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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 03.05.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 5

Acerca da Casa de Sub-ripas ainda há poucos anos alguns caturras teimavam a favor da lenda que pusera dentro das suas paredes a tragédia do D. Maria Telles — morta ás mãos do marido por intrigas da irmã rainha.

D._Leonor_Telles_de_Menezes.jpg

Rainha D. Leonor Teles, a origem da intriga. Imagem acedida em https://www.google.pt/search?q=leonor+teles 

assass├¡nio de D. Maria Teles, em Coimbra.jpgO resultado da intriga. Imagem acedida em http://invitaminerva45.blogspot.com/2017/07/estorias-curiosas-da-nossa-historia-2.html 

Isto, apesar de tal invenção estar claramente destruída desde 1871, com a publicação ou aproximação de certas datas históricas e documentos. Entre outros podem ver-se os artigos e cartas publicadas nos n.os 2526, 2527 e 2530 do Conimbricense daquele ano, por J. Martins de Carvalho, Miguel Osório, Senhor das Lágrimas, e Dr. Filipe Simões. Nem mesmo valeria a pena discutir o caso, se não estivéssemos num país onde quase toda a gente prefere seguir e repetir o que ouve a investigar e a refletir por conta própria.
Assim, sempre enfileiro aqui os argumentos que minaram a ingénua invenção.
Em primeiro lugar: da leitura da passagem de Fernão Lopes [Chronica de El-rei D. Fernando – Tomo IV da coleção de livros inéditos de história portuguesa.... pag. 350 a 354] invocada como fundamento da lenda — infere-se exatamente o contrário do que queriam aqueles caturras; pois o pai da nossa história muito positivamente indica como teatro da tragédia uma casa próxima á igreja de S. Bartolomeu — igreja situada no mesmo local onde existe a atual, constituída em 1756. Pertencia essa casa a um homem nobre, de nome Álvaro Fernandes de Carvalho.
— Depois: seguindo Fernão Lopes, também Frei Manuel dos Santos na «Monarchia Lusitana» refere o facto como passado na freguesia ou arrabalde de S. Bartolomeu.
— Há mais: porque é que António Coelho Gasco— escritor do século XVII, autor da Conquista, antiguidade e nobreza da mui insigne e Ínclita cidade de Coimbra —nada menciona do facto? Certamente por estarem já no seu tempo arrasadas ou irreconhecíveis as casas de Álvaro de Carvalho. Mas se a tragédia se tivesse dado na Casa de Sub-ripas ele aí tinha o teatro do crime — e não passaria em silêncio tão importante acontecimento.
— Ainda: nos pergaminhos e papéis do arquivo dos Perestrellos —proprietários históricos das casas de Sub-ripas até há poucos anos — nada apareceu, entre documentos referentes a estas casas, que desse o caso como acontecido nas suas moradas.
Não faço, nesta altura, pesar a circunstância de ver dado como acontecido numa casa quinhentista um facto pertencente ao século XIV; pois os defensores da lenda explicavam: que a casa existente fora levantada sobre as ruínas da casa ou torre do crime. Mas a isto responde-se: no século XVI, mercê de vida nacional mais pacífica e das novas condições da cidade, já podiam ser abandonadas partes da muralhas com as torres — como de resto o prova o documento da doação a João Vaz; enquanto que nos tempos precários — tão abrolhados de perigos o surpresas — do reinado de D. Fernando I não podia estar ainda desprezada a muralha de Coimbra, e convertidas as suas torres do vigia em aposentadorias de princesas.
Este argumento de boa razão fortalece os que nos fornecem os documentos.
Para mais — a lenda é de origem relativamente recente, e nenhum dos escritores que a adotaram o fez como historiador. Sorria-lhes á fantasia.
Mas não há remédio senão passar sem ela.
O interesse que nos merece a Casa de Sub-ripas em nada diminuirá, de resto, por termos afugentado dos seus desvãos e terraços o fantasma da linda e branca Maria Telles, imolada a golpes de bulhão, pelo filho da outra mísera e mesquinha numa madrugada de novembro de 1379.
Coimbra. 25 de março do 1906.
Manuel da Silva Gayo

Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série. Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:33

Quinta-feira, 27.01.22

Coimbra: Camilo e a cidade do Mondego 4

O SEGUNDO PERÍODO DE PERMANÊNCIA EM COIMBRA

Quando Alberto Pimentel afirma «que foi entre 1872 e 1873 que Camilo Castelo Branco, pretendendo educar os filhos, residiu em Coimbra», incorre num erro, pois a permanência do escritor foi em 1875 e 1876.

No entanto, em 1874, esteve de facto Camilo em Coimbra, por motivos de saúde, como noticia a «Revolução de Setembro», de Lisboa, em 11 de Março daquele ano: «Chegou à cidade de Coimbra o distinto romancista o Sr. Camilo Castelo Branco, que foi consultar o hábil médico o Sr. Dr. Lourenço de Almeida e Azevedo. Desejamos ao Sr. Camilo o seu pronto restabelecimento.»

É, pois, em 1875 que Camilo Castelo Branco fixa residência em Coimbra, acompanhado de sua mulher, Ana Plácido, e dos seus filhos, Nuno e Jorge, com a finalidade da educação destes. Nesta cidade se demorará até 1876.

Em carta datada do Porto, de 3 de Fevereiro de 1875, dirigida ao seu amigo Adelino das Neves e Melo, residente em Coimbra, prepara Camilo a sua instalação na cidade universitária: «Estou enfardando a bagagem. Tenciono estar aposentado na risonha Coimbra até ao dia 15 de corrente.» E mais adiante: «Preciso de ter aí pessoa a quem possa remeter o conhecimento das bagagens que for transportando. Quer-se pessoa que tome a seu cargo o fazer carrejar a mobília da estação para casa. Lembrava-me de ir eu mesmo dirigir estas enfadonhas coisas: mas receio não poder dormir nos leitos das hospedarias, que são para mim leitos de agonia. É possível que V.  Ex.ª conheça pessoa a quem se retribua este serviço; e, cargo da mesma ficaria o cuidado de fazer lavar a casa, e remendar alguma vidraça, bem como assentar fogão na lareira. V´V. Ex.ª vendo quantas importunações lhe delego.»

Demora mais que o previsto, mas chega finalmente, como noticia «O Tribuno Popular», de 17 de Março: «Chegou a esta cidade o sr. Camilo Castelo Branco, que vem aqui estabelecer a sua residência. O ilustre escritor passou já na hospedaria do caminho de ferro, onde se hospedou, para a sua casa do Bairro Alto. Coimbra, a bela cidade do Mondego, ufana-se de ter entre os seus moradores o primeiro romancista português.»

A morada de Camilo situava-se nos Arcos do Jardim, ou Arcos de S. Bento, em casas hoje demolidas. António Cabral descreve-a assim: 

Camilo pg. 27a.JPG

Imagem das Casas que existiram dos Arcos do Jardim. Pg. 27

 «Residia ele aos Arcos de S. Bento, numa casita que as árvores tufadas do Jardim Botânico, daquele parque ridente cheio de flores, de perfumes, de vegetação e de gorjeios, cobriam de sombra e quase roçavam com os seus ramos frondosos.»

… De Coimbra escreve também, em 23 de Março de 1875, a Guiomar Torresão, prometendo-lhe colaboração para o «Almanaque das Senhoras», que aquela escritora dirigia: «Escreverei para o Almanach de V. Ex.ª A ideia do escrito suscitou-ma V. Ex.ª em uma linha do seu belíssimo artigo: «uma festa em Pintéus». Diz V. Ex.ª que a Sr.ª D. Maria Amália Vaz de Carvalho é neta de Sá de Miranda. Escreverei um artigo genealógico em confirmação do que V. Ex.ª disse. A demonstração revelará um linhagista bem saturado de circunspeção e... rapé.»

E de facto, no «Almanaque das Senhoras» para 1876 vem publicado o prometido artigo, versando sobre a genealogia de Francisco de Sá de Miranda, trabalho datado de Coimbra, 2 de Abril de 1875.

Camilo pg. 73a.JPG

«O Imparcial de Coimbra. Número comemorativo do Plebiscito Literário.. Pg. 73

Uma outra carta dessa época enviada de Coimbra por Camilo tem a data de 15 de Abril daquele ano, tendo como destinatário Ernesto Chardon, a quem avisa dos perigos que para o editor representaria a edição dos clássicos, de que vira notícia: «O Lopes da Rua do Ouro arruinou-se, editando clássicos baratos, que ninguém quis. A Imprensa da Universidade editou crónicas, que está vendendo a pouco mais do peso, e nem assim lhas querem.»

Camilo era já um homem doente, como acrescenta António Cabral: «Durante o tempo que permaneceu na Lusa Atenas, Camilo, quase sempre doente, pouco saía de casa, cujas janelas se conservavam, dia e noite, cuidadosamente fechadas. Vivia muito retirado, entretendo-se a conversar com os poucos amigos, na sua maioria poetas e literatos, que lhe iam admirar a graça e as cintilações de espírito.»

Andrade, C.S. 1990. Coimbra na vida e na obra de Camilo. Coimbra, Coimbra Editora.

 

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quinta-feira, 01.11.18

Coimbra: Construção do edifício dos Paços do Concelho

Quando em 1835 foi solicitada a cedência do antigo mosteiro de Santa Cruz para albergar as várias repartições públicas pretendia-se, com pragmatismo resolver os problemas práticos da necessidade de instalação das várias repartições publicas, não só da Administração do Concelho e da Câmara Municipal, mas também das repartições judiciais e distritais.

… Segundo a portaria da Comissão Interina do Crédito Público de 30 de Novembro de 1835, o velho mosteiro foi posto à disposição do Administrador-geral do Distrito para Casa da Audiência do Júri, Cadeia, Câmara e Administração do Correio e, no dia 17 de Dezembro seguinte foi entregue ao município. No mesmo dia a vereação fez a vistoria e a divisão do conjunto edificado pelas várias repartições, reservando o restante para arrendar e assim custear as obras de conservação.

Esta distribuição previa a simples apropriação dos espaços, supondo apenas intervenções pontuais, como a abertura de portas ou a construção de escadas de madeira, o que parece ter conduzido a que algumas repartições acabassem por se implantar noutros locais. Por outro lado, foram-se instalando outros serviços como a Roda dos Expostos no antigo Dormitório do Pilar, a Mala-Posta e a Escola Mutua, junto à horta de Santa Cruz e a cadeia junto ao antigo pátio.

Em 1856, o presidente … propôs uma nova divisão entre a Câmara Municipal e as várias Repartições Distritais.


p. 215 a [escolha].jpg

Planta com esquema das ocupações do antigo Mosteiro (c.1856)

 A primeira referência à necessidade de «reconstruir a casa das Sessões da Câmara e suas dependências… segundo as regras da Arte», data de 1845… mas provavelmente por falta de verbas o assunto foi esquecido.

… Vinte anos depois [18 Janeiro de 1869], [a Câmara] solicitou a colaboração da Rainha alegando que: «esta vereação não tem pessoal technico de que possa dispor para os estudos que demanda aquella obra.»

Em resposta … o Governo clarificou que … devia ser encarregado o engenheiro … da Repartição Distrital as Obras Públicas.

… em Março de 1875 a Câmara voltou a alegar que: «Para que estas obras se emprehendam com um bom resultado são necessários estudos importantes, feitos por pessoa de competência e que conheça as necessidades de cada uma das repartições».

… Novamente este pedido não foi atendido e a vereação que se seguiu, presidida por Lourenço de Almeida Azevedo, determinada neste empreendimento, contratou o engenheiro da Academia Politécnica do Porto, Alexandre Simões da Conceição, encarregando-o dos referidos estudos.

 

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 Cópia do desenho da fachada dos Paços do Concelho de Coimbra, adaptação do Mosteiro de Santa Cruz. Século XIX

 As obras iniciaram-se ainda neste ano, mas não sem antes se ter enfrentado uma acesa polémica levantada pelo jornal “O Conimbricense”.

 

p. 217.jpg

 Alçado do velho mosteiro. 1.ª metade séc XIX

 … Em causa estaria a alegada destruição do antigo mosteiro e a perda do seu valor artístico e monumental, mas o município [argumenta] que «É metade d’um dormitório que nada recomenda… É uma mole de alvenarias sem gosto, sem comodidade, sem arte, sem elegância, enfim sem titulo algum que justifique a sua conservação».


Paços do Concelho na atualidade.jpg

 Paços do Concelho na atualidade

 … No dia 13 de Agosto de 1879, a vereação reuniu pela primeira vez no novo edifício e em Abril de 1881 foi inaugurado o tribunal instalado no piso inferior, todavia as obras arrastaram-se até 1886.

 Calmeiro, M.I.B.R. 2014. Urbanismo antes dos Planos: Coimbra 1834-1924. Vol. I. Tese de doutoramento em Arquitetura, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, pg. 212-218

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por Rodrigues Costa às 09:33

Terça-feira, 05.01.16

Coimbra: O Conimbricense um jornal com história, um repositório de história

O Prof. Doutor Manuel Lopes de Almeida, ilustre Diretor da Biblioteca Geral da Universidade, propôs-se publicar o ‘Índice Ideográfico de «O Conimbricense»', organizado pela Biblioteca Municipal de Coimbra, da minha direção, já há anos a servir em volume datilografado.
Era sem dúvida um passo acertado, o da divulgação de um tal índice por assuntos, que a tantos estudiosos interessa manusear, para não ficar perpetuamente um exclusivo dos frequentadores da Biblioteca Municipal e dos que nela trabalham com permanência. Mas a esta biblioteca não tem sido possível acudir a tudo quanto deseja, obrigada a vazar em confinados moldes as suas ambições publicitárias.
Prontamente anuiu, portanto, e muito me honro de vir agora apresentar este trabalho que faz aparecer em público, e pela primeira vez, na realização de um ato de apreciável alcance cultural, as duas instituições bibliotecárias coimbrãs.
… Já noutro lugar tive ocasião de descrever a formação deste e de outros trabalhos congéneres a propósito dos índices de ‘O Instituto’, publicados em 1937, em condições análogas. Estas duas publicações periódicas, de géneros bem diversos, mereceram à Biblioteca Municipal um tratamento de exceção, mas igual para ambas, por terem a ligá-las traços comuns: publicações coimbrãs de destacada utilidade, contendo numerosos trabalhos de grande interesse. Por essa razão se organizaram os respetivos índices ideográficos, facultando-os ao público frequentador em volumes datilografados, enquanto não chegasse a hora de se poderem apresentar impressos.
… Produto de trabalho fragmentário de equipa em período de desemprego endémico, que permitiu chamar ao serviço numerosos assalariados … o ‘Índice’ agora trazido a público havia de ressentir-se desse mal de origem, logo exigindo um esforço de uniformização que não deixou de ser empreendido. Os anos foram correndo e em notas marginais se foram corrigindo inexatidões, aditando, suprimindo e alterando rubricas, e nele se fizeram transposições e se foram introduzindo todos os melhoramentos que a longa experiência foi aconselhando. E ainda agora, antes de se iniciar a impressão, para corresponder à boa vontade de quem a promoveu, foi novamente submetido a uma revisão severa e laboriosa.
É de justiça declarar que tanto aquele esforço unificador como a última revisão foram confiados à competência do 1.º bibliotecário José Branquinho de Carvalho, que dessa incumbência se desempenhou de bom grado, com aplicação e carinho dignos de apreço.


Loureiro, J.P. 1953. Prefácio de Índice Ideográfico de “O Conimbricense”. Suplemento ao vol. XXI do Boletim da Biblioteca da Universidade. Coimbra, Universidade de Coimbra. Pg. V e VIII

 

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por Rodrigues Costa às 10:09


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