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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 06.05.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 18

A burguesia citadina instala-se no Bairro de Santa Cruz (Continuação)

Em Coimbra, este estilo encontra-se disperso por toda a cidade, quer em grande número de janelas deste tipo que, na sua maioria, apresentam uma extrema simplicidade, quer em algumas casas. No entanto, o neomanuelino coimbrão, aquele que saiu mesmo do risco e do cinzel dos artistas locais, é tratado de maneira sóbria e denota profundos conhecimentos do estilo quinhentista.

Esta casa da Rua Alexandre Herculano, para além do andar térreo, apresenta três pisos, cada um com sua varanda saliente, de pedra lavrada, a ornamentar a fachada que, na parte superior, ostenta elegante loggia. Uma esfera armilar em relevo dá cunho à dupla entrada. No conjunto, os elementos manuelinos abundam: cordas, escudos, esferas armilares, cruzes da Ordem de Cristo e arcos conopiais, fazem com que este seja um dos melhores exemplares citadinos do tipo. Porque indocumentado, não permite que se conheçam os nomes do proprietário e do projetista, bem como a data da sua feitura.

Fig. 28. Edifício neomanuelino. [Foto RA]a.jpg

Fig. 28 – Edifício neomanuelino. [Foto RA].

Edifício neomanuelino. Pormenor [Foto RA] 02.jpg

Edifício neomanuelino, pormenor. Foto RA

Edifício neomanuelino. Pormenor [Foto RA] 04.JPG

Edifício neomanuelino, pormenor. Foto RA

Mas nesta rua erguem-se vários edifícios com interesse; dois desses imóveis foram projetados por Raul Lino, arquiteto que, nesta data, ou seja, depois de 1902, já se impunha no nosso país pela obra realizada e tinha grande aceitação na urbe mondeguina.

Quase em frente ao já referido edifício neomanuelino, em 1908, Albino Caetano da Silva começa a construir uma moradia riscada por aquele alarife.

Fig. 29. Moradia de Albino Caetano da Silva. [Foto

Fig. 29 – Moradia de Albino Caetano da Silva. [Foto RA].

Moradia de Albino Caetano da Silva. Pormenor [Foto

Moradia de Albino Caetano da Silva, pormenor. Foto RA

O edifício foge, obviamente, ao que se fazia na cidade, mas se se pensar em termos estendidos, acaba por refletir um gradual, embora moderado, crescimento económico dos encomendantes, passível de lhes permitir recorrer, para riscar as suas moradias, a artistas que não vivem no burgo; esta possibilidade introduz, paulatinamente, uma certa modernidade arquitetónica, que inicia a alteração fisionómica da urbe.

Raul Lino, para além de projetar a moradia de Caetano da Silva, preocupa-se com os pormenores decorativos e desenha os azulejos policrómicos que se encontram a ornamentar as paredes das fachadas.

Antes de 1915 já se perfilava a possibilidade de, em Coimbra, vir a ser construído um edifício que servisse de sede à Associação Mundial de Académicos (atual Associação Cristã da Mocidade – ACM); o local elegido situava-se no gaveto formado pelas Ruas Alexandre Herculano e Venâncio Rodrigues.

Raul Lino, o arquiteto escolhido, começou a riscar o projeto em janeiro de 1916 e em meados do ano seguinte era exposta na Calçada, numa das montras dos Grandes Armazéns do Chiado, a maqueta aguarelada do edifício; parece que a feitura do imóvel foi custeada pelo International Comittee of Young Man's Christian Associatons, de Nova Iorque.

Edifício da Associação Cristã da Mocidade (ACM

Edifício da Associação Cristã da Mocidade (ACM), pormenor. Foto RA

Fig. 30. Edifício da Associação Cristã da Moci

Fig. 30. Edifício da Associação Cristã da Mocidade (ACM). Pormenor. [Foto RA].

Não cabe aqui referir quais os objetivos da instituição, mas, de acordo com a imprensa que se publicava na época, o edifício projetado por Raul Lino era “um dos ornamentos do Bairro de Santa Cruz” e o arquiteto, no interior, interpretou “admiravelmente o princípio utilitário e filantrópico da instituição e, ao dar ao exterior o estilo português modernizado, manifestou o seu espírito de adaptação ao meio particular em que cada grémio se estabelece, num perfeito equilíbrio entre o nacionalismo e o cosmopolitismo exagerados”.

Finalmente, no dia 20 de junho de 1918, procedeu-se, com pompa e circunstância, à inauguração do imóvel que contou com o trabalho de artistas ligados à ELAD, mormente com o de João Machado.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 12:26

Quinta-feira, 29.04.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 17

A burguesia citadina instala-se no Bairro de Santa Cruz (Continuação)

A Rua Venâncio Rodrigues abre-se paralelamente à praça de República e liga a confluência da Oliveira Matos com a Castro Matoso à Rua de Tomar, cortando, aproximadamente a meio da sua extensão, em ângulo reto, a Alexandre Herculano.

Nesta artéria erguem-se três moradias que se encontram documentadas.

A que primeiramente se levantou tem risco de Raul Lino, é posterior a 1908 e foi mandada construir por António Maria Pimenta, pai de Belisário Pimenta (1879-1969). Insere-se dentro das linhas normalmente utilizadas por aquele arquiteto.

Fig. 26. Casa de António Maria Pimenta. [Foto RA]

Fig. 26 – Casa de António Maria Pimenta. [Foto RA].

Casa de António Maria Pimenta. Pormenor [Foto RA]

Casa de António Maria Pimenta, pormenor. Foto RA.

A outra, pertencia ao capitão do exército Alcino Miguel Pereira Rodrigues; o pedido de autorização para a construção do edifício, que se situa na esquina das Ruas Oliveira Matos e Venâncio Rodrigues, deu entrada na Câmara Municipal de Coimbra a 20 de dezembro de 1926 e foi deferido três dias depois. Joaquim da Costa Netto, construtor civil, declarou-se responsável pela direção dos trabalhos. Penso poder apontar para a sua mão como autora do projeto.

Casa de Alcino Miguel Pereira Rodrigues. [Foto RA]

Casa de Alcino Miguel Pereira Rodrigues. Foto RA.

O requerimento para a construção da terceira, uma casa para habitação e a mais tardia, foi endereçado pela Carpintaria Mecânica Conimbricense, com sede na Avenida Fernão de Magalhães, à edilidade aeminiense, através do seu sócio gerente João Gaspar Marques Simões, em maio de 1932. É o próprio Marques Simões que se responsabiliza pela obra e, como ele era construtor civil diplomado, calculo que também foi da sua responsabilidade o risco do edifício, neste caso mais elaborado que o anterior, a inserir-se em linhas gramaticais Art Déco.

Fig. 27. Casa de habitação pertencente à Carpin

Fig. 27 – Casa de habitação pertencente à Carpintaria Mecânica Conimbricense. [Foto RA].

Casa de habitação da Carpintaria Mecânica Conim

Casa de habitação da Carpintaria Mecânica Conimbricense, pormenor. Foto RA.

Uma nota interessante que ressalta dos documentos assinados por Netto e por Simões passa pelo primeiro declarar que se responsabiliza “e nos termos do regulamento aprovado por decreto de 6 de Junho de 1895 para a segurança dos operarios em construção civil”, enquanto o segundo afirma que se responsabiliza “nos termos do regulamento de segurança dos operarios de 6 de Maio de 1909”. Sendo os dois termos bem posteriores a 1909, não se percebe a razão que os levou a regerem-se por regulamentos diferentes.

Desse largo centralizante que se abre no topo da Avenida Sá da Bandeira, verdadeiro núcleo aglutinador das mais diversas artérias viárias que ali desembocam, ou se se quiser, em sentido inverso, que dali partem, destaca-se a Rua Alexandre Herculano a estender-se até aos Arcos do Jardim (Largo João Paulo II).

Logo à esquerda de quem sobe, no início da via, deparamo-nos com um edifício neomanuelino.

Contrapondo-se ao lugar ocupado pelo neogótico na maioria dos países desenvolveu-se, em Portugal, o neomanuelino que teve a sua certidão de nascimento na janela que se inscreve no Paço da Pena, em Sintra, numa das paredes do Pátio dos Arcos, forrada com azulejos policrómicos que utilizam, na parte inferior, como motivo decorativo a esfera armilar. A ventana, riscada por D. Fernando II, resulta de uma aproximação e simultaneamente de uma recomposição de um comportamento artístico de outrora, pois o monarca inspirou-se na janela da impropriamente chamada Casa do Capítulo do Convento de Cristo de Tomar.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf.

 

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por Rodrigues Costa às 11:17

Quinta-feira, 18.04.19

Coimbra: Edifício ACM em Coimbra

Já antes de 1915 se perfilava a possibilidade de, em Coimbra, se vir a construir um edifício que servisse de sede à Associação Mundial de Académicos; o local escolhido situava-se no gaveto formado pelas ruas Alexandre Herculano e Venâncio Rodrigues, em pleno bairro de Santa Cruz, projetado no final de Oitocentos para dar resposta à necessidade de alargamento do espaço urbano da cidade, mas vítima de um processo de lentidão, bem de acordo com o fraco poder económico da urbe. As publicações periódicas que então saiam dos prelos mondeguinos, em dezembro do referido ano, previam a inauguração do imóvel para o mês outubro seguinte, mas a verdade é que Raul Lino, o arquiteto escolhido, só começou a riscar o projeto em janeiro de 1916.

Raul Lino.jpg

Raul Lino

ACM. Atlantida, 18, Lisboa, 1917.04.15.jpg

Desenho do edifício publicado em Atlantida, 18, Lisboa, 1917.04.15
…Ainda antes de conceber o edifício da ACM [Raul Lino], riscou o do Jardim-Escola João de Deus [que se ergue na Alameda Júlio Henriques], inaugurado a 2 de abril de 1911.
… A inauguração da sede da ACM foi protelada, certamente por razões óbvias e, em meados de 1917, era exposta numa das montras da filial conimbricense dos Grandes Armazéns do Chiado uma maqueta aguarelada que dava uma perspetiva do edifício destinado a sede da Federação Mundial de Académicos; parece que a feitura do imóvel fora custeada pelo International Comittee of Young Man's Christian Associatons de Nova Iorque.

ACM. Antes das obras b.jpg

O edifício na sua forma original

… Nos edifícios construídos para sede da coletividade, o ginásio já então constituía uma das partes essenciais do edifício e o átrio funcionava como verdadeiro motor da mesma, pois a par com os bilhares e os cueroques (os jogos de azar encontravam-se interditos) a dependência, graças a um confortável mobiliário, convidava a que se ouvisse música ou se conversasse amenamente. Nas proximidades encontrava-se instalado um pequeno bar de apoio, que não servia bebidas alcoólicas.
No salão nobre realizavam-se palestras, relacionadas sobretudo com a educação cívica e moral, e sessões de cinema, onde, a par com películas cómicas e dramáticas, passavam filmes instrutivos e científicos. Existia ainda uma sala de leitura em que se podia encontrar, para além de revistas e jornais nacionais e estrangeiros que “facilitassem ao estudante um meio de se conservar ao corrente dos acontecimentos sociais, científicos e literários”, uma pequena biblioteca.
… De acordo com a imprensa que se publicava na época, o edifício projetado por Raul Lino era “um dos ornamentos do Bairro de Santa Cruz” e o arquiteto, no interior, interpretou “admiravelmente o princípio utilitário e filantrópico da instituição e, ao dar ao exterior o estilo português modernizado, manifestou o seu espírito de adaptação ao meio particular em que cada grémio se estabelece, num perfeito equilíbrio entre o nacionalismo e o cosmopolitismo exagerados”.
Finalmente, no dia 20 de junho de 1918, procedeu-se à inauguração do edifício, ato que se revestiu de uma enorme solenidade e imponência e que contou com a presença de quase todos os ministros e embaixadores estrangeiros acreditados junto do governo português.


ACM. Depois das obras.jpg

O edifício na atualidade

Anacleto, R. O edifício da ACM em Coimbra, In: Diário de Coimbra, n.º 22229, Coimbra, 1997.05.25.

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 12:32


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