Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 01.03.18

Coimbra: Alexandre Herculano e a sua visão da cidade 3

Passada a Sofia, a primeira coisa notável que se encontra é o velho mosteiro de Santa Cruz, fundação do nosso D. Afonso Henriques. Da primitiva obra nada ou mui pouco resta. – Consta que o antigo mosteiro era um edifício cercado e torreado, como um castelo: o templo tinha três naves; os claustros eram três, as celas oitenta e quatro. Hoje é mui diverso o estado das cousas. Porventura as celas são mais numerosas, os corredores mais elegantes, as oficinas mais acomodadas, os claustros mais magníficos; mas a igreja pareceu-nos acanhada, mesquinha, mal traçada, e de mau gosto, porque a vimos depois de ter lido pomposas descrições dela. O que ainda se conhece que realmente foi bom, é o portal lavrado de laçarias, e vultos, e mil invenções curiosas. Cremos que infelizmente entalharam esta obra em pedra de Ançã, em lugar de pedra canto; e por isso está tudo estragado e carcomido.

Planta de Magne pormenor.jpg

 Mosteiro de Santa Cruz, pormenor da planta de Magne

 No corpo da igreja há muitas sepulturas de venerável antiguidade, e inscrições mortuárias que falam de nomes gloriosos: mas os mais notáveis sepulcros são os dos dois primeiros reis portugueses, D. Afonso e D. Sancho, colocados aos lados da capela-mor. Estes monumentos preciosos foram mandados fazer por el-rei D. Manuel, e aí se conservaram até o ano de 1832, em que D. Miguel os mandou arrombar, para ver o que continham: ainda no ano seguinte vimos as pedras quebradas, e os mal apagados sinais deste ato de barbárie.

As duas coisas mais importantes que havia no convento eram a livraria e o santuário: as preciosidades de um e de outro foram levadas para a cidade do Porto. Entre os quadros que adornavam o santuário dizem que estava uma «transfiguração» de Rafael, e a «adoração dos reis» de Rubens. Aí se mostrava uma espada, que se dizia ter sido de D. Afonso Henriques, e que se acha reunida á do moderno Afonso, o duque de Bragança, no museu do Porto, para onde também foi levada a escrivaninha e a pena com que assignaram os decretos do concilio tridentino, monumentos curiosos doados a Santa Cruz por D. Fr. Bartolomeu dos Mártires.

A quinta ou cerca de Santa Cruz é uma das mais extensas e maravilhosas de Portugal. Descrevê-la fora impossível na brevidade do nosso quadro. O lago é obra magnifica: mas as árvores que a rodeiam, cortadas em colunas e obeliscos, são apenas um dos mil exemplos de mau gosto dos antigos jardins. 

Sé Velha antes do arranjo.jpg

 Sé Velha, antes do arranjo

 A paroquia de S. Cristóvão, ou Sé Velha, é o monumento de Coimbra mais digno de atenção, porque é porventura o único que resta em Portugal do tempo dos godos. A sua arquitetura não se parece, portanto, com a de outro algum edifício conhecido. As suas paredes, vistas exteriormente, assemelham-se às de um castelo; é talvez o que resta da primitiva, e um escritor moderno se enganou inteiramente, supondo os lavores da porta lateral do templo obra de arquitetos godos, quando basta vê-los para conhecer que foram lavrados no 13.º ou 14.º século. Posterior ainda a esta época é o interior da igreja.

No alto da cidade, onde estão os fundamentos do observatório novo, começado pelo marquês de Pombal, e nunca levado a cabo, jazia o antigo castelo, que foi demolido, e de que restam apenas alguns fragmentos. Este castelo era célebre pela ação heroica do leal Martim de Freitas,

A universidade está onde antigamente eram os paços reais, chamados das alcáçovas; neste edifício ainda existem muitos vestígios da sua origem remota. Nada diremos aqui acerca desse estabelecimento literário, que tantos homens ilustres tem dado a Portugal, porque o guardamos para um artigo especial.

A Sé Nova era a igreja dos jesuítas: ampla, e ao primeiro aspeto majestosa, um exame mais miúdo faz descobrir nela o ferrete de todos os edifícios daquela ordem – mau gosto de arquitetura.

Muitos outros monumentos notáveis se encontram na antiga capital dos portugueses, mas a brevidade necessária nos veda falar deles. Entretanto há aí uma cousa curiosa, de que ninguém tratou ainda, e que vale a pena de se mencionar. É esta a inquisição. Ela ainda está em pé com os seus corredores escuros, os seus carceres medonhos, as suas «espreitadeiras». Ainda aí se vê a casa dos tratos, com as paredes cheias de arranhaduras, e de manchas escuras, que porventura são de sangue!  - E não se deveria conservar este monumento de fanatismo para os vindouros, a quem parecerão impossíveis os horrores que se contam acerca da inquisição!

Nos arredores de Coimbra, pode-se dizer que cada pedra, cada campo, cada bosquezinho é um monumento histórico. – A fonte do Cidral e o Penedo da Saudade, quem os não conhece? – Atravessando a ponte para o lado de Lisboa, encontram-se à esquerda umas ruínas, e atrás delas um campo coberto de arvoredos e de hortas. Aqui houve um mosteiro ilustre: este foi o de Santa Clara, fundado por S. Isabel, e que o rio fez desaparecer. D. João 4.º edificou o novo no monte ao ocidente de onde em perspetiva se descobre a cidade.

Naquela margem do Mondego está também a Quinta das Lágrimas, e a Fonte dos Amores. No palácio pertencente à quinta sucedeu, segundo dizem alguns, o trágico sucesso da morte de D. Inês de Castro. A Fonte dos Amores, rica de recordações e pobre de adornos, lá corre ainda caudal para um tanque meio entulhado. Descrita por poetas, viajantes, e historiadores, calará acerca dela a nossa mal aparada pena, e só faremos um voto para que a mão do homem não derrube os últimos cedros que a assombram, e que são testemunhas das memórias de muitos séculos.

O Panorama. Número 51. 21 de Abril de 1838. Pg. 122-123

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 22:15

Sábado, 14.10.17

Coimbra: Sé Nova visita guiada

Conforme oportunamente foi anunciado realizou-se hoje, numa organização do blogue A’Cerca de Coimbra, a visita guiada orientada pelo Professor Doutor Nelson Correia Borges, a qual contou com a presença de cerca de 60 pessoas, cuja participação atenta é de assinalar e agradecer.

Agradecemos, de novo, os apoios que permitiram a realização deste evento, a saber: Paróquia da Sé Nova, Câmara Municipal de Coimbra Pelouro da Cultura, Clube de Comunicação Social de Coimbra, Grupo de Arqueologia e Arte do Centro e os blogues "Cromos", Personalidades e Estórias de Coimbra, Coimbra antiga e moderna, Coimbra Moderna, Bairro Norton de Matos, Coimbra livre e aberta a todos, Penedo da Saudade Tertúlia.

A visita teve os seguintes momentos:

1.– Introdução histórica.

  1. – Análise da fachada.
  2. – Guarda-vento. Azulejaria.

4.– Espaço litúrgico. Características.

  1. – Capelas do flanco esquerdo:
  2. – Capela do Sacramento.
  3. – Capela da Vida da Virgem.
  4. – Capela de S. Francisco Xavier ou S. Tomás de Vila Nova.
  5. – Grades de pau-preto e bronzes dourados.
  6. – Capela de Nossa Senhora das Neves.
  7. – Transepto. Retábulos. Relicários.
  8. – Senhora da Boa Morte.
  9. – Capela-mor. Retábulo. Cadeirais. Órgão.
  10. – Sacristia. Arcazes. Pinturas Inacianas e Xavierianas. Gaspar de La Huerta.
  11. – Relicários

Uma palavra muito especial de agradecimento do Senhor Professor Doutor Nelson Correia Borges.

Da folha de apoio à visita e da própria visita ficam as seguintes imagens.

Sé Nova. Planta.jpg

Planta da igreja, antes da ampliação

Sé Nova. Sra da Boa Morte.jpg

Festa de N. Senhora da Boa Morte

Visita 1.JPG

Visita

Visita 2.JPG

Visita

Visita 3.JPG

Visita

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 22:44

Quinta-feira, 12.10.17

Coimbra: Sé Nova 2

Roteiro dos visitantes

Sé Nova planta.jpg

Sé Nova planta

 1 – Escadaria de vários degraus, em forma poligonal

2 – Átrio, sob o coro ... guarda-vento porticado, setecentista

3 – Nave ... num austero programa de formas arquitetónicas maneiristas, italianas

4 – Capela de Santa Maria Madalena ... Pia batismal, manuelina, de feições ainda góticas

5 – Capela de Sant’António ... Tem entablamento, no qual sobressaem duas mísulas, que são continuadas no corpo superior, por duas pilastras, onde figura Nossa Senhora

6 – Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, ou da Ressurreição de Cristo ... duas telas alusivas ao Senhor Ressuscitado, que quis aparecer, em presença real, à Vigem Maria, Sua Mãe ... notável escultura da virgem e mártir conimbricense da Reconquista, Santa Comba

7 – Capela de Sant’Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus ... dez imagens de vulto, com doçura nos rostos e quietude nas atitudes.

8 – Púlpitos ... posicionam-se de frente, para que dois pregadores participassem, simultaneamente, no desenvolvimento da temática tartada, num diálogo, por vezes cerrado, pois, um expunha pontos doutrinários que, por sua vez, um outro rebatia, proporcionando, por isso, benéficos confrontos argumentativos

9 – Retábulo do braço poente do transepto ... preenche todos os espaços da parede: na parte central ... encontram-se dois grandes armários relicários, aos quais se sobrepõem as esculturas dos evangelistas São Marcos e São Mateus

Sé Nova altar lateral.jpg

Retábulo da glorificação da Virgem Maria

 ... composição retabular da glorificação da Virgem Maria, representada num painel policromo, central, de tamanho natural

10 – Sacristia ... retangular, com abóbada de tijolo, semicircular, e janelas ornadas d grinaldas ... nas paredes ... quinze telas seiscentistas, em fiadas sobrepostas, alusivas, quer à vida de Sant’Inácio de Loiola, quer de São Francisco Xavier ...além de duas grandes tábuas de meados de Quinhentos: a Circuncisão de Jesus ... e Natividade

11 – Capela colateral ... com retábulo setecentista

12 – Capela-mor foi prolongada no século XVIII, logo que ficou pertença da diocese ... o retábulo do fundo barroco, ligeiramente côncavo, de finais de Seiscentos, tem um par de grandes colunas nas extremidades, torcidas, enramadas de pâmpanos, com aves do paraíso, grossas uvas em cacho e «putti», com instrumentos musicais ou participando noutras tarefas infantis ... Sant’Inácio de Loiola, São Francisco Xavier – em dimensões naturais – São Francisco de Borja ... Sant’Estanislau Kostka, já menores ... Na parece central, uma tela seiscentista, do Presépio

13 – Capela colateral ... retábulo setecentista, pequeno

14 – Cúpula majestosa pelas grandezas volumétricas .. culminar os abobadamentos das linhas axiais ali cruzadas ... coroado pelo lanternim

15 – Retábulo ... do braço nascente ... similar ao que lhe fica diante ...na composição central, tem a Sagrada Família ... em dimensão natural ... os outros dois evangelistas, São Lucas e São João

16 – Capela do Santíssimo Sacramento, também chamada da Santíssima Trindade, forma-se de dois corpos sobrepostos: o primeiro tem ... uma tela de Nossa Senhora da Conceição ... no corpo superior ... a tela da Trindade Santíssima

17 – Capela de São Francisco Xavier ... magnifico trabalho, situado na transição dos retábulos clássicos aos barrocos

Talha predela c evoc S. Fr. Xavier.jpg

Predela com evocação de São Francisco Xavier

18 – Capela da vida de Virgem ... muitos episódios marianos ... Glorificação da Virgem, Anunciação, Sagrada Família, Visitação, bem assim da Coroação ... singular escultura de vulto, da Conceição

19 – Capela de Nossa Senhora das Neves ... quase nada se sabe do primitivo retábulo ... foi substituído na terceira década do século XVIII

20 – Torres sineiras ... subsistem sinos com símbolos jesuíticos

21 – Claustro ... de boa mas severa composição, do século XVII.s

Coutinho, J.E.R. 2003. Sé Nova de Coimbra. Colégio das Onze Mil Virgens – Igreja dos Jesuítas. Coimbra, Paróquia da Sé Nova, pg. 40-87

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 22:26

Terça-feira, 10.10.17

Coimbra: Sé Nova 1

Partindo dos elementos da fachada, nota-se que se distribuem através do plano vertical, com pequeno jogo de volumes, pois, compõem-se de pilastras dóricas, ficando, nos três espaços centrais, as três portas de frontões, que são sobrepujadas por outras tantas janelas, também superiormente decoradas; nos dois laterais, há quatro nichos, com as imagens de santos jesuítas dos primeiros tempos, figurando Sant’Inácio, São Luís Gonzaga, São Francisco Xavier e São Francisco de Borja, respetivamente distribuídos em grupos, a cada lado.

Sé Nova 06 a.jpg

 Sé Nova, fachada

Logo por cima, tem lugar o corpo superior, mais estreito, conforme previam os cânones epocais, oito por dois agrupamentos de pilastras jónicas, sustentando frontões interrompidos, além daquele central, mais elevado, num espaço preenchido pelas armas heráldicas nacionais. Três grandes janelas iluminavam a nave; duas outras, como que flanqueiam aqueles símbolos portugueses.

Felizmente, harmonizam as diferenças de largura duas enormes aletas fitomórficas, que quase chegam à base das esculturas dos apóstolos São Pedro, bem como de São Paulo, qualquer delas em dimensões correspondentes ao dobro do que seria natural.

Grandiosos pináculos piramidais, alongados, e terminados em composições esferoidais, parecem indicar a suprema projeção da cruz redentora, colocadas no topo da composição frontal.

Vista no geral, a vastíssima nave, tipo salão de reconhecida largueza, cheia de luz, é de quatro tramos, também divididos por pilastras dóricas aos pares, que suportam grandes entablamentos: entre cada conjunto lateral, abrem-se capelas nos flancos, cujas entradas são de pilastras iguais às mencionadas. Comunicam entre si, de modo que há como que corredores estreitos, longitudinais às linhas axiais da mesma nave.

Sé Nova.Interior da igreja. Geral 02.jpg

Sé Nova, nave

Realçam-se, mais ainda, certos aspetos arquitetónicos: às pilastras correspondem, nos abobadamentos, arcos torais de menor teor, nos quais se fazem apoiar os caixotões, que formam, por tramo, três ordens, com onze cada.

Todavia, nas abóbadas dos braços do transepto, bem assim da capela-mor, têm tramos mais curtos, somente de duas ordens de treze quartelas.

Justamente, depois, a cúpula do cruzeiro, sem tambor intermédio, reproduz uma portentosa configuração hemisférica, composta de cinco notáveis ordens de caixotões, tendo seis cada qual. Também assenta num entablamento, circular, apoiado nos arcos, por intermédio de triângulos esféricos, e termina por um lanternim; externamente, fica posicionada num maciço quase cúbico. 

Coutinho, J.E.R. 2003. Sé Nova de Coimbra. Colégio das Onze Mil Virgens – Igreja dos Jesuítas. Coimbra, Paróquia da Sé Nova, pg. 35-38

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 20:24

Quinta-feira, 21.09.17

Sé Nova: visita guiada

Sé Nova: do Maneirismo ao Barroco – formas, símbolos e história.

Visita orientada pelo Professor Doutor Nelson Correia Borges

Sé Nova 06 a.jpg

 Data do evento:

14.10.2017, sábado, às 10h00

Organização

A’Cerca de Coimbra (blogue)

Apoios

Paróquia da Sé Nova

Câmara Municipal de Coimbra

Clube de Comunicação Social de Coimbra

"Cromos", Personalidades e Estórias de Coimbra (blogue)

Coimbra antiga e moderna (blogue)

Coimbra livre e aberta a todos (blogue)

Penedo da Saudade Tertúlia (blogue)

Público-alvo

Todos os interessados na história e cultura coimbrã

Visita livre (sem prévia inscrição)

 Objetivos

- Integrar o monumento no seu contexto histórico

- Identificar alguns seus elementos constitutivos

- Sensibilizar os participantes para a relevância da Sé Nova no património cultural da Cidade

Programa

09h45 – Concentração dos participantes junto às escadas de acesso da Sé

10h00 – Início da visita

. Breve exposição: o Colégio de Jesus, a sua época e o seu projeto

. Percurso

11h30 – Fim da visita

                                                                  AJUDE À DIVULGAÇÃO

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 17:25

Terça-feira, 08.08.17

Coimbra: Colégio de Jesus 2

Pertenceu aos «Padres da Companhia de Jesus» ou «jesuítas».

Fundado em 1542, este Colégio foi o primeiro que a Companhia teve em todo o mundo... Funcionou a princípio provisoriamente numa casa na... Couraça dos Apóstolos.

Por carta régia de D. João III, datada de 16 de Agosto de 1544 foi concedida aos colegiais deste instituto ... «todos os privilégios, liberdades, graças e franquezas ... de que usam ... os lentes e deputados e conselheiros da Universidade»

... A 14 de Abril de 1547 ... lançamento da primeira pedra, a obra do edifício definitivo, o maior e mais grandioso que jamais se ergueu em Coimbra.

...A planta destas construções tem a forma de um retângulo, medindo tanto o lado oriental como o ocidental 108 metros de extensão, e os lados meridional e setentrional 94 metros cada um.

Colégio de Jesus desenho.TIFColégio de Jesus

 ... Mais tarde construíram-se dois pequenos corpos de passadiços ou corredores, perpendiculares à fachada oriental, projetando-se para leste: um dava comunicação do Colégio de Jesus para o Real Colégio das Artes; o outro comunicava com um outro edifício fronteiro, onde estavam a cozinha, a dispensa e outras oficinas, sito aproximadamente onde hoje é o Laboratório Químico.

... A obra ia prosseguindo, embora um pouco lentamente... É preciso que se saiba que do antigo edifício pouco resta além do templo e de parte das paredes, ainda assim profundamente modificadas e enobrecidas.

... Foi este (o templo) a última parte do edifício a construir-se, pois corria já o ano de 1598 quando... colocou «ritu pontificali» a primeira pedra. Decorreram quarenta e um anos enquanto se foi construindo a grande nave com as suas capelas; ... logo este corpo se isolou, por um taipal ... levantou-se um altar provisório ... benzido na tarde de 31 de Dezembro de 1639.

... Continuaram a decorrer as obras durante mais de meio século, até se achar completo o transepto e capela-mor. Foi em 1698, a 31 de Julho, que se fez a inauguração do templo... havia passado um século desde a bênção e colocação da primeira pedra.

Mas estava então ainda longe o complemento das obras, que foram continuando, tanto no exterior como no interior, durante o 1.º quartel do século XVIII. A parte superior da fachada deve ter sido executada no princípio deste século; o douramento do retábulo do altar-mor concluiu-se em 1712, e os retábulos colaterais do transepto foram dourados em 1724.

... Pouco tempo gozaram os jesuítas de Coimbra a sua magnificentíssima igreja colegial, depois de concluída e perfeita.

Presos a 15 de Fevereiro de 1759... foi extinto o Colégio, e os respetivos edifícios ficaram abandonados durante treze anos.

... foi cedido ao Bispo e ao Cabido de Coimbra o templo ... para servir de catedral, com o seu claustro e com o corpo meridional do Colégio que lhe era contiguo, assim como grande parte do edifício que se estendia a ocidente da igreja; à Universidade, para instalação dos museus e mais estabelecimentos das Faculdades de Medicina e de Filosofia, foi concedido todo o resto do edifício.

O Hospital Real de Coimbra... Ficou instalado no ângulo NO do edifício.

Após a proclamação da Republica os serviços universitários ocuparam as partes do edifício que estavam em poder dos cónegos, com exclusão da igreja, torres dos sinos, claustro, sacristia e algumas dependências desta.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 190-196, do Vol. I

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:10

Quinta-feira, 03.08.17

Coimbra: Colégio de Jesus 1

Desde os primeiros tempos em Portugal, ainda com Xavier (S. Francisco Xavier), que a ideia de fundar um colégio junto da Universidade de Coimbra parecia ... de capital importância.

... Finalmente, a 9 de Junho de 1542, Simão Rodrigues (português que foi o provincial da primeira província da Companhia de Jesus no mundo, a Província Lusitana) e doze companheiros, em expressiva atitude simbólica, partem de Lisboa a caminho de Coimbra, entrando na cidade universitária no dia de S. António desse mesmo ano ... Hospedaram-se no Mosteiro de Santa Cruz, para o que levaram carta de recomendação de D. João III ... o soberano recomendava que os mandasse agasalhar na hospedaria do mosteiro ... Aí estarão três semanas.

... Simão Rodrigues rapidamente procurou, na parte alta da cidade, casas apropriadas para se instalarem ... alugam-se e depois compram-se duas casas ... na denominada Rua Nova d’El Rei, a qual viria mais tarde, a desaparecer  com a construção  do grande edifício do Colégio de Jesus. As casas para onde se mudaram ... a 2 de Julho de 1542, eram novas, mas pouco espaçosas.

... A 11 de Março de 1543 dará entrada no noviciado o primeiro aluno da Universidade.

... Por fim, a 14 de Abril de 1547, quinta-feira depois da Páscoa, procedeu-se ao lançamento da primeira pedra do novo colégio ... a primeira foi lançada à honra do nome santíssimo de Jesus ... Estava assim fundado o Colégio de Jesus, o primeiro que os Jesuítas tiveram em Portugal.

Colégio de Jesus primeira pedra.jpgColégio de Jesus, primeira pedra

 In: Coutinho, J.E.R. 2003. Sé Nova de Coimbra. Colégio das Onze Mil Virgens.Igreja de Jesuítas. Coimbra, Paróquia da Sé Nova, pg. 34

 

Perderam-se os primeiros planos, elaborados pelo arquiteto régio ao serviço da Universidade, Diogo de Castilho, como se perdeu também uma visão concreta da estratégia inicial para a estrutura colegial ... Muito rapidamente, a 17 de Junho do mesmo ano, estabeleceram-se os limites da cerca que “começará detrás do muro, que vem da Porta Nova, onde ha um cunhal do dicto collegio, abaixo das casas de João de Sá, conego, e irá até o caminho que vem do Corpo de Deus e vae para a egreja de S. Martinho, que está fora do muro, e seguirá o caminho até que defronte da outra cerca, que o dicto collegio tem sobre o muro, a qual vai entestar com a ermida de S. Sebastião.

... Quando, finalmente, todo o espaço (colégio das Artes, colégio de S. Miguel e colégio de Todos-os-Santos junto ao Mosteiro de Santa Cruz)  é entregue à Inquisição, a Companhia de Jesus transporta consigo o colégio das Artes para a parte alta da cidade ... A partir daqui, numa ação conjunta e articulada, os dois colégios, das Artes e de Jesus, crescerão separados fisicamente mas unidos pela mesma fonte de proteção e de autoridade

... A defesa da união dos colégios .. obrigará ... à reformulação dos projetos ... A primeira pedra (do novo colégio das Artes), lançada em 1568, significará também o começo de um percurso construtivo longo e pautado por reconversões de vária índole.

... Por outro lado, as alterações a que o complexo jesuítico foi submetido até ao século XVIII mostram a ausência de rigidez programática da Companhia de Jesus tanto como a sua capacidade de adaptação a novas circunstâncias. A estrutura que viria globalmente a manter-se sofreu diversos ajustamentos já visíveis na conhecida gravura romana de Carlo Grandi, datada de 1732.

Colégio de Jesus desenho.TIFColégio de Jesus e Colégio das Artes em 1732

 Os mais significativos passam pela deslocação do eixo da igreja para poente originando a assimetria entre os pátios formados pelos blocos perpendiculares.

... Em 1732 já estavam também operativas as ligações estabelecidas com a zona das cozinhas e refeitório ... e com o grande bloco do colégio das Artes.

... Praticamente sem alterações, a força deste conjunto chegaria a 1772 ... A Reforma Pombalina da Universidade deu diferente ocupação aos espaços.

Craveiro, M.L. e Trigueiros, A. J. 2011. A Sé Nova de Coimbra. Coimbra, Direção Regional de Cultura do Centro, pg. 13-17, 29-31, 39

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 09:23

Terça-feira, 06.06.17

Coimbra: Cidade ECHO?

Assisti no passado domingo, dia 4 de Junho, pela segunda vez, a um concerto dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

Tomei então conhecimento da existência da ECHO (Europae Civitates Historicorum Organorum) que foi fundada em 1997 e tem como objetivo desempenhar um papel unificador em projetos a nível europeu das cidades com órgãos de valor histórico e de origem europeia.

Integram esta rede Alkmaar (Holanda), Bruxelas (Bélgica), Freiberg (Alemanha), Fribourg (suíça), Innsbruck (Áustria), Mafra (Portugal). Toulouse (França), Treviso (Itália) e Trondheim (Noruega).

 

Igreja de Santa Cruz. Orgão 02.jpg

 Órgão da Igreja de Santa Cruz

Coimbra, por direito próprio, podia e devia pertencer a este Rede, porque:

- Dispõe de três grandes órgãos históricos – Igreja de Santa Cruz, Universidade e Sé Nova – recentemente recuperados, e ainda o órgão do Seminário de Coimbra de muito boa qualidade e operacional e o da Igreja do Colégio Novo que foi objeto de recuperação no início da segunda metade do século passado;

 

Capela Universidade Orgão.jpg

 Órgão da Capela da Universidade

- Existem ainda nos Concelhos limítrofes dois outros órgãos recentemente recuperados e de valor inestimável: o do Mosteiro de Lorvão (Penacova); e o do Convento de Semide (Miranda do Corvo);

- Teve Coimbra duas escolas de música de referência do nosso País, com produção organística própria: a do Mosteiro de Santa Cruz; e a da Universidade.

De tudo o que atrás refiro sugiro o seguinte conjunto de perguntas:

- Quantas cidades do Mundo se podem orgulhar de um património organístico desta dimensão?

- Depois dos vultuosos investimentos feitos e sendo condição necessária para a boa manutenção destes instrumentos o seu uso regular, o que se tem feito a Cidade para que a mesma aconteça?

- Não tem Coimbra capacidade económica para ter um organista residente que assegure aquele uso regular?

- Não será este um elemento muito importante não só para a vida cultural de Coimbra e da Região onde se insere, bem como para o desenvolvimento do turismo cultural que todos defendem?

- Não é possível a conjugação de vontades entre os Municípios de Coimbra, de Penacova, de Miranda do Corvo, da Diocese, da Universidade, da Misericórdia de Coimbra, da Direção Regional de Cultura do Centro e da Região de Turismo Centro de Portugal, tendo em vista a potenciação do património organístico aqui existente?

Eu tenho as minhas respostas. Acho que todos devem ter as suas.

Rodrigues Costa

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 09:05

Segunda-feira, 08.05.17

Coimbra: Santa Comba, uma santa esquecida 1

Contavam as antigas tradições, que a Virgem cristã Comba (Columba-Coomba-Comba), em tempos em que esta região era dominada pelos mouros, fora requestada por um poderoso príncipe crente de Mafoma, a qual, para se escapar às suas ternuras e solicitações, fugira para estes sítios, então ocupados por floresta inextricável, onde conseguiu ocultar-se algum tempo. Descoberta um dia pelo príncipe apaixonado, quando ela ia ao fundo da colina, buscar água à fonte, que ainda hoje se chama da Santa, novas tentativas de sedução a envolveram.

Como fosse inabalável a resistência da donzela a apostar da fé em Cristo, e a romper o seu voto religioso de virgindade, arrastaram-na encosta acima até uma clareira, onde os cristãos haviam erguido uma grande cruz de madeira para aí se reunirem e orarem; nesta cruz a fixaram os do séquito do príncipe, e, assim exposta, foi alvejada com setas, até exalar o último suspiro, invocando, com os olhos no céu, o divino Esposo.

Depois os cristãos tiraram da cruz o corpo da Mártir, e sepultaram-no naquele mesmo local, onde sofrera o martírio, e que ficou a ser muito frequentado de gente piedosa, que vinha junto da sepultura suplicar as intercessões da Santa.

Tempos decorridos, passou Coimbra ao domínio dos cristãos, sendo então construída uma capelinha modesta, da invocação de S." Comba, que ficou a abrigar a sepultura.

Até aqui o que nos dizem as lendas.

Esta capelinha existia, é certo, no século XII ... nos princípios do 2.° quartel daquele século, foram procuradas as relíquias de S.ta Comba na cripta da sua capela, onde a tradição dizia haver sido sepultada. Lá encontraram o esqueleto, que pelos monges da Caridade foi trasladado para a sua igreja de S.ta Justa, de cujas ruínas ainda hoje restam vestígios no local conhecido pela denominação de terreiro da herva.

Decorridos alguns anos, foram as venerandas relíquias segunda vez trasladadas, agora para a igreja de S. João, contígua ao templo de S.ta Cruz.

Ainda há anos se via numa parede da casa, que atualmente está transformada em café ou restaurante, uma lápide com inscrição a designar o local, onde as relíquias estiveram depositadas. Dizia em belos caracteres do século XII, onciais de mistura com capitais: HIC QVIESCVNT OSSA BEATE COLVMBE

Mais tarde, no século XIII, fez-se nova trasladação, desta vez para o templo do mosteiro crúzio, donde vieram a ser cedidas relíquias para algumas igrejas, indo uma relíquia insigne para a Catedral, onde se erigiu um altar na nave da Epístola em honra de S." Comba.

 

Sé Nova St. Comba.jpgPor fim as relíquias restantes da Virgem e Mártir de Coimbra foram recolhidas no Santuário de S.ta Cruz, e ali se guardam.

... Considerava-se S.ta Comba especial advogada contra as maleitas ou sezões, doença que atacava e dizimava os habitantes dos campos do Mondego, então pantanosos e muito insalubres.

Vasconcelos, A. A ermida de Santa Comba. In “Correio de Coimbra”, 227, Coimbra, 1926.09.25.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:34

Quinta-feira, 09.03.17

Coimbra: Cemitério da Conchada, ou o caminho para a sua existência 2

Depois de bastantes hesitações sobre a escolha do terreno para o cemitério de Coimbra, a câmara adotou o alto da Conchada na quinta do Pio por indicação de peritos, nomeados em comissão pelo governo civil em 12 de Agosto de 1851. Outra comissão demarcou o terreno, que deveria ser expropriado, em 25 de Setembro do mesmo ano.

...“As nove freguesias da cidade tem nas suas igrejas, nos claustros da Sé Nova, e nos péssimos cemitérios de S. Pedro e Salvador, 972 sepulturas; e, tendo sido de 302 por ano o termo médio dos óbitos nos últimos dez anos, devem ter-se aberto as sepulturas com intervalos de 38 meses e meio (Costa Simões – Relatório da gerência municipal de Coimbra nos dois annos decorridos desde o 1.º de janeiro de 1856 até ao último de dezembro de 1857).

... Com todos estes trabalhos do meu plano do cemitério, começou a construção no cunhal SO, do mesmo cemitério em 30 de Setembro de 1852.

Cemitério da Conchada, planta.jpg

Cemitério da Conchada, planta primitiva

... Entrando, mais tarde ... na presidência da Câmara, para o biénio de 1856 e 1857, encontrei construída uma porção e muro do mesmo cunhal SO, a maior parte da muralha que sustenta o tabuleiro norte e os alicerces em quase todo o perímetro do cemitério.

Durante a minha gerência ativei os trabalhos; e, no fim do primeiro ano, tinha já concluído toda a muralha que sustenta o tabuleiro inferior, quase toda a que devia sustentar o tabuleiro imediato, grande parte dos muros de topo daquele primeiro tabuleiro, parte dos muros do tabuleiro sul e o respetivo movimento de terras. Estavam construídos os alicerces da capela e de todo o perímetro do cemitério, e ainda outras obras de menor custo por todos os tabuleiros e alameda contígua. A estrada ficou aberta ao transito em toda a sua extensão, desde o largo da Fonte Nova, por Montarroio, cerca da Graça, até ao cemitério.

Nestas alturas uma grande trovoada, em Dezembro de 1856, fez desabar uma parte da muralha norte; e arruinou quase todo o paredão do segundo tabuleiro.

Coincidiu este facto com desinteligências que, pouco antes, se tinham levantado entre a câmara e o governador civil ... e daí por diante as influências políticas ... procuravam por todos os meios o descrédito de tudo o que se tinha feito em favor do cemitério.

Pretendeu-se que a fosse a câmara responsável por todos os prejuízos causados por aquele desabamento.

... Malogrado este meio de agressão à câmara, recorreu-se ao descrédito do plano do cemitério ... o presidente da nova câmara propôs que se abandonasse o cemitério em construção, e que se adotasse novo plano em novo local.

Contra o cemitério em construção alegou-se: 1.º que era absurdamente grande e mal colocado; 2.º que ficaria excessivamente caro.

Simões, A.A.C. 1882. Dos Hospitaes da Universidade de Coimbra. Coimbra. Imprensa da Universidade, pg. 112-113, 119-122

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 14:18


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Julho 2018

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031