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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 15.11.18

Coimbra: Edifício da Inquisição plantas e obras realizadas

Pela Senhora Dr.ª Paula França, responsável pelo Arquivo Histórico do Município de Coimbra, fui alertado para a possibilidade de descarregar, na página da Torre do Tombo, as plantas do edifício onde funcionou, em Coimbra, a Inquisição.
As plantas integram o livro datado de 1634, com um longo título, como era costume na época, Livro das Plantas e Monteas de todas as Fabricas das inquisições deste Reino … por Matheus do Couto, Arquitecto das Inquisições deste Reino.

Dado o interesse dos documentos disponibilizados não resisti ao desejo de aqui os divulgar.

Declaração das traças da Inquisição da cidade

Declaração das traças da Inquisição da cidade de Coimbra

Planta 1.ª da Inquisição de Coimbra.jpg

Planta 1.ª da Inquisição de Coimbra

 

Planta do andar do carceres altos.jpg

Planta do andar dos carceres altos

Planta do andar dos inquisidores e oficiais.jpg

Planta do andar dos inquisidores e oficiais

Plata do 1.º sobrado dos inquisidores e oficiais.

Planta do 1.º sobrado dos inquisidores e oficiais

Na mesma página é ainda possível aceder ao texto de documentos relacionados com as obras realizadas nestes edifícios. Apresentamos o seguinte exemplo
Sr.
Os Inquisidores de Coimbra escreveram a esta Conselho que era necessário concertaren se as casas em que pousa o Inquisidor Jeronjmo Teixeira porque estavam muito damnificadas e que se podia fazer de despesa nellas trinta e cinco mil reis.
Pareceo que devia Vossa Alteza ser servjdo mandar passar provisam pêra o thesoureiro da dita Inquisiçam dar dinhejro pera esta obra nam passando dos trin[ta] e cinco mil reis em Lisboa 18 de Fevereiro de 95. Bispo d Elvas - Diogo de Sousa-Marcos Teixeira

Felipe Tertio depois de fazer a traça dos cárceres desta Inquisiçam que mandamos a Vossa Alteza considerando mjlhor nesta obra ordenou outra traça milhor e mais accomodada como elle mostra por razões que vão em hum papel com a dita traça mas pêra poder aver effecto he necessário tomarem se vinte e quatro palmos da Rua a qual ainda fica com largura de quarenta e cinco que he asaz bastante por he Rua por onde passa muito pouca gente e nam se faz prejuizo a ninguém com tomarem della estes 24 palmos de Rua. Nicolao de Frias também está inclinado a esta traça e tem a cargo fazer outra mas como tem muitas occupações he mais vagaroso. Como a der feita a copiaremos a Vossa Alteza. Em Lisboa 28 de Janeiro de [15]95.

O Bispo d Elvas presidente disse a Salvador de Mesquita da parte de Vossa Alteza que se fizesse a [...?] passado este mês e elle respondeo que faria o que Vossa Alteza lhe mandava. Bispo d Elvas - Diogo de Sousa -Marcos Teixeira
À margem:
No he respondido a esta consulta ate gora por esperar a poder conferir esta traça de Felipe Tertio de que aqui se trata com a de Nicolao de Frias que agora se me há embiado y aun que no viene parecer del consejo sobre qual parece mas conveniente (como holgara se me dieram) dire lo que acerca dellas me parece y es que quanto al sitio que se deve de tomar della calle, me parece que se deve de siguir la traça de Phelipe Tercio y en lo demas la de Nicolao de Frias que com reduzir los corredores de la traça de Nicolao de Frias que son de ocho y diez pees o palmos a cinco que es la hanhura que les da Phelipe Tercio y parece bastante si viene reduzir toda misma cosa y el corredor que Nicolao de Frias pone entre los aposentos de los presos está aly mejor que en pátio adonde le pone Felipe Tercio asi pêra el serviço ordinárjo comopera servjr de vigias (como ahy se llamam) y asi se deve de tornar a ver todo esto en el consejo y na[m] sse offrecendo acerca dello algum inconveniente de consideracion dar ordem como se he ja conforme a ello la fabrica y quanto ao sitio que se há de tomar de la calle me parece que es lo mejor tratar com la câmara dessa ciudad y si fuere necesarjo comprar se les y asi parece que pêra esto es menos ter que entervenga la authorjdade de los governadores tambien se podra acudir a pedir se la y avisar do que se fuere haziendo em todo.
Acedido em 2018.10.11, em https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=2318907

 

 

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por Rodrigues Costa às 11:53

Terça-feira, 13.11.18

Coimbra: O edifício número 70 da Rua da Sofia

Um leitor deste blogue – que não se identificou – colocou-me a seguinte questão: Um meu tio-avô, enquanto esteve a estudar na UC em 1890-91, viveu na R. da Sofia, n.º 70. Sabe-me dizer se se tratava de algum antigo colégio?
A resposta que lhe posso dar – muito atrasada no tempo, por lapso meu – passa pela afirmativa.

Com efeito, tratava-se do Colégio de S. Miguel que pertencia ao Mosteiro de Santa Cruz e se situava na Rua da Sofia. Ainda sem se encontrar terminado, em 1547, D. João III requisitou o edifício para ali poder instalar o recém-criado Colégio das Artes até que o edifício próprio, em fase de construção na Alta da Cidade, estivesse concluído.
Este imóvel, embora modificado, ainda existe na atualidade e nele, bem como no Colégio de S. Jerónimo que lhe ficava contíguo, funcionou, até 1986, ano em que se transferiu para as novas instalações erguidas lá para as bandas de Celas, o Hospital da Universidade de Coimbra.

O edifício do Colégio de S. Miguel, bem como o vizinho edifício do Colégio de Todos os Santos, no ano de 1566 foram entregues à Inquisição que, para os adaptar aos lamentáveis objetivos da instituição, os transfigurou, levando a cabo obras vultuosas. Mas disso falaremos na próxima entrada.
Para obter mais esclarecimentos sugiro a leitura das entradas aqui publicadas com os títulos:
- Coimbra: A Inquisição e as suas instalações 1 e 2;
- Coimbra: Rua da Sofia e os seus colégios 4

Não posso deixar de se referir um pormenor curioso.
No último andar do edifício número 70 da Rua da Sofia

Anexo sem nome 00037.jpg

Edifício da Inquisição frente Sofia

existe esta varanda:

Anexo sem nome 00040.jpg

Gradeamento da varanda

No Pátio da Inquisição está o seguinte edifício

Anexo sem nome 00031.jpg

Edifício da Inquisição frente pátio

E nele existe esta varanda

Anexo sem nome 00034 a.jpg

Gradeamento da varanda

Como se pode constatar as guardas das varandas são em tudo similares. Pertenciam ao edifício principal da Inquisição que tinha a frente voltada para o chamado Pátio da Inquisição e as traseiras para a Rua da Sofia.

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por Rodrigues Costa às 18:37

Quinta-feira, 18.10.18

Coimbra: Passeio Público e ruas da Calçada e de Coruche

A obra de maior impacto na beneficiação da cidade era, sem dúvida, a construção do cais ao longo do rio, com vista a proteger a Baixa das invasões do Mondego. Implicava obras de alteamento e regularização do cais das Ameias e a construção de um paredão que conseguisse limitar as cheias do rio, além de permitir dispor de um amplo e aprazível passeio público à beira rio.

Melhoramento reclamado desde o seculo XVIII, “presentemente desejaõ muitos, e requerem, que por todo o comprimento da Cidade, e ainda mais adiante se levante alto muro, o qual defenda das inundações todas as ruas baixas” foi sendo sucessivamente adiado, até que em junho de 1837 começaram timidamente as obras do aterro do Cais das Ameias, provavelmente sem um plano devidamente delineado que quatro anos depois, foi alargado até à ponte.

Efetivamente, só em agosto de 1856 foram decretadas as obras do encanamento do rio desde a ponte de Coimbra até ao mar encarregando o Diretor de Obras do Mondego de elaborar o respetivo projeto, apresentado só em 1872. Segundo conseguimos apurar, as obras de alteamento efetuadas entre 1837 e 1872 revelaram-se ineficazes para conter as cheias, em grande parte pela carência de meios financeiros, mas também técnicos, criando mesmo sérios problemas de salubridade pela entrada da água do rio na canalização do esgoto da cidade. Reclamava-se também o imprescindível alteamento da velha ponte, processo iniciado em 1859 e decretado pela Carte de Lei de 10 de setembro de 1861, mas que permaneceu até 1873 em estudo.


Margem do rio entre o Largo das Ameias e a ponte.j

Margem do rio entre o Largo das Ameias e a ponte, visível as escadas para o largo já alteado, c. 1860

 

A par da regularização do Cais das Ameias … em 1835 o município apontava também a necessidade do alargamento da Rua de Coruche. Com efeito, depois de ter estudado e orçado as obras de regularização da rua da Calçada que ligava a ponte à Rua de Coruche e que pretendia iniciar a breve prazo, instava para que o Governo participasse no alargamento desta última rua alegando que; “Além de central a toda a Cidade, serve demais ao transito de todo Norte do Reino para a Capital, e acha-se tão disforme, que apezar de não ser muito longa, tem tortuosidades em varias direcções, que impedem a vista de uma extremidade à outra, e é sobre tudo tão estreita, que em quasi toda ella não pode passar um Cavalleiro apar d’um carro: e em consequência é sempre húmida, e doentia, e que apenas em alguns pontos lhe penetrão os raios do sól em certos momentos ficando o resto inteiramente inacessível: de sorte q estabelecendo-se deligencias entre Porto e Lisboa virão encontrar um grandíssimo obstáculo no meio da terceira Cidade do reino, por que dificilmente lhes dará passagem! Esta obra tão necessária como útil para o aformoseamento da Cidade, viria a fazer a rua o centro de commercio, e certamente é esta epoca em que mais afoitamentese devera empreender por que há um recurso para a indemnização do alojmento interino dos seus moradores, nos extintos Collegios da rua da Sofia, que pela maior parte não acharão compradores.”

Planta com a indicação dos melhoramentos almejad

 Planta com a indicação dos melhoramentos almejados: regularização das margens, alargamento da Rua de Coruche, calcetamento da Rua da Calçada e Nova Ponte

 As obras de regularização dos passeios da Rua da Calçada iniciaram-se no ano seguinte

 

Calmeiro, M.I.B.R. 2014. Urbanismo antes dos Planos: Coimbra 1834-1924. Vol. I. Tese de doutoramento em Arquitetura, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, pg. 202-207

 

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por Rodrigues Costa às 09:36

Terça-feira, 13.03.18

Coimbra: O Santo Cristo do Arnado

O Professor Doutor Nelson Correia Borges acaba de divulgar este excelente texto sobre o Santo Cristo do Arnado. Consideramos que as informações nele contidas, dada a sua importância, merecem uma mais ampla difusão e não devem ficar confinadas ao círculo restrito dos leitores do jornal onde foi publicado.

Santo Cristo do Arnado.JPG

 Senhor Santo do Arnado. Claustro da Sé-Velha de Coimbra

 

Era um cruzeiro de caminhos, como tantos outros que assinalam a entrada das localidades. Situava-se na antiga entrada de Coimbra, para quem vinha do Norte.

A velha estrada do Porto correspondia à atual rua da Figueira da Foz. Passava à Gafaria de S. Lázaro, fundada e dotada pelo rei D. Sancho I e, antes de chegar à rua da Sofia, aberta por Fr. Brás de Braga para a construção dos colégios universitários, derivava para o lado do rio em terreno de areais que deram o nome ao sítio: Arnado. Foi nos campos do Arnado que o mesmo rei D. Sancho I, ainda infante, fez o seu alardo em 1181, isto é, reuniu os homens de Coimbra que com ele partiram para combater vitoriosamente no Alentejo um rei mouro de Sevilha. O largo ainda hoje mantém aproximadamente o mesmo espaço de outrora. Dele partia uma viela para o porto de Santa Justa, no Mondego, a que corresponde a atual rua do Arnado; uma outra azinhaga, mais a sul, conduzia ao porto dos Cordoeiros. Daqui se entrava na cidade pela rua Direita, uma das mais importantes de Coimbra, onde se estabeleceram violeiros e cordoeiros.

Bem no meio do largo, no século XVI, os frades do convento de S. Domingos, que ficava próximo, erigiram o cruzeiro, cobrindo-o com uma cúpula sobre quatro colunas. Esta solução construtiva ainda hoje se pode ver em Arazede, Assafarge, Pocariça, Ventosa do Bairro, Vila Nova de Anços e em outras povoações da região.

Em 1652, um devoto, de seu nome Gaspar Mendes ou Gaspar dos Reis, decidiu fazer-lhe algumas benfeitorias: ergueu mais o cruzeiro por causa do assoreamento, ou levantando os degraus antigos ou construindo novos degraus; fechou o espaço entre colunas por três lados, colocando no da frente uma grade. Em 12 de Julho de 1655 os padres de Santa Justa-a-Antiga fizeram uma procissão com o Santo Cristo do Arnado até à sua agora capelinha, sinal de que as obras se prolongaram até esta data, tendo sido durante elas a imagem guardada na igreja de que agora só restam vestígios no Terreiro da Erva.

A imagem rapidamente ganhou fama de prodigiosa. Constou-se mesmo que em 1 de agosto de 1722 suara sangue e água, o que gerou grande afluência de devotos. Logo se tratou de ampliar o espaço reduzido que continha o cruzeiro, transformando-o em capela de uma nave com capela-mor, circundada de sacristia e arrumos. As obras começaram em 1723 e terminaram em 1729, sendo, entretanto, benzida em 1727.

A capela do Santo Cristo do Arnado foi demolida pela Câmara nos primeiros decénios do século XX, para obras de urbanização. Há anos atrás, quando se abriram rasgos para colocar o coletor grande da cidade, pudemos ver os seus restos destroçados e recolher um azulejo de fabrico local, para recordação. As lápides com inscrição relatando a história da capela foram recolhidas ao Museu Machado de Castro e o cruzeiro antigo levado para o claustro da Sé Velha, onde se encontra.

O conjunto escultórico, talhado em pedra de Ançã, é impressionante.  A cruz eleva-se sobre uma coluna de fuste liso com capitel coríntio renascentista, tendo no ábaco a cruz de Cristo. Lateralmente colocaram o brasão de armas da Ordem de S. Domingos e na frente as armas reais com uma píxide sobre a coroa. A cruz é de secção retangular e ergue-se sobre uma base de rocha com uma caveira e tíbias cruzadas. A escultura mostra um corpo emaciado, com os sofrimentos da Paixão patentes, o rosto desfalecido e sereno. Não poderia deixar de ter produzido grande impressão e fervor religioso quando se encontrava na sua casa. Se pensarmos que no século XVIII deve ter havido alguma intervenção na imagem, fácil nos é relacioná-la com o Cristo dos Olivais, de autoria comprovada de João de Ruão. Trata-se de uma obra que seguramente teria saído das oficinas do mestre escultor francês.

Recentemente procedeu-se ao arranjo urbanístico do Largo do Arnado. Foi pena não se ter aproveitado o ensejo para ali colocar uma qualquer memória de um culto que foi marcante no passado da cidade e que marcou muitas gerações de conimbricenses. A lendária Cindazunda já tem lugar de maior honra no brasão de Coimbra.

Nelson Correia Borges

 

Correio de Coimbra, n.º 4.683, de 2018.03.08

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por Rodrigues Costa às 09:01

Terça-feira, 27.02.18

Coimbra: Alexandre Herculano e a sua visão da cidade 2

Como todas as cidades antigas, Coimbra é para ser vista de fora; porque colocada em anfiteatro o seu prospeto é formoso; mas vistas interiormente as ruas são tortuosas, e em grande parte tristes. Há ali um cunho de decrepitude; sem haver, salvo em raros edifícios, a majestade dos séculos. A bondade, porem, dos ares, a barateza do sustento, a amenidade dos campos e hortas vizinhas a tornam cómoda e agradável. Os habitantes são em geral alegres e folgazões, ao que os aconselha e inclina o céu e o ar e o solo que a Previdência lhes deu. Quando a natureza ri á roda de nós, alegra-se e folga o coração do homem, e o sorriso vem habitar nos seus lábios.

O Mondego que sumiu grande parte da antiga Coimbra, assentada na planície, ao sopé do monte onde hoje campeia o principal da cidade, é o maior rio dos que nascem em Portugal. Tem as suas fontes nos altos da serra da Estrela, e correndo por mais de vinte léguas, vem meter-se no oceano junto á vila da Figueira. – A sua pequena correnteza na proximidade de Coimbra, e o passar entre montes, cuja terra se esboroa e vem ao leito do rio com as torrentes do inverno, tem feito com que o álveo se vá alteando, de modo que nas grandes cheias os campos ficam inundados. Entretanto na cidade baixa a corrente impetuosa faz notáveis estragos, deixando as casas em sitio. Felizmente estas cheias desmedidas são pouco frequentes: mas a tortuosidade do rio que contribui para que as areias fiquem retidas, fará no decurso dos tempos com que a baixa Coimbra se converta num areal, se a arte não souber pôr barreiras invencíveis ás irrupções das águas.

Já desde os fins do século passado se trabalha por obviar a este dano certo, e aos estragos que as cheias causam nos campos de Coimbra, areando-o, e tornando-os inférteis; mas o mal não foi ainda remediado. Nos anos demasiadamente chuvosos as estacadas de encanamento são rotas e derrubadas, ficando perdido num dia o trabalho de uns poucos de anos, e o rio se estende como vasto mar por aquelas dilatadas campinas.

Rio Mondego Ponte de pedra e Portagem.jpg

 Rio Mondego ponte de pedra

 Sobre o Mondego está lançada a formosa ponte que se vê na nossa estampa, e que une a cidade com a margem esquerda do rio, dando para a estrada de Lisboa. Foi edificada por el-rei D. Afonso Henriques; mas o tempo e as aluviões do rio sepultaram a primitiva fabrica. Segundo o testemunho do historiador Barros já pelo seu tempo se haviam submergido duas pontes: a que existe, obra, quase toda, de el-rei D. Manuel, apesar de sucessivos reparos, também já vai tendo entulhados os primeiros e últimos arcos, e com o andar do tempo ficará provavelmente sepultada, como as antigas, debaixo das areias do rio.

Rua da Sofia casa Ameal.jpg

 Rua da Sofia

 Quem entra na cidade pela estrada do Porto vem desembocar na mais formosa rua da cidade, a «Sofia», rua bordada quase só de conventos, ou colégios, de diversas ordens monásticas. Estes conventos, hoje desertos, serão em breve montes de ruínas. Em Coimbra, cidade de pouco trato, não se achará quem compre estes edifícios vastíssimos; e a rua da «Sabedoria», [Sofia] orlada de paredes desmoronadas, será a imagem epigramática do estado intelectual do nosso país.

O Panorama. Número 51. 21 de Abril de 1838. Pg. 121-122

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 28.11.17

Coimbra: Rua da Sofia, ou o porquê do surgimento desta rua 2

A primeira referência à intenção de abertura da Rua da Sofia surge numa carta régia, de 17 de Abril de 1535 ... Nela ficou clara a intenção e o partido topográfico-urbanístico da iniciativa. De 20 de Março de 1538 é o primeiro documento onde surge a sua designada extensa: «Rua de Santa Sofia». Trata-se de um dos contratos com que nesse mês e no seguinte se fizeram as cedências para construções de casa na sua frente poente ... Nesses contratos ficam expressos não só a obrigação de construir num curto espaço de tempo uma «arquitetura de programa» desenvolvida em três pisos, mas também outras normas com vista a assegurar a sua regularidade formal - «a formuzura».

A construção de casas foi lenta, tendo sido frequente a reversão dos lotes e a sua revenda.

... Tanto quanto até hoje foi possível apurar, o plano inicial para a nova rua era bem simples e regular. O seu traçado conjugou as condicionantes impostas pela topografia com um alinhamento sobre a frente colegial do Mosteiro de Santa Cruz, escamoteando a igreja.

... Um dos lados da Rua da sofia, o nascente arrimado a Montarroio, foi destinando à instalação de colégios... O outro lado da Sofia destinava-se à construção de casas, prioritariamente para professores, mas também para estudantes e funcionários, regra depois completamente ultrapassada.

Rua da Sofia esquema programático.jpg

Rua da Sofia, diagrama do esquema compositivo e programático (executado por Sandra Pinto)

 ... Interessante e disciplinarmente relevante é o rigor geométrico-compositivo com que, tudo o leva a crer, o conjunto foi planeado. Ainda que na execução se não tenha caprichado tanto e algumas preexistências tenham imposto ajustamentos. Para tal terá sido usado um módulo quadrado com 6 braças (13,2 metros) de lado. Para cada colégio, num total previsto de cinco, foram deixados cinco módulos de frente e quatro de fundo, o que, com o módulo para a largura da rua, perfaz quadrados de 5x5 módulos.

... No fundo, o sistema previra 5+1 propriedades de 5x4 módulos de base 6 braças, tendo ainda mais quatro módulos de fundo.

... As igrejas eram o interface com o público de três dos quatro colégios ... o mais inovador e coerente espaço dos colégios universitários da Rua da Sofia reside nos seus claustros de dois pisos. Nele podemos encontrar a evolução portuguesa para o apuramento de um tipo que já não é o do «horto conclusus» medieval, mas sim o elemento central de composição e de distribuição da arquitetura e da vida comunitária.

Rua da Sofia excerto da gravura Hoefnagel.jpg

 Rua da Sofia, excerto da gravura de Coimbra de Georg Hoefnagel, c. 1567

 Um dos aspetos que tem sido menos valorizado no processo e realidade da Rua da Sofia é o facto de a sua abertura ter consistido numa ação urbanística verdadeiramente revolucionária para o urbanismo da cidade, em especial por ter ocorrido no momento em que a lenta, mas inexorável, subida do leito do Mondego ditava uma cada vez mais frequente e perniciosa invasão das suas margens... Quando as águas invadiam o Arnado, a já de si apertada e única saída norte da cidade, a Rua Direita, ficava intransitável.

A abertura e nivelamento da Rua da Sofia, implicaram a remoção de um considerável volume de aterro, o reacerto dos acesos a Montarroio ... A «rua nova» desde logo se constituiu coimo novo aceso norte da cidade, vendo erguida no seu extremo torre e porta com funções aduaneiras e de instauração de quarentenas, a Porta de Santa Margarida. 

Rossa, W. A Sofia. Primeiro episódio da reinstalação moderna da Universidade portuguesa. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg.19-22

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por Rodrigues Costa às 11:58

Quinta-feira, 23.11.17

Coimbra: Rua da Sofia, ou o porquê do surgimento desta rua 1

A pedra de toque da reforma do ensino empreendida por D. João III, nas décadas de 1530 e 1540, foi a criação de um nível propedêutico à universidade para o ensino das Artes.

... Numa fase prévia ... assistimos à consubstanciação planeada das novas instalações universitárias na Baixa de Coimbra dentro e a partir do Mosteiro de Santa Cruz. Depois, já no curso assumido da reforma, esse processo deu lugar ao estabelecimento da universidade em ensanche segundo uma «rua nova», a de Sofia, mas também à súbita necessidade de se ocuparem estruturas preexistentes na alta e de para ali se planear a ocupação de terrenos vagos, designadamente em todo o setor nordeste. Em Outubro de 1537, meio ano após a transferência de Lisboa para Coimbra, o rei decidiu que, afinal, a Universidade propriamente dita – os «estudos« ou os «gerais» - ficavam na Alta e que na «rua nova» da Baixa se fixariam colégios de religiosos e habitações.

No lugar inicialmente previstos para os «estudos», à cabeça dessa «rua nova», acabariam por se erguer os colégios crúzios de S. Miguel e de Todos os Santos, que, em 1544, sofreriam, por sua vez, uma profunda reforma com vista a albergarem a instituição propedêutica laica, o Colégio das Artes... O desenvolvimento e a consolidação do «campus» («avant-la-lettre») na Alta, a necessidade de instalações maiores para o Colégio das Artes ... acabaram por determinar a mudança do Colégio das Artes da Sofia, primeiro (1566) para o Colégio da Companhia de Jesus, depois para o edifício próprio iniciado em 1568.

... Pouco mais de três décadas depois de ter sido concebida como expoente urbano, urbanístico e até ideológico da reforma e concomitante instalação da Universidade em Coimbra e após ter sido reformada em sede dos estudos propedêuticos, a Rua da Sofia acabou relegada para um desempenho urbano distante do conceito e programa de «campus» universitário que a determinara.

Rua da Sofia ortofotomapa.jpg

 Rua da Sofia, ortofotomapa com a localização dos colégios

 ... Em rigor, a universidade nunca chegou a estar na Rua da Sofia, ainda que para tal tenha a rua sido aberta. Isso faz com que para um qualquer processo de avaliação patrimonial ou de valoração nos domínios da teoria e história urbanísticas, o seu programa original e a sua expressão material atual primeiro se devam isolar para então se lerem em conjugação. A Rua da Sofia vale mais pela sua materialidade arquitetónica e urbanística, pelo seu papel de ensanche de uma cidade atrofiada, pelo seu longo e rico processo de transformação sedimentada, do que pelo frustre plano funcional e ideológico que determinou a sua conformação, mas acabou longe de concretização plena.

Rossa, W. A Sofia. Primeiro episódio da reinstalação moderna da Universidade portuguesa. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 16-19

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por Rodrigues Costa às 08:11

Sexta-feira, 10.11.17

Coimbra: Colégio de S. Boaventura (2.º) ou dos Pimentas

Quando os franciscanos da regular Observância da província de Portugal («Venturas«) abandonaram, em 1616, o seu Colégio de S. Boaventura, na rua da Sofia... nele permaneceram instalados os religiosos de outro ramo da mesma Ordem, os «Franciscanos da Província dos Algarves», que já ali viviam, havia trinta anos, em companhia daqueles.

Colégio de S. Boaventura.JPG

 

 Colégio de S. Boaventura 2, adaptado a residências e estabelecimentos comerciais

Desde a referida data de 1616 em diante, é que este começaram a o Colégio de S. Boaventura, da rua da Sofia, como privativamente seu; desde então é que se pode contar, em o número dos Colégios universitários, o 2.º Colégio de S. Boaventura, pertencente aos «Pimentas», nome por que eram designados os religiosos desta província, distinguindo-se assim dos «Venturas». Os hábitos, que trajavam, também eram distintos dos destes, não no corte ou feitio, mas na cor. Usava-nos os «Venturas» de cor acastanhada, e cingiam-se com cordão de linho cru; os Pimentas tinham hábitos pretos e cordões amarelos.

Colégio de S. Boaventura 2 planta meados séc. XI

 Colégio de S. Boaventura 2, planta de meados do séc. XIX

 

Em 1715... foi reconstruído o velho edifício colegial, que se encontrava muito arruinado, ficando então na forma que manteve até 1834.

A igreja era pequena, como ainda hoje se pode verificar-se, mas elegante e muito asseada, e tinha três altares.

... Foi o edifício colegial abandonado em 1834, como os restantes... vendido em hasta pública... pela quantia de 1.201$000 reis, no dia 14 de maio de 1859.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 269-270, do Vol. I

 

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por Rodrigues Costa às 21:58

Terça-feira, 19.09.17

Coimbra: Colégio de S. Boaventura

Foi este Colégio fundado por D. João III para os «Franciscanos Conventuais da Província de Portugal» (em calão académico denominados os «Venturas»), cerca do ano de 1550.

Colégio de S. Boaventura.JPG

Colégio de S. Boaventura, na Rua da Sofia e na atualidade

Construiu-se o edifício primitivo deste Colégio a meio da rua da Sofia, à mão esquerda de quem caminha de Santa Cruz para o Carmo, em frente do Colégio do Espirito Santo. Está atualmente transformado em casas de residência particulares, mas ainda se distingue a parte que foi igreja, pelo timpano triangular que lhe remata a fachada, pela grande janela poligonal que a ilumina, e pela porta de arco semi-circular da sua entrada.

... Era bastante modesto este edificio; as portas que se acham abertas no rés-do-chão da sua fachada, são indicadas pelos n.ºs 73 a 85. O «bêco de S. Boaventura» indica-nos o limite e lado N-O da casa; o limite S-E é determinado pelo cunhal de cantaria, que se conserva bem visivel.

... passado algum tempo aqueles, que tinham edificado a casa, e a quem esta pertencia ... resolveram abandoná-la, e passaram em 1616 a viver numas casas que lhes foram emprestadas no começo da mesma rua ... Ali residiram, até que se mudaram para o Colégio definitivo, perto da Universidade.

 

Nesse tempo existia na rua Larga ... no quarteirão compreendido entre a rua de S. João e a que veio a denominar-se dos Loios, o modesto «Colégio Amiclense», fundado em 1552 ... Os religiosos Venturas pensaram em adquirir esta morada, e outra vizinhas ... Feitas as reparações indispensáveis na casa, para ela mudaram o seu Colégio universitário.

 

Depois planearam erguer no mesmo local um novo edifício, próprio e mais amplo, cuja primeira pedra foi solenemente benzida e colocada a 14 de Julho de 1665 ... A 7 de setembro de 1678 deu-se por concluída a obra.

Colégio de S. Boaventura ou dos Venturas.jpg

 

Colégio de S. Boaventura, na Rua Larga

Desde cedo fora o Colégio de S. Boaventura contado em o número dos Colégios da Universidade, na qual o incorporara a carta-régia de 20 de maio de 1566.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 234-238, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 09:59

Quinta-feira, 14.09.17

Coimbra: Colégio S. Bernardo ou do Espirito Santo

Pertencia aos «Monges Cistercienses», e principiara a ser construído o edifício no ano de 1545 ... mas foi fundado em 1550, e depois dotado pelo Cardeal-Infante D. Henrique ... Nele se instalaram os monges universitários da Ordem de S. Bernardo.

Ficava situado na rua da Sofia, no alinhamento e vizinhança do Colégio dos carmelitas calçados, do qual era separado pela azinhaga do Carmo.

Colégio de S. Bernardo.jpg

Colégio de S. Bernardo, muito transformado

 ... O edifício acha-se hoje, em parte, completamente modernizado e vestido de azulejos ... ainda conserva na fachada um pouco da antiga feição colegial, onde existem duas pilastras de cantaria, uma das quais determina o limite S-E do antigo edifício. As portas, que se veem rasgadas no novo rés-do-chão em toda a extensão da fachada do Colégio, estão atualmente indicadas pelos n.ºs 82 a 100.

Tinha dois claustros, e uma pequena igreja cujo titular era o Espirito Santo, a qual já não existe.

... Era afamada por sua riqueza em livros, muitos deles raros, a biblioteca, apontada como uma das melhores dos Colégios universitários.

... Muitos religiosos notáveis jaziam sepultados na igreja colegial.

Entre a variada cultura pela qual sobressaíam os frades colegiais do Espirito Santo, avultava o conhecimento profundo das línguas clássicas e orientais.

Gozou sempre os privilégios da Universidade, na qual se achava incorporado pela carta-régia de 1 de março de 1560.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 232-234, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 07:48


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