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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 28.01.20

Coimbra: Rua das Covas 2

(As minhas) Memórias da Rua das Covas (continuação)

Rua das Covas, vista do telhado da minha casa.jpg

Rua das Covas, telhados

Toda a rua era um fervilhar de vida, um ovo de humanas esperanças e ambições.
Recordo o Sr. Edmundo, sapateiro, o Sr. Joaquim, da mercearia, onde eu ia buscar um litro de vinho por oitenta centavos, a numerosa família Damasceno, a senhora que morava no rés-do-chão, quase em frente da porta principal do prédio, sempre sorridente, com alcunha famosa que galgou fronteiras, muitos outros a quem me falece a memória. Por fim, o Sr. António Calmeirão, afamado mandador de Fogueiras, na sua oficina de sapateiro, onde dominava, solene, o seu retrato vestido de lente de Direito.

Calmeirão de borla e capelo.jpg

Calmeirão de borla e capelo

Recordo a comoção que a todos atingiu, quando um vizinho morreu, de doença incurável!
Essa rua era Coimbra, com as suas gentes, os seus estudantes, pois não poucos prescindiam dos seus espaços para os alugar aos senhores doutores, que já eram antes de o ser! Aos conimbricenses de gema, aos salatinas, se mesclavam forasteiros como eu, comungando da mesma cultura, como a Lurdes, de Vila Seca e o seu gato Barbaças, a Carlota, das Lajes, sempre com uma cantiga na boca, a D. Isaura, de Maiorca, ou a D. Adelaide, da Régua, frequentadoras de tudo quanto era cerimónia na Sé Nova.

Aquelas casas singelas, ou mais arranjadinhas, tinham majestade, pareciam amplificar a vitalidade de todos esses moradores, empurrando pelas janelas adentro o pregão de gente que fazia pela vida:
- Sardinha d'areeeia!
- Meeerc'a mim carqueja!
- Há p'r'ai quem tenha peles, farrapos ou ferro velho pra vender??!!
- Areia fiiina!
- Merca hortaliça!
Aos domingos à tarde era a tremoceira, no seu andar remexido: - Ó meninas! Tramoceira! ...
A Lurdes era das pessoas mais reinadias lá do prédio. Mal a tremoceira vinha pela rua acima, bradava ela da janela: - Ó Guilherme! E a tremoceira, julgando ouvir: - Ó mulher! Gritava lá de baixo: - Lá vou freguesa! Passou-se isto por diversas vezes, até a pobre da vendedora se aperceber da brincadeira.
Aos domingos à tarde... era também a ansiosa expectativa de ir à matiné ao Sousa Bastos ou por vezes ao Avenida, acompanhados pelo entretém da pevide suiça.

Rua das Covas, casas austeras.jpg

Rua das Covas, casas austeras

Rua estreitinha, de casas austeras, quinhentistas e seiscentistas, na sua maioria, com janelas de avental, sem brasões nem arrebiques, a atestar o fluir da História, as vidas que se sucedem. Mas havia, claro, a dos números 17-21, a mais notável, com bossagens rusticadas maneiristas, na moldura das portas e janelas. Em tempos albergou uma tipografia e a fachada fora enobrecida com o medalhão ruanesco da Fortuna, levado para o Museu. É pena que não se faça uma reprodução para voltar ao lugar que ocupou durante séculos.
Um pouco mais acima, entroncava o Beco das Condeixeiras, entre altos muros e poucas casas, com buganvílias e parreiras debruçadas, roupa estendida a enxugar, um recanto rural no meio da cidade, mais familiar para mim do que a imensa mole do Museu Machado de Castro, que dominava toda a parte alta da rua.
O Beco das Condeixeiras era o limite do grande quintal, pertencente à casa onde morei, e comunicava com o cimo da Rua do Cabido. Por porta aberta no muro das traseiras também se fazia o mesmo acesso, de forma fácil. Por lá passava eu, para ir à missa a S. Salvador, ou acompanhar a D. Adelaide, quando ia zelar o Senhor dos Passos dessa igreja e às novenas do Menino Jesus, na Sé Nova. Mesmo em frente dessa porta do quintal morava a D. Piedade, melhor, a Menina Piedade, que recordo sempre na elegância do seu negro vestir: sapato de camurça, meia de seda, saia travada, xaile de merino de oito pontas, pelos ombros, a preceito, e lenço seguro na nuca com fitinha de veludo que lhe envolvia e pescoço, o vicente. Parecia uma figura da Renascença!
Na casa onde vivi, o quarenta e três, tudo me parecia enorme: a escadaria, os sombrios corredores, o tecto alto dos quartos. Em todos os recantos havia uma aura de mistério, a que se vinha juntar o ruído cavo dos trabalhos de remoção do entulho nas galerias do criptopórtico romano.
Certo dia, os meus pais decidiram mudar para Montarroio, mas, para mim, a Rua das Covas ficou sempre o meu berço coimbrão. Muitas vezes lá passei, mais tarde, discretamente, a matar saudades, a assistir preocupado à degradação do meu antigo habitat. A alegria que senti quando soube que tinha sido adquirido pelo Museu apenas tornou maior a mágoa de a ver desaparecida.
Como está diferente a Rua das Covas! Quase não há casas no lado dos ímpares!
Será sina de Coimbra ser palco de amores infelizes e vítima do camartelo, seja ele do Município, do Marquês de Pombal, do Estado Novo, ou do Estado Democrático? Poderão refazer-lhe as casas que demoliram, poderão construir-lhe cubos pós-modernistas, mas a Rua das Covas jamais voltará a ser a mesma, fraterna, de vidas em comum, perpassadas de cantigas brejeiras e de dores sentidas, de raivas e esperanças, muito humana, aconchegante, onde não tinha lugar a solidão.

Nelson Correia Borges

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por Rodrigues Costa às 19:21

Quinta-feira, 23.01.20

Coimbra: Rua das Covas 1

(As minhas) Memórias da Rua das Covas

Rua das Covas, vista do lado da Sé Velha.jpgRua das Covas, vista do lado da Sé Velha

Em 1883 a Câmara Municipal de Coimbra decidiu rebaptizá-la com o nome de Rua Borges Carneiro, em homenagem a um dos activistas da Revolução de 1820 - de seu nome próprio Manuel -, que, por volta de 1800, passara pela cidade, a licenciar-se em Cânones. E o nome lá perdura, agora em azulejos, à esquina do Largo da Sé Velha.

Rua das Covas, placa toponimica.JPG

Rua das Covas, placa toponimica

Mas não teve grande efeito a decisão dos edis citadinos, porquanto, como observa José Pinto Loureiro, para toda a gente, a declivosa via continuou sempre a manter o vetusto nome de Rua das Covas, vindo já dos tempos da formação da nacionalidade. Há quem diga que o topónimo se originou nas covas de sepultura que se abriam no adro da Sé, mesmo no fundo da rua. Mas há igualmente quem pense, talvez mais avisadamente, que as tais covas não seriam outra coisa senão as galerias do criptopórtico romano, que permaneceriam abertas para o ar livre, ou parcialmente entulhadas, nos baixos do paço episcopal.

Rua das Covas, vista do lado da Sé Nova.jpg

Rua das Covas, vista do lado da Sé Nova

Fosse como fosse, covas nas ruas nunca faltaram em Coimbra, e certo é que a Rua das Covas sempre foi de capital importância na mobilidade de pessoas e coisas entre a Baixa e a Alta que Deus Haja, em eixo natural concertado com o Quebra Costas e o Largo da Sé Velha, aproveitando a linha de água entre a colina do Paço e a do Salvador.
Muitas são as memórias que pairam em seu redor e, por certo, serei eu a pessoa menos indicada para delas falar.

Rua das Covas, casa demolida.jpg

Casa onde vivi, demolida com as obras de ampliação do Museu

Para o miúdo tímido de finais dos anos 1940, que era eu, vindo de uma casa de aldeia, de loja e sobrado, para morar num terceiro andar, acima dos beirados, tudo parecia estranho e fantástico: o enfadonho pico-pico dos alvenéis talhando a silharia da nova Faculdade de Letras; as manhãs enevoadas, com o arrulhar misterioso das pombas na Sé Velha e em S. João de Almedina; o insólito atirar de trastaria velha para a rua, na noite de fim de ano, por entre o ensurdecedor bater de testos; as agitadas quintas-feiras da Ascensão, com multidões de aperaltados camponeses a corrupiar pelas varandas do Museu Machado de Castro; os regressos do Espírito Santo, com o festivo tilintar das campainhas de barro; as espantosas festas da Senhora da Boa Morte, na Sé Nova e o seu sino temeroso; as serenatas a desoras, junto à casa fronteira que alugava quartos a meninas estudantes. Olhos e ouvidos eram ávidos de apreender todas estas novidades estranhas. Até a linguagem e a forma das coisas: - ouvir dizer boa noute, ou nomear pote a um cântaro com duas asas junto à boca, ou chamar meninas a senhoras que podiam ser minhas avós ...
Na Rua das Covas morei num prédio com andar acrescentado acima dos beirados, como outros prédios dessa rua. Da rua não eram visíveis estes andares espúrios, nem tão pouco dos mesmos se alcançava a rua, devido ao avanço dos beirados e à estreiteza da mesma: era como um mundo à parte, uma janela indiscreta, a comunicar com o vizinho da frente e donde até se podiam lançar ditos de escárnio e maldizer, pelo Entrudo, a coberto da ocultação.
Ali viviam à volta de três dezenas de famílias. Um simples quarto, dos vários dispostos em cada andar, ao longo de comprido corredor, era abrigo suficiente para solitários e casais, ou, mesmo mais pessoas.
Nelson Correia Borges (continua)

 

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por Rodrigues Costa às 11:00


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