Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 01.04.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 13

O novo Bairro de Santa Cruz (Continuação)

Tal como aconteceu com o Teatro-Circo, adiante referido, e como vai suceder com outros imóveis considerados de interesse para a cidade, o terreno para a Associação Comercial e Industrial de Coimbra também foi cedido pela edilidade mediante a concessão de uma redução no preço, embora com a condição de ali ser instalada uma escola prática destinada a permitir aos jovens a aprendizagem das técnicas essenciais à vida económica.

Edificio da Associação Comercial.jpg

Edifício da Associação Commercial

Assina o projeto Manuel Gonçalves de Campos que, sob o seu nome apõe um “A.” passível de o identificar como arquiteto. Até ao momento não consegui obter qualquer informação relacionada com o alarife em causa.

Francisco António dos Santos, Filho lavrou as cantarias; ele próprio o confessou a Abreu d’Aguiar Oteda, quando este o entrevistou para a crónica “A arte e os artistas de Coimbra”, por altura da sua nomeação como professor interino da Escola Brotero, em substituição de João Machado, artista com quem, pese embora o teor da conversa, rivalizava.

Abreu d’Aguiar Oteda manteve em “O Despertar”, durante bastante tempo, esta crónica e nela publicava as entrevistas que ia fazendo aos mais diversos artistas da cidade.

Associação Comercial e Industrial de Coimbra. Po

Associação Comercial e Industrial de Coimbra, pormenor. Foto RA

No mesmo ano em que foi solicitada à edilidade a aprovação do desenho destinado à sede da ACIC, Francisco Barreto Chichorro apresentava também, a fim de lhe ser concedida a licença e o alinhamento, o projeto da casa que pretendia construir na Sá da Bandeira; assinava-o Bernardino José, construtor de Obras Públicas, de quem não encontrei, ao longo da investigação, mais nenhuma referência.

O então presidente da Câmara, Marnoco e Sousa, deferiu o requerimento a 22 de julho de 1909. Do edifício, uma moradia geminada, salientam-se apenas as sucessivas aberturas neobarrocas da platibanda e os dois, acrescentados ao desenho inicial, pseudofrontões destinados, possivelmente, enriquecer a fachada.

Casa de Francisco Barreto Chichorro Foto [RA].jpg

Casa de Francisco Barreto Chichorro. Foto RA.

Casa de Francisco Barreto Chichorro. Pormenor [Fot

Casa de Francisco Barreto Chichorro, pormenor. Foto RA

Do mesmo lado, no local onde mais tarde foi edificada uma garagem que atualmente virou banco, isto é, entre a casa de Francisco Chichorro,

Garagem que atualmente virou banco. Foto RA.jpg

Garagem que atualmente virou banco. Foto RA.

e o atual (2016) edifício sede da Polícia Municipal,

Edificio da Polícia Municipal. Foto RA.jpg

Edifício sede da Polícia Municipal. Foto RA.

 onde funcionou, durante largos anos, o quartel dos bombeiros municipais, construiu-se um picadeiro, que teve vida efémera.

Em 1908 já fora aprovado pela autarquia o projeto do imóvel do picadeiro, a construir em terrenos que haviam sido cedidos em condições idênticas aos do Teatro-Circo, visto ambos se destinarem a melhoramentos públicos. O risco foi elaborado pelo “habil constructor civil” João Gaspar Marques Neves e “o professor do picadeiro será o sr. D. João de Mello, professor da Escola Nacional d’Agricultura, muito habil e muito competente”.

O Noticias de Coimbra ainda acrescentava que “tendo fallado em melhoramento com que esta cidade vae ser dotada, resta-nos dizer que elle se deve aos srs. Francisco e Miguel Barreto Chichorro, que bem podem ser considerados dois benemeritos, porque, se não fossem elles, Coimbra não teria tão depressa uma escola de cavalaria”, onde também se ensina, para além da equitação, “ginástica, jogos de armas, etc. para a educação física mais completa”.

O referido estabelecimento “encontra-se em magníficas condições e veio preencher uma lacuna que há muito se fazia sentir na cidade”, mas pouco tempo volvido após ter iniciado a sua atividade, por motivo de doença ou afazeres, os proprietários anunciam que arrendam ou vendem o picadeiro.

A partir desta data ignoro o que se terá passado, mas, nem mesmo os mais idosos, retém na memória e existência, em Coimbra, desta escola de equitação.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 18:35

Quinta-feira, 04.03.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 9

O novo Bairro de Santa Cruz

 Os proprietários que haviam adquirido lotes na recém programada urbanização, com mais ou menos celeridade e dentro dos parâmetros estabelecidos pela Câmara, começavam a construir as suas casas de habitação ou de rendimento. Para se erguerem ao longo das novas artérias projetaram-se também edifícios de utilidade pública que, algumas vezes, não saíram do papel.

Convém esclarecer que não vou deixar de aludir a esses não construídos imóveis sempre que esteja na posse de elementos passíveis de os referir minimamente.

E se entra neste lote dos não concretizados a sede da Associação dos Artistas de Coimbra, outro tanto se não pode dizer da estação do corpo de bombeiros municipais, com projeto de Hans Dickel, aprovado em março de 1891.

 

Estação do corpo de bombeiros municipais.jpgEstação do corpo de bombeiros municipais. Foto RA

 Ao falar dos edifícios construídos, ou não, na urbanização da Quinta de Santa Cruz coloquei de lado a cronologia, a fim de seguir como que uma caminhada virtual, iniciada no entorno da Fonte Nova.

Inicio o percurso olhando para o edifício da sucursal da Manutenção Militar que começou a ser construído em 1899, no local em que outrora existiu a casa do palheiro do mosteiro de Santa Cruz, ocupado pelo município depois da desamortização e transformado em matadouro. Será de referir, contudo, que a atual estrutura resultou do aumento da primeira edificação.

Manutenção militar 02.jpg

Manutenção Militar

 Parece que estes e outros edifícios já erguidos na nova artéria não agradavam ao diretor do jornal Resistencia, o conhecido Quim Martins, pois quando Raul Lino, em 1902 se deslocou a Coimbra, o então “jornalista” acompanhou-o num pequeno passeio pelo Bairro de Santa Cruz e narra assim essa digressão: “Encaixados num caleche, sob um sol abrazador, aí pela 1 hora, passámos pela Avenida e mostrámos-lhe, primeiro que as nossas bellezas architectónicas, aquella galeria de monstrosinhos, que os honestos, mas pouco artistas, mestres de obras, cá da terra, e mais alguns têem ido poisando por êsse Bairro de Santa Cruz fóra.

“Apresentámos-lhe aquelle mostrengo da Padaria militar, sellado na frontaria, com todas as coisas” e “fizemo-lo admirar aquelle caprichosinho ingénuo e ridiculo, de uma casolita de boneca, feita de tijolo, e encarrapitada na chaminé da mesma padaria”.

O articulista mostra-se muito crítico em relação às construções levadas a efeito no novo bairro e escreve que, aos poucos, foi apontando a Raul Lino “aquellas frontarias chatas, em rectangulo, com jánellas em rectangulo, e portas em rectangulo, monótonas variações sobre o mesmo thema, – o rectángulo, ou então construcções estylo cartão de visita”.

Continuando o nosso peregrinar deparamo-nos com a Câmara, em 1905, a planear construir o edifício destinado à Inspeção de Incêndios. A planta, assinada a 30 de agosto de 1905 por António Heitor que era condutor de Obras Públicas e, penso, chefe do respetivo departamento camarário, conheceu deferimento a 01 de outubro e foi aprovado pelo Secretário de Estado dos Negócios do Reino a 22 do mês seguinte. Devia erguer-se logo acima do pavilhão do peixe, pegado à Rua do Colégio Novo e nas proximidades da Fonte Nova. O desenho do conjunto e o alçado do edifício, acompanhado do correspondente processo, encontra-se no AMC e permite determinar com exatidão o local onde se devia erguer. Trata-se de mais uma estrutura que não saiu do papel ou melhor, no caso vertente, da tela imperial.

Fig. 14. Inspecção de incêndios. [AHMC. Reparti

Fig. 14 – Inspecção de incêndios. [AHMC. Repartição de obras municipais. Pasta 24. B-14].

 Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 17:48


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Outubro 2021

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31