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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 13.03.18

Coimbra: O Santo Cristo do Arnado

O Professor Doutor Nelson Correia Borges acaba de divulgar este excelente texto sobre o Santo Cristo do Arnado. Consideramos que as informações nele contidas, dada a sua importância, merecem uma mais ampla difusão e não devem ficar confinadas ao círculo restrito dos leitores do jornal onde foi publicado.

Santo Cristo do Arnado.JPG

 Senhor Santo do Arnado. Claustro da Sé-Velha de Coimbra

 

Era um cruzeiro de caminhos, como tantos outros que assinalam a entrada das localidades. Situava-se na antiga entrada de Coimbra, para quem vinha do Norte.

A velha estrada do Porto correspondia à atual rua da Figueira da Foz. Passava à Gafaria de S. Lázaro, fundada e dotada pelo rei D. Sancho I e, antes de chegar à rua da Sofia, aberta por Fr. Brás de Braga para a construção dos colégios universitários, derivava para o lado do rio em terreno de areais que deram o nome ao sítio: Arnado. Foi nos campos do Arnado que o mesmo rei D. Sancho I, ainda infante, fez o seu alardo em 1181, isto é, reuniu os homens de Coimbra que com ele partiram para combater vitoriosamente no Alentejo um rei mouro de Sevilha. O largo ainda hoje mantém aproximadamente o mesmo espaço de outrora. Dele partia uma viela para o porto de Santa Justa, no Mondego, a que corresponde a atual rua do Arnado; uma outra azinhaga, mais a sul, conduzia ao porto dos Cordoeiros. Daqui se entrava na cidade pela rua Direita, uma das mais importantes de Coimbra, onde se estabeleceram violeiros e cordoeiros.

Bem no meio do largo, no século XVI, os frades do convento de S. Domingos, que ficava próximo, erigiram o cruzeiro, cobrindo-o com uma cúpula sobre quatro colunas. Esta solução construtiva ainda hoje se pode ver em Arazede, Assafarge, Pocariça, Ventosa do Bairro, Vila Nova de Anços e em outras povoações da região.

Em 1652, um devoto, de seu nome Gaspar Mendes ou Gaspar dos Reis, decidiu fazer-lhe algumas benfeitorias: ergueu mais o cruzeiro por causa do assoreamento, ou levantando os degraus antigos ou construindo novos degraus; fechou o espaço entre colunas por três lados, colocando no da frente uma grade. Em 12 de Julho de 1655 os padres de Santa Justa-a-Antiga fizeram uma procissão com o Santo Cristo do Arnado até à sua agora capelinha, sinal de que as obras se prolongaram até esta data, tendo sido durante elas a imagem guardada na igreja de que agora só restam vestígios no Terreiro da Erva.

A imagem rapidamente ganhou fama de prodigiosa. Constou-se mesmo que em 1 de agosto de 1722 suara sangue e água, o que gerou grande afluência de devotos. Logo se tratou de ampliar o espaço reduzido que continha o cruzeiro, transformando-o em capela de uma nave com capela-mor, circundada de sacristia e arrumos. As obras começaram em 1723 e terminaram em 1729, sendo, entretanto, benzida em 1727.

A capela do Santo Cristo do Arnado foi demolida pela Câmara nos primeiros decénios do século XX, para obras de urbanização. Há anos atrás, quando se abriram rasgos para colocar o coletor grande da cidade, pudemos ver os seus restos destroçados e recolher um azulejo de fabrico local, para recordação. As lápides com inscrição relatando a história da capela foram recolhidas ao Museu Machado de Castro e o cruzeiro antigo levado para o claustro da Sé Velha, onde se encontra.

O conjunto escultórico, talhado em pedra de Ançã, é impressionante.  A cruz eleva-se sobre uma coluna de fuste liso com capitel coríntio renascentista, tendo no ábaco a cruz de Cristo. Lateralmente colocaram o brasão de armas da Ordem de S. Domingos e na frente as armas reais com uma píxide sobre a coroa. A cruz é de secção retangular e ergue-se sobre uma base de rocha com uma caveira e tíbias cruzadas. A escultura mostra um corpo emaciado, com os sofrimentos da Paixão patentes, o rosto desfalecido e sereno. Não poderia deixar de ter produzido grande impressão e fervor religioso quando se encontrava na sua casa. Se pensarmos que no século XVIII deve ter havido alguma intervenção na imagem, fácil nos é relacioná-la com o Cristo dos Olivais, de autoria comprovada de João de Ruão. Trata-se de uma obra que seguramente teria saído das oficinas do mestre escultor francês.

Recentemente procedeu-se ao arranjo urbanístico do Largo do Arnado. Foi pena não se ter aproveitado o ensejo para ali colocar uma qualquer memória de um culto que foi marcante no passado da cidade e que marcou muitas gerações de conimbricenses. A lendária Cindazunda já tem lugar de maior honra no brasão de Coimbra.

Nelson Correia Borges

 

Correio de Coimbra, n.º 4.683, de 2018.03.08

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por Rodrigues Costa às 09:01

Segunda-feira, 08.02.16

Coimbra, a “cidade das grades” 1

Coimbra, a “cidade das grades”, como lhe chamou Vergílio Correia, tinha produção de ferro própria, embora insuficiente, para certas necessidades

… Com o intensificar do uso do ferro fundido, a partir de meados de Oitocentos, não surpreende que as oficinas localizadas em Coimbra se tivessem dedicado mais à obra em ferro fundido do que em ferro forjado. Contudo, ainda na segunda metade daquela centúria, se encontram algumas referências ao ferro forjado. Assim, José Bernardes Galinha apresentou, na Exposição Distrital de Indústria, Agrícola e Fabril e de Arqueologia (Coimbra, 1869), vários objetos de ferro fundido (fogões, inclusive um para trabalhar com gás, panelas, compassos, etc.), mas também «dois varões de ferro sextavados, e só forjados, para amostra».
Aquele, falecido em 1873, fez parte de uma dinastia célebre de artistas do ferro que, ao longo de quatro ou cinco gerações (desde Manuel Bernardes Galinha, autor do conhecido portão do Jardim Botânico, que falecera em 1864, e o seu descendente, Joaquim Ferreira Galinha, que viria a morrer em 1924), se dedicaram, em Coimbra, às artes do ferro.
Já no que concerne a outras oficinas, além de se mencionarem diversos tipos de objetos ou utensílios produzidos, em vários casos se refere, expressamente, a existência de fundição. Vejamos alguns exemplos:
- Oficina de carruagens, na rua da Sofia, de Manuel da Costa Soares (1876).
- José Alves Coimbra e seu irmão, António Alves Coimbra, com estabelecimento no Largo das Ameias, de fronte do Hotel Mondego (1879), onde faziam qualquer obra de ferro fundido (panelas, testos, fogareiros, fornalhas), encontrando-se, alguns anos mais tarde (1888), a produzir para o mercado de Lisboa.
- Oficina de serralharia, de António Bernardes Galinha (Rua de Quebra Costas, 29), na qual, além do mais, se produziam «camas de ferro, de novo gosto, superiores às de Lisboa e do Porto».
- Joaquim Augusto das Neves Eliseu (morador na Rua das Figueirinhas, 21), com a produção de vários objetos, em folha maneável ou por fundição.
. Oficina de Serralharia a Vapor, de Eduardo & Almeida (Rua da Madalena) que, além de outros artigos, produzia máquinas a vapor (de 1 a 15 cv.).

Pelos exemplos que acabo de referir, pode deduzir-se que, a avaliar pela oferta de diversos artigos, a “civilização do ferro” também ia chegando a Coimbra. Isto não obstante a lentidão com que, nas construções, a madeira ia cedendo o lugar ao metal. Assim, numa fonte dos finais do século (1894), pode ler-se: «Compreende-se que as construções civis ainda não deem entre nós um grande consumo ao aço, sob a forma de vigas, por exemplo, em que preenche o uso da madeira; começa-se a notar, no entanto, que algumas das mais cuidadas edificações, a despeito do sistema tradicional e tido entre nós como o melhor para prevenir os efeitos de certos acidentes, têm já empregado o vigamento metálico».

Em 1920, duma escritura de partilhas de bens, situados na Baixa de Coimbra, constam cinco serralharias localizadas, respetivamente, nas ruas do Arnado (3), da Nogueira (1) e da Madalena (1). Na Rua do Arnado situava-se ainda uma fundição.

Mendes, J.A. 2000. O Ferro na História: Das Artes Mecânicas às Belas-Artes. In Gestão e Desenvolvimento, 9 (2000), 301-318. Pg. 308 a 310

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por Rodrigues Costa às 12:27


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