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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 15.04.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 15

Ao lado do Parque de Regalo dos crúzios rasga-se a Rua Lourenço de Almeida Azevedo

Pouco depois de ser aberta, em 1891, a Rua Lourenço de Almeida Azevedo começa a povoar-se de moradias: logo no início duas casas inserem a sua gramática decorativa num revivalismo medieval que se relaciona com a ideologia romântica e, simultaneamente, evidenciam uma forte ligação com os canteiros da ELAD.

A primeira, patenteia um pseudominarete a apontar para construções mouriscas, quase inexistentes na região de Coimbra, e o seu risco saiu, de acordo com a tradição oral e sem qualquer documento que o outorgue, da mão do arquiteto Silva Pinto. Contudo, devido à mais que dúbia qualidade dos modelos existentes ou, com uma maior margem de probabilidade, pelo gosto se encontrar desenquadrado no contexto citadino, a verdade é que o neomudéjar não teve grande impacto no ambiente artístico local.

A outra, de autor desconhecido, com a fachada decorada dentro do gosto românico (interiormente a forma como a casa se encontra programada nada tem a ver com o período medieval) aponta para o segundo romantismo que busca a “nossa arquitetura” na época da fundação de Portugal e, consequentemente, no estilo românico. Além disso, deve estar intimamente relacionada com a intervenção levada a cabo, mais ou menos por essa altura, na Sé Velha e que não podia deixar de influenciar o mundo artístico mondeguino.

António Augusto Gonçalves bateu-se com firme determinação para que o restauro do templo se transformasse de utopia em realidade e os artistas que frequentavam a Escola Livre, e à sua volta gravitavam, permitiram-lhe concretizar o sonho, obviamente com a aquiescência do bispo da diocese, D. Manuel Correia de Bastos Pina. A influência do templo restaurado é de tal forma notória no edifício que esta moradia passou vulgarmente a ser conhecida pelo nome de “Casa da Sé”. A sua fachada ostenta um corpo central mais avantajado e ameado; o piso superior é rompido por cinco portas, sendo a central mais larga e trabalhada do que as restantes; quatro gárgulas dão vazão às águas que escorrem do telhado.

Fig. 21. Casa da Sé. Pormenor. [Foto Daniel Tiago

Fig. 21 – Casa da Sé. Pormenor. [Foto Daniel Tiago]

Casa da Sé. Pormenor. [Foto RA] 01.jpg

Casa da Sé, pormenor. Foto RA.

Casa da Sé. Pormenor. [Foto RA] 02.jpg

Casa da Sé, pormenor. Foto RA

Face à semelhança verificada entre esta moradia e o velho templo catedralício aeminiense atrevo-me a apontar o nome de António Augusto Gonçalves como sendo o autor do risco, pois não olvido que foi da sua mão que saiu o projeto documentado e datado, do templo do Divino Senhor da Serra, de Semide.

A construção de casas que saíssem da vulgaridade e atestassem o poder económico dos seus donos estava, como já se referiu, dentro dos parâmetros mentais de então.

Um pouco mais acima, com desenho de Raul Lino, ergue-se uma outra moradia que também merece ser referenciada. Infelizmente ignoro o nome do encomendante, desconheço o projeto e a data da sua construção.

 

Casa riscada por Raul Lino [Foto RA].jpg

Casa riscada por Raul Lino. Foto RA

Casa riscada por Raul Lino. Pormenor [Foto RA].jpg

Casa riscada por Raul Lino, pormenor. Foto RA

A Rua Lourenço de Almeida Azevedo desdobra-se à esquerda de quem, a partir da Praça da República, olha para o Jardim da Sereia, local onde os frades crúzios, outrora, viviam momentos de lazer e no lado oposto, isto é, à direita do observador, abre-se a via que permite unir o Largo D. Luís à Rua de Tomar: trata-se da Rua Almeida Garrett. Logo no início desta via existe uma casa que tem a ornamentar os aventais das janelas vistosos frisos cerâmicos da autoria de Miguel Costa.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas Artes.

 

Tags: Coimbra séc. XIX, Coimbra séc. XX, Alargamento do espaço urbano, Rua Lourenço de Almeida Azevedo, Silva Pinto arquiteto, Casa da Sé, Raul Lino arquiteto, António Augusto Gonçalves, Jardim da Sereia, Largo D. Luís ver Praça da República, Rua de Tomar, Rua Almeida Garrett,

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por Rodrigues Costa às 21:33

Quinta-feira, 08.06.17

Coimbra: Avenida Sá da Bandeira na leitura de um coimbrinha

Mão amiga enviou-me o texto de um artigo de autor só identificado pelas iniciais C e F, publicado no início do século XX que reflete, de uma forma expressiva, uma das facetas menos positivas de uma figura típica da nossa Cidade: o “coimbrinha” que crítica, crítica e... não passa da crítica!

Sendo um texto que reflete uma época, penso que pela sua graça importa rever e analisar.

 

A minha architectura. Raul Lino

No sud express de anteontem, chegou a esta cidade o architecto Raul Lino, artista de mérito e rapaz muito sympáthico, que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente, e que, com mais um amigo meu, acompanhei num pequeno passeio pelo bairro de Santa Cruz, onde brevemente se levantaram algumas construcçõces delineadas por aquelle novo architecto.

Encaixados num caleche, sob um sol abrazador, aí pela 1 hora, passámos pela Avenida, e mostrámos-lhe, primeiro que as nossos bellezas architectónicas, aquella galeria de monstrosinhos, que os honestos, mas pouco artistas, mestres de obras, cá da terra, e mais alguns, têem ido poisando por êsse bairro de Santa Cruz fóra.

Manutenção. Anais. 1920-1939.TIF

Edifício da Manutenção Militar

 Apresentámos lhe aquelle mostrengo da padaria militar, sellado na frontaria, como todas as coisas, e fizemo lo admirar aquelle caprichosinho ingénuo e ridiculo, de uma casolita de boneca, feita de tijolo, e encarrapitada na chaminé da mesma padaria.

Teatro Avenida (Principe Real) a.jpg

Teatro Príncipe Real, depois Avenida

 Mostrámos lhe depois a pequena cartonagem da casa de bombeiros e a boceta - Theatro, barriguda e atarracada, como o Santos Lucas, e, por fim, aos pouco, fomos-lhe apontando aquellas frontarias chatas, em rectangulo, com janellas em rectangulo, e portas em rectangulo, monótonas variações sobre o mesmo thema, - o rectangulo, ou então construcções estylo cartão de visita, como espirituosamente lhes chama um amigo nosso.

Olhar de alguma consideração mereceu-nos apenas uma casa, que fica quasi ao meio da rua, e que é a melhor casinha do sitio.

Ao chegar ao largo, fallámos-lhe desta nossa geral e exaggerada preoccupação das frontarias, e do absoluto desprezo das fachadas lateraes, justificado, provavelmente, por uma razão análoga á que podem apresentar os sujeitos que não cuidam da roupa branca, porque ella se não vê.

Para confirmar as nossas maldizencias, apresentamos-lhe uma das fachadas dum grande edifício, pintado de côr de rosa, na frente, e de branco, nos lados, onde, aos zig-zags, corria a bicha amarella da do canno das latrinas, e onde, apenas se abriam umas estreitas frestas.

... Sou má lingua, e não percebo nada disto. Sou o que quizerem; mas deixem-me fallar.

Eu sempre embirrei com esta mania de pôr chalets numa rua urbana, com est’outra de trazermos para o seio do nosso clima ameno, edifícios carrancudos dos paises frios, com telhados de lousa, empinados por causa das neves ... Eu quero que a casa diga com o clima e com o morador.

Ver um castello no meio dum jardim, e avistar-lhe, nos minaretes, os calções e as fraldas dos meninos a enxugar, embirro.

Ver um brutamontes, mettido num destes edificiosinhos, caixas de bonbons, que a França nos tem mandado, estragando com as botifarras, o encerado do parquet, - ou arrotando, em mangas de camisa, os gazes do jantar na sua varanda janota, embirro.

Ver estas casas burguesas, pretenciosas, com ornamentações de mausoleu, embirro e embirrarei.

Quero luz, quero limpeza, quero hygiene. Concordo em que as janelas sejam bem rasgadas, os quartos amplos, as estrebarias em pavilhões affastados, as latrinas isoladas e as casinhas á parte. Mas não quero que se façam casas como quem faz caixotes.

... Diz se que a casa, que se suppõe ser nossa, existe lá fora, nas habitações da mesma epocha. Concordo; mas imprimimos-lhes ou não lhes imprimimos um cunho nosso? Adaptamo-las ou não?

... E agora, meus amigos. Terei dicto muita asneira, nesta minha carta; o Quim se cá estivesse talvez me tivesse puxado as orelhas, por castigo, mas, ao menos, fico com a consolação de que disse o que sentia.

F., C. A minha architectura. Raul Lino, “Resistencia”, Coimbra, 1902.09.28.

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por Rodrigues Costa às 10:52


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