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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 24.03.22

Coimbra: Monsenhor Nunes Pereira 5

Alguns traços para o perfil de Monsenhor Nunes Pereira (conclusão)

 E o Padre Doutor António de Jesus Ramos continua a escrever:

Não é possível, nem eu o pretendo, fazer um catálogo completo de todas as peças artísticas de Monsenhor Nunes Pereira. Muitas foram vistas em exposições coletivas e individuais, em Coimbra, Lisboa, Faro, nos Açores, no Brasil, em Espanha, França e Luxemburgo. Outras estão espalhadas por dezenas de igrejas de norte a sul do país, em retábulos, vias-sacras, painéis e vitrais.

 

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Sem título. Fotografia José Maria Pimentel. Op. Cit., pg.102

 "Sou eu mais o caderno,

Meu chapéu, minha bengala:

Já é meu hábito eterno

Duma rua fazer sala" (Nunes Pereira)

Algumas integram coleções particulares, havendo dezenas de famílias que se orgulham de ter uma "ceia" xilogravada por Nunes Pereira a presidir às refeições nas suas salas de jantar.

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Ceia. Nunes Pereira. Coleção Particular

Outras, felizmente, estão agora, na galeria criada no Seminário, onde podem ser apreciadas por todos quantos o desejarem.

Não é possível, porém, deixar de referir algumas das obras mais significativas do artista. Se quisermos apreciar os seus vitrais temos de sair da cidade, (aqui apenas se pode ver um belo painel figurando Jesus a curar um doente, na pequena capela da Clínica de Santa Filomena) e prestar atenção, porque muitos deles não estão assinados. Vila de Rei, Domes, Paleão, Senhora do Mont'Alto, em Arganil, e Ponte de Sótão são alguns dos lugares com vitrais de Nunes Pereira. Mas os mais significativos, podemos admirá-los nas igrejas de Carnide, (um profeta Elias monumental), e de Cardigos, onde o artista descreve, nas janelas do templo, as principais cenas da História da Salvação.

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Vitral da Ressurreição da Igreja de S. José. Nunes Pereira. In: Duarte, M.D. O vitral de Ressurreição da igreja paroquial de São José de Coimbra. Exegese iconográfica da última obra de Augusto Nunes Pereira, Coimbra, Gráfica de Coimbra, L.da, 2004. da Ressurreição da Igreja de S. José. Nunes Pereira. Acedido em https://www.facebook.com/paroquia.saojose     

Vias-sacras xilogravadas podemos encontrá-las, por exemplo, em Nossa Senhora de Lurdes e na capela do Colégio de São Teotónio, em Coimbra, ou nas igrejas do Vidual e de Colmeias; em ferro forjado em Ponte de Sótão e "Pombal"; e em ferro forjado e mosaico de vidro na Serra da Marofa, (Castelo Rodrigo), e em Miranda do Corvo.

Entre as centenas de xilogravuras seja-me permitido destacar, pela sua beleza e dimensões a "Última Ceia" no refeitório do Seminário de Coimbra, o "Baptismo de Jesus" na igreja de São Caetano, "São Lourenço distribuindo esmolas" em Bustos, "O Encontro de Jesus com Nicodemos", na residência paroquial de São José, "Santo António nas quatro igrejas por onde passou", em Pádua, "Anunciação", "Assunção”, “O Milagre de Caná". na capela de Erada, (Covilhã). De temática diferente são as vinte e cinco tábuas que, só por si, passam a merecer uma demorada visita à galeria instalada no Seminário de Coimbra. Refiro-me aos “Contos de Fajão” que, antes do mais são um precioso contributo para quem no futuro, pretenda estudar a história do trajo, da alimentação, dos métodos agrícolas, do modo de convívio e dos demais costumes das gentes da Beira-Serra entre os séculos XIX e XX.

Há porém, outro aspeto que não pode deixe de ser aqui referido por me parecer fundamental: perante qualquer destes trabalhos, não precisamos de ler a assinatura do seu autor. Mal os observamos dizemos de imediato é Nunes Pereira.

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Sem título, em calhau rolado. Nunes Pereira. Op. Cit., pg. 207

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Sem título, em pedaço de tronco. Nunes Pereira. Op. Cit., pg. 208

É este, de resto, o pormenor que distingue o comum dos artistas, dos artistas de eleição – estes não precisam de assinar as suas obras para as identificarmos de imediato como sendo de EI Greco, de Rubens, de Columbano ou de Nunes Pereira.

Bastava o que fica dito para consideramos Nunes Pereira como um dos maiores artistas conimbricenses da segunda metade do século XX. Mas é muito mais, imensamente mais, o que fica por dizer da sua atividade como investigador, (lembre-se o seu magnífico estudo "Do cadeiral de Santa Cruz"), como arqueólogo, (é sócio da Associação dos Arqueólogos Portugueses e não devem ser esquecidos os seus trabalhos arqueológicos em Coja, sobre a "Pedra Letreira" no concelho de Góis ou as escavações que identificaram a primitiva igreja de São Bartolomeu), como etnólogo ou como historiador da Arte -Sacra.

Nunes Pereira é também e justamente apreciado como poeta, com várias obras publicadas, a primeira quando tinha 29 anos, e a mais recente no dia preciso em que completou 90 anos de vida, a 3 de Dezembro de 1997. Do primeiro livro de versos -"Da terra e do céu" - escreveu o poeta António Correia de Oliveira: "O que no seu poema comove e domina é a ternura, a doçura, a simplicidade, o sobrenatural e a natureza. Francisco e Clara gostariam de ler grande parte das suas líricas, em certas tardes de Porciúncula". Do mais recente - "Sopa de Pedra" - escrevi eu, na nota que lhe serve de prefácio, que se trata, uma vez mais, do regresso às raízes: "pode afirmar-se que o itinerário traçado começa e termina nos Penedos de Fajão. As excursões a outros lugares, quase sempre pouco demoradas, servem para abrir novos horizontes culturais e artísticos. Nunca se chega a perder, no entanto, o sentido do regresso ao Penedo Portelo, numa fidelidade constante às raízes. É dali, do alto das montanhas, que o poeta contempla e depois, nos descreve um mundo em que a beleza é irmã gémea da simplicidade e a dureza das fragas se transforma como que por encanto, em paraíso terreal, onde os homens vivem ao ritmo natural das horas marcadas por um relógio de sol. O tempo não conta. Conta, sim, a obra feita. Por isso, cada poema de Nunes Pereira é uma pedra do rio da sua infância, que a água límpida foi modelando, pacientemente, até à simplicidade de forma porque a torna naturalmente bela".

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Sem título. Fotografia José Maria Pimentel. Op. Cit., pg.182

É pobre, bem sei, este perfil que aqui vos deixo. Mas está carregado das tintas da muita admiração e da enorme estima que nutro – que todos nutrimos – por este padre exemplar, por este artista de eleição, por este homem bom e simples – Monsenhor Cónego Augusto Nunes Pereira.

Coimbra, 10 de janeiro de 1977.

 Ramos, A. J. Alguns traços para o perfil de Monsenhor Nunes Pereira. In:  Pimentel, J.M. e Oliveira, M.C. 2001. Monsenhor Nunes Pereira. O percurso de uma vida. Coimbra, Edições Minerva.

 

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por Rodrigues Costa às 10:40


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