Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 20.03.25

Coimbra: Fundação da Misericórdia coimbrã

A Doutora Maria Antónia Lopes, tem dedicado boa arte do seu trabalho de investigação ao estudo das Misericórdias em geral e da Misericórdia de Coimbra, em particular. Através desta entrada divulgamos um dos seus trabalhos, este intitulado A fundação da Misericórdia de Coimbra: condições e circunstâncias, do qual salientamos as seguintes passagens.

 A fundação de misericórdias por todo o reino inseriu-se num “esforço da Coroa em organizar a assistência”. Trata-se, pois, de uma ação política.

…. O desejo do rei foi cumprido em Coimbra. Em carta de 12 de setembro de 1500, dirigida ao “juis, e vereadores, provedores e homens bons” de Coimbra, D. Manuel I congratula-se por terem já ordenado uma “Confraría da Misericordia” e, como pediam, concede-lhes por alvará do mesmo dia todos os privilégios outorgados à Misericórdia de Lisboa. A Misericórdia de Coimbra estava ereta. …. A Misericórdia de Coimbra foi, portanto, constituída, como quase todas, graças à devoção, à boa-vontade e aos interesses próprios de todos os envolvidos, entre os quais avultavam os das elites locais. De facto, ingressando numa Misericórdia conseguia-se ou patenteava-se prestígio pessoal e adquiriam-se privilégios civis e indulgências; mais tarde, com o seu enriquecimento, acesso fácil ao mercado de capitais ou ao arrendamento ou aforamento de terras, entre outras vantagens, não sendo a menor ser-se associado à imagem de personagem exemplar.

…. Em 1500, Coimbra ainda estava longe de atingir a dimensão e importância que viria a ter com a instalação definitiva da Universidade em 1537. Mas Coimbra era, como sempre fora, um importante ponto de passagem e de cruzamento de pessoas, bens e ideias, tanto no sentido Sul-Norte/Norte-Sul como na ligação entre o interior e o mar, em estrada rasgada pelo Mondego. Nesse último ano do século XV, a cidade de Coimbra albergava cinco a seis mil habitantes, sobretudo no Arrabalde (a Baixa), com a Almedina (a Alta) parcialmente em ruínas e rarefeita de população. O centro vital de Coimbra era, pois, a parte baixa, polarizada pelo mosteiro de Santa Cruz, que limitava a cidade a Norte, pois que a Rua da Sofia estava ainda por nascer, mas também com poder e força vital na sua bela Praça, rematada nos dois extremos pelas igrejas de S. Tiago a Norte e S. Bartolomeu a Sul (em edifício anterior ao atual). A colina era encimada pelos Paços Reais, mas, sem rei que os habitasse, nela pontificava o bispo e o cabido, na sua catedral fortaleza a meia encosta.

É a esta cidade, longe ainda de ocupar o terceiro lugar em honra e dimensão, que no fim do verão de 1500 chega o diploma consagrando legalmente a sua Misericórdia, após a fundação das de Lisboa, Lagos, Portel, Tavira, Évora, Montemor-o-Novo, Porto, Setúbal e, talvez, Santarém.

Muito provavelmente, nessa altura a Misericórdia estaria já a funcionar, mesmo que de forma incipiente, pelo menos há alguns meses, o que pode fazer remontar a sua fundação a 1499 ou inícios de 1500. E como tantas outras, nos seus primórdios, sobrava-lhe em ambição – e que ambição!, praticar a totalidade das obras de misericórdia entre toda a população carenciada da urbe – o que lhe faltava em recursos. Por isso os “principais” de Coimbra quiseram desde logo anexar as instituições existentes com as suas rendas, o que desagradou ao rei, que lhas nega perentoriamente.

…. Nascera, pois, a Misericórdia de Coimbra, cumprindo todos os requisitos legais, a 12 de setembro de 1500, mas ainda pobre, sem sede própria … escreve o autor anónimo do texto “Instituição da Misericordia de Coimbra, e Cathalogo dos Provedores, e Escrivaens, que até ao presente nella tem servido”, que acompanha o compromisso de 1620, na sua edição de 1747: “He tradicçaõ vulgar nesta Cidade, que primeyro se assentou esta Confraria na Sé della, dahi se passou para a Igreja de Santiago na casa que hoje serve de celeyro, aonde se diziaó as Missas, e mais obrigaçoens da Casa e se chamava a Capella da Misericordia”.

…  Aprovou-se então, em 1546, um projeto absolutamente radical: erigir o templo da Misericórdia sobre a igreja S. Tiago. Construir uma igreja assente no teto de outra!, eis a solução encontrada pelos Irmãos, que não queriam abandonar o coração da cidade. E assim surgiu um santuário originalíssimo.

Boletim 28 Monumentos Nacionais 07. Bilhete PostalIgreja de S. Tiago. Acervo RA

Boletim 28 Monumentos Nacionais 09.jpg

Igreja da Misericórdia, entrada. In: Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, n.º 28

Aproveitando-se o desnível entre a Praça e os arruamentos orientais, virava a nova igreja da Misericórdia para a Rua de Coruche (atual Visconde da Luz), com porta encimada por belo frontão de João de Ruão, representando a Senhora do Manto ou Senhora da Misericórdia, a que se acedia por escadório. Mas a Misericórdia precisava de outros espaços: casa do despacho, cartório, armazéns, etc. Em 1589 ainda se iniciaram essas obras na Rua do Corpo de Deus, mas por dificuldades várias desistiu-se do projeto. Em 1605 aprovou-se a construção dessas dependências adossadas à igreja, sobre outra nave de S. Tiago. Cerca de cem anos depois, acrescentaram-se com a edificação do Recolhimento das Órfãs, já assente em terra e alinhando pela Rua de Coruche, e outro século volvido, instalava-se nas lojas desse imóvel a botica da Santa Casa.

O templo quinhentista da Misericórdia já não existe: inicialmente mutilado, tal como a cabeceira da igreja de S. Tiago e outros edifícios da Rua de Coruche quando esta foi alargada em meados do século XIX, veio a ser completamente destruído, em inícios do século XX.

Igreja da S. Tiago e Misericórdia. Restauro.jpg

Igreja de S. Tiago e da Misericórdia, restauro. In: Illustração Portuguesa.

….  A Misericórdia pontificou, pois, e durante trezentos anos, na Baixa coimbrã: com entrada pela Rua de Coruche, vizinha ao mosteiro de Santa Cruz, mas virando também para a Praça da Cidade, que dominava da sua altura, governou-se pelo estipulado no Compromisso de 1500.

 Lopes, M. A. A fundação da Misericórdia de Coimbra: condições e circunstâncias” in Lopes, Maria Antónia (coord.), Livro de todallas liberdades da Sancta Confraria da Misericórdia da cidade de Coimbra. Estudos, facsimile e transcrição. Coordenação de Maria Antónia Lopes. 2016. Coimbra, Santa Casa da Misericórdia de Coimbra, pp. 9-16.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:23

Terça-feira, 08.02.22

Coimbra: Baixa na época medieval 1

Iniciamos hoje a publicação de nove entradas, subordinadas ao tema a Baixa na época medieval que são a transcrição, quase integral, de um artigo publicado na Revista de História da Sociedade e da Cultura, por Octávio Augusto, baseado na investigação realizada pelo Autor para a sua dissertação em História da Idade Média, na qual recolhemos boa parte das ilustrações que iremos utilizar e que se encontram disponíveis em Octávio Augusto. A Praça de Coimbra e a afirmação da Baixa - origens, evolução urbanística e caracterização social.pdf (uc.pt)

É habitual que os textos aqui publicados sejam o mais curtos possível, sem perderem de vista o objetivo de chamar a atenção dos leitores para os trabalhos de onde são extraídos. Esta exceção resulta da dificuldade de selecionar os textos a publicar, dado o artigo constituir um todo, como que um quadro escrito da realidade então vivida na Baixa Coimbrã.

x x x

Como pudemos averiguar em nossas pesquisas, este espaço urbano surge em finais do séc. XIV – tendo sido documentado pela primeira vez em 1395 – e terá tomado forma, ao que tudo indica, a partir da transferência da feira franca para fora de muralhas, em 1391, passando a realizar-se no local onde atualmente se encontra a Praça. Complementado o processo, o subsequente esforço concelhio de dotar o local de importantes equipamentos urbanos acabará por elevá-la a posição de novo centro cívico e social da cidade, característica plenamente consolidada nos inícios da modernidade.

Dissertação, fig. 2.png

Dissertação. Imagem n.º 2. Pormenor da freguesia de S. Bartolomeu (castanho) e de Santiago (amarelo) noMappa Thopografico Da Cidade de Coimbra Com a Divizão Das Antigas Freguesias”, pg. 29.

[Nota de rodapé: Será a partir de fins do séc. XIV que começam a aparecer na documentação notícias acerca da instalação – na área circundante à Praça – dos açougues (1398), do pelourinho (1419) e das obras de um novo paço do concelho (1437), que, ao que tudo indica, nunca terá sido concluído. Nos inícios do séc. XVI, instalam-se ali, também, o Hospital Real (1504) e reconstroem-se os açougues, permitindo que, pelo menos desde 1532, a Câmara Municipal se estabeleça definitivamente no topo deste novo edifício.]

Dissertação, fig. 24.png

Dissertação. Imagem nº 24: A Praça de Coimbra em inícios do séc. XX, em vista tomada em direção a igreja de S. Bartolomeu. O pequeno edifício de dois andares, situado no plano médio, a esquerda, encontra-se no local onde estavam instalados os açougues medievais, pg. 128

 Este foco da municipalidade coimbrã no Arrabalde – e especialmente na área próxima ao Mondego – resulta, por sua vez, de um outro importante processo, este mais gradual e desfasado no tempo: o da própria transferência da centralidade da área intramuros para fora de muralhas.

Elevada a sede da corte durante os primeiros séculos do reino, Coimbra viveria seu auge durante o período de reconquista, quando, dada sua estratégica posição em relação a então fronteira entre o território cristão e muçulmano, se estabelece como importante centro político, económico e militar. Em razão das vicissitudes e incertezas de uma época de intensa atividade bélica, era, naturalmente, a área intramuros – denominada Almedina – que se afigurava como núcleo central da cidade, servindo de polo comercial e reduto da aristocracia e do clero.

O reinado de D. Afonso III, no entanto, anunciaria o ponto de viragem desta tradicional dinâmica socioeconómica coimbrã. A partir da vontade do monarca, a corte mudar-se-á definitivamente para Lisboa, elevando-se esta a centro urbano mais importante do reino, posição que, durante algum tempo, dividiu com Santarém. Paralelamente, a tomada de Faro, em 1249, concluía o processo de reconquista, garantindo a posse de toda a região do Algarve e dando início a um longo período de paz no reino. Como consequência, as cidades ganham novo vigor e, paulatinamente, se desmilitarizam, sendo suas estruturas defensivas sufocadas pelos casarios envolventes e, por vezes, apropriadas por particulares. Finalmente, retomam-se as rotas mercantis, o comércio floresce e a economia começa a expandir-se.

A Almedina, neste contexto, perde prestígio. Com o abandono da corte – juntamente com seu séquito – e o consequente despovoamento da Alcáçova, a área intramuros perderá população e apresentará sintomas de relativa decadência, o que, a partir deste ponto, exigirá esforços vários por parte da Coroa – traduzidos, maioritariamente, em concessões e prerrogativas – na tentativa de atenuar a situação. Estes iniciar-se-ão logo com D. Afonso III, que concederá inúmeros privilégios fiscais àqueles que habitarem continuadamente dentro da cerca. Neste âmbito de ação destacamse, também, a transferência do Estudo Geral para Coimbra, em 1308, efetuada por D. Dinis, e as significativas concessões outorgadas aos habitantes desta zona por D. Fernando durante a década de 70 do séc. XIV.

Os efeitos, porém, não se farão sentir de forma relevante, e a Almedina desempenhará, pelo restante da Idade Média, um penoso papel coadjuvante no contexto da cidade. Isto porque, com o abandono da corte e a consequente perda de importância da área intramuros, a centralidade acabará por deslocarse, descendo o morro em que a cidade se desenvolve, trespassando o arco da Almedina e se consolidando, finalmente, na Baixa da cidade.

Augusto, O.C.G.S. A Baixa de Coimbra em finais da Idade Média: Sociedade e cotidiano nas freguesias de S. Bartolomeu e Santiago. In: Revista de História da Sociedade e da Cultura, 13 (2013). Acedido em https://www.studocu.com/pt/document/universidade-de-coimbra/historia-da-cidade-de-coimbra/apontamentos/a-baixa-de-coimbra-em-finais-da-idade-me-dia/8576144/view

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:39


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Julho 2025

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031