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Damos hoje início a uma série de sete entradas, referentes ao Dr. Mendes Silva. Alguém com quem tivemos a honra de trabalhar e com quem aprendemos que “Por Coimbra, tudo” e, também, que o mais importante é meter “Mãos à obra”.
O texto, inédito, que a morte prematura do seu Autor deixou por publicar, foi-nos facultado pelas Filhas do antigo Presidente da Câmara Municipal de Coimbra que, igualmente, nos cederam algumas das imagens que o vão ilustrar. Por isso, o nosso obrigado.
Mendes Silva, 1982. Acerbo da Família Mendes Silva
O que mais caracterizou a trajetória de vida de Fernando Luís Mendes Silva foi, em nosso entender, o facto de ele ter sido um notável na sociedade e na política em Portugal. E talvez, por isso, possamos hoje afirmar que poucos cidadãos como Mendes Silva contribuíram tanto, indireta e diretamente, para marcar e capacitar Coimbra com equipamentos modernos de uso público, bem como para urbanizar a cidade segundo os princípios urbanísticos mais arrojados para a Europa do seu tempo. Neste sentido, o seu perfil, enquanto cidadão e dirigente desportivo ímpar que também foi expressa a tensão e a síntese criativa que conseguiu estabelecer entre os interesses legítimos da esfera do privado e a consecução do interesse público.
É para assinalar a passagem dos cento e vinte anos sobre a fundação da Associação Académica de Coimbra e, simultaneamente, dos quinze anos sobre o desaparecimento de um dos seus antigos e mais destacados dirigentes que nos ocorreu escrever este texto de carácter ensaístico. E tudo isto num país historicamente dependente da ação centralizadora do Estado, sendo esta última, por sua vez, tantas vezes obstáculo para o desenvolvimento pleno da participação na vida pública associativa e a consequente assunção das responsabilidades da cidadania por cada um de nós. Neste sentido, o curto percurso de vida de Fernando Luís Mendes Silva (22.10.1930-31.05.1992) merece, justamente, ser salientado e rememorado, na medida em que ele foi pontuado por momentos de fulgurância e de singularidade na participação no espaço público.
“Arquitectar” a Associação Académica de Coimbra
Foi com apenas 20 anos de idade que o jovem estudante universitário, Fernando Luís Mendes Silva, iniciou a sua trajetória como diretor desportivo tendo a seu cargo as equipas de formação da Secção de Futebol da AAC.
Mendes Silva, finalista de Direito. Acervo da Família Mendes Silva
E na verdade, a estreia foi auspiciosa, uma vez que logo na época de 1950/51, a Académica conquistou, sob a sua direção, o campeonato nacional de juniores. O mesmo título de campeã nacional que, aliás, a Académica voltaria a ganhar durante a época de 1953/54, ou seja, coincidindo com o mandato e o empenhamento pessoal – a todos os níveis extraordinário – durante o qual Mendes Silva presidiu aos destinos da AAC.
Oriundo de uma família da classe média conimbricense, Fernando Luís Mendes Silva presidia em 1953-1954 aos destinos da Direção Geral da Associação Académica, num altura em que estudava Direito na Universidade de Coimbra, quando teve a oportunidade de promover, enquanto dirigente estudantil, um estudo circunstanciado sobre as gritantes necessidades de espaço sentidas e vividas pelas diversas secções culturais e desportivas acantonadas nas instalações do vetusto e desadequado Palácio dos Grilos.
Palácio dos Grilos. Sede da AAC, ao tempo da presidência de Mendes Silva. Acedido em: https://1.bp.blogspot.com/-nrLZWS7peI4/XaHhI0_S-0I/AAAAAAAADpo/
No entanto, o jovem e dinâmico dirigente não se ficou apenas pela identificação e estudo cuidado destes problemas. É que, em seguida, teve a ousadia e a irreverência política de solicitar uma audiência em Lisboa, ao então presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, no sentido de lhe apresentar as pretensões estudantis e pedir uma solução para o problema do completo desajustamento e inadequação das instalações associativas, com base na entrega de um documento meticuloso a que denominou de «Exposição da Academia de Coimbra» (Acessível no Arquivo Salazar, in Instituto dos Arquivos Nacionais Torre do Tombo, AOS/CO/ED-3)
O presidente do Conselho entendeu a urgência em resolver o problema da insuficiência e da inadequação do espaço com que então se confrontava, no seu quotidiano, a mais prestigiada associação de estudantes universitários portugueses. A falta de dignidade das instalações era pouco condizente com o facto de a Associação Académica constituir a mais antiga associação estudantil universitária em Portugal (1887), a maior em dimensão e património e, sobretudo, em dinâmica, diversidade e criatividade cultural e desportiva. Numa atitude paternalista, Oliveira Salazar propôs-se, naquela conjuntura histórico-política do Estado Novo, encontrar uma solução para os problemas colocados pelos “rapazes de Coimbra” no quadro das obras em curso na cidade universitária (Cf. Fernando Mendes Silva – Ainda a Segunda Tomada da Bastilha, in «Jornal de Coimbra», 30 de dezembro de 1987, p. 2). Colocavam-se então dois cenários possíveis em matéria de construção de raiz das novas instalações da Associação Académica.
O primeiro cenário estudado consistia em construir os novos edifícios da AAC junto ao atual Estádio Universitário na margem esquerda do Mondego, o que significava que as novas instalações associativas ficariam longe do campus universitário.
O segundo cenário congeminado, e também o mais difícil de concretizar, passaria por encontrar uma localização central e nobre no contexto do tecido urbano da cidade, mas exigiria sempre obter um compromisso com Bissaya Barreto, o então diretor da Instituto Maternal e do Ninho dos Pequenitos, cujas edificações, adaptadas e já então também desajustas face ao cumprimento dos seus objetivos e necessidades em matéria de saúde, ocupavam a área de implantação delimitada pela Rua Padre António Vieira, pela Avenida Sá da Bandeira e pela Rua Oliveira Matos.
Instalações do “Ninho dos Pequenito”, em 1938. Imagem acedida: https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/20486/1/Texto%20final%20da%20tese.pdf
Acontecia, também, que o Instituto Maternal procurava terrenos para novas instalações, de forma a capacitar Coimbra com novos equipamentos projetados e construídos de raiz para alojar e prestar, adequadamente, serviços de saúde pública vocacionados para a proteção e a promoção da infância e da maternidade. O país vivia um tempo de crescimento demográfico e de promoção da natalidade. Tratava-se de um acordo difícil de concretizar por implicar terceiros, mas era de longe aquele que, a médio e longo prazo, mais beneficiaria a cidade e a Associação Académica, em termos da criação de novas e modernas infraestruturas e da consequente melhoria da prestação de serviços nos domínios da promoção da cultura, e da interação estreita que deve existir entre desporto e saúde pública, numa cidade com uma significativa população escolar.
Jorge Manuel Pais de Sousa. Cidade e Académica, em Fernando Luís Mendes Silva. Ensaio sobre um perfil de um dirigente desportivo. Texto inédito preparado para as comemorações dos 120 anos da AAC.
No início do século XX o plano estava quase completo. O Matadouro implantou-se no limite norte da Quinta e foi inaugurado em 1897. O mercado foi ampliado e construído o Pavilhão do Peixe segundo projeto de 1901, do Arquiteto Silva Pinto. A estrada de ligação a Celas foi aberta através da rua Lourenço de Almeida Azevedo. O Jardim Público, aproveitando o antigo Jogo da Bola, foi denominado Parque de Santa Cruz e passou a ser utilizado por toda a população, que elegia aquele espaço para a realização de várias festas populares. O parque infantil foi construído na década de trinta, junto à praça D. Luís e denominado o Ninho dos Pequeninos. As águas da quinta foram canalizadas e conduzidas para o chafariz do largo da cadeia. E o planeado boulevard, ícone do urbanismo do século XIX, foi finalmente construído em 1906.
Para além dos equipamentos projetados, o novo bairro permitiu implantar a Escola Central do Ensino Primário (1905), o Teatro-Circo do Príncipe-Real (1892), a Central de Inspeção de Incêndios (1891), a Manutenção Militar e a Associação Comercial e Industrial (1909).
Concluindo
A extinção das corporações religiosas e a consequente desamortização dos seus bens permitiu ao município de Coimbra delinear uma estratégia concertada de modernização da cidade. Numa primeira fase procedeu à simples ocupação dos edifícios e terrenos desocupados, sem relevantes obras de adaptação às novas funções, mas sem descurar a organização geral da cidade. Num segundo momento, consciente das necessidades de cada função, promoveu obras de adaptação ou em casos mais radicais demoliu o existente, como no caso do edifício dos Paços do Concelho.
A maturação da experiência administrativa e a efetiva transformação da cidade contribuíram para um novo entendimento que esteve na base do primeiro levantamento topográfico da cidade, encomendado aos irmãos Goullard em 1873. Conhecendo a cidade, o município conseguiu avançar para lá dos limites cedidos e empreender a primeira operação de crescimento da cidade desde a abertura da Rua da Sofia no século XVI. Aproveitando os terrenos da antiga Quinta de recreio do Mosteiro de Santa Cruz, empenhou-se numa operação ambiciosa e marcou a entrada de Coimbra na era da modernidade, inaugurando de forma consciente o moderno planeamento urbano na cidade.
Fig. 11. Planta da autora de reconstituição da execução do Plano de Melhoramentos da Quinta de Santa Cruz a partir do levantamento da cidade de 1934
Fig. 12. Fotografia vertical do Bairro de Santa Cruz em 1934. Arquivo Histórico das Forças Armadas
Calveiro, M.R. Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz. Ensejo e pragmatismo na construção da cidade de Coimbra. In: Cescontexto, n.º 6, Junho 2014. Coimbra, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Pg. 227-240. Acedido em
Fernando Baeta Bissaya Barreto nasceu em Castanheira de Pera, a 29 de Outubro de 1886, e faleceu, em Lisboa, em 16 de Setembro de 1974 … Em 1911, terminou o bacharelato em Medicina com 19 valores … ascendendo a Professor Catedrático em 1942 e jubilando-se em 1956.
No campo político pertenceu ao Partido Evolucionista e chegou a deputado eleito, em 1911, tomando parte na 1.ª sessão da Assembleia Nacional Constituinte que decretou a abolição da Monarquia.
… Detentor de exemplares capacidades humanísticas, científicas e pedagógicas, instituiu, em 1958, a Fundação Bissaia Barreto, vocacionada para prestar e desenvolver assistências, nas mais diversas áreas, nomeadamente na luta antituberculosa, no apoio à criança e à mulher-mãe. Aos leprosos, à psiquiatria, aos surdos e aos cegos, em geral a todo o espaço social e científico/médico. A obra deixada revela o amor que dedicou ao seu semelhante e à sua profissão sublinhando-se: três sanatórios anti tuberculose; um preventório; dois hospitais psiquiátricos; uma Colónia Agrícola Psiquiátrica; uma Leprosaria; uma Creche/Preventório para filhos de leprosos, bem como um Centro de Reabilitação para ex-leprosos; um Hospital Central, um Pediátrico, um Instituto materno Infantil; uma Casa da Mãe; um Centro de Neurocirurgia; um Centro Hospitalar; um Instituto de Surdos; um de Cegos; 26 Casas de Crianças; 3 Colónias de Férias; dois Bairros Sociais; Escolas de Enfermagem, Normal Social, de Enfermeiras Puericultoras, de Agricultura, Artes e Ofícios; Dispensários, Brigadas Móveis, Postos Rurais; Aeródromo de Coimbra; a Obra de Assistência Materno-Infantil, e outras instituições de cariz social, cultural, científico e assistencial. Em Coimbra deixou diversas instituições de que o Portugal dos Pequenitos, os Hospitais dos Covões e Pediátrico e os Ninhos dos Pequenitos abraçam uma fatia do bolo que legou aos homens
Nunes, M. 2005. Estátuas de Coimbra. Coimbra, GAAC – Grupo de Arqueologia e Arte do Centro. Pg. 181 a 183
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