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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 13.03.18

Coimbra: O Santo Cristo do Arnado

O Professor Doutor Nelson Correia Borges acaba de divulgar este excelente texto sobre o Santo Cristo do Arnado. Consideramos que as informações nele contidas, dada a sua importância, merecem uma mais ampla difusão e não devem ficar confinadas ao círculo restrito dos leitores do jornal onde foi publicado.

Santo Cristo do Arnado.JPG

 Senhor Santo do Arnado. Claustro da Sé-Velha de Coimbra

 

Era um cruzeiro de caminhos, como tantos outros que assinalam a entrada das localidades. Situava-se na antiga entrada de Coimbra, para quem vinha do Norte.

A velha estrada do Porto correspondia à atual rua da Figueira da Foz. Passava à Gafaria de S. Lázaro, fundada e dotada pelo rei D. Sancho I e, antes de chegar à rua da Sofia, aberta por Fr. Brás de Braga para a construção dos colégios universitários, derivava para o lado do rio em terreno de areais que deram o nome ao sítio: Arnado. Foi nos campos do Arnado que o mesmo rei D. Sancho I, ainda infante, fez o seu alardo em 1181, isto é, reuniu os homens de Coimbra que com ele partiram para combater vitoriosamente no Alentejo um rei mouro de Sevilha. O largo ainda hoje mantém aproximadamente o mesmo espaço de outrora. Dele partia uma viela para o porto de Santa Justa, no Mondego, a que corresponde a atual rua do Arnado; uma outra azinhaga, mais a sul, conduzia ao porto dos Cordoeiros. Daqui se entrava na cidade pela rua Direita, uma das mais importantes de Coimbra, onde se estabeleceram violeiros e cordoeiros.

Bem no meio do largo, no século XVI, os frades do convento de S. Domingos, que ficava próximo, erigiram o cruzeiro, cobrindo-o com uma cúpula sobre quatro colunas. Esta solução construtiva ainda hoje se pode ver em Arazede, Assafarge, Pocariça, Ventosa do Bairro, Vila Nova de Anços e em outras povoações da região.

Em 1652, um devoto, de seu nome Gaspar Mendes ou Gaspar dos Reis, decidiu fazer-lhe algumas benfeitorias: ergueu mais o cruzeiro por causa do assoreamento, ou levantando os degraus antigos ou construindo novos degraus; fechou o espaço entre colunas por três lados, colocando no da frente uma grade. Em 12 de Julho de 1655 os padres de Santa Justa-a-Antiga fizeram uma procissão com o Santo Cristo do Arnado até à sua agora capelinha, sinal de que as obras se prolongaram até esta data, tendo sido durante elas a imagem guardada na igreja de que agora só restam vestígios no Terreiro da Erva.

A imagem rapidamente ganhou fama de prodigiosa. Constou-se mesmo que em 1 de agosto de 1722 suara sangue e água, o que gerou grande afluência de devotos. Logo se tratou de ampliar o espaço reduzido que continha o cruzeiro, transformando-o em capela de uma nave com capela-mor, circundada de sacristia e arrumos. As obras começaram em 1723 e terminaram em 1729, sendo, entretanto, benzida em 1727.

A capela do Santo Cristo do Arnado foi demolida pela Câmara nos primeiros decénios do século XX, para obras de urbanização. Há anos atrás, quando se abriram rasgos para colocar o coletor grande da cidade, pudemos ver os seus restos destroçados e recolher um azulejo de fabrico local, para recordação. As lápides com inscrição relatando a história da capela foram recolhidas ao Museu Machado de Castro e o cruzeiro antigo levado para o claustro da Sé Velha, onde se encontra.

O conjunto escultórico, talhado em pedra de Ançã, é impressionante.  A cruz eleva-se sobre uma coluna de fuste liso com capitel coríntio renascentista, tendo no ábaco a cruz de Cristo. Lateralmente colocaram o brasão de armas da Ordem de S. Domingos e na frente as armas reais com uma píxide sobre a coroa. A cruz é de secção retangular e ergue-se sobre uma base de rocha com uma caveira e tíbias cruzadas. A escultura mostra um corpo emaciado, com os sofrimentos da Paixão patentes, o rosto desfalecido e sereno. Não poderia deixar de ter produzido grande impressão e fervor religioso quando se encontrava na sua casa. Se pensarmos que no século XVIII deve ter havido alguma intervenção na imagem, fácil nos é relacioná-la com o Cristo dos Olivais, de autoria comprovada de João de Ruão. Trata-se de uma obra que seguramente teria saído das oficinas do mestre escultor francês.

Recentemente procedeu-se ao arranjo urbanístico do Largo do Arnado. Foi pena não se ter aproveitado o ensejo para ali colocar uma qualquer memória de um culto que foi marcante no passado da cidade e que marcou muitas gerações de conimbricenses. A lendária Cindazunda já tem lugar de maior honra no brasão de Coimbra.

Nelson Correia Borges

 

Correio de Coimbra, n.º 4.683, de 2018.03.08

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por Rodrigues Costa às 09:01

Terça-feira, 27.02.18

Coimbra: Alexandre Herculano e a sua visão da cidade 2

Como todas as cidades antigas, Coimbra é para ser vista de fora; porque colocada em anfiteatro o seu prospeto é formoso; mas vistas interiormente as ruas são tortuosas, e em grande parte tristes. Há ali um cunho de decrepitude; sem haver, salvo em raros edifícios, a majestade dos séculos. A bondade, porem, dos ares, a barateza do sustento, a amenidade dos campos e hortas vizinhas a tornam cómoda e agradável. Os habitantes são em geral alegres e folgazões, ao que os aconselha e inclina o céu e o ar e o solo que a Previdência lhes deu. Quando a natureza ri á roda de nós, alegra-se e folga o coração do homem, e o sorriso vem habitar nos seus lábios.

O Mondego que sumiu grande parte da antiga Coimbra, assentada na planície, ao sopé do monte onde hoje campeia o principal da cidade, é o maior rio dos que nascem em Portugal. Tem as suas fontes nos altos da serra da Estrela, e correndo por mais de vinte léguas, vem meter-se no oceano junto á vila da Figueira. – A sua pequena correnteza na proximidade de Coimbra, e o passar entre montes, cuja terra se esboroa e vem ao leito do rio com as torrentes do inverno, tem feito com que o álveo se vá alteando, de modo que nas grandes cheias os campos ficam inundados. Entretanto na cidade baixa a corrente impetuosa faz notáveis estragos, deixando as casas em sitio. Felizmente estas cheias desmedidas são pouco frequentes: mas a tortuosidade do rio que contribui para que as areias fiquem retidas, fará no decurso dos tempos com que a baixa Coimbra se converta num areal, se a arte não souber pôr barreiras invencíveis ás irrupções das águas.

Já desde os fins do século passado se trabalha por obviar a este dano certo, e aos estragos que as cheias causam nos campos de Coimbra, areando-o, e tornando-os inférteis; mas o mal não foi ainda remediado. Nos anos demasiadamente chuvosos as estacadas de encanamento são rotas e derrubadas, ficando perdido num dia o trabalho de uns poucos de anos, e o rio se estende como vasto mar por aquelas dilatadas campinas.

Rio Mondego Ponte de pedra e Portagem.jpg

 Rio Mondego ponte de pedra

 Sobre o Mondego está lançada a formosa ponte que se vê na nossa estampa, e que une a cidade com a margem esquerda do rio, dando para a estrada de Lisboa. Foi edificada por el-rei D. Afonso Henriques; mas o tempo e as aluviões do rio sepultaram a primitiva fabrica. Segundo o testemunho do historiador Barros já pelo seu tempo se haviam submergido duas pontes: a que existe, obra, quase toda, de el-rei D. Manuel, apesar de sucessivos reparos, também já vai tendo entulhados os primeiros e últimos arcos, e com o andar do tempo ficará provavelmente sepultada, como as antigas, debaixo das areias do rio.

Rua da Sofia casa Ameal.jpg

 Rua da Sofia

 Quem entra na cidade pela estrada do Porto vem desembocar na mais formosa rua da cidade, a «Sofia», rua bordada quase só de conventos, ou colégios, de diversas ordens monásticas. Estes conventos, hoje desertos, serão em breve montes de ruínas. Em Coimbra, cidade de pouco trato, não se achará quem compre estes edifícios vastíssimos; e a rua da «Sabedoria», [Sofia] orlada de paredes desmoronadas, será a imagem epigramática do estado intelectual do nosso país.

O Panorama. Número 51. 21 de Abril de 1838. Pg. 121-122

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 28.11.17

Coimbra: Rua da Sofia, ou o porquê do surgimento desta rua 2

A primeira referência à intenção de abertura da Rua da Sofia surge numa carta régia, de 17 de Abril de 1535 ... Nela ficou clara a intenção e o partido topográfico-urbanístico da iniciativa. De 20 de Março de 1538 é o primeiro documento onde surge a sua designada extensa: «Rua de Santa Sofia». Trata-se de um dos contratos com que nesse mês e no seguinte se fizeram as cedências para construções de casa na sua frente poente ... Nesses contratos ficam expressos não só a obrigação de construir num curto espaço de tempo uma «arquitetura de programa» desenvolvida em três pisos, mas também outras normas com vista a assegurar a sua regularidade formal - «a formuzura».

A construção de casas foi lenta, tendo sido frequente a reversão dos lotes e a sua revenda.

... Tanto quanto até hoje foi possível apurar, o plano inicial para a nova rua era bem simples e regular. O seu traçado conjugou as condicionantes impostas pela topografia com um alinhamento sobre a frente colegial do Mosteiro de Santa Cruz, escamoteando a igreja.

... Um dos lados da Rua da sofia, o nascente arrimado a Montarroio, foi destinando à instalação de colégios... O outro lado da Sofia destinava-se à construção de casas, prioritariamente para professores, mas também para estudantes e funcionários, regra depois completamente ultrapassada.

Rua da Sofia esquema programático.jpg

Rua da Sofia, diagrama do esquema compositivo e programático (executado por Sandra Pinto)

 ... Interessante e disciplinarmente relevante é o rigor geométrico-compositivo com que, tudo o leva a crer, o conjunto foi planeado. Ainda que na execução se não tenha caprichado tanto e algumas preexistências tenham imposto ajustamentos. Para tal terá sido usado um módulo quadrado com 6 braças (13,2 metros) de lado. Para cada colégio, num total previsto de cinco, foram deixados cinco módulos de frente e quatro de fundo, o que, com o módulo para a largura da rua, perfaz quadrados de 5x5 módulos.

... No fundo, o sistema previra 5+1 propriedades de 5x4 módulos de base 6 braças, tendo ainda mais quatro módulos de fundo.

... As igrejas eram o interface com o público de três dos quatro colégios ... o mais inovador e coerente espaço dos colégios universitários da Rua da Sofia reside nos seus claustros de dois pisos. Nele podemos encontrar a evolução portuguesa para o apuramento de um tipo que já não é o do «horto conclusus» medieval, mas sim o elemento central de composição e de distribuição da arquitetura e da vida comunitária.

Rua da Sofia excerto da gravura Hoefnagel.jpg

 Rua da Sofia, excerto da gravura de Coimbra de Georg Hoefnagel, c. 1567

 Um dos aspetos que tem sido menos valorizado no processo e realidade da Rua da Sofia é o facto de a sua abertura ter consistido numa ação urbanística verdadeiramente revolucionária para o urbanismo da cidade, em especial por ter ocorrido no momento em que a lenta, mas inexorável, subida do leito do Mondego ditava uma cada vez mais frequente e perniciosa invasão das suas margens... Quando as águas invadiam o Arnado, a já de si apertada e única saída norte da cidade, a Rua Direita, ficava intransitável.

A abertura e nivelamento da Rua da Sofia, implicaram a remoção de um considerável volume de aterro, o reacerto dos acesos a Montarroio ... A «rua nova» desde logo se constituiu coimo novo aceso norte da cidade, vendo erguida no seu extremo torre e porta com funções aduaneiras e de instauração de quarentenas, a Porta de Santa Margarida. 

Rossa, W. A Sofia. Primeiro episódio da reinstalação moderna da Universidade portuguesa. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg.19-22

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por Rodrigues Costa às 11:58

Quinta-feira, 23.11.17

Coimbra: Rua da Sofia, ou o porquê do surgimento desta rua 1

A pedra de toque da reforma do ensino empreendida por D. João III, nas décadas de 1530 e 1540, foi a criação de um nível propedêutico à universidade para o ensino das Artes.

... Numa fase prévia ... assistimos à consubstanciação planeada das novas instalações universitárias na Baixa de Coimbra dentro e a partir do Mosteiro de Santa Cruz. Depois, já no curso assumido da reforma, esse processo deu lugar ao estabelecimento da universidade em ensanche segundo uma «rua nova», a de Sofia, mas também à súbita necessidade de se ocuparem estruturas preexistentes na alta e de para ali se planear a ocupação de terrenos vagos, designadamente em todo o setor nordeste. Em Outubro de 1537, meio ano após a transferência de Lisboa para Coimbra, o rei decidiu que, afinal, a Universidade propriamente dita – os «estudos« ou os «gerais» - ficavam na Alta e que na «rua nova» da Baixa se fixariam colégios de religiosos e habitações.

No lugar inicialmente previstos para os «estudos», à cabeça dessa «rua nova», acabariam por se erguer os colégios crúzios de S. Miguel e de Todos os Santos, que, em 1544, sofreriam, por sua vez, uma profunda reforma com vista a albergarem a instituição propedêutica laica, o Colégio das Artes... O desenvolvimento e a consolidação do «campus» («avant-la-lettre») na Alta, a necessidade de instalações maiores para o Colégio das Artes ... acabaram por determinar a mudança do Colégio das Artes da Sofia, primeiro (1566) para o Colégio da Companhia de Jesus, depois para o edifício próprio iniciado em 1568.

... Pouco mais de três décadas depois de ter sido concebida como expoente urbano, urbanístico e até ideológico da reforma e concomitante instalação da Universidade em Coimbra e após ter sido reformada em sede dos estudos propedêuticos, a Rua da Sofia acabou relegada para um desempenho urbano distante do conceito e programa de «campus» universitário que a determinara.

Rua da Sofia ortofotomapa.jpg

 Rua da Sofia, ortofotomapa com a localização dos colégios

 ... Em rigor, a universidade nunca chegou a estar na Rua da Sofia, ainda que para tal tenha a rua sido aberta. Isso faz com que para um qualquer processo de avaliação patrimonial ou de valoração nos domínios da teoria e história urbanísticas, o seu programa original e a sua expressão material atual primeiro se devam isolar para então se lerem em conjugação. A Rua da Sofia vale mais pela sua materialidade arquitetónica e urbanística, pelo seu papel de ensanche de uma cidade atrofiada, pelo seu longo e rico processo de transformação sedimentada, do que pelo frustre plano funcional e ideológico que determinou a sua conformação, mas acabou longe de concretização plena.

Rossa, W. A Sofia. Primeiro episódio da reinstalação moderna da Universidade portuguesa. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 16-19

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por Rodrigues Costa às 08:11

Sexta-feira, 10.11.17

Coimbra: Colégio de S. Boaventura (2.º) ou dos Pimentas

Quando os franciscanos da regular Observância da província de Portugal («Venturas«) abandonaram, em 1616, o seu Colégio de S. Boaventura, na rua da Sofia... nele permaneceram instalados os religiosos de outro ramo da mesma Ordem, os «Franciscanos da Província dos Algarves», que já ali viviam, havia trinta anos, em companhia daqueles.

Colégio de S. Boaventura.JPG

 

 Colégio de S. Boaventura 2, adaptado a residências e estabelecimentos comerciais

Desde a referida data de 1616 em diante, é que este começaram a o Colégio de S. Boaventura, da rua da Sofia, como privativamente seu; desde então é que se pode contar, em o número dos Colégios universitários, o 2.º Colégio de S. Boaventura, pertencente aos «Pimentas», nome por que eram designados os religiosos desta província, distinguindo-se assim dos «Venturas». Os hábitos, que trajavam, também eram distintos dos destes, não no corte ou feitio, mas na cor. Usava-nos os «Venturas» de cor acastanhada, e cingiam-se com cordão de linho cru; os Pimentas tinham hábitos pretos e cordões amarelos.

Colégio de S. Boaventura 2 planta meados séc. XI

 Colégio de S. Boaventura 2, planta de meados do séc. XIX

 

Em 1715... foi reconstruído o velho edifício colegial, que se encontrava muito arruinado, ficando então na forma que manteve até 1834.

A igreja era pequena, como ainda hoje se pode verificar-se, mas elegante e muito asseada, e tinha três altares.

... Foi o edifício colegial abandonado em 1834, como os restantes... vendido em hasta pública... pela quantia de 1.201$000 reis, no dia 14 de maio de 1859.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 269-270, do Vol. I

 

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por Rodrigues Costa às 21:58

Terça-feira, 19.09.17

Coimbra: Colégio de S. Boaventura

Foi este Colégio fundado por D. João III para os «Franciscanos Conventuais da Província de Portugal» (em calão académico denominados os «Venturas»), cerca do ano de 1550.

Colégio de S. Boaventura.JPG

Colégio de S. Boaventura, na Rua da Sofia e na atualidade

Construiu-se o edifício primitivo deste Colégio a meio da rua da Sofia, à mão esquerda de quem caminha de Santa Cruz para o Carmo, em frente do Colégio do Espirito Santo. Está atualmente transformado em casas de residência particulares, mas ainda se distingue a parte que foi igreja, pelo timpano triangular que lhe remata a fachada, pela grande janela poligonal que a ilumina, e pela porta de arco semi-circular da sua entrada.

... Era bastante modesto este edificio; as portas que se acham abertas no rés-do-chão da sua fachada, são indicadas pelos n.ºs 73 a 85. O «bêco de S. Boaventura» indica-nos o limite e lado N-O da casa; o limite S-E é determinado pelo cunhal de cantaria, que se conserva bem visivel.

... passado algum tempo aqueles, que tinham edificado a casa, e a quem esta pertencia ... resolveram abandoná-la, e passaram em 1616 a viver numas casas que lhes foram emprestadas no começo da mesma rua ... Ali residiram, até que se mudaram para o Colégio definitivo, perto da Universidade.

 

Nesse tempo existia na rua Larga ... no quarteirão compreendido entre a rua de S. João e a que veio a denominar-se dos Loios, o modesto «Colégio Amiclense», fundado em 1552 ... Os religiosos Venturas pensaram em adquirir esta morada, e outra vizinhas ... Feitas as reparações indispensáveis na casa, para ela mudaram o seu Colégio universitário.

 

Depois planearam erguer no mesmo local um novo edifício, próprio e mais amplo, cuja primeira pedra foi solenemente benzida e colocada a 14 de Julho de 1665 ... A 7 de setembro de 1678 deu-se por concluída a obra.

Colégio de S. Boaventura ou dos Venturas.jpg

 

Colégio de S. Boaventura, na Rua Larga

Desde cedo fora o Colégio de S. Boaventura contado em o número dos Colégios da Universidade, na qual o incorporara a carta-régia de 20 de maio de 1566.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 234-238, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 09:59

Quinta-feira, 14.09.17

Coimbra: Colégio S. Bernardo ou do Espirito Santo

Pertencia aos «Monges Cistercienses», e principiara a ser construído o edifício no ano de 1545 ... mas foi fundado em 1550, e depois dotado pelo Cardeal-Infante D. Henrique ... Nele se instalaram os monges universitários da Ordem de S. Bernardo.

Ficava situado na rua da Sofia, no alinhamento e vizinhança do Colégio dos carmelitas calçados, do qual era separado pela azinhaga do Carmo.

Colégio de S. Bernardo.jpg

Colégio de S. Bernardo, muito transformado

 ... O edifício acha-se hoje, em parte, completamente modernizado e vestido de azulejos ... ainda conserva na fachada um pouco da antiga feição colegial, onde existem duas pilastras de cantaria, uma das quais determina o limite S-E do antigo edifício. As portas, que se veem rasgadas no novo rés-do-chão em toda a extensão da fachada do Colégio, estão atualmente indicadas pelos n.ºs 82 a 100.

Tinha dois claustros, e uma pequena igreja cujo titular era o Espirito Santo, a qual já não existe.

... Era afamada por sua riqueza em livros, muitos deles raros, a biblioteca, apontada como uma das melhores dos Colégios universitários.

... Muitos religiosos notáveis jaziam sepultados na igreja colegial.

Entre a variada cultura pela qual sobressaíam os frades colegiais do Espirito Santo, avultava o conhecimento profundo das línguas clássicas e orientais.

Gozou sempre os privilégios da Universidade, na qual se achava incorporado pela carta-régia de 1 de março de 1560.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 232-234, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 07:48

Quinta-feira, 31.08.17

Coimbra: Colégio Pontifício e Real de S. Pedro

Foi fundado em 1545 pelo canonista Dr. Rui Lopes de Carvalho... Era destinado pelo fundador a 12 clérigos pobres, que viessem estudar teologia ou cânones à Universidade.Principiou a construção do edifício em 1543 ao cabo da Rua da Sofia, entrando os primeiros estudantes em 1545, depois de confirmada a instituição por breve apostólico de 1 de Agosto deste ano. Fez-se a 29 de Junho de 1548 a sua inauguração solene, que ficou comemorada numa inscrição, aberta na base de um belo busto do patrono S. Pedro, que é guardado pela Faculdade de Letras.

Em 1572 sofreu o Colégio profunda remodelação, sendo então transferido para o novo edifício, que D. Sebastião lhe doara junto do paço real, onde se havia instalado a Universidade, passando a ser fundamentalmente um Colégio para doutores ou licenciados, que ali estagiavam a preparar-se para o professorado, etc.

Colegio Pontifício e Real de S. Pedro 01.jpg

 Colégio Pontifício e Real de S. Pedro

Construiu-se-lhe um edifício próprio, que limita por Leste o pátio universitário, desde a porta principal de ingresso, atualmente chamada «porta-férrea», até topar na Rua da Trindade. Ficou a entrada para o Colégio ao lado da «porta-férrea», adicionando-se-lhe depois ali o majestoso portal das cariátides, que, há menos de setenta anos, foi mudado para a fachada ocidental do edifício; mas o sítio, onde primitivamente estivera este ostentoso portal, uma simples porta de serviço. O edifício abandonado pelo Colégio na Rua da Sofia foi aproveitado para a instalação do... Colégio de S. Pedro dos Franciscanos Calçados.

 ... A biblioteca do Colégio de S. Pedro era importante. Tinha abundância de livros clássicos; nela se encontravam não só bons livros de cada uma das ciências professadas nas Faculdades universitárias, mas também de cultura geral, de história, de literatura, de humanidades – cerca de 8.000 volumes, entre os quais espécies bibliográficas preciosas e alguns manuscritos.

... Extinto o Colégio de S. Pedro por decreto de 16 de Julho de 1834, foi o seu edifício entregue à Universidade... o decreto de 10 de Maio de 1855 ordena ... O edifício do extinto Colégio de S. Pedro... fica ... para a acomodação da Comitiva das Pessoas Reais, quando ali forem pousar ou residir.

... Criada de novo na Universidade de Coimbra uma Faculdade de Letras, na reforma universitária de 1911... foi-lhe para este efeito designado o andar nobre.

 Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg.198-206, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 09:18

Terça-feira, 29.08.17

Coimbra: Colégio de Nossa Senhora da Graça

Fundou-o el-Rei D. João III em 1543 para os «Eremitas calçados de Santo Agostinho, sendo concluído, e por este monarca dotado, em 1548.

Incorporou-o na Universidade a carta-régia de 12 de Outubro de 1549.

Tinha o seu edifício na Rua da Sofia, a Ocidente do Colégio do Carmo, separados um do outro por uma viela, que depois se suprimiu.

Colégio de N. Senhora da Graça.jpg

Colégio de N. Senhora da Graça

 Foi muito favorecido por el-Rei com grandes privilégios. Eram apontados os seus colegiais como argumentadores subtis; o seu espirito combativo tornava-os por conflituosos e pouco simpáticos.

... É de todos os edifícios universitários aquele que melhor se conserva ainda hoje, quase intacta, a sua fachada, com as primitivas janelas, que iluminavam os escritórios de cada colegial, e ao lado de cada uma o postigo da alcova, onde dormia.

Em parte deste edifício esteve instalado, com consentimento dos religiosos, um hospital, no tempo da guerra miguelista.

Abandonado em 1834, logo a 10 de Janeiro de 1835 a Câmara de Coimbra representou ao Parlamento, pedindo o edifício para quartel. Foi concedido em 1836 com este destino, tomando dele posse a Câmara a 15 de Dezembro do mesmo ano. Nele se instalou o quartel militar.

Em 1857, o Comissariado dos Estudos requisitou da Câmara uma casa, para onde se mudasse a escola de ensino mútuo. Respondeu aquela que só tinha duas casas em condições, a do Colégio da Graça e a da torre de Almedina. Foi preferida a da Graça, devendo-se mudar para outra o quartel militar. Quando porém a Câmara mandou proceder às obras necessárias para a instalação da escola, opôs-se o oficial comandante do destacamento ali aquartelado. Deu isto lugar a vivas querelas jornalísticas.

Aloja-se atualmente (em 1938-1941) ali o quartel da Administração militar.

Colégio de N. Senhora da Graça igreja.jpg

Interior da Igreja do Colégio de N. Senhora da Graça

 Na igreja o culto esteve de princípio a cargo da Ordem terceira de Santo Agostinho; hoje é mantido pela Irmandade do Senhor dos Passos.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 196-197, do Vol. I

 

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por Rodrigues Costa às 10:11

Sexta-feira, 25.08.17

Coimbra: o Colégio de Nossa Senhora do Carmo 2

Um alerta às Autoridades de Coimbra e não só!

Construído em 1600, o claustro da Igreja do Carmo recebeu, na segunda metade do século XVIII, como decoração da galeria inferior, um revestimento de azulejos de composição figurativa, constituído, atualmente por vinte painéis recortados na parte superior, ilustrando vários episódios da vida do profeta Elias.

Colégio do Carmo azulejos 2.jpgElias fala à multidão

Ligados uns aos outros por pilastras imitando cantaria, coroadas por vasos floridos, os painéis tem vinte e quatro azulejos de altura (na parte mais alta). A parte inferior é constituída por fiadas de azulejos de pintura esponjada, em tons de manganês, azul e amarelo, simulando um silhar de pedra marmoreada.

As cenas da vida de Elias, seguem-se cronologicamente, como uma banda desenhada, sendo a leitura feito no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio. As composições são todas em monocromia, azul em fundo branco, delimitadas por possantes enquadramentos de linguagem rococó, de inspiração vegetalista, em tons de manganés, cujas formas onduladas, associadas ao jogo de pinceladas em tonalidades mais escuras ou mais claras, formam um conjunto vigoroso, como se um sopro de vento dinamizasse todos os ornatos, constituindo um revestimento azulejar de forte impacto visual.

Na parte superior de cada um dos painéis, ao centro, uma legenda em latim identifica a cena representada.

São azulejos de fabrico coimbrão, bem distintos dos azulejos produzidos em Lisboa, pelo tratamento «expressionista», não só das figuras, mas também dos motivos ornamentais que constituem osa seus enquadramentos, robustamente desenhados.

Colégio do Carmo azulejos 1.jpg

Elias e o rei Acab na vinha de Nabot

Considerado o fundador da Ordem do Carmo, não é surpreendente que o profeta Elias tenha sido escolhido como tema para decorar as paredes da galeria inferior do claustro. É, no entanto, de sublinhar que a riqueza do programa iconográfico torna este conjunto um dos mais interessantes e completos ciclos de vida de Elias aplicado como revestimento mural em Portugal.

Para a sua realização, o pintor, certamente respondendo às instruções do encomendador, baseou-se num dos livros mais relevantes da literatura carmelita: o «Speculum Carmelitanum Sive Historiae Eliani Ordinis».

... O esquecimento em que caiu o conjunto azulejar do claustro revela quanto o passar do tempo, a mudança de mentalidades, de ideais, de contextos políticos, religiosos ou sociais, têm consequências para a «sobrevivência» de um património. É urgente uma intervenção de fundo neste claustro, no intuito de preservar o revestimento de azulejos (de produção coimbrã sobre a qual ainda se sabe muito pouco) que, apesar das vicissitudes sofridas, permanece no local de origem, ilustrando uma história cujo significado tem particular expressão como programa decorativo de um espaço carmelita.

Correia, A.P.R. Um ciclo do profeta Elias no claustro do Colégio de Nossa Senhora do Carmo. Contributo para o estudo iconográfico. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 108-121

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por Rodrigues Costa às 09:31


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