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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 15.03.22

Coimbra: Monsenhor Nunes Pereira 2

 

Dedicamos a entrada de hoje e as quatro que se lhe vão seguir ao livro Monsenhor Nunes Pereira. O percurso de uma vida.

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Monsenhor Nunes Pereira. O percurso de uma vida, capa

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Monsenhor Nunes Pereira. O percurso de uma vida, contracapa

Trata-se, essencialmente, de um magnifico álbum fotográfico dedicado à vida e à obra dessa figura maior de Coimbra que foi Nunes Pereira.

Para além das excelentes imagens, a obra em apreço apresenta, a enquadrá-las, um conjunto de textos passíveis de fazer um relato do percurso de vida do Homem e do Sacerdote que ele foi e da sua obra artística, afanosamente construída ao longo da vida.

A obra de Nunes Pereira merece a atenção dos conimbricenses e a razão dessa relevância surge assim relatada:

Num café de Coja tomávamos a bica.

Veio à conversa a recente edição da Valceira, Associação de Desenvolvimento sediada em Fajão, de uma recolha de quadras populares coordenada por Maria da Conceição Oliveira e ilustrada por Monsenhor Nunes Pereira. Falámos sobre ele, sobre a sua enorme vitalidade, sobre o que conhecíamos da sua vida e obra, que se nos apresentava em fragmentos mais ou menos dispersos do que sobre ele tínhamos ouvido falar ou lido.

Nos minutos seguintes, a admiração que ambos temos por este homem, para quem a arte é uma paixão desde criança e de todos os dias, fez-nos nascer a ideia de uma fotorreportagem. Não pretendíamos ficar presos à sua biografia, nem tão pouco fazer um estudo detalhado da obra realizada, queríamos antes acompanhá-lo no reencontro com os espaços e ambientes que foram a sua vida e transcrevê-los em imagens.

Seria uma justa homenagem e um projeto que concretizaríamos com prazer.

Apresentámos-lhe a ideia.

Com a habitual modéstia hesitou. Parecia-lhe trabalho a mais para pessoa de interesse relativo.

Ultrapassado à força de argumentos este primeiro obstáculo, encontrámos o entusiasmo que lhe é característico e que põe em tudo aquilo a que se dedica.

Seguiu-se a digressão pelos locais onde viveu, acompanhados por este conversador incansável dotado de um sentido de observação, saber e memória extraordinários.

Assim, fomos descobrindo uma obra com uma dimensão muito superior à que imagináramos, tanto na vertente de intervenção social, como na artística. Até neste último aspeto, talvez aquele que julgávamos conhec.er melhor, nos conseguiu surpreender. Sempre munido de caneta e papel, percorreu a vida a registar o que lhe despertava o olhar: são cadernos e cadernos de desenhos gravuras, aguarelas espalhados entre o seu atual atelier e escritório no Seminário, a casa da Portela (Coimbra), o museu em Fajão (Pampilhosa da Serra), as coleções particulares; são as muitas xilogravuras, vitrais e trabalhos em ferro existentes em igrejas do país e outros edifícios. Deparámos com surpresa que, entre as muitas disciplinas artísticas que praticou, também a banda desenhada mereceu a sua atenção permitindo, ocasionalmente, dar curso a um sentido de humor familiar a quantos o conhecem.

A recolha de imagens foi feita ao ritmo das nossas deambulações, sem encenações nem poses.

À medida que iam surgindo, entregávamos-lhe uma cópia para que seguisse o trabalho. Nasceram, assim, espontaneamente, de sua autoria e em jeito de comentário, as quadras que as acompanham.

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Nunes Pereira – Retrato a ponta seca da autoria de José Maria Pimentel. Op. cit., pg. 5

Este livro apresenta Monsenhor Nunes Pereira nos espaços que são hoje o seu quotidiano, sugere o ainda possível dos ambientes que condicionaram o percurso da sua vida, regista os objetos que o têm seguido, muitos fabricados pelas suas mãos. A reprodução de obras nele incluídas não pretende fazer qualquer seleção critica, mas apenas dar nota da sua qualidade e diversidade.

Esperamos ter sido merecedores da confiança que em nós depositou.

Pimentel, J.M. e Oliveira, M.C. Monsenhor Nunes Pereira. O percurso de uma vida. Alguns traços para o perfil de Monsenhor Nunes Pereira, A. Jesus Ramos. Percursos artísticos de Augusto Nunes Pereira, Elisabete Oliveira. 2001. Coimbra, Edições Minerva.

 

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por Rodrigues Costa às 21:44

Quinta-feira, 10.03.22

Coimbra: Monsenhor Nunes Pereira 1

Monsenhor Nunes Pereira foi um dos homens que marcou a minha vida.

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Primeiro, como professor na Brotero, onde se destacava pela sua humanidade, pela simplicidade e por, a fim de lecionar o conteúdo da disciplina que lhe estava confiada, e não só, desenhando no quadro preto autênticas obras de arte.

Mais tarde, quando assumi o cargo de Diretor do Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, tive ocasião de conhecer mais profundamente o Homem e o Sacerdote. A sua dignidade e simplicidade, o seu saber, a sua imensa alegria de viver, o sorriso que vinha do fundo da alma, a sua bondade, a busca continua de mais conhecer e de mais transmitir deixaram em mim uma marca indelével.

Com ele passei longas horas, na Portela, a conversar à porta da sua residência, quando, depois das reuniões em que participávamos, o ia levar a casa, pois automóvel foi coisa que nunca lhe vi. Era uma habitação de madeira, modesta, mas repleta de obras de arte e de tranquilidade.

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Ainda hoje lhe estou grato pelo muito que me ensinou e pelo humanismo que ele fez gravar em mim, para sempre.

O Museu Monsenhor Nunes Pereira, localizado em Fajão, sua aldeia natal, foi inaugurado a 13 de setembro de 1997.

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Museu Monsenhor Nunes Pereira na atualidade, exterior. Acedido em https://www.allaboutportugal.pt/pt/pampilhosa-da-serra/cultura/museu-monsenhor-augusto-nunes-pereira

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Museu Monsenhor Nunes Pereira na atualidade, interior. Acedido em http://www.cm-pampilhosadaserra.pt/pages/485?poi_id=138

Quando tive o privilégio de usufruir de uma visita guiada a este pequeno/grande Museu, recolhi a folha de sala, então distribuída aos visitantes, que, na capa, apresentava uma ilustração, desenhada pelo próprio, com o aspeto exterior inicial do edifício.

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Museu Monsenhor Nunes Pereira. Folha de sala, capa

e na contracapa, sobre a reprodução da sua assinatura, uma fotografia do patrono à porta do Museu.

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Museu Monsenhor Nunes Pereira. Folha de sala, contracapa

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Museu Monsenhor Nunes Pereira. Folha de sala, contracapa, pormenor da assinatura

No interior da folha de sala, pode ler-se um texto assinado Pe. Augusto Nunes Pereira, que diz o seguinte:

Fajão, entre a História e a Lenda

Em Junho de 1233, o Prior do Mosteiro de S. Pedro de Folques, Dom Pedro Mendes, concedeu Foral a “dez Povoadores de Seira que depois se chamou Fajão”. Foi o primeiro foral concedido por aquele mosteiro.

Os povoadores ficavam de posse das terras, para que edificassem e plantassem e cultivassem e nela fizessem o que lhes aprouvesse, apenas com a obrigação de darem ao mosteiro a décima e uma fogaça de almude da medida de Arganil e um capão au galinha, e se algum não podia dar capão au galinha daria seis denários (Cf. «Pe. Augusto Nunes Pereira. O Mosteiro de S. Pedro de Folques, in Santa Cruz de Coimbra do século XI ao século XX. Coimbra. 1984»).

O Mosteiro de S. Pedro foi fundado em Arganil no século XI e depois transferido para Folques. Era dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Fundado o Mosteiro de Santa Cruz, pouco depois o Mosteiro de Folques foi agregado àquele, conservando, no entanto, a sua autonomia. Isto permitia-lhe gozar dos privilégios e isenções concedidas pelos reis ao Mosteiro de Santa Cruz. Pelo menos duas vezes, os moradores de Fajão protestaram contra a atribuição de fintas para melhoramentos públicos em concelhos estranhos, alegando estarem isentos disso ao abrigo daqueles privilégios. De uma das vezes a reclamação foi encabeçada por Pascoal Fernandes, de Fajão, o que terá motivado ser o Pascoal uma figura relevante nos célebres «contos de Fajão».

Estes contos são dos mais valiosos patrimónios de Fajão, como na Alemanha os «contos de Beckum», muito semelhantes aos nossos.

Mas Fajão tem outros valores. Para recolher, e para deles fazer uma força educativa, houve a ideia de criar um museu de Fajão. O seu edifício, uma antiga casa de habitação, com sua cozinha e forno, foi restaurada no gosto das antigas construções de xisto, de modo que será um incentivo para que não se estraguem outras casas do meso tipo que ainda restam na vila e na região.

Nos dois pisos reúnem-se artefactos, obras de arte e documentos históricos, havendo ainda a possibilidade de ali se realizarem, uma vez ou outra exposições diversas.

Fajão fica, por esta forma, enriquecido por um valioso instrumento educativo, que a Junta de Freguesia e os fajaenses certamente vão defender, desenvolver e aproveitar.

Pe. Augusto Nunes Pereira

 Acrescento uma pequena memória extraída da pagela da missa do 7.º dia, comemorativa da sua partida, ocorrida a 1 de junho de 2001.

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Pagela da misa do sétimo dia, anverso

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Pagela da misa do sétimo dia, reverso

 

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por Rodrigues Costa às 13:21


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