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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 11.05.16

Coimbra e as invasões francesas 6

Não tardou, porém, a desencadear-se a terceira invasão. Um exército mais poderoso que os anteriores, com um efetivo de 85.000 homens … atacou a nossa praça de Almeida cercando-a a 15 de Agosto de 1810, a qual teve de render-se em consequência de uma explosão de pólvora que arruinou as suas defesas.

Esse desastre forçou o exército anglo-luso a operar uma retirada estratégica, só se dispondo a combater nas alturas do Buçaco, onde se travou batalha a 27 de Setembro, com êxito para o exército anglo-luso, pois que o exército invasor não conseguira desaloja-lo das suas posições

… os franceses … resolveram contornar a serra e meter em direção à estrada de Lisboa-Porto, indo atingi-la na povoação de Avelãs de Caminho, uma vez apercebidos disso, os anglo-lusos operaram uma retirada sobre Coimbra … e entraram em Coimbra a 30 de Setembro, sempre sob o comando de Wellington … Pouco se demorou contudo nesta cidade, prosseguindo afanosamente na sua retirada, para as famosas linhas de Torres Vedras.

A 1 de Outubro entrou Massena em Coimbra, aqui praticando o exército francês os vandalismos habituais … não foi possível obstar a que os franceses na sua saída para Lisboa incendiassem algumas casas da Calçada … e entre elas a Casa da Câmara da Praça, no dia 3 de Outubro de 1810 … dirigiram-se à quinta da Cheira … e lançaram fogo à casa da residência do Doutor Tomé Rodrigues Sobral … Este incêndio foi o produto de um ato de vingança pelo papel representado pelo Doutor Sobral na expulsão dos franceses em 1808, fabricando pólvora.

… Pouco se deteve Massena em Coimbra e partiu para Lisboa, tendo ali deixado uma guarnição de certo vulto.

«O coronel inglês Trant, que na ocasião da batalha do Buçaco havia ficado do lado do Porto com algumas forças, tratou de surpreender a guarnição dos franceses em Coimbra. Para isso marchou com um pequeno corpo de exército, quase todo constituído de milícias, em que entrava o regimento de milícias desta cidade, e no dia 7 de Outubro entrou nesta cidade com as suas forças. E tão bem combinada e executada foi a operação que, com escassa resistência, aprisionaram um corpo de cerca de 5.000 franceses, na sua quase totalidade alojado no Mosteiro de Santa Clara. Os prisioneiros foram remetidos para o Porto, e custou salvar-lhes as vidas, dado o estado de indignação popular e exaltação dos ânimos em face dos malefícios perpetrados pelos cruéis invasores».

Desta feliz empresa resultou não mais o exército francês ter voltado a Coimbra.

Loureiro, J. P. 1967. Coimbra no Século XIX. Separata do Arquivo Coimbrão, Vol. XXIII. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 73 a 76

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por Rodrigues Costa às 10:00

Quarta-feira, 20.01.16

Coimbra, evolução demográfica 2

Em 1358 as transações relativas ao abastecimento faziam-se predominantemente nesta zona (o Arrabalde). A maior parte dos conimbricenses deveria então aqui residir. Era dentro das couraças que no século XIV se refugiava a população citadina e das terras chãs em caso de perigo. Mas Almedina, a zona intramuros, estava pouco povoada por este tempo.
Tão longe quanto a documentação o permite, Almedina surge-nos com muitos espaços vazios. Não é difícil referenciar, nos séculos XI e XII, por exemplo, cortes no interior das muralhas … Almedina, que foi sede da monarquia até D. Afonso III, apresentava-se, em 1312, com «pardieiros e casas derribadas». Muitas moradas, neste século, se perderam com as «pestes» … Privilégios, muito vastos foram concedidos aos moradores da Almedina … Atuando drasticamente, D. Fernando julga resolver o problema: obriga «os moradores do arrabalde e os officiaes dessa cidade» a viverem dentro das muralhas.
… Em 1527, ao tempo do numeramento joanino, só uns 37% da população total, considerando os cónegos da Sé e os clérigos, moravam intramuros. Menos de 500 fogos. Este cômputo é profundamente alterado, porém, a partir de 1537.
O regresso definitivo da Universidade a Coimbra veio modificar o crescimento natural e real da população tanto na cerca como no arrabalde … em 1560 «o muito crescimento do povo» era bem sentido … Em 1567 … Um outro documento do ano seguinte considera Coimbra «grande povoação e (de) muitas passagens. Os burgos de Santa Clara e de Celas povoam-se. Ruas e casas novas surgem «nos olivais além da cerca do mosteiro de Santa Clara» … Celas, em 1608, era já «um lugar de muita gente que passava de noventa fogos».
…Os imperativos da Guerra da Restauração conduziram de novo a minudentes recenseamentos … Mandava a provisão que de cada paróquia ou grupo de paróquias com cem fregueses saísse um soldado … no recrutamento geral por volta de 1647 … Os 1040 soldados que calculámos para este ano representarão, assim, um mínimo. Juntos aos auxiliares e aos de cavalaria, integrar-se-iam num recenseamento dos 18 aos 40 anos, numa população inferior a 10.000 indivíduos, talvez próxima dos 6.500 a 7.500. Estes efetivos, em Coimbra, são forçosamente mais elevados, apesar de alguns anos de guerra: os recrutáveis não devem estar completamente indicados; e os estudantes matriculados só na Universidade andavam à volta de mil. Poder-se-á então elevar para nove ou dez mil unidades o conjunto de toda a população?

Oliveira, A. 1971. A Vida Económica e Social de Coimbra de 1537 a 1640. Primeira Parte. Volume I. Coimbra, Universidade de Coimbra, pg. 151 a 155, 159 a 161, 185 a 187

 

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por Rodrigues Costa às 10:08

Segunda-feira, 14.12.15

Coimbra e a doçaria conventual 1

O esplendor da doçaria conventual em Portugal terá ocorrido em meados do século XV já que, foi neste século, que o açúcar entrou na tradição gastronómica dos conventos. Até esta altura, o principal adoçante era o mel, sendo o açúcar usado como componente na confeção de mezinhas e medicamentos.

“… Nos conventos só a abadessa e a madre responsável pelo economato e cozinha tinham possibilidade de escrever as receitas em livros que estavam sob a sua guarda e que não podiam ser consultados por mais ninguém”.
É certo, porém, que estes princípios nem sempre foram seguidos, pelo que encontramos, para a mesma iguaria, variadas receitas consoante a região e o convento de origem. É o caso, entre outros, do leite-creme, do pudim da abadessa, da barriga de freira, da charcada, dos ovos reais, das trouxas-de-ovos, do arroz de leite, do arroz doce, do toucinho-do-céu, da marmelada, das compotas de frutas.
De referir, ainda, que a nomenclatura de alguns doces é comum, não só, a conventos de outras regiões do nosso país, como também de outros países. Na vizinha Espanha existem algumas similitudes, por exemplo, com os pastéis e biscoitos de Santa Clara, os melindres, os suspiros, o arroz de leite, o toucinho-do-céu ou com o manjar branco. Curiosamente, ao lermos «Zorro o começo da lenda» de Isabel Allende, deparamo-nos com o herói a deliciar-se com o manjar branco, numa altura em que se encontrava em Barcelona, a estudar.
… Com algumas limitações, consegue-se reunir um curioso manancial de informações possibilitando delinear um pouco da história dos conventos de Coimbra, onde floresceu a doçaria, a par de algumas práticas e tradições ligadas a esta atividade. Referimo-nos aos Mosteiro de Santa Clara e de Santa Maria de Celas e aos Conventos de Sant’Ana e Sandelgas.

Relatemos, a propósito, a oferta de “marmelada” e de “pêssegos cobertos de Celas de Coimbra”, bem como ameixas de Santa Clara que, em 1652, as freiras destes Mosteiros fizeram ao rei D. João IV … Para o mesmo período também as religiosas de Celas enviaram ao Abade de Alcobaça um presente que incluía as famosas tigeladas.

Sousa, D. F. F. 2013?. Arte Doceira de Coimbra. Conventos e Tradições. Receituários (séculos XVII-XX). Sintra, Colares Editora, pg. 14, 16, 17

 

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por Rodrigues Costa às 10:09


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