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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 25.05.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos

No Arquivo Histórico Municipal de Coimbra encontra-se patente ao público uma pequena exposição que tem por tema «D’este mal de peste, que Deus nos livre».

A mostra impõe-se por si e, embora refletindo as limitações do exíguo espaço disponível, afirma-se, sobretudo, pelo excelente Catálogo que insere ainda um belíssimo estudo relacionado com a documentação encontrada e exposta.

Tanto o catálogo, como a exposição resultam do trabalho levado a cabo pelas funcionárias daquele departamento municipal.

Capa.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre.

Capa. Letra T.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Capa, pormenor.

O título que é uma citação tirada da página 35, do Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1598.

Documento. p. 35.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Pg. 35

Profusamente ilustrado é o seguinte o teor da sua apresentação.

Os tempos extraordinários que estamos a viver, determinaram o confinamento em Março de 2020, devido à pandemia de COVID-19, que afectou o nosso país. O AHMC, como outros serviços da administração pública, teve que encerrar ao público.

Readaptando o nosso trabalho arquivístico a estas circunstâncias, encetámos uma pesquisa sobre o tema das doenças, ao longo da história: como é que a cidade de Coimbra, vivera estas situações ao longo dos séculos, como se organizara, que medidas tomara para proteger a população, e assegurar a sobrevivência, como enfrentara a adversidade e gerira o bem comum.

O objetivo seria divulgar essa informação, quando pudéssemos reabrir novamente, através da organização de um projecto expositivo, num formato físico, no espaço da sala do Arquivo que pudesse ser visitável, ou num formato digital (pdf), para divulgar através do espaço do Arquivo Histórico no site do Município.

Assim sendo, que tipo de documentos nos forneceriam as melhores informações sobre este assunto, no nosso Arquivo, e noutros arquivos, que tipo de fontes históricas devíamos analisar?

O primeiro passo desta investigação, para os que conhecem os nossos instrumentos de descrição documental, seria através da consulta do Catálogo do AHMC, e do inventário antigo de Ayres de Campos.

Numa segunda etapa, pesquisámos também os Anais do Município de Coimbra de, 1640-1668 e de 1840 até 1959, a melhor forma de referência para encontrar deliberações do executivo municipal, ao longo do tempo.

Encontrámos bastantes referências: do século XIV até ao século XX. O difícil iria ser, ter de selecionar.

Letra E. p. 15.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Pg. 15. Extraído de Tractado repartido en cinco partes principales que declaran el mal que significa este nombre peste […], Ambrosio Nuñez, em Coimbra, na Officina de Diogo Gomez Loureyro, 1601.

Uma recomendação: trata-se de uma exposição para ver e de um catálogo para ler e analisar. Espero, proximamente, voltar a este tema.

Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 18.05.21

Coimbra: Reflexões sobre a evolução do brasão

A preparação das entradas publicadas sobre o brasão de Coimbra, implicaram um trabalho de leitura do que sobre o tema se tem publicado, bem como alguma investigação no Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

Estava em causa uma reflexão, à luz dos conhecimentos atuais, da evolução do brasão de Coimbra.

Reflexão que teve a ajuda da Dr.ª Paula França que nos chamou a atenção para o facto de os diversos autores que ao longo do tempo tem escrito sobre o brasão e o selo da cidade acabam por ir dar ao artigo de Afonso de Dornelas, acrescentando ser comum não só a utilização das referências ali citadas, bem como o tema tratado girar sempre em torno da figura no selo representar uma mulher de cabeça coroada, a Rainha / a Virgem / Nossa Senhora / ou a Cindazunda.

Aquela Investigadora, no seu trabalho quotidiano de investigação, localizou no Arquivo Nacional da Torre do Tombo outros documentos que permitem concluir: houve um selo com figura coroada, anterior ao selo com a cobra e esse selo está presente em mais actos/documentos do que aqueles que são referenciados por Afonso de Dornelas.

Apresenta, os seguintes exemplos.

- Carta de venda feita por Johannes Petris ao cabido da Sé de Coimbra de uma herança em Embibera, pelo preço de 60 morabitinos, datada de abril de 1244.

PT-TT-CSC-1DP13-035_m0001 a.jpg

ANTT. Carta de venda datada de 1244.04. Acedida em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=7585002

PT-TT-CSC-1DP13-035_m0003 a.jpg

ANTT. Carta de venda datada de 1244.04, pormenor do selo. Acedida em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=7585002

Trata-se de um documento lavrado quando reinava D. Sancho II, antes do início do seu exilo em Toledo, onde viria a morrer em 1248. O selo pendente representa, unicamente uma mulher coroada.

- Carta de venda feita por Pedro Eanes, Alcaide, Tomás Martins e Martinho Eanes, Alvazis de Coimbra, por autoridade de carta régia de 1275.10.11, a D. João Pires, Cónego de Coimbra, de um olival com todas as suas pertenças, no lugar chamado Fonte da Rainha, no termo de Coimbra, por 200 libras.

PT-TT-CSC-2M007-325_m0001 a.jpg

ANTT. Carta de venda de venda datada de 1275.10.11. Acedido em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=7585006

PT-TT-CSC-2M007-325_m0003 a.jpg

ANTT. Carta de venda de venda datada de 1275.10.11,pormenor do selo. Acedido em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=7585006

Trata-se de um documento lavrado 31 anos depois do anteriormente referido, quando D. Afonso III já era, efetivamente, rei de Portugal e no qual para além da Mulher coroada são representados dois castelos com as cinco quinas e por baixo uma serpente.

No que concerne às pedras colocadas por cima das portas das casas foreiras da Câmara de Coimbra, com cronologia desconhecida, guardadas no Museu Nacional de Machado de Castro, já agradecemos aos Técnicos daquele Museu, Drs. Pedro Ferrão e Jorge Venceslau, a ajuda na localização das imagens que ilustraram e documentaram este conjunto de entradas.

De assinalar que nas referidas pedras, quanto à base sobre a qual está a figura feminina, existem exemplares que mais se assemelham a um pedestal e quanto aos animais estando o leão sempre presente, numa das pedras o dragão foi substituído por uma serpente. Entre outros exemplos possíveis, apresentamos o seguinte.

MNMC710; E589 a.jpg

© DGPC| Arquivo do MNMC. 710; E589

Sobre a razão da presença de uma serpente no brasão de Coimbra não se conhece qualquer documento que a explique.

Tendo procurado um significado para a sua simbologia encontramos no Diccionario de símbolos, de Juan-Eduardo Cirlot, a seguinte passagem. Las serpientes son poderes protectores de las fuentes de la vida y de la imortalidade así como de los bienes superiores simbolizados por los tesoros ocultos. Hay una evidente conexión de la serpiente com el principio feminino.

Según Zimmer, la serpiente es la fuerza vital que determina nacimientos y renacimientos, por lo cual se identifica com la Rueda de la vida.

Será esta a explicação para a presença da serpente, depois transformada em dragão?

 

Aqui chegados deixamos à consideração e à discussão dos leitores as seguintes conclusões.

- O brasão de Coimbra foi evoluindo ao longo dos séculos até se fixar em 1930, na composição que hoje apresenta.

- As lendas da Cindazunda e outras que ao longo do tempo foram surgindo, são isso mesmo lendas sem qualquer suporte documental que as justifiquem.

- A hoje Sé Velha foi reconstruída sob a invocação da Virgem Santa Maria, na segunda metade do século XII, por iniciativa de D. Afonso Henriques e de D. Miguel Salomão, bispo de Coimbra. Partilhamos a hipótese levantada pela Dr.ª Paula França de a figura feminina que decora o selo de Coimbra, na sua versão mais antiga documentada, se deverá tratar da Virgem Santa Maria.

- Lembrando que foi nas cortes de Coimbra que ocorreu a aclamação de D. João I, com a consequente criação de uma nova dinastia, será credível a explicação de que o Município de Coimbra de então assinalou esse facto tão relevante na História de Portugal, com a integração no brasão da Cidade de elementos do brasão dessa nova dinastia, ou seja, o leão e o dragão.

Deixo à reflexão dos leitores a decisão sobre a justeza das conclusões tiradas.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 21:46

Quinta-feira, 15.11.18

Coimbra: Edifício da Inquisição plantas e obras realizadas

Pela Senhora Dr.ª Paula França, responsável pelo Arquivo Histórico do Município de Coimbra, fui alertado para a possibilidade de descarregar, na página da Torre do Tombo, as plantas do edifício onde funcionou, em Coimbra, a Inquisição.
As plantas integram o livro datado de 1634, com um longo título, como era costume na época, Livro das Plantas e Monteas de todas as Fabricas das inquisições deste Reino … por Matheus do Couto, Arquitecto das Inquisições deste Reino.

Dado o interesse dos documentos disponibilizados não resisti ao desejo de aqui os divulgar.

Declaração das traças da Inquisição da cidade

Declaração das traças da Inquisição da cidade de Coimbra

Planta 1.ª da Inquisição de Coimbra.jpg

Planta 1.ª da Inquisição de Coimbra

 

Planta do andar do carceres altos.jpg

Planta do andar dos carceres altos

Planta do andar dos inquisidores e oficiais.jpg

Planta do andar dos inquisidores e oficiais

Plata do 1.º sobrado dos inquisidores e oficiais.

Planta do 1.º sobrado dos inquisidores e oficiais

Na mesma página é ainda possível aceder ao texto de documentos relacionados com as obras realizadas nestes edifícios. Apresentamos o seguinte exemplo
Sr.
Os Inquisidores de Coimbra escreveram a esta Conselho que era necessário concertaren se as casas em que pousa o Inquisidor Jeronjmo Teixeira porque estavam muito damnificadas e que se podia fazer de despesa nellas trinta e cinco mil reis.
Pareceo que devia Vossa Alteza ser servjdo mandar passar provisam pêra o thesoureiro da dita Inquisiçam dar dinhejro pera esta obra nam passando dos trin[ta] e cinco mil reis em Lisboa 18 de Fevereiro de 95. Bispo d Elvas - Diogo de Sousa-Marcos Teixeira

Felipe Tertio depois de fazer a traça dos cárceres desta Inquisiçam que mandamos a Vossa Alteza considerando mjlhor nesta obra ordenou outra traça milhor e mais accomodada como elle mostra por razões que vão em hum papel com a dita traça mas pêra poder aver effecto he necessário tomarem se vinte e quatro palmos da Rua a qual ainda fica com largura de quarenta e cinco que he asaz bastante por he Rua por onde passa muito pouca gente e nam se faz prejuizo a ninguém com tomarem della estes 24 palmos de Rua. Nicolao de Frias também está inclinado a esta traça e tem a cargo fazer outra mas como tem muitas occupações he mais vagaroso. Como a der feita a copiaremos a Vossa Alteza. Em Lisboa 28 de Janeiro de [15]95.

O Bispo d Elvas presidente disse a Salvador de Mesquita da parte de Vossa Alteza que se fizesse a [...?] passado este mês e elle respondeo que faria o que Vossa Alteza lhe mandava. Bispo d Elvas - Diogo de Sousa -Marcos Teixeira
À margem:
No he respondido a esta consulta ate gora por esperar a poder conferir esta traça de Felipe Tertio de que aqui se trata com a de Nicolao de Frias que agora se me há embiado y aun que no viene parecer del consejo sobre qual parece mas conveniente (como holgara se me dieram) dire lo que acerca dellas me parece y es que quanto al sitio que se deve de tomar della calle, me parece que se deve de siguir la traça de Phelipe Tercio y en lo demas la de Nicolao de Frias que com reduzir los corredores de la traça de Nicolao de Frias que son de ocho y diez pees o palmos a cinco que es la hanhura que les da Phelipe Tercio y parece bastante si viene reduzir toda misma cosa y el corredor que Nicolao de Frias pone entre los aposentos de los presos está aly mejor que en pátio adonde le pone Felipe Tercio asi pêra el serviço ordinárjo comopera servjr de vigias (como ahy se llamam) y asi se deve de tornar a ver todo esto en el consejo y na[m] sse offrecendo acerca dello algum inconveniente de consideracion dar ordem como se he ja conforme a ello la fabrica y quanto ao sitio que se há de tomar de la calle me parece que es lo mejor tratar com la câmara dessa ciudad y si fuere necesarjo comprar se les y asi parece que pêra esto es menos ter que entervenga la authorjdade de los governadores tambien se podra acudir a pedir se la y avisar do que se fuere haziendo em todo.
Acedido em 2018.10.11, em https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=2318907

 

 

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por Rodrigues Costa às 11:53

Quinta-feira, 15.09.16

Coimbra: a Feira das Neves

Ao consultar no Arquivo Histórico Municipal de Coimbra as Vereações n.º 78, 1839-1842, encontrei a folhas 189, a seguinte notícia:

Os Arrematantes da obra da Fonte da Feira das Neves pedem se lhes dê o primeiro pagamento do seu contracto. A Câmara ordenou se lhe passasse mandado conforme determinado no auto d’adjudicação. Da mesma ata consta, ainda, o pagamento de 18$333 rs. aos referidos Arrematantes.

 

Ora a Feira das Neves era do meu total desconhecimento, bem como de outros Estudiosos das coisas de Coimbra. Tendo solicitado a ajuda da Dr.ª Paula França, arquivista do AHMC, a qual tendo pesquisado o assunto me transmitiu as seguintes informações:

. No trajeto da antiga estrada real junto a Trouxemil, identificou uma capela da Senhora das Neves que tinha uma fonte próxima;

. Que em pesquisas anteriormente realizadas se tinha apercebido que na época da deliberação a Câmara estava a ser chamada a fazer reparações na estrada real, na zona da sua responsabilidade.

 

A partir destas informações foi possível obter junto de pessoas idosas de Enxofães e de Trouxemil as seguintes informações complementares:

– A Capela de Nossa Senhora das Neves está localizada no lugar mais elevado de Trouxemil, com uma vista magnífica para sul, à qual se acede por uma rua estreita, a meio da rua principal da povoação.

Junto à capela existe um amplo terreiro que já serviu como campo de futebol e que hoje está amplo, existindo um polidesportivo ao fundo do mesmo.

A festa de Nossa Senhora das Neves realiza-se, anualmente, a 5 de Agosto.

 

– Naquele local realizava-se, desde tempos remotos, a Feira das Neves a qual tinha grande relevância para os povos gandareses, a norte do local.

A Feira funcionou até uma data indeterminada quando, por motivo de uma peste do gado bovino, foi proibida a circulação deste naquela área.

 

– Aproveitando esse facto a população de Barcouço – freguesia contígua à de Trouxemil, para norte, e que já pertence ao concelho da Mealhada e distrito de Aveiro – começou a realizar a feira no local de Santa Luzia, pois o mesmo não estava abrangido pelo referido embargo.

E assim se mantem a Feira de Santa Luzia até aos dias hoje, com o consequente desaparecimento da Feira das Neves.

 

Resumindo: A Feira da Neves realizava-se em Trouxemil, logo no espaço geográfico do concelho de Coimbra e era relevante para a economia não só deste Concelho, bem como para as populações da região gandaresa.

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por Rodrigues Costa às 12:46


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