado de Coimbra para Sevilha? ...  Dozy diz que “O Cadi “de Sevilha” fez renderem-se dois castelos...tendo sido assim aprisionado em 1026..., e levado para a corte sevilhana de Abu al-Hacim Mohamed. Contudo, Luis de Parga... aponta a data de 1041-1042.

...recebeu – o cargo de vizir ou wazir era reservado para os mais letrados da administração central árabe-islâmica – sendo o homem mais respeitado dentro da corte sevilhana.

A partir de 1060 deve ter-se juntado a Fernando, o Magno...teria sido o conselheiro que aliciou o rei a conquistar Coimbra logo em 1064...naqueles dias, o próprio rei tendo exortado com honra, o grande príncipe naquele lugar, duque e cônsul fiel, dom Sisnando...sobre a própria cidade, para que a povoe e defenda da gente pagã.

... Sesnando Davides foi um cônsul respeitado por todos, incluindo-se neste campo Fernando o Magno e Afonso VI, permitindo que o alvazil governe Coimbra com uma total autonomia deixando que o moçarabismo florescesse na cidade e na região, cunhando Igrejas e Mosteiros com o nome de diversos santos da liturgia visigótica romana. Foi um homem que nunca se libertou do título de alvazil fazendo questão de o deixar marcado nos documentos não só de Coimbra mas de Leão e Castela, sendo a referência política para os não cristãos. Mas não era só um administrador, era também um guerreiro, um dux, que servira tanto de diplomata como de líder militar em expedições sobre os Reinos de Taifa do al-Andaluz

... Como homem Sesnando terá sido assim um dinamizador, um guerreiro, um diplomata, um conselheiro, um justo juiz, isto à luz dos cronistas árabes como Ibn Bassam, tendo um papel fulcral nos destinos do Termo de Coimbra, e no futuro Condado de Portucale.   

Isaac, F.M.B. 2013. Sesnando Davides. Alvazil, Cônsul, Estratega e Moçárabe. Dissertação de Mestrado em História. Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pg. 111-114, 144-145.

 

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Mausoléu de D. Sesnando

 Singular osteoteca (no claustro da Sé Velha) de Dom Sesnando, genial alvazir e destacado governador de Coimbra, fautor da reconquista cristã de 9 de Julho de 1064. Data do século XV-XVI. Na cabeceira tem uma composição vegetal e, no frontal, uma simples orla de folhagens a cercar a legenda, feita num gótico minúsculo, de letras ressaltadas, a recordar as qualidades daquele homem memorável, e do sobrinho Pedro, falecido na juventude, cujas cinzas repousam com as do tio Dom Sesnando, no mesmo monumento.

Coutinho, J.E.R. 2001. Catedral de Santa Maria de Coimbra (Sé Velha), Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2001, p. 93-94.

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por Rodrigues Costa às 09:52


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