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A adaptação do Convento a quartel motivou, como não podia deixar de ser, as alterações arquiteturais que melhor dispusessem o edifício às finalidades que se pretendiam.
.… Como é afirmado no Inventário Artístico de Portugal “A remodelação do edifício monástico para o fim de aquartelamento regimental, se transformou a orgânica primitiva das celas bem como as janelas, conservou a carcaça das paredes que delimitávamos dormitórios e que representam o esquema geral monástico”.
…. Extinto o Convento de Sant’Ana, com a saída da última freira para o Colégio Ursulino, a propriedade, com exclusão da igreja e da cerca, foi entregue ao Ministério da Guerra tendo como finalidade a sua ocupação pelo Regimento de Infantaria 23. Este Regimento, embora referenciado em Coimbra desde 1884, estava aquartelado em condições precárias no Colégio da Graça.
…. Data de 1892 o primeiro projeto de adaptação do Convento a Quartel, que se conhece, visando a instalação de um Destacamento de Cavalaria.
Planta do rés-do-chão – zona das hospedarias, 1892, DSE – 6844 2.º-5-64-73. Op. cit. pg. 96
Neste projeto, assinado pelo Ten. Eng.º João Maria de Aguiar, podem-se observar a divisória central que separava os dois pátios em que se articulava a ala das hospedarias, e parte do corpo central que separava os dois claustros da parte conventual.
…. Só em 1905, é que a Secretaria da Guerra manda adaptar o extinto convento de Santa’Ana a quartel, para “um Regimento de Infantaria, um Destacamento de Cavalaria, um Distrito de Recrutamento e Reserva e uma Caserna Militar. E só em 3 de outubro de 1911 é que o Regimento de Infantaria 23, primeira Unidade Militar de Infantaria aqui sedeada, ocupou formalmente o edifício.
…. Mas é a 21 de maio de 1905, que é apresentado o primeiro projeto (conhecido) para Quartel de Infantaria.
Projeto de quartel de infantaria. Op. cit., pg. 101
…. Os trabalhos de adaptação foram iniciados em dezembro de 1905 e interrompidos, logo a seguir, em 15 de janeiro do ano seguinte …. São retomadas a nove de abril de 1911, com base num novo projeto mais abrangente onde, pela primeira vez, surge a proposta de uma alteração importante da fachada.
Fachada norte – Projeto final, DSE. Op. cit. pg. 109
…. O RI 23 foi a primeira unidade a ocupar as antigas instalações do Convento de Santa’Ana … Um mês depois da sua transferência para o Funchal em 1926, as instalações foram ocupadas pelo Batalhão de Caçadores 10 que, no processo absorveu o Regimento de Infantaria 35 e o 5.º Grupo de Metralhadoras, ambos sedeados em Coimbra desde 1911 (este último ocupando instalações no Quartel de Sant’Ana desde 1924).
Com a extinção do Batalhão de Caçadores 10, em 1927, o quartel foi, de imediato, ocupado pelo Batalhão de Metralhadora n.º 2 que o substituiu e por aqui permaneceu até à sua transferência para a Figueira da Foz … é determinada a entrega das instalações ao Regimento de Infantaria 12, que aqui permanecerá durante 26 anos, até à sua extinção formal em 1965.
O Distrito de Recrutamento e Mobilização n.º 12 … é transferido para Coimbra em 1939, ocupando 10 compartimentos do Convento de Santa’Ana.
Fachada Norte – Foto da atualidade. Op. cit., pg. 112
No período entre 20 de abril de 1979 e 19 de junho de 1997, instalou-se também no Quartel a Manutenção Militar …. Tendo recebido as instalações do Quartel-General da Região Militar Centro a Manutenção Militar acabaria por devolvê-las ao Quartel-General da Brigada Ligeira de Intervenção, depois deste ter ocupado o Convento/Quartel de Sant’Ana … a partir de sete de junho de 1993.
Ferreira, J.M.V. e Caldeira, J.R.M. Sant’Anna. Três séculos de Convento, um século de Quartel. 2.ª edição. 2006. Coimbra, Câmara Municipal.
Continuando a debruçar-nos sobre a obra Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação, de Carlos Santarém Andrade, abordaremos de seguida o último capítulo, dedicado à Proclamação da República em Coimbra. Primeira parte.
No dia 4 de Outubro, o jornal "Defeza", de Coimbra, dá-nos uma curta, embora destacada, notícia sob o título "Revolução em Lisboa?", sem adiantar desenvolvimentos.
"A Tribuna", do dia 5, dá mais pormenores, no artigo "A revolução de Lisboa", sobre os sucessos na capital, descrevendo vários episódios da luta travada no dia anterior, mas cujo desfecho era ainda desconhecido. Sobre o assassínio de Miguel Bombarda, no dia 3, por um dos seus doentes do foro psiquiátrico, tenente do exército, informa-nos ser o seu autor natural de Coimbra, onde fez os Preparatórios para a Escola do Exército, tendo prestado serviço como alferes no Regimento de Infantaria 23, aquartelado nesta cidade. Sem conhecimento do rumo dos acontecimentos, os republicanos viveram horas de angústia e ansiedade, decidindo enviar a Lisboa um emissário para se inteirar do que se passava.
Jornal “Defeza”, de Coimbra. Op. cit., pg. 147
No dia 5, à noite, corre em Coimbra que a República fora proclamada, o que provoca que, na Praça do Comércio (onde se situava o Centro José Falcão) se juntasse muita gente. E quando, cerca das 3 horas da manhã do dia 6 de Outubro, um emissário do governo republicano, entretanto formado, confirma a proclamação da República, há grandes manifestações de regozijo, acompanhadas do lançamento de foguetes, sendo arvorada no edifício da Câmara e na Universidade a bandeira republicana, como nos informa o "Notícias de Coimbra", do dia 8 de Outubro. O mesmo jornal descreve que "a filarmónica «Boa União» toca a «Portugueza», formando-se um cortejo em direcção ao Governo Civil, aonde se encontra já o novo Governador Sr. Dr. Fernandes Costa".

O alferes medico sr. João Augusto Ornellas, falando ao povo das janellas da Camara de Coimbra, após a notificação da proclamação da Republica. In: Illustracção Portugueza, II-1910, n.º 224, Lisboa, 1910.10.24, p.539.

Dr. Fernandes Costa. 1.º Governador Civil de Coimbra após a implantação da República-Op- cit., pg. 148
Na sede do Governo Civil (então, na Rua Larga, onde hoje se encontra a Faculdade de Medicina) a passagem do testemunho do até então governador, Dr. José Jardim, faz-se com toda a urbanidade, sendo mesmo cumprimentado à saída do edifício. O extenso cortejo regressa à Baixa, ao som de vivas à Liberdade e à República, terminando na Praça do Comércio, cerca do meio-dia.
À uma da tarde desse dia 6 de Outubro estava prevista a proclamação da República nos Paços do Concelho. E essa tem lugar perante o Dr. Fernandes Costa e a vereação que até aí gerira o município, e que então pede a demissão. Como informa o mesmo jornal, no Salão Nobre completamente cheio, "esta cerimónia termina por constantes vivas à Pátria, a Portugal, ao exército e armada e à República, no meio do maior e mais indiscritível entusiasmo", que acrescenta: "Duas bandas de música, a «Boa União» e a «Conimbricense», tocam em frente, no largo, formando-se, em seguida novo cortejo, composto por milhares de pessoas que percorre, com as duas filarmónicas, várias ruas da cidade".

O povo depois do discurso do sr. João Ornellas a caminho do quartel de infantaria 23. In: Illustracção Portugueza, II-1910, n.º 224, Lisboa, 1910.10.24, p.539.
Auto da Proclamação da República em Coimbra em 6 de Outubro de 1910. Op. cit., pg. 150
Também o quartel do Regimento de Infantaria 23, então na Rua da Sofia, pelas quatro da tarde, se associa à proclamação, hasteando no seu mastro a bandeira do novo regime. Momento registado pelo referido periódico: "Há então um indiscritível entusiasmo, a que se associam os soldados, erguendo vivas à República e confraternizando com o povo. Ouvem-se pouco depois os primeiros acordes da «Portugueza»”. É a banda militar que a toca. Novas manifestações, igualmente calorosas, se ouvem, com vivas ao exército e à armada". À noite seriam iluminados os edifícios públicos e mesmo casas particulares, percorrendo as ruas da cidade grupos de populares em marchas «aux flambeaux». No dia seguinte novas manifestações de alegria teriam lugar em vários pontos de Coimbra.
Uma nota muito curiosa é-nos ainda revelada pelo jornal: "É agora cumprida a disposição testamentária do falecido Dr. Inácio Roxanes, em virtude da qual, no dia da implantação da República, devia ser distribuída a quantia de 100$000 réis pelos pobres da freguesia de Santa Cruz, desta cidade. O respectivo testamenteiro anda cumprindo já a referida disposição".
Andrade, C.S. Coimbra e a República. Da propaganda à proclamação. 2022. Coimbra, Edição Lápis da Memória.
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