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A' Cerca de Coimbra


Segunda-feira, 08.07.19

Coimbra: Conquistas e reconquistas

De como as Reis de Leão ganharão Coimbra, antes do Imperador D. Fernando, e de como se sustentou na Fé.

Antes que o Imperador D. Fernando Magno libertasse Coimbra, a ganhou aos infiéis D. Ramiro, Rei de Leão [770-850] e a tirou do poder de Haneh, Rei tyranno della.

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Ramiro I, Rei de Leão
Acedido em: http://www.barrosbrito.com/1386.html

Depois deste heroico Principe a conquistou outra vez D. Affonso, o Terceiro Rei de Leão [866-910]… quando castigou o traidor Vostisa.
Vindo sobre ela com hum grande exercito no anno do Senhor de 838, a 30 de Dezembro, dia da Trasladação do Apostolo Sant-Iago. Nesta batalha se achou com elle o Conde Hermenegildo seu parente, e seu Capitão General, de Nação Portuguez.

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Afonso III, o Magno
https://ww.alamy.com/stock-photo-afonso-iii-o-magno-tumbo-a-r-132573717.htm

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Representação de Hermenegildo Guterres
Acedido em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/69/Estacao_de_Rio_Tinto_Azulejo_07.jpg 

Mas logo foi conquistada por El-Rei Almaçor [938c.-1002], com que chegou a tal desventura, que sete annos esteve despovoada, e quasi arruinada, no fim dos quaes os Mouros a reedificarão.

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El-Rei Almanzor, acedido em
https://alchetron.com/Almanzor#demo

Busto_de_Almanzor_(26_de_marzo_de_2016,_Calatañaz

Busto de Almaçor em Algeciras de onde era natural
Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Almançor#/media/Ficheiro:Question_book-4.svg

…. Vendo-se seus nobres moradores deitados de suas casas, despojados dos sues patrimonios; mas de continuo alegres por terem suas Igrejas, e Mosteiros concedidos de E-Rei Alboacem, neto de Tarif, aquelle forte vencedor de Hespanha, que foi Senhor e Principe della. E toda a mais terra, que banha os rios Alva e Mondego. Hum deles foi de clérigos claustraes, que estava em Santa Justa, que o fez hum D. Rodrigo … Os mesmos Religiosos tinhão em S. Bartholomeu, que o dotou o Sacerdote Samuel a Lorvão nestes infelices dias.

… Aquelle bellicoso Rei Mouro Alboacem … que reinou prosperamente em Coimbra, inda que bárbaro, Principe clementíssimo, foi o que benignamente concedeo nova Lei, que os Catholicos, que estavão debaixo do seu Senhorio, tivessem Condes para com elles serem governados, conforme seus Institutos, e Fóros. E sendo Rei desta Cidade Marvam Ibenzorach, foi Conde della hum generoso varão, chamado Theodoro, descendentes dos Serenissimos Reis Godos.

Gasco, A.C. Conquista, Antiguidade, e Nobreza da mui Insigne, e inclita Cidade de Coimbra… Recolha de textos e notas por Mário Araújo Torres. 2019. Lisboa, Sítio do Livro. 51

 

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por Rodrigues Costa às 08:49

Quinta-feira, 13.06.19

Coimbra: Grades da igreja de Santa Cruz

Dignas de rivalizar com alguns dos trabalhos artísticos, de que se ufanam as catedrais espanholas, seriam porventura as grades monumentais, que, no venerando templo de Santa Cruz, separavam o cruzeiro do restante da igreja e as que vedavam os túmulos dos reis.

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Igreja de Santa Cruz, ainda com grades

Hoje já não as podemos contemplar, mas sabemos da sua existência por alguns documentos e referências históricas, que mais ou menos diretamente lhes dizem respeito. Citaremos em primeiro lugar o trecho de uma carta de 19 de março de 1522, em que Gregório Lourenço dá consta a D. João III do estado em que se achavam as obras que o seu antecessor, D. Manuel, mandara fazer no templo de Santa Cruz. Um dos itens da carta é do seguinte teor:
«Item Senhor, mandou que fezessem huua grade de ferro grande que atravessa o corpo da egreja de XXV palmos d’alto com seu coroamento, e ao rredor das sepulturas dos rreix a cada hua sua grade de ferro, segundo forma dhum contrato e mostra que pera ysso se fez. Estam estas grades feitas e assentadas, e pago tudo o que se montou na obra dos pillares e barras das ditas grades porque disto avia daver pagamento a rrazom de dous mil reis por quintal asy como fosse entregando há obra. E do coroamento das ditas grades que lhe ade ser pago per avaliação nom tem rrecebidos mais de cinquoenta mil reis, que ouve dante mão quando começou a obra, que lhe am de ser descontados no fim de toda hobra segundo mais compridamente vay em huua certidão que antonio fernandes mestre da dita obra disso levou pera amostrar a V.A. E nom se pode saber o que d’esta obra he devido atee o dito coroamento destas grades ser avaliado.»
O trecho da carta de Gregório Lourenço é parcamente descritivo, mas apesar disso, muito agradecido lhe devemos ficar por ter salvado, ainda que involuntariamente, o nome do artista que fabricou a obra, António Fernandes.
Como se sabe, D. Francisco de Mendanha, prior do mosteiro de S. Vicente de Lisboa (1540), escreveu uma descrição em italiano do templo de Santa Cruz, a qual D. João II ordenou se traduzisse em português, sendo impressa nos prelos deste último convento. De tão curioso opusculo cremos que não se conhece hoje nenhum exemplar, mas D. Nicolau de Santa Maria perpetuou-o, incluindo-o na sua «Chronica», prestando assim um serviço, literário e artístico, bastante apreciável. Mendanha não se esquece de falar das grades e dedica-lhe as seguintes linhas:
«Alem deste púlpito espaço de 20 palmos contra a Capela mor está a grande e vetusta grade de ferro, que atravessa toda a igreja, ficando dentro o Cruzeiro, e tem de alto trinta palmos.»
O epíteto vetusta sintetiza, para assim dizer, em toda a sua singeleza, a formosura da grade. Entre Mendanha e Gregório Loureço há, todavia, uma discrepância no que respeita às dimensões; Mendanha dá a grade 5 palmos mais alta. Outra diferença notamos ainda. O prior de S. Vicente dis que as grades dos túmulos eram de «cinco palmos de alto, todas de pau preto e bronzeadas com ouro»: Gregório Lourenço claramente especifica que eram de ferro.
Coelho Gasco (In: Conquista, Antiguidade e Nobresa da mui insigne e ínclita cidade de Coimbra, pg. 83) classifica de sumptuosas as grades do cruzeiro e acrescenta que nelas havia um epitáfio, ou antes letreiro, latino, em letras de ouro, que rezava da seguinte forma:
«Hoc templum ab Alphonso Portugaliae primo rege instrutum ac tempore pene collapsum, Regno succesore & actore Emmanuele restauraverit. Anno Natalis Domini MDXX».
Esta data 1520 refere-se por certo à época em que foi assentada a grade e colocado o respetivo letreiro. A igreja já estava reconstruída, como, além de outros documentos, o demonstra o epitáfio do bispo D. Pedro, falecido a 13 de agosto de 1516.
No priorado de D. Acúrsio de Santo Agostinho (eleito em princípio de maio de 1590) as grades foram pintadas e douradas de novo.
Diz o cronista «… e porque as grades de ferro do cruzeiro e capelas da mesma igreja estavam pouco lustrosas, as mandou limpar, pintar e dourar em partes e particularmente mandou dourar as armas reais e folhagens, em que as ditas grades se rematam e tem as do Cruzeiro trinta palmos de alto e as das capelas quinze também de alto, e ficaram depois de pintadas e douradas mui aprazíveis à vista…».

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Tumulo de D. Afonso Henriques já sem grades

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Tumulo de D. Sancho I já sem grades

Não sabemos até que época durassem as grades de Santa Cruz. Das que circundavam os sepulcros temos informação de 1620. Ou haviam chegado a extrema ruína ou foram substituídas ineptamente por outras. Referindo-se ao governo de D. Miguel de S. Agostinho, que foi eleito pela segunda vezem 30 de abril de 1618, escreve o cronista da ordem: «Nos últimos meses do seu triénio ornou o P. Prior geral, as sepulturas dos primeiros Reys deste Reino, que estão na capela-mor de S. Cruz grades de pau santo, marchetadas de bronze dourado.»

Viterbo, F.M.S. As grades de Santa-Cruz de Coimbra. In: Revista Archeologica. Estudos e Notas. Volume II. 1888. Direção de A.C. Borges de Figueiredo, Pg. 58-60

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Quinta-feira, 06.06.19

Coimbra: Entrada do bispo D. Miguel da Anunciação na cidade de Coimbra

Nota: Este assento foi transcrito pelo Doutor Manuel Augusto Rodrigues como documento anexo da publicação abaixo referenciada.

Assento da primeira entrada publica do Sr. Bispo Conde
Em 17 de Junho de 1741, tendo escrito o Ex.mo nosso Prellado, Sr. D. Miguel da Anunsiasão ao R.do Cabido que pelas tres horas e meya da tarde determinava fazer a sua entrada publicamente nesta cidade … o que asim se observou, sahindo o R.do Cabido acompanhado de todo o Clero, Confrarias, e Irmandades do Santissimo desta cidade … indo tambem os Reitores de S. Francisco da Ponte, e do Convento de S. Domingos … e a qual se encaminhou pela rua de San Cristovam [Rua Joaquim António de Aguiar, anteriormente Rua do Correio], rua das Fangas [R. Fernandes Tomás], e da Calsada [Rua Ferreira Borges], ruas de Coruche [R. Visconde da Luz], e Sta. Sofia [R. da Sofia], the as portas de Santa Margarida [início da R. da Figueira da Foz],

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Itinerário para a entrada do bispo

aonde da parte de fora estava um Taburno com quatro degraus de altura, immediato às duas portas, e da parte do monte, e no meyo do dito o Solio do Sr. Bispo Conde, ficando aos seus lados os asentos para o R.do Cabido entre o qual foram alguns Conegos Doutoraes vestidos de sobrepelis, e murça.

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Capela de N. S. do Loreto, na atualidade

… Pouco depois de ter chegado o R.do Cabido chegou ao dito Citio o Sr. Bispo Conde, o qual sahio da Capella de N.ª. S.ª do Loretto, onde os seus Criados o vestiram, e ajudaram a montar a Cavallo em huma mula preta com gualdrapa, e arreyos cobertos de pano roixo, e dahi abalou no meyo de quatro Conegos deputados pelo R.do Cabido pera o virem acompanhando, os quais vinham todos montados em suas mullas com gualdrapas pretas, e elles com vestidos talares de murça negra; atras do dito Sr. vinha montado a Cavallo loam de Saa Pereira rogado pera seu caudatario, e o estribeiro do dito Sr. adiante dos quatro Conegos vinham os Capellaes, e Pagens do Sr. Bispo Conde, adiante destes, os ministros da cidade a que se seguião os fidalgos della, e alguns nobres … e seriam perto de quatro horas quando se chegou adonde estava o R.do Cabido e apeando-se o Sr. Bispo Conde ajoelhou em huma almofada posta sobre huma alcatifa estendida na rua junto ao Taburno, e ahi lhe deu a beijar a Cruz pequena de esgalhos …Logo vieram dous Conegos a servir de Diaconos asistentes, que alli o vestiram Pontificialmente, e o Rdo Deam lhe meteu o anel no dedo: Expedida na rua de Santa Sofia a Nobreza, Fidalguia e Ministros da Cidade, os foram seguindo as Irmandades, Confrarias, Clero e as ditas Religiões, que sahindo da rua de Santa Margarida [R. da Figueria da Foz], de dous a dous, foram passando por diante do Sr. Bispo Conde, e pondo-lhe hum joelho em terra. Seguia-se em ultimo lugar o Clero da Freguesia da See, Capellães, e muzicos delIa cantando hymnos, e logo o R.do Cabido se seguia fazendo inclinasam profunda ao dito Senhor paseando-se por elle dous a dous. Desceu o Ex.mo Prellado do seu solio, e montando em hum cavallo ruço com gualdrapa e arreyos cobertos de cettim branco, abalou pera as portas da, Cidade [portas de S.Margarida] adonde o vereador mays velho lhe representou da parte do senado e da cidade a alta estimação … Logo o receberam os Camaristas debaixo do Pallio, pegando na outava Vara hum veriador do anno antecedente, e chegando asim ao Terreiro de Sam Sam [Praça 8 de Maio], onde haviam feito paragem outo cavaleiros fidalgos, se entregaram a estes as ditas varas da ponte das portas da Igreja de Santa Crus, e dahi o acompanharam, e conduziram the as portas da See,


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as portas da See

aonde da parte de dentro estava huma alcatifa estendida, sobre que parou o Sr. Bispo Conde, e o R.do Deão lhe deu agoa Benta, e incenso pera o dito Senhor fazer … sahio da See o dito Senhor pera o Seu Paço acompanhado do Cabido, Clero e Nobreza.

Rodrigues, M.A. 1982. D. Miguel da Anunciação e o Cabido da Sé de Coimbra. Separata do Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, vol. V.

 

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por Rodrigues Costa às 11:04

Terça-feira, 04.06.19

Coimbra: O bispo D. Miguel da Anunciação

Natural de Lisboa, onde nasceu a 28 de Fevereiro de 1703, descendente de uma família nobre (seu pai era Tristão da Cunha e Ataide, primeiro conde de Povolide, e sua mãe pertencia à família dos Távoras), viria a escolher Coimbra para lugar dos seus estudos. Foi porcionista do Real Colégio de S. Paulo e frequentou Cânones na Universidade.

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D. Miguel da Anunciação. Pintura de Pascoal Parente

Mas depois resolveu entrar para o Mosteiro de Santa Cruz, tendo recebido o hábito a 26 de Abril de 1728, sendo em 1737 eleito geral da congregação.
Em 1739 era apresentado no bispado de Coimbra por D. João V, recebendo a sagração episcopal em Santa Cruz no dia 9 de Abril de 1741.
… Deixou várias Pastorais e atribui-se-lhe uma obra (com o pseudónimo de Pedro Bembo) sobre o sigilismo, intitulada Fundamentos... (Madrid,1768), impressa numa tipografia clandestina de S. Martinho do Bispo.
… Ao tempo de D. Miguel da Anunciação as coisas no Cabido não funcionavam da melhor maneira. Havia discórdias constantes entre o Cabido e os beneficiados, como aliás, embora em menor proporção, noutras diocese do reino.
… a questão só terminou quando Pio VI, pela Bula Christus Dominus Dei Filius, de 20 de Junho de 1778, a pedido do bispo de Coimbra, extinguiu e aboliu perpetuamente as meias conezias e tercenárias da sé de Coimbra e mandou erigir outra nova ordem de benefícios em que aqueles ficassem.

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Seminário de Coimbra

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Pedra-de-armas de D. Miguel da Anunciação conservada no Seminário maior de Coimbra.
In: Santos, M.M.D. 2010. Heráldica eclesiástica - Brasões de Armas de Bispos-Condes, pg. 140

…. A acção pastoral de D. Miguel da Anunciação foi notável. Visitou amiúde a diocese e incrementou imenso a prática da vida cristã. A ele se deve a criação do Seminário Maior de Coimbra. um dos monumentos mais grandiosos levantados na cidade. e a publicação de várias pastorais. Foi ele o criador da Academia Litúrgica do Mosteiro de Santa Cruz.
Tendo publicado em 8 de Novembro de 1768 uma pastoral-em que condenava a leitura e o uso de certos livros· de autores franceses, isso serviu de pretexto para que em 8 do mês seguinte fosse preso e levado para Pedrouços, onde esteve detido até 1777.
… A 21 de Fevereiro de 1777, três dias antes de morrer, D. José por seu próprio punho escreveu uma ordem em que perdoava ao prelado e autorizava a sua libertação. A 7 de Julho dirigiu D. Maria I a D. Miguel da Anunciação uma carta muito honrosa.
A entrada solene em Coimbra teve lugar no dia 22 de Agosto de 1777. Foi um momento alto da vida de D. Miguel que se via de novo na diocese que Bento XIV lhe atribuira.
Enquanto estivera detido governou a diocese como bispo coadjutor e futuro sucessor, D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, reformador-reitor da Universidade.
… D. Miguel da Anunciação veio a falecer no convento de Semide em 29 de Agosto de 1779, tendo sido sepultado em Santa Cruz.

Rodrigues, M.A. 1982. D. Miguel da Anunciação e o Cabido da Sé de Coimbra. Separata do Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, vol. V.

 

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por Rodrigues Costa às 09:37

Quinta-feira, 30.05.19

Coimbra: Frei Paio de Coimbra 2

 

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Divus Pelagius Conimbricensis. Porta principal do Colégio de S. Tomás. Coimbra
Foto: Bernardino F. C. Marques

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Pormenor da porta principal do Colégio de S. Tomás, Coimbra. Estilo renascentista, 1545. Museu Machado de Castro, Largo de S. Salvador, Coimbra
Foto: Bernardino F. C. Marques

Frei Paio de Coimbra ou ‘Frater Pelagius Parvus’ nasceu em Coimbra, provavelmente entre 1195 e 1200, vindo a falecer por volta de 1249. Foi sepultado no primitivo convento dominicano desta cidade.
Pouco conhecemos da sua vida, mas as informações que os seus biógrafos nos transmitiram dão-nos o perfil de um frade culto, humilde e milagreiro após a sua morte.
O primeiro cronista da Ordem dos Pregadores, Gerardo de Frachet, que deve ter conhecido Frei Paio quando visitou os conventos da parte ocidental da Hispânia, refere que «depois de este ter trabalhado fielmente durante muito tempo, com fervor e humildade no desempenho do cargo de pregador e de ouvir confissões, por fim, presentes os frades e orando por eles, descansou no Senhor no convento de Coimbra, reino de Portugal».
Relata em seguida «os prodígios que realizou Frei Pelágio, para honra e glória de Jesus Cristo», em favor daqueles que devotamente acorriam ao seu sepulcro, ou dele tomavam a terra.

Frei S. Paio.jpgS. Paio de Coimbra

O prodígio mais emblemático foi o ‘milagre da fundição do sino, que assim é narrado: «… encontrando que por um certo erro do fundidor, faltava muito cobre, levantou-se de orar um frade e tomando terra do sepulcro de Frei Pelágio, lançou-o ao forno e converteu-se imediatamente em cobre…».
Os próprios infiéis beneficiaram, por seu intermédio, das graças de Deus: «E o que foi mais admirável – diz o cronista -, dois sarracenos de Coimbra que padeciam de violentas febres, tomaram terra da sepultura de Frei Pelágio e, nesse instante, por misericórdia divina, ficaram plenamente curados».
A eficácia da sua pregação permanecia, pois, mesmo depois da sua morte.
Teria Frei Paio frequentado a escola episcopal de Coimbra ou a do mosteiro de Santa Cruz. Foi recebido na Ordem dos Pregadores, sendo já adulto, por Frei Sueiro Gomes, companheiro de S. Domingos e primeiro provincial da Hispânia. O historiador dominicano Frei António do Rosário lança a pergunta: - Donde provieram (est)as vocações (adultas)»? E responde com presteza: «O caso de Santo António, cónego regular que se fez mendicante franciscano, não ficaria único. Dos Mosteiros, das Colegiadas e da Cleresia proveio, sem dúvida, o melhor e o mais avultado contingente das primeiras vocações em Portugal, aliás como nas outras partes da Europa».

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Santo frei Payo. Frontispício da Primeira Parte da História de S. Domingos, de Frei Luís Cácegas e Frei Luís de Sousa – 1623. Museu de Aveiro, inv. nº 9/L. In Frei António José de Almeida, O.P.,
Disponível na WWW, <portugaldominicano.blogspot.com/>

«Era Frei Paio, quando veio à religião - diz Frei Luís de Sousa -, entrado já em dias, e conhecido por letras, e virtude. E como tal foi o primeiro Prior do Convento, e ficando em Coimbra morador contínuo». Foi este o primitivo Convento Dominicano construído no lugar da Figueira Velha, ao Arnado, em 1227, sob o mecenato de duas filhas de D. Sancho I, a princesa D. Teresa, que fora casada com D. Afonso, rei de León, a qual comprou os terrenos necessários, e a princesa D. Branca, que financiou a construção.
Afirma Frei Luís de Sousa que o ‘Santo frei Payo’ «faleceo, segundo a conta dos mais dos autores, que d’elle escrevem polos annos do Senhor de 1257, pouco mais ou menos». Mas logo refere que, numa inscrição tardia da lápide tumular na capela-mor da igreja do Colégio, estava registava a data de 1240: «Primus huius Conventus Prior morum sanctitate ac miraculorum gloria insignis Pelagius hic situs est. Obiit circa annum 1240».
No entanto, quem mandou gravar tal data foi induzido em erro, pois no registo da abertura do testamento de D. Sancho II, em 1248, consta a presença de Frei Pelágio Abril, nome pelo qual era também conhecido, à data prior do convento da cidade do Porto: «Pelagius Aprilis Portugalensis et frater Fernandus Petri».

Marques, B.F.C. 2010. Mundividência cristã no Sermonário de Frei Paio de Coimbra : edição crítica da "Summa Sermonum de Festiuitatibus" Magistri Fratris Pelagii Parui Ordinis Praedicatorum, A. D. 1250, Cod. Alc. 5/CXXX - B.N. de Lisboa. Tese de doutoramento em Letras, área de Filosofia (História da Filosofia), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, Faculdade de Letras. Acedido em 2019.05.3, em https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/17440?mode=full 

 

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por Rodrigues Costa às 11:08

Terça-feira, 28.05.19

Coimbra: Frei Paio de Coimbra 1

No passado mês de abril publiquei uma entrada sobre o primitivo Convento de S. Domingos.
Entretanto chegou ao meu conhecimento uma imagem das escavações realizadas e a que ali me referi a qual, a dado o seu interesse, ora reproduzo.

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Descoberta das estruturas do Convento medieval (primitivo) de São Domingos (1227) no Centro Histórico de Coimbra
LUSA - Agência de Notícias de Portugal, 23 de Fevereiro de 2009

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No texto publicado era feita uma referência a Frei, ou, Dom, ou São Paio de Coimbra.
Pouco ou nada sabendo sobre esta figura da nossa terra foi, entretanto, possível recolher as informações que agora se divulgam.

Há trinta anos, pelo menos, quando nos pusemos a estudar um por um, todos os códices alcobacenses da Biblioteca Nacional de Lisboa, respeitantes à Idade Média … vieram ao nosso encontro estes sermões [o Sermonário de Frei Paio de Coimbra, o Cód. Alc. 5/cxxx], ou melhor, esquemas de sermões, escritos em pergaminho, em letra de transição do séc. XIII, com iniciais a vermelho e azul, filigranadas … Só desejamos acentuar que todo o códice (e não unicamente os sermões de Frei Paio) se destinava a pregadores mais ou menos incipientes. Era um manual teórico e prático de oratória cristã.

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Frontispício do Sermonário. Cod. Alc. 5/cxxx Fotocópia de microfilme: Hill Monastic Manuscript Library, 1980

Tornando aos sermões, foi seu autor o dominicano Frei Paio de Coimbra ou Pelagius Parvus. E conforme a nota final, da mesma letra, foi copista deles o monge alcobacense Frei Domingos Pires ou Peres (Dominicus Petri), no ano de 1250, a pedido de Dom Pedro Eanes, abade do Mosteiro de Tarouca.
Frei Luís de Sousa [refere] a data duvidosa da morte de Frei Paio de Coimbra, [citando uma lápide que dizia] «Aqui jaz Frei Paio, primeiro prior deste convento [de S. Domingos-o-Velho de Coimbra] e notável pela santidade de costumes e pela glória dos seus milagres».
Morreu à volta de 1240. E acrescenta Frei Luís de Sousa: «foi sua vida e morte surda e sem rumor». Talvez isto explique a ignorância do ano exato em que morreu um dos maiores pregadores do séc. XIII.
… Outros autores apontam o ano de 1257 (e não o de 1240), o que faz supor a inexistência de lápide antiga com ano certo. De contrário, talvez a levassem quando trasladaram o túmulo ou as ossadas.
O cónego coimbrão Pedro Álvares Nogueira (f 1598) fala-nos também de Frei Paio, assim como do «mosteiro de sam Domingos o velho». Nele esteve muitos anos a sepultura do grande pregador, até que «os frades levarão tudo pera o mosteiro novo e não deixarão mais que hum sino, em lembrança do milagre» que, na fundição do mesmo sino, realizou «o bemaventurado sam Payo».

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São Frei Paio. Capela do Espírito Santo, Carapinheira, Montemor-o-Novo. Testemunho do culto popular
Foto: Bernardino F. C. Marques

… Que nos dizem de Frei Paio os informadores (diretos ou indiretos) de Frei Gerardo? Pois bem, dizem que ele confessou e pregou durante largo tempo e partiu deste mundo no convento de Coimbra, rodeado pelos outros frades postos de joelhos e a rezar.
Passado algum tempo (notemos a frase) morreu outro frade e enterraram-no junto do seu coval... Ora, tanto o coveiro como os frades sentirem evolar-se dele um perfume maravilhoso e uma espécie de névoa. E estando bastante doente a filha do coveiro e sem poder levantar-se, de regresso a casa ofertou-a a Frei Paio… isto é, fez por ela uma promessa. Logo se levantou a moça, pegou no cântaro e foi buscar água ao rio, sem doença nenhuma.
... A fama de santidade, julgamos nós, espalhou-se mais a partir do povo … Segue o famoso milagre da fundição do sino; mais outro duma mulher com dores no estômago; um escudeiro dos arredores de Coimbra e um frade dominicano do convento, ambos eles curados da febre; a confissão dum pecador empedernido; a cura dum cego que dantes se confessava a Frei Paio; cinco endemoninhados salvos da sua aflição … enfim, duas mulheres sarracenas, dos arredores de Coimbra, atacadas de febre e livres da doença, por tomarem terra do sepulcro de Frei Paio … Milagre deveras notável… por se tratar de muçulmanas, gente doutra religião.
… Ora bem, este frade, cuja morte foi «surda e sem rumor», deixou-nos uma coleção de sermões que podemos colocar, sem vergonha ao lado dos que escreveu Santo António de Lisboa, seu contemporâneo. Nada menos de quatrocentos e sete sermões, quase todos panegíricos de santos. Entre eles, dois sermões em louvor de Santo António, o que faz de Frei Paio um dos panegiristas antonianos mais antigos — e muito desejaríamos nós que fossem estes os mais recuados sermões ainda existentes, em honra do grande santo de Lisboa.
…Que os sermões de Frei Paio sejam de importância para a história da eloquência medieval, salta aos olhos, sobretudo para o caso português. E não só.
…Já provámos ter Frei Paio estado em Santarém. E decerto em muitas mais terras portuguesas, pois os pregadores … Que pregou em português não oferece dúvidas … entre os sermões de Frei Paio, existam nada menos de nove panegíricos de S. Tomás de Cantuária… significaria ter Frei Paio estado em Cantuária.
… Quanto à presença de Frei Paio em Bolonha (e por conseguinte noutros lugares da Itália) nenhuma dúvida possível. Foi Bolonha o lugar preferido para alguns dos primeiros capítulos gerais dos frades pregadores.

Martins, M. 1973. O Sermonário de Frei Paio de Coimbra do Cód. Ale. 5 / CXXX. In: Didaskalia. III (1973). Pg. 337-362. Acedido em 2919.01.03, em
https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/11993/1/V00302-337-361.pdf 

Marques, B.F.C. 2010. Mundividência cristã no Sermonário de Frei Paio de Coimbra : edição crítica da "Summa Sermonum de Festiuitatibus" Magistri Fratris Pelagii Parui Ordinis Praedicatorum, A. D. 1250, Cod. Alc. 5/CXXX - B.N. de Lisboa. Tese de doutoramento em Letras, área de Filosofia (História da Filosofia), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra, Faculdade de Letras. Acedido em 2019.05.3, em https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/17440?mode=full

 

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por Rodrigues Costa às 09:47

Quinta-feira, 16.05.19

Coimbra: Hospital Real 2

Quem, hoje, passar em Coimbra, pela Praça do Comércio, não vislumbra nada que denote o edifício do hospital.
Poucos saberão que o espaço que acolhe uma típica loja de comércio oriental revela, ainda, no seu interior, arcadas e colunas manuelinas.

Hospital real de Coimbra 02.jpg

Hospital Real de Coimbra, pormenor da abóbada da entrada na capela

Mas, pouco adiante, podem ver-se pedras que falam…

Reprodução fotográfica das iniciais HRC,.JPG

Reprodução fotográfica das iniciais HRC, a seguir às quais foi colocada, posteriormente, a identificação do sequente proprietário - V.DE – a Universidade de Coimbra, herdeira dos bens do Hospital, após a sua extinção, em 1772. (Foto gentilmente cedida pelo Prof. Doutor Henrique Carmona da Mota).

Sobre o umbral da porta de uma casa, na rua Direita da baixa coimbrã, que na verga tem o número 73, está [estava] o registo epigráfico com a sigla HRC, formada pelas iniciais do nome da instituição, com as quais se identificava a posse de seus bens, sendo usadas também nos marcos de demarcação de propriedades rústicas.

Sinete do Hospital Real de Coimbra.JPG

O sinete da instituição apresentava também as armas reais. Atente-se na marca do sinete
que se encontra aposto na capa do livro de entrada e saída de doentes
(1711-1713) (PT/AUC/HOSP/HRC/17/003).

O Hospital era administrado de acordo com o seu Regimento, sendo gerido por um provedor e um almoxarife, fazendo, ainda, parte do seu número de funcionários o recebedor dos enfermos, o hospitaleiro, o escrivão, o porteiro, o capelão, o solicitador, etc.
Dentro das suas instalações os espaços dividiam-se por duas enfermarias (de homens e de mulheres), capela, casa do despacho, hospedaria, refeitório, despensa, adega e cozinha, tendo recebido, inicialmente, apenas 17 doentes.
A botica hospitalar não existiu, logo, desde o início da sua fundação, sendo feito contrato com boticários da cidade para fornecimento do que fosse necessário. No entanto, pelo Alvará de 24 de junho de 1548, pelo qual se ordena ao físico que dê, da botica, todas as mezinhas necessárias para a cura dos colegiais da Ordem de São Jerónimo, fica-se a saber que ela existe a partir dessa data, pelo menos.
Havia, ainda, casas de hospedaria, para receber “pessoas de bem” que estivessem de passagem, assim religiosos, como “mulheres honradas” e alguns estrangeiros que de caminho passavam pela cidade.
Um outro espaço existente era o designado “hospital dos andantes” ou “casa dos pedintes andantes” destinado a acolher os peregrinos passantes pela cidade ou pessoas indigentes que não tinham onde se albergar.
Os pedintes andantes poderiam ali ficar um dia e uma noite, existindo para seu conforto, de acordo com inventários de 1523 e 1659, mantas velhas “com que se cobriam os andantes”, um candeeiro e candeias de azeite, uma caldeirinha de barro para água. As instruções dadas em Almeirim, em 4 de maio de 1508, referem já a existência da “casa dos andantes”, com leitos para os andantes pobres, tendo cada leito o seu enxergão de palha, um almadraque de lã, um cabeçal de lã, cabeceira e dois cobertores de burel. Também o mobiliário das enfermarias era muito simples e, de acordo com o Regimento, de 22 de outubro de 1508, cada cama tinha: um enxergão, um almadraque, um colchão, um par de lençóis, um cabeçal e uma manta ou um cobertor.
Informação adicional.

Nota
Deslocamo-nos ao local e fotografamos o espaço. Assinalando que alguns dos capiteis foram mutilados, deixo à consideração dos leitores as imagens que então recolhi.

IMG_8383.JPGHospital Real. Vista exterior na atualidade

IMG_8376.JPGHospital Real. Loja chinesa 1

IMG_8379.JPGHospital Real. Loja chinesa 2

IMG_0735.JPG

Hospital Real. Loja fechada

Bandeira, A.M.L. O Hospital Real de Coimbra: acervo documental de uma instituição assistencial (1504-1772). In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Volume XXVIII. 2015. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra. Acedido em 2019.01.29 em
https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/37775/1/O%20Hospital%20Real%20de%20Coimbra.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 11:39

Terça-feira, 14.05.19

Coimbra: Hospital Real 1

«… E vendo quão necessária coisa era, em a dita cidade, haver um bom hospital, segundo o requer a nobreza dela e a grande passagem que por ela fazem as gentes de todas as partes e, muito principalmente, nos tempos do Jubileu de Santiago e como os pobres e miseráveis não acham na dita cidade, nos hospitais que nela havia tal recolhimento…».
Através destas palavras, ficamos a conhecer a origem do Hospital Real de Coimbra, instituição assistencial hoje quase ignorada na cidade, mas que foi o porto de abrigo de tantos peregrinos, pobres e doentes. A sua fundação surge integrada num processo de revitalização da assistência médica, levada a cabo por D. Manuel.

Manuel_I1.jpg

D. Manuel I

Atendendo à dispersão de pequenas unidades hospitalares que funcionavam, mais como asilos para pobres, do que para assistência aos doentes, o rei entendeu por bem fazer a sua reunião e anexação em um só hospital.
Foi, isso mesmo, que se passou também em Lisboa, com a extinção de dezenas de albergarias e a sua anexação ao Hospital de Todos os Santos que recebeu Regimento em 1504, apesar de as medidas de unificação já terem sido encetadas por D. João II. Em Coimbra, foi também em 1504 que se iniciou a construção do novo Hospital, tendo-lhe sido anexados, em 1508, os antigos hospitais e albergarias da cidade. Por sua vez, em Évora, a reunificação de doze pequenos hospitais ocorreu em 1515.

Hospital Real de Coimbra. Foto mais antiga.JPG

Hospital Real de Coimbra

O ritmo de vida da instituição era marcado pelo som da sua campa, que era tangida para dar início à visitação dos professores da Faculdade de Medicina (das cadeiras de Prima, Tertia e Avicena) e seus alunos, logo pelas seis horas e meia da manhã (no verão) e pelas sete horas e meia (no inverno).
Enquanto a Universidade não teve o seu próprio hospital, o que só viria a acontecer depois da Reforma Pombalina, em 1772, a prática médica era exercida no hospital da cidade.
A visita diária aos doentes, nas enfermarias, demorava três quartos de hora, sendo obrigatória para todos os alunos da Faculdade de Medicina. Tinha lugar na presença do administrador do hospital e de seus enfermeiros, decorrendo desta visita a observação dos doentes, aos quais os médicos prescreviam as receitas necessárias, que eram escritas pelos enfermeiros, em tábuas engessadas de branco.
Depois desta primeira visita, seguia-se uma outra, numa sala à parte das enfermarias, para receber todos os enfermos da cidade que ali acudissem, em busca de lenitivo para os seus males. Se se verificasse que havia necessidade de internamento de algum destes doentes pobres, o professor determinaria esse internamento, mas se houvesse oposição do médico da instituição “o lente se conformará sempre com o regimento do próprio hospital”.

Desenho inserido no Regimento manuelino.JPG

Desenho inserido no Regimento manuelino do Hospital Real de Coimbra (1508),
apresentando as armas reais, testemunhando a fundação régia da instituição. (PT/AUC/HOSP/HRC/02/001).

Data de 1704, o livro mais antigo de registo de entrada de doentes que hoje existe. Estes livros são testemunhos da maior relevância para o conhecimento de quem eram estes doentes e de onde vinham. Seguramente, terão existido para datas muito anteriores, sendo de lamentar que não tenham sobrevivido.
Os professores visitavam ainda, diariamente, os designados doentes de cirurgia, observando todos “os feridos e chagados” e dependia também da opinião dos professores a manutenção do boticário e do sangrador do Hospital, se estes não cumprissem as suas obrigações. O mesmo se diga quanto aos boticários da cidade que forneciam “as mezinhas” necessárias ao curativo dos doentes.
Assim se revela a estreita relação entre o Hospital Real de Coimbra e a Universidade, unindo-se na assistência e na boa formação dos futuros médicos.

Livro de receituário médico.jpg

Folha de rosto do Livro de receituário médico (cirurgia) de 1622 (PT/AUC/HOSP/HRC/13/133)

… Foi neste hospital que se iniciou, em Coimbra, a prática da anatomia, em casa apropriada para esse fim, assistindo os alunos da Faculdade de Medicina a duas “anatomias universais”, anualmente, de acordo com o que ficou estabelecido em Estatutos da Universidade, de 1559. Alonso Rodrigues de Guevara foi o primeiro professor de Anatomia, na Universidade de Coimbra, a partir de 1556, tendo sido convidado por D. João III. Pouco tempo residiu em Coimbra, tendo-se ausentando, por descontentamento, segundo se tem afirmado, por ainda não serem permitidas as anatomias em corpos humanos, o que de facto só mais tarde veio a acontecer.

Bandeira, A.M.L. O Hospital Real de Coimbra: acervo documental de uma instituição assistencial (1504-1772). In: Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Volume XXVIII. 2015. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra. Acedido em 2019.01.29 em
https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/37775/1/O%20Hospital%20Real%20de%20Coimbra.pdf 

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por Rodrigues Costa às 10:55

Quinta-feira, 09.05.19

Coimbra: Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra 2

Entretanto, o Reitor, D. Francisco de Lemos (1735-1822), consciente do tempo que levaria a pôr de pé tal equipamento mandou construir para uso das aulas um pequeno observatório interino (de caracter provisório) no terreiro do Paço das Escolas.… A solução para o definitivo Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra (OAUC) passava por fixar a sua localização no topo Sul do Paço das Escolas.
…. No espaço de quatro anos (17881792) são conhecidos quatro projectos arquitectónicos (três deles em menos de meio ano): uma primeira versão em 1788; uma segunda versão em Setembro de 1790; uma terceira em Novembro de 1790; e uma quarta versão em Fevereiro de 1791 e Setembro de 1792 (que corresponde à versão construída).
… A forma final do edifício – o projecto final do OAUC é aprovado pela Junta da Universidade em 5-2-1791, estando em 1799 concluído o edifício – será constituída por um corpo horizontal com um piso e cobertura plana, e uma torre com três pisos definida a partir do vão central, também com cobertura plana.

Planta do Observatório Astronómico que a Univers

Planta do Observatório Astronómico que a Universidade mandou fazer dentro no seu pátio no anno de 1791. [BGUC Ms. 3377-44]

Prospecto ou vista do pátio a Universidade.jpg

Prospecto ou vista do pátio a Universidade. [BGUC Ms. 3377-44]

Prospecto ou fasia da rua da Trindade.jpg

Prospecto ou fasia da rua da Trindade e Expecato emtrior por A B. [BGUC Ms. 3377-45

Este edifício é um bom exemplo do desfasamento entre as ambições iniciais da Reforma Pombalina e a nova realidade. Pensado no seu início como um edifício destacado de todos os estabelecimentos científicos, o Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra acabava no mais modesto de todos eles. Abdicava-se da carga simbólica e da função urbana iniciais e concentrava-se a atenção na criação de um estabelecimento astronómico [Martins & Figueiredo 2008].

Figueiredo, F.B. 2013. O Observatório astronómico (1772-1837). Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra. Acedido em 2018.10.28, em http://hdl.handle.net/10316.2/38513. 

 

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por Rodrigues Costa às 10:14

Terça-feira, 07.05.19

Coimbra: Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra 1

A ideia de criar um Observatório Astronómico surge desde logo nos Estatutos Pombalinos (1772) a propósito da Faculdade de Mathematica e da respectiva cadeira de Astronomia (4.º ano). A sua criação tinha dois objectivos distintos, a leccionação e o desenvolvimento da ciência astronómica. Os Estatutos Pombalinos encaravam a ciência como a força motriz para uma mudança de mentalidades essencial à modernização do país e a astronomia desempenhava um papel fundamental pelas “consequências tão importantes ao adiantamento geral dos conhecimentos humanos, e à perfeição particular da Geografia, e da Navegação”. Por isso o Observatório Astronómico era representativo desse modo de ver a ciência, constituindo simultaneamente um meio para o seu desenvolvimento.
… Hoje, a maior parte dos muitos visitantes que franqueiam a Porta Férrea da Universidade e olham, ao entrar no Pátio das Escolas, à sua esquerda e se aproximam do varandim para desfrutar a imensa vista sobre a baixa da cidade e do rio Mondego, não faz ideia que aí era durante muitos anos (quase 150) o Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra (OAUC) – um edifício de configuração rectangular, “constituído por três corpos contíguos em que o central é três vezes mais alto do que os laterais.” [Bandeira 1943-1947, p.129] –, e que foi demolido aquando das obras de requalificação da Universidade de Coimbra nos anos 50 do século XX.

Observatório Astronómico.jpg

Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra

Porém, este edifício não foi aquele que a Reforma Pombalina previu edificar. O sítio que se determinou primeiramente para a construção do Observatório foi o Castelo da cidade [Lemos 1777, p.260], que se situava na vertente da Alta de Coimbra oposta ao Paço das Escolas, onde hoje é o Largo D. Dinis (no cimo das Escadas Monumentais).
… O Castelo era constituído por duas torres: a de menagem quadrada, de construção afonsina, a que se chamava Torre Nova; e uma segunda, de configuração pentagonal que embora fosse de construção mais recente, pois havia sido erguida nos tempos de D. Sancho I, era designada por Torre Velha [Lobo 1999, p.4].

Planta do Castelo. Elsden, 1773.jpg

Planta do Castelo e Casas a ele contíguas em a Universidade de Coimbra (Elsden, 1773). [BGUC, Ms.3377/41]

Alçado do Observatório do Castelo.jpg

Alçado do Observatório do Castelo (Elsden, c.1773). [MNMC, Inv. 2945/DA 23]

Em 1775 (a partir do mês de Setembro) quando estava realizado o essencial do piso térreo, com o edifício erguido até ao 1.º piso, “a uma altura não inferior a 8 metros”, as obras param. O elevado custo dos trabalhos atingido em cerca de dois anos e meio, e quando estava ainda por realizar parte significativa da obra, é a principal causa para a interrupção de tão ambicioso projecto.

Figueiredo, F.B. 2013. O Observatório astronómico (1772-1837). Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra. Acedido em 2018.10.28, em http://hdl.handle.net/10316.2/38513 

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por Rodrigues Costa às 09:44


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