Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 08.10.24

Coimbra: Mosteiro de S. Jorge

O Doutor Saul António Gomes publicou um texto, que hoje divulgamos, que nos elucida sobre os tempos primitivos de um dos conventos menos conhecidos de Coimbra, o Mosteiro de S. Jorge, localizado na margem esquerda, do Mondego, acima da celebrada Lapa dos Esteios.

Moteiro de S. Jorge 2.webp

Mosteiro de S. Jorge, na atualidade. Imagem acedida em: https://www.imovirtual.com/pt/anuncio/quinta-do-mosteiro-de-sao-jorge-em-co-ID1cxu7

Mosteiro de S. Jorge 1.jpg

Mosteiro de S. Jorge, na atualidade. Imagem acedida em: https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=CMIGGFQH&id=167147D791D4E40DD28DF6B2A4276175A084F781&thid

 …. A fundação do Mosteiro de S. Jorge, situado um pouco a nascente da cidade de Coimbra, segundo as crónicas modernas dos cónegos regrantes de Santo Agostinho, dever-se-ia ao Conde D. Sesnando, o celebrado governador moçárabe de Coimbra … teria mandado levantar nesse local, em 1080, uma ermida dedicada a S. Jorge, fazendo-a mudar, quatro anos depois, para outro lugar, justamente aquele onde o mosteiro, segundo os cronistas crúzios, viria a ser edificado.

Data de Julho de 1146, na verdade, o compromisso feito por … Salvador Guimariz, diante de D. João, bispo … a partilhar com os seus companheiros o património que para esta fundação se estabelecia, a fim de que tudo fosse partilhado em comum.

…. A este mosteiro ligaram-se, por especial devoção, os monarcas da dinastia afonsina. D. Sancho I e D. Dulce, sua mulher, entregaram, em 1191, a dízima da herdade régia de Façalamim aos cónegos, sendo prior-mor D. Pedro Vicente, em reconhecimento da intervenção do santo mártir na proteção ao infante D. Afonso, futuro rei.

…. Em 1216, D. Afonso II toma debaixo da sua real proteção este cenóbio … Também D. Afonso III … se voltou para esta canónica de Coimbra, em 1259, suplicando a intercessão de S. Jorge para que a sua filha primogénita, a Infanta D. Branca.

…. No século XIII, S. Jorge de Coimbra usufruía de um património rentável e apreciável. Por doação, compra ou escambo, este instituto regular estendeu o seu património, para além do que tinha em Coimbra, a Castelo Viegas, Arregaça, Taveiro, num aro geográfico ainda muito próximo de Coimbra, e, depois, num segundo círculo já mais distanciado, a terras como Lorvão, Penela, Tentúgal, Montemor-o-Velho, Lavos, Ameal e Façalamim. S. Jorge tinha, finalmente, interesses senhoriais apreciáveis em pontos bem mais longínquos como eram Arganil, Celorico [da Beira], Paços, Covilhã, S. Vicente da Beira [“de ultra serra”], Rio de Moinhos, junto a esta vila, Santarém e Portalegre.

…. Na primeira metade do século XIII … mantinha práticas de administração que passavam pela escrita organizada.

…. Poderemos classificá-lo como registo de contabilidade monástica, numa tipologia documental rara, sobretudo para essa época.… Nele percorre-se longamente o património monástico dominial arrolando-se rendas e proventos cujas entradas se faziam pelas ovenças, respetivamente, da enfermaria, da vestiaria e da correaria. O hospital monástico e a “pitançaria” são referidos muito de passagem como tendo rendimentos próprios.

…. De uma leitura global deste registo contabilístico, verificamos que se intersectam neste claustro dois tipos de economia. Pesavam os pagamentos em géneros alimentares, em animais e até em escravos sarracenos. Mas a linha dominante neste micro-universo monástico é a da economia monetária. Procura-se avaliar todos os proventos em moeda, valorizando-se vendas e rendas expressas em dinheiro … três moios de centeio e um sarraceno recebidos, em 1257, pelo prior da enfermaria. Trigo, centeio, milho mourisco e milho, sem mais, tinham boa receção no mercado urbano, valendo cada alqueire de trigo, nesse ano, quatro soldos. Como se vendiam bem, cremos, “panos”, decerto lanifícios para cuja manufatura não faltava matéria-prima nos celeiros do Mosteiro. Os panos vendidos pelo prior a Vicente Serrão, por exemplo, tinham valido a soma de sete libras.

…. O Mosteiro era senhorio de muitas cabeças de gado miúdo e de apreciáveis boiadas. Um dos seus ovelheiros, Vicente, entregou aos cónegos 80 ovelhas e um asno, e D. Pedro, irmão de D. Sebastião, oito vacas, um boi e mais de 40 ovelhas; de um outro ovelheiro, Durando, recebeu-se 60 ovelhas e 13 libras em dinheiro. Pedro Gonçalves de “Palio”, por seu turno, pagou oito cabeças de vacas, entre grandes e pequenas, 10 cabras, três asnos, um boi e um bom “zorame et sagia”.

…. Da vinha da correaria recebia-se todo o vinho … O Mosteiro tinha alguns olivais, poucos, rendendo, os que trazia D. Bento, “fibulariu”, cinco libras

…. S. Jorge de Coimbra conheceu tempos de prosperidade e outros de crise interna.

No ano de 1192, o claustro acolhia 26 cónegos e exercia jurisdição sobre a comunidade feminina de cónegas agostinhas da Santa Ana, para a qual se apontam, nessa data, nove professas. Dados que indiciam um ciclo de vitalidade na história desta comunidade.

Moteiro de S. Jorge 3.jpg

Mosteiro de S. Jorge 3. Imagem acedida em: https://www.flickr.com/photos/biblarte/3562604342/in/photostream/

…. A dimensão do património de S. Jorge permitia, ainda por todo o século XIV, um confortável nível de vida aos seus professos. Isso é muito claro, por exemplo, em 1334, quando o prior-mor concordava em “que os coonigos e os frades confessos do dicto monasterio de cada dia ajam pera seu mantimento tres pãees cada huum coonigo e frade e serem tamanhos que do alqueire da farinha triga peneirada polla ante maao e seendo-lhe a mão posta hûa vez que do alqueire fossem fectos dezeoyto pãaes […] e cada dia ajam d’aver tres fiaas de vinhos, o vaso da colaçom, e da noa e da presa o qual vinho seer terçado as duas partes de vinho e a hûa d’augua”.

Gomes, S. A. 2011. Um registo de contabilidade medieval do Mosteiro de S. Jorge de Coimbra (1257-1259). In: Medievalista [Em linha]. Nº10, (Julho 2011). Direc. José Mattoso. Lisboa: IEM. Acedido em: http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:04


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Julho 2025

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031

Posts mais comentados