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A' Cerca de Coimbra


Segunda-feira, 08.02.16

Coimbra, a “cidade das grades” 1

Coimbra, a “cidade das grades”, como lhe chamou Vergílio Correia, tinha produção de ferro própria, embora insuficiente, para certas necessidades

… Com o intensificar do uso do ferro fundido, a partir de meados de Oitocentos, não surpreende que as oficinas localizadas em Coimbra se tivessem dedicado mais à obra em ferro fundido do que em ferro forjado. Contudo, ainda na segunda metade daquela centúria, se encontram algumas referências ao ferro forjado. Assim, José Bernardes Galinha apresentou, na Exposição Distrital de Indústria, Agrícola e Fabril e de Arqueologia (Coimbra, 1869), vários objetos de ferro fundido (fogões, inclusive um para trabalhar com gás, panelas, compassos, etc.), mas também «dois varões de ferro sextavados, e só forjados, para amostra».
Aquele, falecido em 1873, fez parte de uma dinastia célebre de artistas do ferro que, ao longo de quatro ou cinco gerações (desde Manuel Bernardes Galinha, autor do conhecido portão do Jardim Botânico, que falecera em 1864, e o seu descendente, Joaquim Ferreira Galinha, que viria a morrer em 1924), se dedicaram, em Coimbra, às artes do ferro.
Já no que concerne a outras oficinas, além de se mencionarem diversos tipos de objetos ou utensílios produzidos, em vários casos se refere, expressamente, a existência de fundição. Vejamos alguns exemplos:
- Oficina de carruagens, na rua da Sofia, de Manuel da Costa Soares (1876).
- José Alves Coimbra e seu irmão, António Alves Coimbra, com estabelecimento no Largo das Ameias, de fronte do Hotel Mondego (1879), onde faziam qualquer obra de ferro fundido (panelas, testos, fogareiros, fornalhas), encontrando-se, alguns anos mais tarde (1888), a produzir para o mercado de Lisboa.
- Oficina de serralharia, de António Bernardes Galinha (Rua de Quebra Costas, 29), na qual, além do mais, se produziam «camas de ferro, de novo gosto, superiores às de Lisboa e do Porto».
- Joaquim Augusto das Neves Eliseu (morador na Rua das Figueirinhas, 21), com a produção de vários objetos, em folha maneável ou por fundição.
. Oficina de Serralharia a Vapor, de Eduardo & Almeida (Rua da Madalena) que, além de outros artigos, produzia máquinas a vapor (de 1 a 15 cv.).

Pelos exemplos que acabo de referir, pode deduzir-se que, a avaliar pela oferta de diversos artigos, a “civilização do ferro” também ia chegando a Coimbra. Isto não obstante a lentidão com que, nas construções, a madeira ia cedendo o lugar ao metal. Assim, numa fonte dos finais do século (1894), pode ler-se: «Compreende-se que as construções civis ainda não deem entre nós um grande consumo ao aço, sob a forma de vigas, por exemplo, em que preenche o uso da madeira; começa-se a notar, no entanto, que algumas das mais cuidadas edificações, a despeito do sistema tradicional e tido entre nós como o melhor para prevenir os efeitos de certos acidentes, têm já empregado o vigamento metálico».

Em 1920, duma escritura de partilhas de bens, situados na Baixa de Coimbra, constam cinco serralharias localizadas, respetivamente, nas ruas do Arnado (3), da Nogueira (1) e da Madalena (1). Na Rua do Arnado situava-se ainda uma fundição.

Mendes, J.A. 2000. O Ferro na História: Das Artes Mecânicas às Belas-Artes. In Gestão e Desenvolvimento, 9 (2000), 301-318. Pg. 308 a 310

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por Rodrigues Costa às 12:27

Quinta-feira, 24.12.15

Coimbra, caminhos e bairros a nascente da Cidade

Nada mais natural pensar que a antiga estrada da Beira até á Portela tenha seguido um traçado que a atual decalca; o próprio terreno parece indicar esse lógico trajeto; e todavia não se deu isso.
… A estrada da Beira partia não da ponte mas da parte alta, da porta do Castelo … Passada a porta da fortaleza tinha-se logo abaixo ao lado direito o caminho que permitia voltar á cidade pela porta da Traição; à esquerda a estrada de Entremuros que levaria a Fonte Nova, de onde se tomaria para a porta Nova ou rua das Figueirinhas ou ainda se cortaria a norte para o Montarroio.
… Muito naturalmente o sítio, na parte mais plana, a do colo do monte, pedia um agregadozinho populacional. Ao lado direito, aonde vinha bater o muro da velha quinta dos crúzios, havia um, como hoje, em frente ao aqueduto. Prolongava-se mais que agora (e duma demolição recente ainda nos lembramos todos), fazendo uma correnteza de casas, tendo só encostadas aos arcos e em frente portanto das outras umas duas ou três.
Tinha para o lado da Penitenciária a modesta capela de S. Martinho, e em ponto levemente anterior o oratório do Santo Cristo das Maleitas, transformação dum cruzeiro de caminho.
Era este o fatal bairro popular que precedia a entrada das cidades fortificadas. Tabernas, pequenos negócios, gente sem eira nem beira, vivendo em tugúrios e pronta a qualquer serviço humilde, a alombar todos os carregos, a encarregar-se de qualquer recado, tudo isso aí ficaria.
Sigamos o caminho, passando sob o arco principal, pois que a topografia foi modificada com o muro do jardim botânico. Era aqui o ladeirento e pequeno campo de Santa Ana, com o chafariz, donde seguia o caminho de Celas e cortava o da Beira para o novo bairrozinho, o de S. José, tirando o nome do colégio conventual de S. José dos Marianos (hospital militar).
… Começava a descida e, à capela de Santo Antoninho dos porcos (pois que ali se fazia o mercado deles) passava o caminho pelo desvio angular que ainda ali se vê, para depois se meter pela ladeira calçada das Alpenduradas.
No fundo da descida, depois do mercado e das traseiras da fábrica, atingindo o vale, encontrava-se, como hoje, o começo do bairro do Calhabé e que se continuava esgarçadamente até perto da passagem de nível, sítio este aonde todos nós conhecemos umas casa baixas. Numa destas parece que viveu o velho Calhabé, prazenteiro e bebedor, mas que fora homem de representação.
Já outrora ninguém pensaria que ainda fosse cidade o Calhabé, bem ao contrário do que os justos fados talharam e que começa a realizar-se: o Calhabé ser a cidade e Coimbra um pobre bairro do mesmo Calhabé!
Podia-se descansar um pouco que uma nova ladeira esperava o caminhante. Lentamente subia-se á Portela da Cobiça. Lançado um último olhar à cidade afastada, transposto o colo, caminhava-se pelo vale transverso até ao rio, que depois se ia acompanhando para cima das Torres. Em frente aos Palheiros esperava-se que a barca do concelho viesse da outra margem e nos transportasse.
A cidade, aonde ficava ela!
… Lá seguiriam os viandantes, pelo cume, até Carvalho. Por Poiares, Almas da Serra, (S. Pedro Dias) iriam cair na Ponte de Mucela, aonde buscariam agasalho conforme a sua bolsa.
A serra máxima, a da Estrela do pastor, esperava-os.

Gonçalves, A. N. 1952. Antigos Caminhos e Pequenos Bairros a Nascente da Cidade. In Diário de Coimbra, edição de 25.12.1951

 

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por Rodrigues Costa às 10:42


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