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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 17.09.19

Coimbra: Miguel da Anunciação, bispo

Miguel Carlos da Cunha, nascido em Lisboa a 28 de Fevereiro de 1703, viria a ser o décimo sexto conde de Arganil e o quinquagésimo primeiro bispo de Coimbra, sob o nome de Miguel da Anunciação.

Pedra-de-armas de D. Miguel da Anunciação.jpgPedra-de-armas de D. Miguel da Anunciação conservada no Seminário Maior de Coimbra

…. Filho de Tristão da Cunha e Ataíde, primeiro conde de Polvolide, e de D. Arcângela de Távora, filha do segundo conde de São Vicente e sobrinho do Inquisidor-geral D. Nuno da Cunha de Ataíde, que o baptizou, é evidente que estamos, uma vez mais, diante de um prelado de linhagem ilustre.
Tendo ingressado como porcionista no real colégio de S. Paulo, em Coimbra, em
1719, já em 1724 o vemos receber o grau de bacharel em Cânones. Dois anos volvidos, foi nomeado em concurso, condutário da Faculdade de Cânones.
O seu percurso religioso ficou marcado pela entrada no Mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, nesta mesma cidade, tendo recebido o hábito em 1728 e onde foi eleito geral da congregação logo em 1737. A sua convivência com frei Gaspar do Casal, que empreendeu importantes reformas neste mesmo mosteiro, foi decisiva para moldar o seu carácter, vindo a ser um dos mais acérrimos adeptos do movimento da jacobeia. Ascendeu pouco depois à mitra conimbricense por nomeação de D. João V, recebendo a sagração dois anos mais tarde, em Abril de 1741.
A sua erudição e literacia estão patentes durante o percurso enquanto bispo desta cidade, quando apetrechou o Seminário Maior de Coimbra com muitas e valiosas obras, algumas das quais adquiridas directamente em França.

Pia de água benta em calcário.JPG

Pia de água benta em calcário, formada por dois corpos. Na parte superior encontram-se as armas de D. Miguel da Anunciação. MNMC

A fase conturbada da sua vida começa no momento em que se opôs à divulgação de obras de autores franceses do século XVIII, considerados perniciosos e contendo doutrinas contrárias aos ensinamentos da Igreja, através de uma pastoral de 1768 (posteriormente declarada falsa, infame e sediciosa, sendo queimada em público em 24 de Dezembro sob a presidência de Pina Manique). José Paiva discursa acerca desta problemática adiantando que “(…) Em Portugal, numa altura em que o regalismo Pombalino atingia a sua máxima expressão, D. Miguel da Anunciação foi, provavelmente, o único bispo que ousou seguir esta direcção”.

Salva de prata com armas de D. Miguel da Anunciaç

Salva de prata branca com brasão de armas de D. Miguel da Anunciação. MNMC

A partir do momento em que D. Miguel tornou pública a sua opinião, censurando obras entre as quais se incluía a Enciclopédia, o Dicionário Filosófico e autores como Rousseau e Voltaire, toda uma rede de intrigas e acusações recaiu sobre o infeliz prelado, acusado de pactuar com os jesuítas, de questionar a autoridade do rei e de se imiscuir nas decisões da Real Mesa Censória.
Na sequência destes eventos, foi preso à ordem do Conde de Oeiras sob um aparato de oitenta soldados de cavalaria que cercaram o paço episcopal. Naquele dia 8 de Dezembro de 1768, D. Miguel, assim como a sua Família e Fr. Luís de Nossa Senhora da Porta foram detidos e o antístite conduzido para Lisboa tendo ficado mais de oito anos encarcerado em condições miseráveis no forte de Pedrouços, enquanto os restantes ficaram o mesmo tempo na cadeia de Coimbra. Em todo este processo outros cónegos regrantes foram presos, em consequência de D. Miguel ser prior-mor de Santa Cruz, e todos os papéis foram daqui confiscados. O sino foi dobrado, por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo, que ordenou ao Cabido que considerasse o antístite morto civilmente e o bispado foi considerado vacante.
… Depois da alteração do panorama político com a Rainha D. Maria I, e a decadência do Marquês de Pombal e do seu afastamento forçado da capital, sabemos que D. Miguel reencontrou Sebastião José de Carvalho e Melo, aquando das suas visitas pastorais, ainda no fim desse mesmo ano. O Marquês tomou publicamente a bênção do antístite.
… Após um período de 29 meses onde ainda manteve actividade prelatícia, após a absolvição régia, morreu no convento de Semide em Agosto de 1779, tendo sido o seu corpo posteriormente transladado para Coimbra e sepultado na igreja de Santa Cruz.

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes

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por Rodrigues Costa às 11:30

Quinta-feira, 12.09.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 4

Receita e Despesa do Engenho de Sergipe (Brasil)

Um exemplo da nossa internacionalização é: um Livro de Receita e Despesa de um engenho de açúcar do Brasil, entre 1574-1578.

Receita e Despesa do Engenho de Sergipe capa 1 a.JReceita e Despesa do Engenho de Sergipe (Brasil), 1574-1578, manuscrito papel, encadernação com fragmento de pergaminho com notação musical. AHMC

Pela análise do conteúdo verifica tratar-se do registo das receitas e despesas que António da Serra, procurador dos herdeiros do Governador Geral do Brasil, Mem de Sá, falecido em 1572, enviam para tomar conta dos engenhos de açúcar, de Sergipe e Santana, nos Ilhéus, e fazer o levantamento dos bens do governador.

Receita e Despesa do Engenho de Sergipe fl. 6 a.JP

Receita e Despesa do Engenho de Sergipe (Brasil), 1574-1578, folha com anotação das despesas. AHMC fl. 6

O livro está transcrito e publicado já foi divulgado em Portugal e no Brasil. Existe sobre este engenho mais informação, no século seguinte, quando transita para o património da Companhia de Jesus, por doação da filha de Mem de Sá. Há mais documentos sobre ele no conjunto da documentação dos Jesuítas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

xxx

O documento não possui termo de abertura, ou encerramento que nos dê pistas sobre o seu autor.
… Nas folhas finais, 64 e 64v encontra-se o traslado de um documento … dado em Lisboa a 9 de Dezembro de 1573, diz que os seus herdeiros [do 3.º Conde de Linhares] nomeiam António da Serra «pera feitorizar nossa fazenda» no Brasil.
… António da Serra «Cavaleiro fidalgo d’el-Rei» embarca para a colónia no ano seguinte.

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Ruínas da casa grande do Engenho Pedras e capela.

Ruínas do Engenho Pedras. Foto: Silvio Oliveira.

Ruínas da casa grande do Engenho Pedras.jpg

Ruínas do Engenho Pedras

"Ruínas do Engenho Pedras - Maruim (SE) fica na zona rural de Maruim. É símbolo do apogeu da época canavieira, onde o açúcar era exportado para os principais centros da Europa. A casa grande teve como base o Palácio do Governo de Sergipe. Pedras foi o principal engenho em termos de escravos e tamanho de propriedade. Primeiramente era do proprietário Gonçalo Prado Rollemberg, hoje pertence a família Franco". (Fonte: Facebook/Tô No Mundo).

França, P. Documentos de Arquivos Privados no espólio do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Sécs. XIV-XIX. Acedido em 2019.05.25, em
http://arquivoshistoricosprivados.pt/wp-content/uploads/2016/12/6-Paula-Franca.pdf

França, P.C.V. e Pereira, I.M.B. Um Livro do Brasil no Arquivo Histórico Municipal de Coimbra: Engenho de açúcar em Sergipe. (1574-1578). In: Revista Portuguesa de História. T. XXXIII (1999)

Ruínas do Engenho Pedras – Maruim. Acedido em 2019.05.27, em
https://sergipeemfotos.blogspot.com/2014/02/ruinas-do-engenho-pedras-maruim.html

 

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por Rodrigues Costa às 22:15

Quinta-feira, 05.09.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 3

Coleção Pergaminhos da Inquisição de Coimbra

É constituída por um conjunto de Cartas de Familiar do Santo Ofício, 1676-1793.
Estas Cartas eram os exemplares originais, que findo o processo de inquirição de testemunhas, era atribuído ao titular, como prova da sua honorabilidade e limpeza de sangue. São por isso documentos particulares.
Terão sido doados ao AHMC.

Edificio da Inquisição frente pátio 1.JPG

Edifício da Inquisição em Coimbra, na atualidadeEdificio da Inquisição claustro.jpgEdifício da Inquisição em Coimbra, claustro

No Arquivo Nacional, Torre do Tombo é possível encontrar os processos de atribuição das cartas de familiar a estas pessoas.
Na inventariação recente deste conjunto realizamos essa pesquisa on line. Essa consulta fornece muitos mais elementos sobre os titulares das cartas desta coleção.

Pergaminhos da Inquisição, n.º 1.jpg

Pergaminhos da Inquisição, n.º 1, 1676. AHMC

1676, Dezembro, 22, Lisboa.
Carta de Familiar do Santo Ofício, concedida pela Inquisição, a João Baptista, do lugar de Vilela (conc. de Coimbra), casado com Catarina da Costa.
Contém anotações no verso sobre a família do titular do documento, (antepassados de José de Seabra da Silva).

Pergaminhos da Inquisição, n.º 4.jpg

Pergaminhos da Inquisição, n.º 4, 1728. AHMC

1728, Maio, 25, Lisboa.
Carta de Familiar do Santo Ofício, concedida pela Inquisição ao Doutor António de Andrade do Amaral, opositor às cadeiras de Leis, na Universidade de Coimbra, solteiro, filho de João de Lima, natural e morador na cidade de Viseu.

França, P. Documentos de Arquivos Privados no espólio do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Sécs. XIV-XIX. Acedido em 2019.05.25, em
http://arquivoshistoricosprivados.pt/wp-content/uploads/2016/12/6-Paula-Franca.pdf 

 

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por Rodrigues Costa às 20:19

Terça-feira, 03.09.19

Coimbra: Jorge de Almeida bispo 2

No âmbito do estudo da simbologia heráldica de D. Jorge de Almeida consideramos relevante atentar no seguinte excerto de António de Vasconcelos a propósito do cortejo deste prelado à saída do paço episcopal para a Sé:

Armas de D. Jorge de Almeida a.JPG

Armas de D. Jorge de Almeida no retábulo da Sé Velha de Coimbra

“Era espectaculosa e digna de se ver (…) acompanhado de uma guarda militar, o alferes de D. Jorge, vestindo huma cota darmas forrada de setim roixo, com as armas do bispo sobre damasco branco e cremezim, aprumado no seu cavalo, hasteava o balsão – hum estandarte de damasco verde alionado branco e cremezim, com uma cruz douro e armas do bispo.(…) cercado dos seus familiares e creados e seguido da sua gente de armas, montado em formosa e nédia mula branca, quase inteiramente coberta pelas ephíppias e strágula pontifícias de cor violácea, e vistosa pelos belos arreios guarnecidos de seda aveludada, brochados e chapeados de prata, onde se divisavam finamente buriladas e muitas vezes repetidas as armas dos Almeidas e dos Silvas, encimadas de uma mitra ou pelo chapéu pontificial.
Trazia o bispo-conde sôbre a sotaina rôxa um comprido roquete de finíssimo linho, que lhe descia abaixo dos joelhos; aos ombros a capa-magna de cameloto violáceo com o capelo forrado de alvíssimas peles de arminhos, afagadas pela cabeleira do prelado; na cabeça o chapéu solene, de lã preta, com a parte inferior forrada de seda verde, e longos cordões da mesma côr a descerem dos lados do chapeu, caindo sôbre o peito, a cuja altura se bifurcavam uma, outra e outra vez, elaçando-se e enxadrezando-se, ornados de borlas ou frocos de seda verde em todos os pontos de união (…)”

Selo heráldico de D. Jorge de Almeida.jpg

Selo heráldico de D. Jorge de Almeida retirado de Abrantes, Marquês de. O estudo da sigilografia medieval Portuguesa

A partir deste excerto é evidente todo o aparato heráldico que rodeava este prelado, cuidadoso na composição, cor e simbologia de todas as peças que tanto ele como a sua comitiva ostentavam. Não poderia haver uma mensagem de poder mais manifesta e é interessante ver aqui a perpetuação da mitra enquanto símbolo episcopal. Conforme se mencionou, no caso português esta peça terá um protagonismo acentuado durante um maior período de tempo que noutros locais da Europa, sendo símbolo episcopal por excelência. Ainda assim, o chapéu eclesiástico tem já um papel preponderante, inclusive como elemento envergado pelo antístite no decorrer do cortejo. Uma vez mais confirmamos também, a propósito do gallerum, a utilização do negro forrado a verde, mais uma particularidade portuguesa, uma vez que já aqui se verificou ser unicamente o verde, a cor designada para representar os bispos. O efeito desta exibição de poder associado à imagem do prelado era avassalador para quem observava, algo patente na continuação do excerto acima transcrito:

Armas de D. Jorge de Almeida na Pia Batismal mitra

Armas de D. Jorge de Almeida na Pia Batismal chap

Armas de D. Jorge de Almeida na Pia Batismal da Sé Velha de Coimbra onde se verifica, alternadamente, a utilização da mitra e do chapéu eclesiástico

… “À passagem do prelado toda a gente se ajoelhava, e ele de olhar meigo, de sorriso bondoso nos lábios, ergendo a dextra com o dedo indicador ornado de hum anel que tinha duas esmeraldas, quatro rubis e uma çafira, abençoava lentamente, com os dois dedos estendidos, os seus súbditos devota e humildemente prostrados numa quase adoração.”

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes

 

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por Rodrigues Costa às 17:54

Quinta-feira, 29.08.19

Coimbra: Jorge de Almeida bispo 1

Já amplamente analisado, D. Jorge de Almeida [é uma] personagem indubitavelmente imprescindível no contexto artístico, político, religioso e social desta época, tendo constituído verdadeiramente uma retórica de aparato de onde é impossível dissociar a carga heráldica facilmente perceptível.

Armas de D. Jorge de Almeida no retábulo.jpg

Armas de D. Jorge de Almeida no retábulo da Sé Velha de Coimbra, pormenor

… Trigésimo sétimo bispo de Coimbra e segundo conde de Arganil, terá nascido em 1458 filho do 1º conde de Abrantes e de D. Beatriz da Silva. A sua distinta linhagem, terá origem em D. Pedro I e D. Inês de Castro de quem se diz o seu pai, D. Lopo, ser o terceiro neto.
… A sua presença em Itália, agora incontestada, está intrinsecamente ligada ao percurso de seu pai. Sabe-se que D. Lopo integrou o mesmo séquito para Siena que o anteriormente referido D. João Galvão … Acrescente-se a este facto a sua presença em Florença, Nápoles e Roma, focos da cultura humanista.
… O contexto familiar de D. Jorge de Almeida comprova toda uma miríade de influências e relações que certamente influenciaram a sua mundividência e gosto, tornando-o num incontestável “verdadeiro príncipe do renascimento”, nas palavras de Vítor Serrão.
O seu próprio percurso em Itália desde, pelo menos 1469, foi pautado de exemplos que iriam determinar a sua imagem e posição futuras, tendo privado com Lourenço de Médicis (conforme provam as 5 cartas agora publicadas) a quem escreveu ainda enquanto estudante em Pisa ou o título de Apotolice sedis prothonotharius que ostentou precocemente e que seria prenunciador dos muitos outros com que viria a ser agraciado ao longo da sua extensa vida conforme se confirma nas palavras de Pedro Álvares Nogueira ao discursar acerca deste “mancebo de uinte E dous annos de grandes partes de grandes esperanças q daua mostras de uir a ser hum grande prelado Como na uerdade o foi (…)”.
Tendo estudado em Pisa e Peruggia e após uma longa permanência na Cúria Romana, este antístite, que será inquisidor-mor do reino a partir de 1536, sempre demonstrou uma extrema erudição que perpetuou na obra escrita elaborada ao longo da sua vida e de onde se destacam as – “Constituyçoões do Bispado de Coimbra pollo muyto reuerendo e magnífico senhor o señor dom Jorge dalmeyda bpo de Coimbra Conde Darganil”, impressas em Braga, na Oficina de Pedro Gonçalves Alcoforado, no ano de 1521. Consta terem sido as primeiras Constituições deste bispado que se publicaram.
Peça fundamental no equilíbrio das forças culturais e políticas da cidade, protegia os seus homens e erigia à sua volta redes de dependência e patrocinato, vivendo como um grande e poderoso senhor nos seus territórios.
Teve igualmente um papel preponderante junto ao monarca, em diversos encargos diplomáticos e religiosos, tendo-se deslocado expressamente a Évora, em finais de 1497, para presenciar o primeiro matrimónio de D. Manuel. Do mesmo modo foi este mesmo prelado que, juntamente com o rei esteve presente no ritual da abertura e segunda tumulação de D. Afonso Henriques e de D. Sancho I, efectuado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Este bispo designado por António de Vasconcelos como Sacerdos Magnus, terá ainda baptizado o Infante D. Henrique em 1512.
Bispo residente em Coimbra - um dos raros exemplos de entre as nove dioceses portuguesas, era apreciador da prática da caça tendo mesmo “alcançado de D. Manuel a instituição de uma coutada privada nas terras do senhorio do bispado, em Coja, para melhor apreciar os seus gostos cinegéticos”, e foi a figura marcante do Renascimento conimbricense, numa altura de mudanças e em que se começava a vislumbrar uma nova cultura visual. Não obstante a experiência em Itália e os ilustres contactos que manteve, sempre se apresentou enquanto sujeito de carácter singular com uma preponderante “proximidade às correntes humanistas do renascimento que a sua actuação à frente da diocese de Coimbra e a sua abertura mecenática não deixam de traduzir”.

Documento com as armas de D. Jorge.jpg

Documento com as armas de D. Jorge de Almeida, usando os leões de negro

Documento com as armas de D. Jorge, pormenor.jpg

Documento com as armas de D. Jorge de Almeida, usando os leões de negro, pormenor

Finado em 1543, a inscrição na sua lápide que repousa ainda hoje na Sé Velha de Coimbra irá replicar a fórmula itálica do seu nome, já utilizada por Sisto IV nos idos anos da sua infância. Aquele que foi o antístite que durante mais tempo governou uma diocese em toda a história da igreja portuguesa, e que com 10 anos era já designado por “Giorgio de Almeyda clerico Egitaniensis diocesis” “falleceo dia de Santiago de1543. de idade de 85 annos. Manifesta-se do epitaphio de sua sepultura, que está na capella do Sanctíssimo Sacramento da Sè da ditta cidade.

Armas de D. Jorge de Almeida na Capela.jpg

Armas de D. Jorge de Almeida na Capela de S. Pedro, na Sé Velha de Coimbra

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes

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por Rodrigues Costa às 15:54

Terça-feira, 27.08.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 2

Um Tombo de propriedades de 1759, depositado no Arquivo Municipal de Coimbra em Maio de 1759 por indicação do proprietário “para que não haja dúvida nos registos”.

Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Capa.jpg

AHMC/ Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Manuscrito, papel, 1453 folhas, encadernação de couro com fivela.

Aqui ficou desde essa altura e é o primeiro exemplar que vos apresentamos. Associam-se geralmente os tombos, registo de propriedades pertencentes a um senhorio, à documentação reportada como de origem privada e pertencente a arquivos de famílias e que, às vezes, nas heranças e sucessões, é vendida a alfarrabistas.

Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Fl .1.jpg

AHMC/ Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Fl .1

Este tombo foi elaborado em 1688, por instância de D. Manuel Coutinho, possuidor da Quinta de São Silvestre, em Coimbra.
Todavia, ao longo do tempo o tombo danificou-se e em 1759 D. Francisco Manuel Cabral de Moura e Horta de Vilhena manda reformulá-lo e deposita-o à guarda do Juiz de Fora da cidade.

Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Fl .17.jp

AHMC/ Tombo da Quinta de São Silvestre, 1759. Fl .17

Que informação nos pode dar este conjunto documental?

O tombo descreve todas as propriedades pertencentes a este senhorio, identificando-as confrontando-as, indicando os nomes dos seus foreiros, as culturas que aí praticam, os pagamentos que recaem sobre todas as parcelas, as datas de cobrança e as obrigações para com o senhor.
São valiosos repositórios de informação para a história das localidades, das famílias, das comunidades rurais.

Nota:
Segundo as informações recolhidas tratar-se-á da propriedade que tinha como cabeça a casa apalaçada – tem sobre o portão uma pedra de armas – provavelmente do séc. XVIII, localizada perto da igreja de S. Silvestre onde, hoje, funciona um hotel.

Palacio São Silvestre-Boutique Hotel.jpg

Palácio São Silvestre – Boutique Hotel

Palacio São Silvestre-Boutique Hotel 2.jpg

Palácio São Silvestre – Boutique Hotel pormenor

França, P. Documentos de Arquivos Privados no espólio do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Sécs. XIV-XIX. Acedido em 2019.05.25, em
http://arquivoshistoricosprivados.pt/wp-content/uploads/2016/12/6-Paula-Franca.pdf 

 

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por Rodrigues Costa às 17:33

Quinta-feira, 22.08.19

Coimbra: D. João Rodrigues Galvão, bispo

D. João Galvão [foi o primeiro bispo de Coimbra] a ser agraciado com a honra de bispo-conde.
… É sobejamente conhecida a sua linhagem, enquanto filho de Ruy Galvão, escrivão de fazenda e secretário de D. Afonso V e também como irmão do famoso cronista Duarte Galvão. Natural de Évora, foi o sucessor do seu pai nos ofícios que este exercia à ordem d’ O Africano, tendo mesmo sido considerado “mui priuado del rei”, até ao momento em que foi ordenado cónego da Ordem de Santo Agostinho, tendo exercido funções de prior-mor no Convento de Santa Cruz de Coimbra desde 1474 até à data da sua morte.
Ao serviço do monarca, acompanhou a embaixada matrimonial da infanta D. Leonor a Siena, quando a princesa foi desposar o imperador Frederico III.

Pintura de Pinturicchio representando.jpgPintura de Pinturicchio representando a embaixada matrimonial da infanta D. Leonor a Siena aquando do casamento com o imperador Frederico III

… “vindo a ser apresentado como bispo administrador de Ceuta e Tui, em 17 de Setembro de 1459, com [apenas] 26 anos de idade”. Seguidamente à sua chegada ao reino português foi nomeado bispo de Coimbra pelo já consagrado Papa, Pio II, em 1461.
… Esta nomeação não foi, como veremos, de todo pacífica. Apesar das contestações por parte de outros prelados portugueses, D. João Galvão conservou a mitra de Coimbra até à data da sua morte.
Na sequência destes eventos é conhecida a sua jornada em África, acompanhando o soberano nas conquistas de Arzila e Tânger que lhe valeu, em 1472 o epíteto de bispo-guerreiro e não menos importante, o título de conde de Arganil pelos serviços prestados em prol do reino.

Carta de mercê de D. Afonso V.JPG

Carta de mercê de D. Afonso V relativa ao Condado de Arganil

… Devemos ainda atentar no testemunho de Pedro Álvares Nogueira, que recorda “E ainda q dantes disto algus prelados desta see se chamaraõ Condes de santa Comba era por m. [mercê] particular dos Reis mas naõ de jure Como agora se chamaõ Condes de Arganil.”
Recordemos que, para além dos títulos nobiliárquicos supracitados, o bispo teria ainda domínio em Coja, conforme atestam inúmeros exemplos documentais, onde o prelado assinava enquanto Conde de Arganil e Senhor de Coja.

Insígnias do bispado de Coimbra.jpg

Insígnias do bispado de Coimbra, e condado de Arganil em “Tropheos Lusitanos” de António Soares de Albergaria

Selo de D. João Galvão.jpg

Selo de D. João Galvão, bispo de Coimbra. In: Abrantes, Marquês de. O Estudo da Sigilografia Medieval Portuguesa

… a sua actividade episcopal não se tornou menos atribulada. Na verdade, Saúl Gomes disserta acerca desta animosidade face ao prelado por parte do designado alto-clero português. Pelas palavras do autor sabemos que a 21 de Maio de 1461, este prelado havia sido “nomeado legado pontifício a latere, com funções de colector das três dízimas no valor de cerca de 30% sobre todas as rendas dos benefícios eclesiásticos, de acordo com o que a Santa Sé aprovara em Mântua” e em 1462 vemos Pio II a “suspender a legacia que lhe confiara bem como a anulação dos processos e penas que instaurara”1. Pouco após ser nomeado Arcebispo de Braga, faleceu em 1485 sem nunca ter podido assumir este cargo, uma vez que o Pontífice, agora Sisto IV foi informado de que este clérigo “exercia as funcções pastoraes sem esperar a confirmação da santa sé”.

Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acedido em 2918.05.22, em
https://www.academia.edu/1118570/Heráldica_eclesiástica_Brasões_de_armas_de_bispos-condes

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por Rodrigues Costa às 10:46

Terça-feira, 13.08.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, curiosidades 1

O Arquivo Histórico Municipal de Coimbra para além do vasto património relativo à história da cidade e do seu termo, detém um conjunto de documentos que, face ao seu interesse, iremos divulgando, sobre a epígrafe acima referida.
Nesta entrada iremos abordar:
- um desafio para a confeção das receitas apresentadas;
- uma reflexão sobre a politiquice local que já vem de há muito tempo como se pode constatar.

Livro de Receitas e Despesas … de um estabelecimento comercial do século XIX [1852-1879] da cidade Coimbra, importante para o conhecimento da nossa história local.
Regista a receita e despesa corrente de uma indústria de licores. O autor que não está identificado explicitamente no livro, vem da Figueira da Foz para Coimbra, tomar conta do negócio de uma sua tia.
Regista a receita e despesa corrente de uma indústria de licores. O autor que não está identificado explicitamente no livro, diz qe veio da Figueira da Foz para Coimbra, tomar conta do negócio de uma sua tia.
Livro de Receita e Despesa, de um estabelecimento



No meio dos pagamentos e recebimentos de uma contabilidade apurada, na gestão corrente da casa de família e com o empréstimo de dinheiro a juro sobre penhores de pequenos bens, regista receitas de licor de canela, de licor de rosas, licor de marrasquino; receitas de pudim de batata; pudim de leite; receitas de mézinhas para cura de doenças, receita de tinta de escrever.
Além disso, o autor utiliza o livro como uma espécie de diário: regista episódios do seu quotidiano familiar, do que acontece no país e na cidade, crises e doenças; noticia a morte do rei Dom Pedro V, a inauguração da ponte de ferro de Coimbra em 8 de maio de 1875, entre outros eventos.

Transcrição paleográfica
[fl. 65] Licor de Rozas
Fiz hoje 14 quartilhas do Licor de Rozas, e levou aguardente regular 9 quartos; assucar 2 e meio arrattes, Essencia e Coxenilha.


[fl. 153] Receita para fazer Podim [de batata]

Livro de Receita e Despesa Fl. 533.JPGLivro de Receita e Despesa, de um estabelecimento comercial de venda de licores em Coimbra, 1852-1879, fl. 153. AHMC

Hum arratte de assucar muito fino; hum quarto manteiga ingleza;
Meio arratte batata cozida
Dezoito gemmas de ovos
Faz se da seguinte maneira

Parte primeira
Cozem-se as batatas, dispois de bem cozidas, passão se pella peneira, peza se dispois d’esta massa o meio arratte asima ditto.

Parte segunda
Poem se o assucar a ponto de espedana e nelle emquanto esta quente lansa se lhe o resto da manteiga que subejar dispois de untada a lata; Feito isto em seguida, vai-se lhe lançando a batata pouco a pouco, devendo mecher-se sempre com a colher, em seguida vão-se lançando tambem os ovos, mais devagar devendo sempre mecher-se com a colher; dispois de tudo muito bem disfeito, aquese-se hum pouco ao lume, depois lansa se dentro da lata e vai para
o forno.

[fl. 553] Inauguração da ponte de Coimbra.

Ponte de ferro. Final da construção. Fotografia.

Ponte de ferro. Final da construção

Livro de Receita e Despesa fl. 153.jpg

Livro de Receita e Despesa, de um estabelecimento comercial de venda de licores em Coimbra, 1852-1879, fl. 533. AHMC

Em 8 de Maio deste anno foi que se fez a inauguração da nova Ponte mas nem Camera nem Dereção das Obras Publicas se prestarão a couza nenhuma por cauza da politica do Penacho que então governava, cuja politica trazia muitos e muitas pessoas desgostozas, e para as auctoridades desse tempo não sofrerem alguma disfeita nada fezerão, mas o Illustrissimo Senhor Director serião 5 horas da manhãa mandou deitar os tapumes abaixo, e declarou podia entrar quem quizesse, sem mais etiqueta, foi como se costuma dizer foi feita a Capucha. Só os molleiros de Sernache entrarão pello meio dia em grande pandega vindo todos a cavallo em sima das mesmas cargas com bandeiras e gaita de folles, andando precorrendo as ruas. Houve então muzica e muito foguetorio feito pella Assuciação Liberal que fizerão a inauguração da Ponte hindo ali tucar e lançando muitas girandollas de foguetes mas tudo de porpozito cauzando isto muitas zangas.

França, P. Documentos de Arquivos Privados no espólio do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Sécs. XIV-XIX. Acedido em 2019.05.25, em
http://arquivoshistoricosprivados.pt/wp-content/uploads/2016/12/6-Paula-Franca.pdf

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por Rodrigues Costa às 22:45

Segunda-feira, 08.07.19

Coimbra: Conquistas e reconquistas

De como as Reis de Leão ganharão Coimbra, antes do Imperador D. Fernando, e de como se sustentou na Fé.

Antes que o Imperador D. Fernando Magno libertasse Coimbra, a ganhou aos infiéis D. Ramiro, Rei de Leão [770-850] e a tirou do poder de Haneh, Rei tyranno della.

Ramiro I de Leão.jpg

Ramiro I, Rei de Leão
Acedido em: http://www.barrosbrito.com/1386.html

Depois deste heroico Principe a conquistou outra vez D. Affonso, o Terceiro Rei de Leão [866-910]… quando castigou o traidor Vostisa.
Vindo sobre ela com hum grande exercito no anno do Senhor de 838, a 30 de Dezembro, dia da Trasladação do Apostolo Sant-Iago. Nesta batalha se achou com elle o Conde Hermenegildo seu parente, e seu Capitão General, de Nação Portuguez.

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Afonso III, o Magno
https://ww.alamy.com/stock-photo-afonso-iii-o-magno-tumbo-a-r-132573717.htm

Representação de Hermenegildo Guterres.jpg

Representação de Hermenegildo Guterres
Acedido em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/69/Estacao_de_Rio_Tinto_Azulejo_07.jpg 

Mas logo foi conquistada por El-Rei Almaçor [938c.-1002], com que chegou a tal desventura, que sete annos esteve despovoada, e quasi arruinada, no fim dos quaes os Mouros a reedificarão.

b241074.jpg

El-Rei Almanzor, acedido em
https://alchetron.com/Almanzor#demo

Busto_de_Almanzor_(26_de_marzo_de_2016,_Calatañaz

Busto de Almaçor em Algeciras de onde era natural
Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Almançor#/media/Ficheiro:Question_book-4.svg

…. Vendo-se seus nobres moradores deitados de suas casas, despojados dos sues patrimonios; mas de continuo alegres por terem suas Igrejas, e Mosteiros concedidos de E-Rei Alboacem, neto de Tarif, aquelle forte vencedor de Hespanha, que foi Senhor e Principe della. E toda a mais terra, que banha os rios Alva e Mondego. Hum deles foi de clérigos claustraes, que estava em Santa Justa, que o fez hum D. Rodrigo … Os mesmos Religiosos tinhão em S. Bartholomeu, que o dotou o Sacerdote Samuel a Lorvão nestes infelices dias.

… Aquelle bellicoso Rei Mouro Alboacem … que reinou prosperamente em Coimbra, inda que bárbaro, Principe clementíssimo, foi o que benignamente concedeo nova Lei, que os Catholicos, que estavão debaixo do seu Senhorio, tivessem Condes para com elles serem governados, conforme seus Institutos, e Fóros. E sendo Rei desta Cidade Marvam Ibenzorach, foi Conde della hum generoso varão, chamado Theodoro, descendentes dos Serenissimos Reis Godos.

Gasco, A.C. Conquista, Antiguidade, e Nobreza da mui Insigne, e inclita Cidade de Coimbra… Recolha de textos e notas por Mário Araújo Torres. 2019. Lisboa, Sítio do Livro. 51

 

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por Rodrigues Costa às 08:49

Quinta-feira, 13.06.19

Coimbra: Grades da igreja de Santa Cruz

Dignas de rivalizar com alguns dos trabalhos artísticos, de que se ufanam as catedrais espanholas, seriam porventura as grades monumentais, que, no venerando templo de Santa Cruz, separavam o cruzeiro do restante da igreja e as que vedavam os túmulos dos reis.

Igreja de Santa Cruz. Interior antigo 01.jpg

Igreja de Santa Cruz, ainda com grades

Hoje já não as podemos contemplar, mas sabemos da sua existência por alguns documentos e referências históricas, que mais ou menos diretamente lhes dizem respeito. Citaremos em primeiro lugar o trecho de uma carta de 19 de março de 1522, em que Gregório Lourenço dá consta a D. João III do estado em que se achavam as obras que o seu antecessor, D. Manuel, mandara fazer no templo de Santa Cruz. Um dos itens da carta é do seguinte teor:
«Item Senhor, mandou que fezessem huua grade de ferro grande que atravessa o corpo da egreja de XXV palmos d’alto com seu coroamento, e ao rredor das sepulturas dos rreix a cada hua sua grade de ferro, segundo forma dhum contrato e mostra que pera ysso se fez. Estam estas grades feitas e assentadas, e pago tudo o que se montou na obra dos pillares e barras das ditas grades porque disto avia daver pagamento a rrazom de dous mil reis por quintal asy como fosse entregando há obra. E do coroamento das ditas grades que lhe ade ser pago per avaliação nom tem rrecebidos mais de cinquoenta mil reis, que ouve dante mão quando começou a obra, que lhe am de ser descontados no fim de toda hobra segundo mais compridamente vay em huua certidão que antonio fernandes mestre da dita obra disso levou pera amostrar a V.A. E nom se pode saber o que d’esta obra he devido atee o dito coroamento destas grades ser avaliado.»
O trecho da carta de Gregório Lourenço é parcamente descritivo, mas apesar disso, muito agradecido lhe devemos ficar por ter salvado, ainda que involuntariamente, o nome do artista que fabricou a obra, António Fernandes.
Como se sabe, D. Francisco de Mendanha, prior do mosteiro de S. Vicente de Lisboa (1540), escreveu uma descrição em italiano do templo de Santa Cruz, a qual D. João II ordenou se traduzisse em português, sendo impressa nos prelos deste último convento. De tão curioso opusculo cremos que não se conhece hoje nenhum exemplar, mas D. Nicolau de Santa Maria perpetuou-o, incluindo-o na sua «Chronica», prestando assim um serviço, literário e artístico, bastante apreciável. Mendanha não se esquece de falar das grades e dedica-lhe as seguintes linhas:
«Alem deste púlpito espaço de 20 palmos contra a Capela mor está a grande e vetusta grade de ferro, que atravessa toda a igreja, ficando dentro o Cruzeiro, e tem de alto trinta palmos.»
O epíteto vetusta sintetiza, para assim dizer, em toda a sua singeleza, a formosura da grade. Entre Mendanha e Gregório Loureço há, todavia, uma discrepância no que respeita às dimensões; Mendanha dá a grade 5 palmos mais alta. Outra diferença notamos ainda. O prior de S. Vicente dis que as grades dos túmulos eram de «cinco palmos de alto, todas de pau preto e bronzeadas com ouro»: Gregório Lourenço claramente especifica que eram de ferro.
Coelho Gasco (In: Conquista, Antiguidade e Nobresa da mui insigne e ínclita cidade de Coimbra, pg. 83) classifica de sumptuosas as grades do cruzeiro e acrescenta que nelas havia um epitáfio, ou antes letreiro, latino, em letras de ouro, que rezava da seguinte forma:
«Hoc templum ab Alphonso Portugaliae primo rege instrutum ac tempore pene collapsum, Regno succesore & actore Emmanuele restauraverit. Anno Natalis Domini MDXX».
Esta data 1520 refere-se por certo à época em que foi assentada a grade e colocado o respetivo letreiro. A igreja já estava reconstruída, como, além de outros documentos, o demonstra o epitáfio do bispo D. Pedro, falecido a 13 de agosto de 1516.
No priorado de D. Acúrsio de Santo Agostinho (eleito em princípio de maio de 1590) as grades foram pintadas e douradas de novo.
Diz o cronista «… e porque as grades de ferro do cruzeiro e capelas da mesma igreja estavam pouco lustrosas, as mandou limpar, pintar e dourar em partes e particularmente mandou dourar as armas reais e folhagens, em que as ditas grades se rematam e tem as do Cruzeiro trinta palmos de alto e as das capelas quinze também de alto, e ficaram depois de pintadas e douradas mui aprazíveis à vista…».

Túmulo de D. Afonso Henriques já sem grades.jpg

Tumulo de D. Afonso Henriques já sem grades

Túmulo de D. Sancho.jpg

Tumulo de D. Sancho I já sem grades

Não sabemos até que época durassem as grades de Santa Cruz. Das que circundavam os sepulcros temos informação de 1620. Ou haviam chegado a extrema ruína ou foram substituídas ineptamente por outras. Referindo-se ao governo de D. Miguel de S. Agostinho, que foi eleito pela segunda vezem 30 de abril de 1618, escreve o cronista da ordem: «Nos últimos meses do seu triénio ornou o P. Prior geral, as sepulturas dos primeiros Reys deste Reino, que estão na capela-mor de S. Cruz grades de pau santo, marchetadas de bronze dourado.»

Viterbo, F.M.S. As grades de Santa-Cruz de Coimbra. In: Revista Archeologica. Estudos e Notas. Volume II. 1888. Direção de A.C. Borges de Figueiredo, Pg. 58-60

 

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por Rodrigues Costa às 10:42


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