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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 28.01.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 4

O complexo crúzio no contexto citadino (continuação)

 

As repartições públicas ali acomodadas deviam manter-se e a edilidade poderia gerir aqueles espaços como lhe aprouvesse.

Complexo crúzio.jpg

Complexo crúzio

 Contudo, o referido documento impunha à Câmara a obrigatoriedade de abrir duas vias de comunicação com o Bairro Alto, uma que conduzisse ao caminho da Fonte Nova e outra ao de Montarroio. Coloco a hipótese, fundamentada numa outra documentação não muito explícita, de este último caminho vir a ligar a Rua de Montarroio com a zona de Celas, desenvolvendo-se na periferia poente-sul da cerca (ou quinta, se se preferir) crúzia.

A autarquia ficou na posse de um vasto espólio que lhe permitia ceder assento a todas as instituições que se julgassem com direito a essa benesse, mas viu-se confrontada com a necessidade de manter e conservar edifícios antigos e degradados que tinham passado a integrar o seu património.

Nas estruturas foram-se acomodando ou confirmaram a sua instalação diversos serviços públicos: cadeia, esquadra da polícia, roda dos expostos, hospício dos abandonados, creche, maternidade, Instituto Industrial e Comercial de Coimbra,

A edilidade, depois de haver alojado os serviços administrativos e de utilidade pública, ainda alugou espaços monacais para tudo quanto se possa imaginar: bairro de gente modesta, celeiro, matadouro e até cedeu a ‘Porta Fidalga’ para nela se abrir um talho.

A construção de uma praça de touros no terreiro fronteiro ao local onde esteve instalada a esquadra da polícia, dependência então conhecida pelo nome de “Casa Vermelha”, “Casa dos Meninos de Palhavã” ou “Casa dos Moços Fidalgos”, não se concretizou e parte do edifício, após a transferência dos presos da cadeia situada no Largo da Portagem, passou a funcionar como prisão da cidade.

Dando cumprimento às exigências estatais constantes da carta de lei de 30 de julho de 1839 que impunha à Câmara a obrigatoriedade de abrir duas ruas que comunicassem com a zona alta, em 1860, quando D. Pedro V visitou a cidade, a rua que ligava a Praça de Sansão à Fonte Nova, a Olímpio Nicolau Rui Fernandes, já havia sido aberta, rompendo a unidade do conjunto outrora pertencente aos frades agostinhos.

A Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, já havia si

A Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, já havia sido aberta.

Trata-se da primeira intervenção estrutural levada a cabo no complexo crúzio, dividindo-o em dois lotes completamente autónomos.

Alterações estruturais do complexo crúzio.jpg

Alterações estruturais do Complexo Crúzio

 A fim de satisfazer a segunda exigência, em 1890 a edilidade resolveu que se estudasse “a rua que há-de comunicar desde a cidade baixa com Celas” e encarregou o projeto a Estêvão Parada, condutor de Obras Públicas. Comentando este empreendimento, um jornal local referia: “vamos ver se serão atendidos os interesses públicos ou se lhes prefere os interesses particulares”.

Por quantas vicissitudes passou o septacentenário complexo fradesco!

Não pode deixar de se acentuar que a edilidade, ao modificar, arrasar, substituir, alterar as estruturas monacais e ao transformar a quinta anexa, destruiu, no bom e no mau sentido, possivelmente mais neste do que naquele, o património existente e transfigurou mesmo a fisionomia da urbe.

A 18 de março de 1875, a Câmara pede licença ao rei para demolir uma parte do mosteiro crúzio, a fim de aí construir os novos Paços do Concelho e, a 22 de junho de 1876, sob a presidência de Lourenço de Almeida Azevedo (1833-1891), votou, por entre o ruído feito por uma parte da imprensa local que vivamente se insurgiu contra este e outros atos da administração municipal, a primeira verba para custear a demolição parcial do mosteiro, justamente a zona em que se deviam erguer os novos paços municipais. A casa da Câmara, inaugurada a 13 de agosto de 1879, ostenta, a coroar a fachada principal, as armas da cidade que, certamente devido à pouca confiança depositada pela vereação nos canteiros da cidade e na recém-iniciada formação destes na Escola Livre das Artes do Desenho, fundada no ano anterior, foram encomendadas a Joaquim Castelo, artista lisboeta com oficina na Rua do Arsenal. Mas, mal as colocaram, logo o diretor de O Conimbricense, notando o erro existente no escudo, afirma que elas serão para os vindouros “o padrão do desleixo, incúria e ignorância” da vereação citadina de 1879.

Fig. 06. O edifício da Câmara Municipal integra

Fig. 06 – O edifício da Câmara Municipal integra o complexo dos frades crúzios. [Bilhete Postal].

Diversos incêndios também se encarregaram de desfigurar o complexo monacal dos crúzios, neste caso as alas claustrais da Manga; em 1917 a zona onde se encontravam instaladas as oficinas da Escola Industrial Brotero e, em 1926, a parte do nascente, ocupada pelos serviços dos correios.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas Artes.

Lisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

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por Rodrigues Costa às 11:49


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