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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 13.09.22

Coimbra: Vida académica nos anos 20, do século passado 2

Na época distante a que me estou reportando – mais concretamente, no meu tempo - havia poucas distrações. Os académicos, se queriam gozar um bocado tinham que as inventar. Os divertimentos que a cidade lhes oferecia eram o cinema (mudo) no Teatro Avenida

Teatro Avenida.jpg

Teatro Avenida

– o Sousa Bastos estava abandonado e o Tivoli apareceu mais tarde – os arraiais dos Santos Populares, a romaria do Espírito Santo, em Santo António dos Olivais, a festa da Rainha Santa, de dois em dois anos, e os bailes. Isto para não falar nas manifestações de índole puramente académica, tais como a Queima das Fitas (a 27 de Maio) que era a expressão viva da alegria reinante entre a juventude universitária,

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Enterro do Grau, 1905

os saraus do Orfeão e da Tuna (onde nos era dado o prazer inefável de escutar as vozes melodiosas dos saudosos Lucas Junot, Edmundo Betencourt, Armando Gois, Paradela de Oliveira e Serrano Baptista, infelizmente já falecidos), as récitas de despedida dos quintanistas - especialmente de medicina – e o `futebol!...

Equipa de futebol da AAC. 1923.06.03..png

Equipa de futebol da AAC. 1923.06.03.  Acedido em https://www.facebook.com/academica.oficial/photos/

Este, praticado em puro amadorismo, começou justamente por essa altura e graças à virtuosidade desse ídolo que em vida se chamou Teófilo Esquível, a conquistar adeptos e a «eletrizar» as multidões. (Não emprego o termo alienar, hoje muito em voga, por que a demência coletiva pode ser motivada por razões várias, estranhas ao desporto).

Os preços do cinema - vem a talho de foice recordá-los - eram: 3$00 a plateia e 15$00 um camarote de cinco lugares onde cabiam e entravam, sem (pagar qualquer sobretaxa, quantos estudantes quisessem! E a geral ainda era mais barata!...

Representavam-se no dito teatro uma ou outra peça desempenhada por afamadas companhias em digressão. Pelo palco da velha sala da Avenida Sá da Bandeira passaram as grandes figuras da cena portuguesa daquela época: Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Alves da Cunha, Robles Monteiro, Chaby Pinheiro, Alexandre de Azevedo, Ilda Stiquini, Maria Matos, Lucília Simões, Adelina e Aura Abranches, Vasco Santana, Auzenda de Oliveira, Estêvão Amarante, Raúl de Carvalho - para só falar daqueles que vi. E no seu ecrã projetaram-se os filmes mais reclamados do cinema americano, alemão e francês, então os de maior fama mundial, abrilhantados pela orquestra que Teixeira Lopes regia. Mal esta se quedava silenciosa por instantes, logo se ouvia a voz de um estudante gritar:

-Toca a música!...

Que mal havia nisto?

Nas noites de teatro a «malta» ocupava normalmente a geral, colocada em anfiteatro ao redor da plateia (no rés-do-chão, portanto) enchendo de alegria a vasta sala com seus ditos espirituosos e levando o entusiasmo ao seio dos artistas. Os atores-empresários saiam de Coimbra gratos pelos aplausos carinhosos recebidos da generosa e hospitaleira Academia; e sempre que a casa estava passada - o que sucedia frequentemente – davam entrada gramita aos estudantes que, por falta de recursos, não podiam comprar bilhete, deixando-os ficar sentados nas coxias, da plateia. Resumindo: em noite de espetáculo teatral só não entrava quem não queria!

Teatro Avenida. Sarau, 1946. Col. Resto e Coleçã

Teatro Avenida. Sarau, 1946. Col. Resto e Coleção

Em determinado ano, porém, os empresários levados pela ânsia de progresso meteram-se em grandes e dispendiosas obras. Para alargar a plateia acabaram com a geral no rés-do-chão e implantaram-na lá no alto, perto do palco, mas junto ao teto, estilo «galinheiro». Nunca mais se sentou lá um estudante!... Os camarotes, lugar económico e convidativo para os menos endinheirados, desapareceram também, sendo substituídos pelo balcão. Estragaram tudo! Entretanto apareceu o sonoro, subiram os preços, as «Gretas Garbos» eclipsaram-se, as películas baixaram de nível, a estudantada criou novos hábitos, surgiu o Tivoli a fazer concorrência, e a empresa, que investira seus capitais na melhor das intenções, teve de enfrentar dificuldades. Se o velho Avenida falasse teria muito que contar!...

Os bailes, porém, eram a «perdição» de meia Academia. Havia-os nos clubes recreativos das várias camadas sociais, nas ruas, largos e praças durante o S. João, nas casas particulares - os celebérrimos assaltos onde entravam amigos e desconhecidos! - nos hotéis e em improvisadas salas, não esquecendo os agradáveis serões nos casinos das praias e termas mais próximas, nem os bailaricos nas localidades vizinhas. Lembro-me muito bem de que por mais de uma vez fui parar a Pombal para assistir ao «baile do calcanhar rachado» -calcanhar rachado porque nele tomavam parte as moçoilas do campo, de pé descalço e gretado - que se efetuava no velho celeiro do Marquês, pavimentado a tijolo. Daqui resultava que a partir de certa hora da noite o ambiente tornava-se irrespirável. Levantavam-se horríveis nuvens de pó vermelho que deixavam também vermelhas as nossas capas pretas; e na manhã seguinte a nossa saliva ainda era avermelhada! Mas sabia-nos bem...

Em quase todos os bailes e chás-dançantes que se realizavam em Coimbra e arredores, tinham entrada os estudantes que se portavam como gente civilizada.

O que se comia nessas festanças, Santo Deus! Recordo-me de que uma noite, durante um baile em casa do Violante - atleta do Sport Clube Conimbricense - eu e poucos mais, à nossa conta, «devorámos» um presunto! …

Muito se dançava em tais «festarolas» ... A bailar os rapazes conheciam as raparigas, a bailar se combinavam namoricos, a bailar se faziam e desfaziam casamentos...

Hoje é muito diferente. Tudo muda na vida; até o nome das coisas! Os rapazes novos passaram a chamar-se jovens (tal e qual como as raparigas; é a tendência geral para o unissexo!), os velhos são designados por idosos, os aleijados por diminuídos físicos, os loucos por débeis mentais, as criadas de servir por empregadas` domésticas (e vê-las?), os sapateiros por manufatores ide calçado... e por aí adiante!

Não critico nem reprovo. Apenas registo...

Andava eu por Coimbra, despreocupado, de capa aos ombros e cabeleira ao vento, quando começou a evolução. Pessoas, hábitos e costumes, atividades de ordem vária e preconceitos, ouviram soar, justamente nessa época já tão distante, o «tiro de partida» para a grande «cavalgada» rumo ao progresso; e ninguém vê, nem sabe onde fica a meta-desta corrida vertiginosa. Posso mesmo dizer que foi a minha geração que sofreu o primeiro embate da grande viragem que em poucos anos modificou a histórica e linda cidade de alto a baixo, que é como quem diz da cabeça aos pés: apareceram as primeiras raparigas matriculadas nas várias Faculdades (até aí as poucas que estudavam não iam, geralmente, além do curso liceal), multiplicaram-se os automóveis, duplicaram as linhas e o número dos carros elétricos,

Elétrico n.º 4 com “chora”. Col. Pedro Rodri

Carro elétrico para o Calhabé, com o “chora”. Col. Pedro Rodrigues da Costa

surgiram como grande novidade os recipientes metálicos para recolha do lixo, que o irreverente Castelão de Almeida «batizou» de Jacós - nome que pegou; Jacob era, na altura, o presidente da Câmara - iniciou-se a urbanização da periferia (Calhabé, Montes Claros e Olivais praticamente eram subúrbios), começou (ou recomeçou) a moda do beija-mão às senhoras, e, mais ou menos, todas as atividades escolares, sociais, e citadinas, sofreram alterações. Umas terão sido para melhor, outras para pior. Só o tempo, grande mestre, o dirá. Uma coisa é certa: o progresso não para. Acabaram-se os quartos sem janela e desapareceram os candeeiros de petróleo! Simplesmente, nem todas as benesses terão trazido a felicidade à gente nova. Esta, em meu entender, é hoje mais ambiciosa do que no meu tempo. Ambição aliás legítima. Porém, talvez por via dela, e também por má perceção de quem a devia compreender, a juventude estudantil parece menos alegre do que era há cinquenta anos.... Será?

Sampaio, A. Coimbra onde uma vez… Recordações de um antigo estudante. 1974. Portalegre, edição do Autor.

 

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por Rodrigues Costa às 10:37

Sexta-feira, 30.12.16

Coimbra: as Festas e o Passeio Público 2

Em Coimbra, o Jardim Botânico era local aprazível. No Colégio das Ursulinas que lhe ficava contíguo, principalmente em Maio, à tarde, praticava-se a devoção do mês de Maria, o que, o tornava de passagem obrigatória. As damas, envergando os seus melhores trajos, piedosamente, dirigiam-se à igreja, a fim de tomar parte naquela devoção mariana e os cavalheiros, molemente encostados às grades, viam-nas passar, outorgando com a sua presença a organização de tômbolas e festejos. Além dos agradáveis momentos de ócio que estes proporcionavam, permitiam ainda auxiliar qualquer obra de caridade. Em 1899, o Dr. Júlio Henriques, ilustre director daquele Jardim, mandou vir bambus das nossas colónias, afim de construir, na alameda principal, mesmo em frente ao edifício de S. Bento, um coreto onde a música pudesse executar algumas peças do seu repertório. Colmatava desta forma a lacuna que em Coimbra existia, porque tanto o do Cais como o da Quinta de Santa Cruz se encontravam degradados. Esperava-se, contudo, que brevemente fossem reformulados, até porque as filarmónicas da cidade já haviam solicitado à câmara autorização para tocar aos domingos nos referidos coretos. A construção do Botânico alegrou os janotas do tempo e, segundo constava, iria ficar «muito elegante e de excelente gosto» .

Cá em baixo, mesmo junto ao rio, desde 1887 que se transformava lentamente o largo espaço do Cais das Ameias num belo Passeio Público, com canteiros ajardinados e maciços de verdura. Colocava-se o gradeamento do lado do rio e empedravam-se os passeios. Coimbra, no dealbar do século XX, totalmente desfasada até já da capital, aspirava ver concluídas estas obras que lhe permitiriam usufruir, pela disposição, aproveitamento, frescas sombras e formoso panorama, de um dos melhores Passeios Públicos da província . Dirigia os trabalhos o Eng. Jorge de Lucena .

Fazer construir um coreto decente era tarefa que urgia, até porque, realmente, aos domingos a banda exibia-se e, para tal, utilizava aquela ruína a que impropriamente se atribuía tal denominação .

Mas as obras do Cais prosseguiam lentamente, não só porque as dotações camarárias e estatais eram mínimas, como também porque por vezes as desviavam e, em 1902, aquando da efectivarão das festas da Rainha Santa, trabalhava-se ainda febrilmente a fim de as conclui , o que não se verificou .

E toda a imprensa citadina continuava a insistir na necessidade de erguer no novo Passeio Público um coreto que estivesse à altura dos pergaminhos do burgo. Não como aqueles que normalmente se levantavam por ocasião da romaria do Espírito Santo ou da passagem por Coimbra de qualquer personalidade ilustre , arquitectura efémera, logo desmontada e eventualmente destruída após ter servido o fim a que se destinava, mas algo de sólido, duradouro e artístico, procurando honrar o autor e prestigiar a edilidade promotora da construção.

A fim de satisfazer o povo de Coimbra e lhe proporcionar uma distracção de que já desfrutavam outras terras portuguesas com muito menos habitantes, a câmara presidida pelo Dr. Dias da Silva deliberou na sessão de 25 de Junho de 1903 aprovar o orçamento para a construção do envasamento do «encantado» coreto afim de, posteriormente, lhe ajustar um pavilhão de ferro que não podia ultrapassar os 358$563 réis

Anacleto, R. 1983. O coreto do parque Dr. Manuel Braga em Coimbra, In Mundo da Arte, 14, Coimbra, 1983, p. 17-30, il., sep. Pg. 5 a 7

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por Rodrigues Costa às 09:44


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