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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 21.03.19

Coimbra: Universidade de Coimbra e a Devassa de 1619-1624

Na Biblioteca Nacional de Lisboa… encontra-se um Manuscrito … resultado de uma «sindicância» ou «devassa» feita à Universidade de Coimbra, de 1619 a 1624, por D. Francisco de Meneses, na qualidade de reformador da Universidade.
…. Durante os longos cinco anos por que se prolongou aquela «reformação» (ou como hoje se diria, aquela «inspeção, sindicância ou devassa…») [foram inquiridas] cerca de 300 pessoas, entre lentes, opositores, doutores, clérigos, estudantes, oficiais da Universidade e civis, chegando à conclusão de que a Universidade padecia de «muitos e prejudiciais vícios», os quais nos dão uma ideia geral do estado de decadência em que, nos começos do século XVII, se encontrava a Universidade Portuguesa, situação, aliás, partilhada, naquela época, pela maioria das Universidades estrangeiras.
[Salientamos alguns exemplos] desses aspetos negativos da vida da Universidade:

- Os ornamentos e paramentos da Capela da Universidade nem sempre eram bem tratados e, por vezes, eram mesmo emprestados e até alugados.
- Alguns capelães da Capela da Universidade não estudavam ou até nem sequer se matriculavam.
- Nem o Reitor nem o Vice-Reitor haviam mandado pôr éditos na porta das Escolas a lembrar aos estudantes a obrigação que tinham de se confessar.
- O Secretário da Universidade … levava 1 vintém aos estudantes pela matricula.
- O mesmo Secretário aceitava dinheiro, presentes, peitas ou dádivas para «dar» a alguns estudantes «tempo» que lhes faltava para se poderem reformar ou para poderem «provar cursos»,
- O Vice Conservador da Universidade … era grosseiro, caloteiro, venal, devasso e, em geral, não cumpria os seus deveres.
- Os três Bedéis da Universidade, mas, de modo mais notório, o de Cânones e Leis e o de Medicina, eram «corruptos», não marcando as faltas dos estudantes, aceitando dinheiro e outros presentes aos estudantes e graduados que trocassem as «sortes» para os atos de conclusão, ou para marcarem a data dos atos.
- Alguns estudantes tinham pistoletas, espingardas, terçados, facalhões e outras armas.
- Alguns funcionários e estudantes viviam em mancebia.
- Alguns religiosos e eclesiásticos, alguns estudantes entregavam-se a práticas de homossexualidade e sodomia ou, como se dizia na linguagem da época eram «fanchonos».
- Havia lentes, bedéis e estudantes que se entregavam ao vinho em excesso.
- Alguns estudantes e até funcionários da Universidade falsificavam documentos, nomeadamente «certidões» de cursos.
- O encarregado da Livraria da Universidade …. retirou dela alguns livros e até algumas das cadeias que os prendiam.
- Alguns estudantes de Medicina exerciam a profissão médica sem haverem completado os seus cursos.
- Alguns funcionários e sobretudo professores … praticavam o suborno por ocasião das oposições às cadeiras.
. Na eleição dos Reitores e Vice-Reitores se praticavam subornos.

Eis alguns dos «muitos e prejudiciais vícios» de que, segundo a Devassa de 1619-1624, enfrentava a Universidade de Coimbra. Esses «vícios» não enlamearam, porém toda população universitária quer do corpo docente quer do corpo discente.

Francisco Suarez o «Doctor eximius» (1548-1617).

Francisco Suarez o «Doctor eximius» (1548-1617). Acedido em
https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=1y2Mq1iW&id=F3F749EA4929C27039780A7AED5A554B7F898ECC&thid=OIP.

Frei Amador Arrais. Dialogos.jpg

Frei Amador Arrais. Dialogos. Acedido em https://digitalis-dsp.uc.pt/html/10316.2/8655/item1_index.html

Pedro Mariz. Dialogos de varia historia.jpgPedro Mariz. Dialogos de varia historia. Acedido em http://purl.pt/22932 

Efetivamente, durante o primeiro vinténio do século XVII, professaram em todas as Faculdades da Universidade de Coimbra alguns Mestres de excecional valor. Bastaria lembrar … Francisco Suarez, o «Doctor eximius» … Cristóvão Gil … Frei Amador Arrais, Gabriel Pereira de Castro e Pedro Mariz.

Gomes, J.R. 1987. Alguns vícios da Universidade de Coimbra no século XVII, segundo a Devassa de 1619-1624. Lisboa, Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa.

 

 

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por Rodrigues Costa às 09:58

Terça-feira, 19.03.19

Coimbra: Misericórdia breve história

Dentro de alguns anos [1998] passa o meio milénio da Misericórdia coimbrã … Entre vária documentação notável, merece referência o conjunto de 25 grossos volumes, denominados «Documentos antigos», que agrupam manuscritos que vêm da fundação da Casa até meados do seculo XVIII, e o precioso «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra».


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Folha de abertura do «Memorial» de João Baptista

…. Abrindo com uma folha branca, está a folha seguinte toda ocupada por um desenho nas cores sépia, preto e vermelho … Na oval, em chefe, está a figura de Nossa Senhora da Misericórdia lateralizada por dois anjos apoiados nos brasões nacional e dos Almeidas, decerto em lembrança do benemérito bispo Dom Jorge de Almeida, que na sua Sé acolheu a Misericórdia quando da sua instituição.
…. [Do «Memorial das Rendas e mais couzas da Misericordia de Coimbra»] Se respigam alguns capítulos concernentes à história da Santa Casa até ao ano [1645] em que ele a escreveu:
- Teve sua origem em princípio de 1498.
- No ano de 1500 se ordenou essa Confraria na cidade de Coimbra, como parece, por uma carta do … Rei de 12 de Setembro de 1500 escrita aos Vereadores desta cidade em que os louva e aprova quererem instituir a dita confraria e lhe concede os privilégios todos que haviam concedido à Misericórdia de Lisboa por um alvará feito no mesmo dia.
- É tradição que primeiro se assentou esta Confraria da Santa Misericórdia na Sé, daí se passou para a Igreja de Santiago, na casa que serve de celeiro, na quina da praça onde se diziam as missas e se chamava Capela da Misericórdia.
- No mesmo sítio esteve até o ano de 1546 em que se ordenou fazer-se nova casa sobre a Igreja de Santiago como está edificada, como se vê do contrato celebrado pelo provedor e mais irmãos dela… e o prior … e mais beneficiados da dita Igreja [de Santiago].

Relevo da frontaria da Misericórdia de Coimbra 02

Relevo da frontaria da Misericórdia e Coimbra (In: Borges, N.C. 1960. João de Ruão. Escultor da Renascença Coimbrã)

- Os retábulos e mais obras desta casa parece fazer aquele grande mestre João de Ruão como se vê de uma quitação sua.
- Depois, em diversos tempos, se tratou de mudar a casa da Misericórdia para vários sítios, escolhendo a praça desta cidade no canto do hospital de S. Bartolomeu até o Romal e para isso compraram as moradas de casas que estão feitas na praça nas costas da mesma Igreja do hospital que ao depois se tornaram a vender. E depois se quis edificar na entrada da Rua do Corpo de Deus, onde se começou nova casa em o ano de 1589 a 29 de Maio, cujas obras se suspenderam depois da obra estar aberta, havendo-se nela despendido já cópia de dinheiro.

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A Misericórdia ocupava os dois pisos superiores ao portal de Santiago, e ali se encontravam somente a administração e a capela, de que se nota a Torre sineira

- Finalmente no ano de 1605, em 6 de Março se tomou o último assento que a casa da Misericórdia se não mudasse e se fizesse as casas, convém a saber, do despacho, sacristia, e da cera, e mais obras novas na forma e que hoje estão.

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Miseri

A velha Sé de Coimbra adaptada a Igreja da Misericórdia, pormenor c.1773

…. Perante os insucessos a Irmandade vai-se mantendo na sua exótica Igreja e sede -porque, caso único, estava construída sobre outra igreja – até que tendo o Cabido da Sé sido mudado da velha Sé para a Igreja dos Jesuítas, logo a Irmandade da Misericórdia, em Março de 1772, voltou à casa onde havia nascido quase três séculos antes.

- As grandes dificuldades de alojamento só viriam a ser resolvidas pela Carta de Lei de 15.XI.1841 quando concedeu à Misericórdia a ocupação do Colégio Novo (onde num pequeno espaço funcionava o Tribunal, e em resultado da cedência teve que vir instalar-se na Torre de Almedina).


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O «Colégio Novo» restaurado após o incêndio. À direita a «Torre de Anto» e o moderno colégio onde se encontram os alunos

- A vida da Misericórdia continuou com altos e baixos até que na noite de 1 de Janeiro de 1967 um violento incêndio destrói grande parte do edifício

Nota:
O trabalho citado integra uma transcrição do Inventário dos «Moveis desta S. Caza…» realizado em 1645.

Silva, A. C. 1985. Um Inventário seiscentista da Misericórdia de Coimbra. Separata de Munda.

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por Rodrigues Costa às 21:32

Quinta-feira, 14.03.19

Coimbra: Igreja de Santiago 2

Quando este Inventário [dos Ornamentos e Joias da Igreja de Sant’Iago de Coimbra, em 1697] foi feito, acabavam de ter lugar as transformações do edifício, se é que não decorriam ainda as obras finais.

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Igreja de Santiago, capela gótica

Igreja de S. Tiago. Interior. Capitel abside.jpg

Igreja de S. Tiago, capitel da abside

Ao tempo era a paróquia de Sant’Iago uma das mais prósperas da cidade, em franca ascensão demográfica e económica. De 1528 a 1640 os batismos não cessam ali de apresentar um «crescimento de pendor acentuado», o que bem exemplifica o seu aumento populacional. É a freguesia de Coimbra que maior número de contribuintes apresenta.

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Igreja de Santiago, interior

…. Seria portanto, talvez a mais rica igreja paroquial da cidade, participando no fervilhar de vida que se desenrolava em torno da velha praça, o que necessariamente se refletiria no número e qualidade de alfaias litúrgicas e outros objetos ou peças próprias do mobiliário de um templo sede de freguesia.
É isso o que parece depreender-se deste inventário de 1607, que se pode considerar exaustivo e merecedor de inteira fé. Porém, uma análise atenta do documento em breve levará à conclusão de que a riqueza se fica mais pela quantidade do que pela qualidade. Com efeito, apesar da quantidade de panos, algumas pratas e outros pertences aqui arrolados, que riqueza era a de uma igreja onde apenas havia duas caldeirinhas, sendo uma de latão e outra de barro, uma cruz processional, uma naveta …? E se assim era numa das paróquias mais abastadas de Coimbra, como seria nas mais pobres, nas paróquias rurais?
…. Aliás, e como é natural, as peças mais utilizadas nas funções de culto são aquelas que se encontram representadas em maior quantidade. Tal é o caso dos sete cálices que deveriam ser todos lisos, à exceção de um «com flores no pé» e outro porventura o mais interessante, com «o vaso a modo de pinha, obra antiga» … tinha quatro [custódias], das quais uma era do tipo de custódia-cálice. Também as coroas de imagens, fechadas ou abertas, são motivo para delicado trabalho … Em maior número são, porém, os relicários. Estes podiam assumir os mais diversos formatos e composições.
…. Extensa é a informação fornecida pelo inventário no que toca a tecidos, abarcando todo um acervo de fatos de imagens, toalhas, paramentos e outras peças de uso litúrgico …. Abundam cortinas, véus de altar e outros panos … O tecido mais utilizado nestas peças é, sem dúvida, o tafetá e o damasco, logo seguido pelo veludo. Mas havia também muitos outros desde a estopa e estopinha ao chamalote, à bombazina, damascos e damasquilhos, brocados, brocatéis e brocadilhos. Não faltam os panos da Índia – sedas, damasquilhos, brocadilhos, tafetás – nem alguns com nomes pitorescos, como o bertangil, o bocaxim e a primavera.
…. Um dos aspetos mais interessantes do inventário é o que diz respeito às variadas peças e móveis da guarnição da igreja. Por ele sabemos que existia um órgão de cinco registos, no coro alto … Não faltam as campainhas, estantes de altar, sacras, alâmpadas e galhetas, nem os castiçais, tocheiros e candeeiro das Trevas.


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Arco de Santiago

O Arco de Santiago, mostrado no desenho de Jorge da Cruz Jorge, foi erguido no final do séc. XVIII e demolido nos últimos meses de 1858, por ocasião do alargamento e retificação da antiga rua do Coruche, hoje rua Visconde da Luz. Ligava o edifício da Misericórdia, construído sobre a Igreja de Santiago, aos antigos “açougues da Praça”, incendiados pelas tropas francesas aquando da terceira Invasão. A reconstrução do arco aconteceu pouco antes do seu arrasamento.

Para eventuais interessados: o trabalho aqui citado termina com a transcrição do Livro do Tombo, no qual são enumerados e descritos todas as propriedades e bens da Igreja de S. Tiago, no final do século XVI.


Borges, N.C. 1980. O Inventario dos Ornamentos e Joias da Igreja de Sant’Iago de Coimbra, em 1697. Coimbra, Instituto de História da Arte. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 15:36

Terça-feira, 12.03.19

Coimbra: Igreja de Santiago 1

Determinaram as «Constituições Sinodais do Bispado de Coimbra», em 1591 … que em todas as igrejas houvesse um livro de Tombo, autêntico, donde constassem todas as suas propriedades e bens … Assim surge o «Inventário da prata e ouro, ornamentos e roupa do serviço da igreja de Nossa Senhora e dos Sanctos e de todas as cousas de que se serve a Igreja de S. Tiago que mandou fazer o prior».

…. O aspeto que esta igreja citadina de um dos topos da Praça Velha, depois de restaurada, nos oferece, poderá não ser, porventura, o mesmo da sua primitiva fábrica. Todavia, temos de reconhecer que a reconstituição feita foi, na ocasião, a única e a melhor possível.

A igreja de Sant’Iago antes das obras de restaur

A igreja de Sant’Iago antes das obras de restauro

A Igreja  de Sant'Iago durante as obras de restaur

A Igreja de Sant'Iago durante as obras de restauro

A Igreja  de Sant'Iago depois das obras de restaur

A igreja de Sant’Iago depois as obras de restauro

Está a sua fundação envolta em lendas que se relacionam com a tomada da cidade, em 1064, por Fernando Magno. De concreto apenas se sabe que antes da reconstrução dos finais do século XII e inícios do XIII – a nova igreja foi sagrada em 28 de Agosto de 1206 – já no local existia outro templo de que há referências documentais no século XII.
[A origem lendária da fundação da Igreja de Sant’Iago foi contestada, nomeadamente, por António de Vasconcelos … e F.A. Martins de Carvalho… Para estes historiadores o documento mais antigo respeitante a Sant’Iago apenas remontava a 1183. Foi A. Nogueira Gonçalves quem revelou e chamou a tenção para notícias anteriores àquela data].
No século XVI, a fisionomia do monumento foi grandemente alterada,
Com efeito, em 3 de Junho de 1546 lavrou-se contrato entre a Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia e a Colegiada de Sant’Iago para a construção da casa e igreja da Misericórdia sobre o velho templo românico.

Entrada para a Misericórdia.jpg

Entrada para a Misericórdia antes das obras de restauro da Igreja de Sant’Iago

O novo edifício ficou edificado sobre a nave da «capela de S. Simão, onde ora está o Santíssimo Sacramento e sobre a capela de Vasco de Freitas», com entrada pela rua de Coruche, na parte posterior, o que era possível graças ao grande desnível do terreno. O patim de acesso foi feito sobre a «sacristia e capela de S. Simão».
Para segurança de ambos os templos se estipulavam a construção de «arcos», «na dita nave de S. Simão», bem como diversas medidas a tomar quanto ao encaminhamento das águas pluviais.

…. Que capelas ou altares haveria então na Igreja de Sant’Iago?
Também a este respeito o inventário fornece indiretamente algumas informações. O número não iria além de sete: três na cabeceira e quatro do corpo da igreja, sendo uma à Epístola e três do lado do Evangelho.
Na capela-mor se encontrava a imagem do orago, Sant’Iago, e o sacrário com o Santíssimo Sacramento que mais tarde esteve também na capela do Bom Jesus. Nas colaterais destacavam-se os altares de Nossa Senhora da Conceição, à Epístola. O primeiro era da administração da Colegiada. O segundo pertencia à respetiva confraria, constituída por nobres, no dizer do escrivão do inventário, e «muito rica», segundo as palavras do prior.
…. No corpo da igreja, do lado direito, entre a porta travessa e a escada que subia para o coro, situava-se a capela gótica primitivamente dedicada a S. Pedro e depois a Santa Escolástica, ao Bom Jesus, e, por fim, ao Sacramento. Nas obras de restauro foi transferida para o tramo fronteiro, indo ocupar o espaço da capela de Santo Ildefonso.
Do lado esquerdo estavam as capelas de Santo Elói e Santo Ildefonso, a que mais tarde se juntaria a do Espírito Santo, instituída em 1653 por Úrsula Luís, viúva do mercador Manuel Roiz-
…. A capela de Santo Ildefonso era da família dos Alpoins.
.… A capela de Santo Elói «que edificaram e fabricaram os ourives desta freguesia …» era a primeira, ao entrar no portão principal.
…. Resta ainda a capela de S. Simão e a de Vasco de Freitas… A primeira é a da Senhora da Conceção, ou seja, a colateral direita da cabeceira da igreja. A última deverá talvez corresponder à do Bom Jesus, primitivamente de S. Pedro.
Quanto a Santo André, que aparece com certo destaque no inventário, com suas vestes próprias e um possível altar, onde «servia» uma estampa e um frontal de rede, a ter existido na verdade este altar, seria bastante singelo. O mais lógico é que se tratasse de uma imagem integrada num dos outros altares.
…. Além das confrarias de Nossa Senhora da Conceição, dos nobres, e de Santo Elói, dos ourives, o inventário fala ainda das de S. Simão, Santo André, Sant’Iago, Santa Bárbara, Nossa Senhora da Piedade e Espírito Santo. Todas possuíam a sua arca, destinada a arrecadar a cera que cada confrade deveria pagar anualmente e de que se faziam as tochas que eram levadas na procissão do Corpo de Deus.

Borges, N.C. 1980. O Inventario dos Ornamentos e Joias da Igreja de Sant’Iago de Coimbra, em 1697. Coimbra, Instituto de História da Arte. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 09:31

Quinta-feira, 07.03.19

Coimbra: Catarina Rainha de Inglaterra passa pela Cidade

D. Catarina Henriqueta de Bragança era filha de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão. Nasceu no Paço ducal de Vila Viçosa a 25 de novembro de 1638 e casou-se, em 1662, com Carlos II de Inglaterra; por ser católica, jamais foi coroada rainha. Não teve descendência.

Cortejo de despedida e embarque de Dona Catarina dCortejo de despedida e embarque de Dona Catarina de Bragança para Inglaterra. Acedido em http://www.museudelamego.gov.pt/um-ano-um-tema-traz-em-abril-gravura-de-d-catarina-de-braganca/

Carlos II e Catarina de Bragança.jpg

Carlos II e Catarina de Bragança. Acedido em
https://www.vortexmag.net/a-rainha-portuguesa-que-mudou-a-inglaterra-e-lhe-deu-um-imperio/

Catarina Rainha da Inglaterra. Acedido.jpg

Catarina Rainha da Inglaterra. Acedido em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d4/Catherine_of_Braganza_-_Lely_1663-65.jpg

Enviuvou a 16 de fevereiro de 1685, mas continuou a viver em Inglaterra durante o reinado de Jaime II, seu cunhado.
Embarcou para Lisboa a 29 de março de 1692 e entrou em Lisboa a 20 de janeiro do ano seguinte. No caminho passou, como se pode constatar lendo a entrada abaixo publicada, por Coimbra.
Morreu na capital, no Palácio da Bemposta que mandara construir para sua residência, a 31 de janeiro de 1705.
O costume de beber chá, embora de forma embrionária, já existiria em Inglaterra, mas D. Catarina institucionalizou-o no tão “britânico” hábito do five o'clock tea.

Dona Catarina enviúva e resolve voltar à pátria, e nova epistolografia se troca entre o novo rei [D. Pedro II] e a Câmara [de Coimbra] … com a carta régia de 28 do mesmo mês [Outubro de 1682] pede à cidade que recebesse sua Irmã com demonstrações de alegria como se do próprio se tratasse.
…. Recebida esta carta [expedida da Mealhada em 8 de Janeiro de 1693] se leo na camera …Logo se prepararaõ p.ª caminharem ao lugar dos Fornos destinado p.ª a espera, e se ordenou o congreço na praça da Câmara na forma seguinte:
Procediaõ dous trombetas a cavallo vestidos de vistosos catalufas e mais guarniçoens q a camera lhe deu, nas trombetas suas bandeiras com as armas reaes de huá parte, da outra as da Cidade, dous ternos de charamelas, os meirinhos e officiaes da Justiça; seguiace a bandeira da Cidade … se pedio a levasse … um dos principais sidadaõs desta Cidade … montado em hum fremozo cavallo tomou a bandeira e fazendo paço o seguia o senado com suas varas, e toda a nobreza e cidadoens a quem se havia avizado todos a cavallo e foraõ caminhando ao lugar destinado.
Chegados a elle com pouca demora chegou logo o Marques Conductor … e logo chegando a carroça real dando alguns paços, mandou parar o Marques e chegando à estribeira deu parte … como ali estava a camera e nobreza da Cidade … lhe beijaraõ a maõ.


Catarina Rainha de Inglaterra 2.jpg

Catarina Rainha de Inglaterra. Acedido em https://www.bing.com/images/search?q=catarina+rainha+da+inglaterra&id=D73B6E84EF6502AB8725C63E9751A98EBE629801&FORM=IQFRBA

…. Chegados à porta [Porta da Cidade, ou Porta de S. Margarida como é referida na planta de 1845 realizada por Izidoro Emílio Baptista, uma vez que a Porta da Figueira Velha, segundo José Pinto Loureiro, já não existia no reinado de D. João III] estava já nella o Bisconde e o procurador da Cidade q lhe entregou as chaves … Nesta porta estava hum Fremozo arco dos Tendeiros feito de duas faces como todos os demais, vestido de sedas passamane e volantes.
…. Davaõ principio ao acompanhamento os Atabales, Trombetas e charamelas, seguiãoce varias danças de homens e de mulheres, e duas pellas cubertas de ouro … na entrada na rua de St. ª Sofia era tal a confuzaõ das musicas danças e tom dos repiques dos sinos de toda a Cidade q naõ havia quem de alegria naõ derramasse lagrimas … naõ cabia a gente nas ruas a cada passo se parava, tomouce a rua de Coruche na entrada da qual estava o segundo arco feito pellos ourives de fabrica de madeira pintado; deste se entrou na rua da Calçada no meyo da qual estava o terceiro arco dos mercadores de grosso tracto, obra sumptuoza de madeiras com pedrarias fingidas de Italia sobre colunas retorcidas, no alto delle estava ao norte o retrato Dell Rey D. Joaõ o 4.º … da parte do sul estava o retrato de El Rey D. Pedro Nosso Senhor com outras duas figuras do Mondego e Tejo … sahioce a Portagem onde estava o 4.º Arco feito pellos roupavilheiros de armaçoens vistozas e ricas pinturas, subioce a Couraça e no arco de St.º António estava o quinto arco dos livreiros e serieiros feito, com boa traça e vistosa armaçaõ, deste se tomou a rua de são christovaõ no meyo da qual para cubrir hum paçadiço q nella ha fizeraõ o sexto e ultimo arco os Armadores; em que mostravaõ o primor da sua arte … daqui se subio ao Palacio Pontifical, aonde ao apear assistio a Camera; e foi acompanhando a Sr.ª Rainha athe a antecâmera em q entrou pelas 4 oras da tarde.
Na noute deste dia e nas duas seguintes se puzeraõ luminarias em toda a cidade … Aos seroens desta noutes cortejevaõ o palácio na praça delle a mayor parte dos Académicos.
…. Ao segundo dia fizeraõ os estudantes da Provincia do Alentejo huã fortaleza de fogo no terreiro da feira [hoje Largo da Feira dos Estudantes] … Ao terceiro dia se correram por ordem da Camera na praça da Cidade Touros de cavallo … e matou seis touros.

Silva, A.C. Dona Catarina Rainha de Inglaterra e a sua passagem por Coimbra no regresso a Portugal. Separa de Munda. 1986.

 

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por Rodrigues Costa às 19:56

Quinta-feira, 28.02.19

Coimbra: Estalagens Coimbrãs e do seu termo 2

Ao longo do texto de Carneiro da Silva As Estalagens Coimbrãs e do seu termo, para além das três estalagens mencionadas na entrada anterior, são ainda referidas:

- Estalagem de Santa Clara, primeira
… nas reuniões da Câmara de 22 de julho de 1642 e na de julho de 1644, se discutiram os problemas que o estalajadeiro … criava na sua «Estalagem de Santa Clara» … por estar notificado não usasse de venda nem de agasalho pessoa alguma em sua casa, de «mau viver», e ele fazia o contrário.

- Estalagem de Santa Clara, segunda

Panorâmica do Bairro de Santa Clara aa.JPG

Panorâmica do bairro de Santa Clara. Notar a estrada para Lisboa, e no extremo esquerdo da gravura [não identificada] o que foi segunda estalagem de Santa Clara

Em 1674, Cosme Francisco Guimarães, morador em Sansão, pagava o foro de 200 reis de explorar aquela estalagem no Rossio de Santa Clara [a qual fora construída] «para substituir outras que se tinham arruinado com as cheias perto da ponte.»

- Estalagem na Rua da Sofia
Na passagem do século XVI existiu na Rua da Sofia, na vizinhança da entrada da Rua Nova [uma estalagem que] Diogo Marmeleiro de Noronha … fizera … para agasalho dos passageiros e caminhantes com muito gasalhos e camaras fechadas para fidalgos e pessoas graves.

- Estalagem da Quinta da Portela
Em 16 de Dezembro de 1624 «Diogo Marmeleiro de Noronha me enviou dizer por sua petição que ele queria fazer junto à sua Quinta e lugar da Portela uma estalagem que seria de grande comodidade dos passageiros que caminhavam por aquela estrada que era das mais seguidas da dita cidade por ser a de Madrid e por naquela paragem passar uma barca o rio Mondego, que quando no inverno com alguma cheia não podia passar a dita barca, e os que então caminhavam ficavam dormindo pelos pés das árvores sem terem nenhum agasalho pelo que me pedia lhe fizesse mercê de lhe privilegiar a dita estalagem e mandar passar seu privilégio».

Para além destas surgem, ainda, as seguintes outras referências a estalagens:

- Estalagem das Cardosas
No Paço do Conde … onde hoje está [esteve] uma casa de brinquedos, e onde serviu uma Mariana que há muito deve atender os viandantes do céu.

- Estalagem do Lopes ou Hospedaria do Caes Novo
Situava-se nas imediações do atual Banco de Portugal, visto que tinha outra entrada pela Rua do Sargento-Mor, e ter particularidade de ser pouso de estudantes endinheirados, acabados de chegar, até se mudarem para o seu território da Alta.

Na parte final do texto o Autor refere ainda que Camilo esteve hospedado na «Marquinhas do Leite Morno», na Rua Larga … e que pelos séculos XVII, XVIII e XIX existiram no burgo as estalagens «do Galego» … do «Fernando» mais conhecida pela «Estalagem do Inferno» a do «Raimundo da Teodora» … a do «Francisco Lopes de Carvalho», próximo da ponte, e a hospedaria do «João de Aveiro» que um incêndio destruiu em 1902.
Aqui e ali, muitas vezes nas proximidades das estalagens, existiam também as «albergarias».

Silva, A.C. As Estalagens Coimbrãs e do seu termo. Separata da Munda. 1988.

 

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por Rodrigues Costa às 11:38

Terça-feira, 26.02.19

Coimbra: Estalagens Coimbrãs e do seu termo 1

O problema da instituição e administração das estalagens ou «estaos», era antigo e frequentemente levantado pela administração municipal junto do poder régio. É assim que D. Duarte numa sua carta de 1436, «mandamos que taes pessoas pousem nos Estaos que há pelo caminho, ou da dita cidade [de Coimbra] e não nas aldeias e casais que estão fora das estradas».

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Estalagem de caminho. De salientar os diferentes tipos de meios de transporte


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Estalagem de caminho em Espanha

Nas Cortes de Lisboa de 1440 pediu-se o «estabelecimento de estaos para pousadas nas cidades, vilas e aldeias e a taxa dos mantimentos, camas e mais serviços presentes neles».
…. Há notícia da existência na cidade, nos princípios do século XVI de três estalagens, da sua localização e nomes dos proprietários:

- Estalagem Nova

Capela do Senhor do Arnado 01.jpg

Capela do Senhor do Arnado que se situava cerca do local onde hoje se encontra o monumento a Cindazunda

Situar-se-ia na entrada da cidade para quem viesse do norte, próximo da «goleta» [Então o «porto dos oleiros», teria algum pequeno canal que ligava ao rio, e assim o topónimo «goleta»], próximo do local onde existia um crucifixo em pedra, a céu aberto, que levou à edificação da Capela do Arnado no meado do século passado [século XIX]
Aquela zona era desde a Idade Média domínio dos oleiros, até que no século XVIII se mudaram para a zona do Terreiro de Santa Justa e foram ali substituídos pelos cordeeiros vindos da sirgaria de Santa Clara, destinada a outros fins.

- Estalagem do Pintor

Estalagem da Donata.jpgA quinhentista estalagem do Pintor, que no século XIX era estalagem da Donata

[Situava-se] na, na Rua de Tinge-Rodilhas, depois Rua da Louça … que muito anos depois seria conhecida pela «estalagem da Donata», alojada em edifício ainda hoje existente, muito degradado, e que merecia recuperação para fins turísticos.

Nota 1
Quando era muito jovem, as camponesas que vinham vender à praça – ao Mercado D. Pedro V – guardavam neste edifício os burros onde transportavam os legumes, as galinhas, os ovos e a fruta destinados a serem ali comercializados. Atualmente, e depois de obras de recuperação, com entradas pela Rua da Moeda e pela da Louça, funciona no edifício um estabelecimento que vende, entre outras vitualhas, leguminosas, batatas e rações para animais.

Nota 2
De assinalar que esta estalagem na parte inicial do texto é designada por «Pintor» e na parte final do mesmo texto por «Prior».

- Estalagem do Paço do Conde

No centro do casario quinhentista, o gravador [Hoe

No centro do casario quinhentista, o gravador [Hoefnagel] fez ressaltar o Paço do Conde de Cantanhede com seu claustro, depois Estalagem do Paço do Conde.

Em 1662 estabeleceu-se uma das melhores estalagens do país no que fora o rico paço do Conde de Cantanhede, D. Pedro de Menezes, no centro mais vivo da cidade, próximo da praça, da Câmara, dos açougues, da «casa-do-ver-do-peso», ponto de reunião obrigatório a mercadores e vendeiros, por ali chegarem e estacionarem os carros e azémolas que vinham do sul, do norte e das Beiras com a maior parte dos géneros de que se alimentava a cidade. Era o terminal dos grandes carroções, já que eles, por disposição camarária não podiam ir até à Praça.
O edifício magnífico, fora construído nos anos do meado do século XVI …. Parece que a ocupação do edifício por tão nobre família não chegou a efetivar-se … nos primeiros meses do ano de 1622, escreveu a Filipe III … «que fizera uma estalagem para agasalhar os passageiros e caminhantes e almocreves com muitos aguazalhados [quartos] e camaras fechadas para fidalgos e pessoas graves que fica sendo dos melhores deste reino por estar na melhor passagem da cidade e junto da praça dela…».

Silva, A.C. As Estalagens Coimbrãs e do seu termo. Separata da Munda. 1988.

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por Rodrigues Costa às 11:13

Quinta-feira, 14.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 4

Vista geral da Alta, antes das demolições.jpg

Vista geral da Alta, antes das demolições

Durante o primeiro terço do século XX, os grandes projetos de remodelação urbana centravam-se na Baixa, mas foi na Alta que, quase subitamente, eles se começaram a aplicar. Por razões que não cabem neste momento explicar, o Estado Novo encetou em 1942 um vasto projeto de reconstrução das instalações universitárias, que ocasionou a demolição de mais de duzentos prédios e a construção de grandes blocos destinados a Faculdades.

Prédios demolidos durante as obras da Cidade Universitária segundo o número de pisos

Tipos de prédios  Número  Percentagem

Um piso                          1                   0,5
Dois pisos                     10                   5,0
Três pisos                     46                 22,8
Quatro pisos                 95                 47,0
Cinco pisos                   49                 24,3
Seis pisos                       1                   0,5
TOTAL                        202               100,1

Localização dos prédios demolidos.jpg

Localização dos prédios demolidos

…. Na véspera da construção da cidade universitária, a Alta era mais importante do que hoje não só por razões simbólicas, mas também pelo número e proporção de habitantes relativamente ao total de Coimbra e pelo superior relevo económico. O crescimento urbano verificado até 1940 não diluíra a polarização Alta-Baixa e o incremento da circulação automóvel ainda não tornara obsoletas as suas íngremes e estreitas ruas.
Ao contrário do que pretendeu e em grande parte realizou o Estado Novo, durante séculos não houve segregação entre zonas residenciais e escolares. A vizinhança entre os locais de ensino e os quarteirões de habitação, associada à dispersão dos colégios e dos próprios estudantes, implicava as zonas mais afastadas da Alta na atividade universitária sem que, no seu núcleo, fosse sentida qualquer necessidade de isolamento. Mas o plano de Cottinelli Telmo, responsável pela revolução urbanística realizada ao longo dos anos quarenta e sessenta, no seguimento de sugestões anteriores, assumiu a ideia de monofuncionalizar a área universitária.
A demolição sistemática da zona superior da Alta permitiu construir o Arquivo (1943-1948), a Faculdade de Letras (1945-1951), a Faculdade de Medicina (1949-1956) e os edifícios da Matemática (1964-1969) e de Física e Química (1966-1975): quatro imóveis de estudada monumentalidade, que provocaram uma profunda rutura urbanística e arquitetónica. E ainda ficou por construir o hospital previsto para o local dos Colégios de S. Jerónimo e das Artes, e os pórticos unindo os edifícios.

Alta de Coimbra. Rua Larga.jpg

Alta de Coimbra. Rua Larga. Década de 40

Vista geral da Alta, depois das demolições.jpg

Vista geral da Alta, depois das demolições

…Toda a zona se encontrava vivificada por um ativo comércio, ocupando o rés-do-chão de inúmeros prédios, vocacionando para a satisfação das necessidades diárias e ocasionais da população. Lucília Caetano … concluiu pela existência, na área demolida, dos seguintes «artesãos e pequenas empresas artesanais»: em 1942, havia seis alfaiatarias, duas modistas de vestidos, um marceneiro e restaurador, quatro encadernadores e douradores, duas tipografias, duas latoarias, cinco barbearias e uma relojaria. De acordo com a mesma autora, havia em 1910 sessenta e sete estabelecimentos comerciais e artesanais na Alta destruída e quarenta e sete fora dela.
… O plano de Cottinelli Telmo não alterou apenas o rosto da acrópole universitária. Devido ao âmbito das expropriações e à inerente necessidade de realojamentos, o seu impacto estendeu-se ao resto da cidade.

Vista geral do Bairro de Celas.jpg

Vista geral do Bairro de Celas

Em 1952, o reitor Maximino Correia calculou em dois a três milhares o número de pessoas que foram obrigadas a abandonar a Alta, ou seja, cerca de 5% da população da cidade, que em início dos anos quarenta rondava os cinquenta mil habitantes. A construção de bairros de realojamento apressaram e em parte definiram esse desenvolvimento urbano.

Rosmaninho, N. Coimbra no Estado Novo. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 65-92.

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por Rodrigues Costa às 09:45

Terça-feira, 12.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 3

«Por 1850, Coimbra continuava ainda o velho burgo académico, iluminando-se a candeeiros de azeite, sem águas canalizadas, nem esgotos, nem vias férreas, nem estradas, nem escolas, dormitando letargicamente à sombra da Universidade e restabelecendo-se penosamente e com lentidão do enorme abalo sofrido com a extinção das congregações religiosas que mantinham aqui nada menos de 7 mosteiros e 22 colégios».
Assim escreve José Pinto Loureiro, em 1937, no preâmbulo dos «Anais do Município de Coimbra».
… Eram de facto estas as características da vida urbana. Mas Coimbra não era exceção nem caso isolado. Era a regra. Durante a primeira metade de oitocentos muitas cidades portuguesas e mesmo a capital do reino encontravam-se, quanto ao desenvolvimento urbano, tal como as da grande maioria dos países europeus, expectantes.

Cidade de Coimbra. Pinho Henriques.JPG

Cidade de Coimbra. Pinho Henriques. Séc. XIX

… A construção das infraestruturas é um tema caro às politicas liberais. Como resultado destas iniciativas, a partir da segunda metade do século, Coimbra ganha outro protagonismo dentro da rede urbana nacional. A mala-posta, em 1855, servindo-se de uma estrutura viária renovada, volta a ligar a cidade ao Carregado, retomando-se um serviço de transporte rápido e regular. Mas o tempo de comunicação da informação ainda mais se encurta quando, em 1856, no mesmo ano em que a cidade se ilumina a gás, se inaugura o telégrafo elétrico entre Lisboa e Coimbra, e depois Porto, anunciando a chegada do comboio. No entanto, é apenas em 1864 que a cidade passa a integrar a rede ferroviária com a inauguração do troço entre Taveiro e Vila Nova de Gaia, completando-se a linha do norte. Paralelamente a administração pública municipal vai-se modernizando, de acordo com a lei de 25 de novembro de 1854, reduzindo em número as freguesias e regularizando as suas fronteiras.
Criaram-se, assim, as condições para a implementação dos melhoramentos necessários a Coimbra.

Projecto para instalação de canos de abastecimen

Projecto para instalação de canos de abastecimento à cadeia da Portagem. Joaquim José de Miranda. Séc. XIX

Projeto da Ruas da Calçada. João Ribeiro da SilvProjecto da estrada entre as ruas da Calçada e da Sofia. João Ribeiro da Silva. 1857
Ponte de Santa Clara.jpgPonte de Santa Clara

…Como parte do programa de regularização e subida da cota dos cais incluiu-se o redesenho do largo da Portagem e a construção de uma nova ponte. O largo ganhou uma dimensão moderna como entrada urbana e como rótula de distribuição viária, depois de vagas de demolições e obras de regularização. A ponte construiu-se em ferro, no ano de 1875, depois da demolição da antiga ponde de pedra, em 1873,
…. Pela nova ponte continuou a conduzir-se o tráfego que ligava, pelo litoral, o norte ao sul do país, cruzando o largo da Portagem e percorrendo as ruas até Santa Cruz, e daí até à saída pela rua da Sofia, prolongada na rua Fora de Portas. Era este o caminho urbano da estrada real na ligação de Lisboa ao Porto e por aqui passavam as carruagens ao serviço da mala-posta.

Macedo, M.C. Coimbra na segunda metade do século XIX. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 43-64.

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por Rodrigues Costa às 18:59

Quinta-feira, 07.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 2

No contexto ibérico, o sítio de Coimbra – cartograficamente assinalado com um caprichoso meandro do rio Mondego – é um módulo de importância nevrálgica entre o norte e o sul, o interior e o litoral. Já ao nível do território de transição entre o Baixo e o Alto Mondego, especificidades da colina que hoje designamos por «Alta» ou «Almedina» ditaram um precoce despontar do aglomerado que, desde logo, o processo de romanização fez florescer como cidade. Eram elas as características defensivas naturais, o domínio do Mondego, e dos vales nele concorrentes, a exposição ao rio pelos quadrantes mais favoráveis em termos solares, o fácil acesso fluvial ao mar e ao interior, os recursos aquíferos do subsolo, etc.

Réplica da pedra gravada do MNMC.jpg

Réplica da pedra gravada do MNMC, 395 ou 396 da era cristã

… Hoje estável e controlado, o rio foi de facto até há pouco menos de dois séculos um rebelde elemento de perturbação do quotidiano e [do] desenvolvimento urbanos de Coimbra. Correndo sobre um leito cujo perfil ainda não se encontrava estabilizado, o Mondego autoproduziu esse incontornável equilíbrio através de consecutivas, torrentosas e, por vezes, trágicas cheias, condicionando durante séculos – em especial durante a Idade Moderna –, todo o desenvolvimento urbanístico da «Baixa» da cidade e, por reflexo, o da própria «Alta». Em média, a cota do seu leito subiu até então 8 centímetros por década, destruindo e/ou açoreando diversos conjuntos edificados nas suas margens durante a Idade Média e, claro, a ponte instalada pelo menos desde a fundação da nacionalidade.

Conimbriae. J. Jansonus. C. 1620.jpg

Conimbriae. J. Jansonus. C. 1620

…. Sabemos, por exemplo, que é a cerca de uma dezena de metros de profundidade que, sob o Largo da Portagem, jaz o pavimento de acesso à ponte primitiva.

Illustris Ciutatis Conimbria.JPG

Illustris Ciutatis Conimbria in Lusitania. Georg Hoefnahel/Hogenbeerg, colorida por Braun, 1598

… Mas a influência da plasticidade global do suporte territorial na evolução morfológica da cidade torna-se particularmente relevante se melhor nos focarmos sobre a própria colina (…) tem ela uma expressão morfológica planimétrica algo em ferradura com abertura a poente (…) Continuando, inevitavelmente, a acentuar as principais características topográficas da colina, da dinâmica da dualidade habitante-invasor acabou por resultar do penúltimo dos casos da ocupação estranha – o do invasor islâmico nos últimos séculos do primeiro milénio – uma estrutura palatina sobre o extremo mais proeminente da tal virtual ferradura. Também então se reformava o perímetro defensivo que, de uma forma geral, consistia na linha definida pela intersecção entre as encostas de declives praticáveis e impossíveis. No fundo a muralha acabou por acentuar a já clara individualidade da colina, da cidade ou, se assim o quisermos, da «Almedina». Mas complementarmente também salvaguardou o aceso seguro às zonas baixa e ao rio.

Pormenor da cópia manuscrita da planta do castelo

Pormenor da cópia manuscrita da planta do castelo de Coimbra

Protegendo a retaguarda e simultaneamente o acesso mais fácil ao topo pelo festo do Aqueduto [de S. Sebastião], implantou-se e desenvolveu-se também pela primeira dobragem do milénio o castelo, o qual em articulação com o palácio, clarificou o desenvolvimento daquele que ainda hoje é o principal eixo viário da «Alta», a Rua Larga.

Rossa, W. O Espaço de Coimbra. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 17-42.

 

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por Rodrigues Costa às 22:26


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