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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 03.12.20

Coimbra: EnCantada Coimbra. Colectânea de Poesia sobre Coimbra 1

Coimbra é muito bela.

Se fosse preciso comprovar esta afirmação, uma das maneiras possíveis seria a leitura do livro EnCantada Coimbra. Colectânea de Poesia sobre Coimbra, editada em 2003, no âmbito da Coimbra 2003. Capital Nacional da Cultura, numa organização de Adosinda Providência Torgal e Madalena Torgal Ferreira.

Na altura da sua publicação, enredado que andava nas minhas idas e vindas profissionais entre Lisboa e Coimbra, não me apercebi da sua publicação.

Só agora que se aproxima um Natal, triste e necessariamente diferente, aqui fica uma sugestão de prenda natalícia para todos os que amam a nossa Cidade.

Dos textos publicados selecionei alguns que, no meu gosto pessoal, me pareceram mais significativos.

Aqui ficam na esperança que despertem os Conimbricenses para a leitura desta obra.

 

XXX

 

Miguel Torga

Miguel Torga.jpg

Acedida em: https://www.bing.com/images/search?q=miguel+torga&qpvt=miguel+torga&FORM=IQFRML

Rio com lavadeiras.jpg

O Mondego secou

ESTIAGEM LÍRICA

O Mondego secou.

Outro Camões agora que viesse,

Tinha apenas areia

Com que apagar a tinta da epopeia

Que escrevesse.

 

Pobre da linda Inês já sem ervinhas

Onde pastar a lírica saudade!

Tão verdade

É morrer neste mundo a própria morte…

Nem ao menos a água que bebia!

Vejam que negros fados

Da Poesia

E da sorte …

XXX

 

João José Cochofel 

João José Cochofel.jpg

Acedido em: https://www.lusofoniapoetica.com/poetas-de-portugal/joao-jose-cochofel.html

Não me venham dizer que os choupos.jpg

Não me venham dizer que os choupos despidos lembram mágoas

 CAMPOS DE COIMBRA

Não me venham dizer

que os choupos despidos lembram mágoas,

se o sol os veste, solitários e altivos,

erguidos sobre ás águas.

 

Longe vêm vindo os barqueiros,

metidos no rio até às virilhas,

 

Nas ínsuas correm em liberdade os potros,

embora mais tarde vão pelas estradas,

seus flancos cingidos pelas cilhas.

Encantada Coimbra. Colectânea de Poesia sobre Coimbra. Organização e Nota Prévia de Adosinda Providência Torgal, Madalena Torgal Ferreira. 2003. Lisboa, Publicações Dom Quixote. Pg. 51,52.

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por Rodrigues Costa às 10:39

Sexta-feira, 13.11.15

Coimbra e as suas personalidades: Miguel Torga

António Correia Rocha, nasce a 12 de Agosto de (1907) em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real … Frequenta o curso de Medicina (1928-1933) … Com o livro «A Terceira Voz» (em 1934), “despede-se” literariamente do nome civil que usou nas primeiras edições e adota o pseudónimo de Miguel Torga … Miguel Torga morre (em Coimbra) a 17 de Janeiro (de 1995). A 18, é sepultado em campa rasa no cemitério de S. Martinho de Anta.

 

Miguel Torga (por ele próprio)

Nasceu em S. Martinho de Anta, Trás-os-Montes.
Casado.
Altura: 1 metro 77.
Magro como um espeto.
Perfil de um contrabandista espanhol.
Médico.
Anda que se desunha.
Fuma, sobretudo quando está com amigos ou quando escreve.
Gostava de ser pintor, e chegou mesmo a pintar um autorretrato, que atirou ao mar, no Portinho da Arrábida.
Vai muito ao cinema, e ri-se perdidamente com os desenhos animados.
Só ajudou uma vez a mulher a enxugar a louça, e há dez anos que lhe mata o bicho do ouvido com essa avaria.
Na sua biblioteca, pequena porque não cabem mais livros na exígua casa da Estrada da Beira, em Coimbra, onde mora, contém o essencial das principais leituras do mundo.
Em pintura moderna admira Picasso, Siqueiros, Orozco e Portinari.
Tira o chapéu a Euclides da Cunha e a Machado de Assis.
Gosta de música, particularmente de Bach.
Mas o que gosta a valer, é de calcorrear os montes do seu Douro transmontano, os pauis dos campos do Mondego, à caça de perdizes e narcejas.
Nunca fez uma tratantice a um colega das letras. Em compensação, têm-lhe feito muitas.
Entre os autores que venera: Dostoiewski, Proust, Cervantes, Unamuno e Melville.
É contra os caçadores de autógrafos, contra os álbuns, contra a publicidade.
O “contra” é mesmo o seu forte.
Gosta de solidão, e preza muito quem lha respeita.
Não acredita em fantasmas.
Anda sempre a morrer, e não há ninguém que gaste mais energia.
Se pudesse recomeçar a vida gostaria de ser mais poeta ainda.
Um dos seus títulos de glória é ter passado a adolescência no Brasil (Leopoldina – Minas).
Vive pelos nervos.
Não há ninguém mais amigo dos seus amigos, e tão mal compreendido por eles.
A arte para ele não é uma ambição: é um destino.
A sua terra é para ele como uma planta: sítio de deitar raízes.
Tinha 20 anos quando escreveu o primeiro livro, que se chama «Ansiedade».
Portas brasileiros que admira: Manuel Bandeira, Cecília, Ledo Ivo.
Romancistas brasileiros que admira: Graciliano, Lins do Rego e Jorge Amado.
Gosta de deuses pagãos, a quem tem cantado nas suas Odes.
Mas não conta com eles para o dia da morte, que teme como uma noite sem madrugada.

 

Rocha, C. 2000. Miguel Torga. Fotobiografia. Prefácio de Manuel Alegre. Lisboa, Publicações D. Quixote. Pg. 13, 45, 58, 98 a 101, 183

 

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por Rodrigues Costa às 09:50

Quinta-feira, 12.11.15

Coimbra, Torga e a cidade 2

"De todos os cilícios, um, apenas,
Me foi grato sofrer:
Cinquenta anos de desassossego
A ver correr,
Serenas,
As águas do Mondego"
Miguel Torga

 

"Oito horas de sonambulismo nos campos do Mondego, cobertos de quietude e de toalhas de água, onde a alma se embebeda de silêncio e os choupos se narcisam.” ...

"Esta paisagem coimbrã tem o diabo dentro dela. No Alentejo caminho; em Trás-os-Montes, trepo; aqui, levito”, confessa Miguel Torga noutra passagem dos seus “Diários”.


Conheci Miguel Torga há cinquenta anos e, precisamente, em Coimbra. Recordo-me de o ver passar, como uma águia do Marão, pelas ruas da Baixa da cidade e de o ver, magnânimo e trágico, sentado no café, junto dos seus amigos de tertúlia: Paulo Quintela, Afonso Duarte, António de Sousa e outros mais.
… ao passar no Largo da Portagem, o via estático e sonhador, com o olhar distante, na janela do seu consultório. Realizaria, dentro de si aquilo que num dos seus romances o levou a escrever:

 

"À direita, a fachada lívida do Banco de Portugal, com o relógio no topo a marcar as horas sonolentas; à esquerda, a velha ponte de ferro a transpor a fita branca do areal por onde o Mondego serpeava minguado e preguiçoso; em frente, a verde perspetiva do horizonte rural, pasto bucólico de imaginação…”

Porque desde sempre a amou, Coimbra – e a sua tão lírica e bucólica região – tem sido para Miguel Torga quase uma paixão; ama-a porque a descobriu em todos os seus aspetos, porque a tem vivido e sentido. Coimbra – poderíamos dizer – é para Miguel Torga, em muitos aspetos, o brasão de Portugal e das gentes portuguesas. No seu impressionante livro “Portugal” – obra fundamental para o 'entendimento' do nosso País – Torga testemunha …

“Coimbra é uma linda cidade, cheia de significação nacional. Bem talhada, vistosa, favoravelmente colocada entre Lisboa e o Porto … Mais do que razões sociais, foram razões geográficas que a fadaram. Uma terra de suaves colinas, de verdes campos, banhada por um rio plano, sem cachões, a meio de Portugal, tinha necessariamente de ser a cidade espiritual, universitária, da pequena pátria lusa. Também a nossa alma é de suaves relevos, de frescas paisagens, e banhada por uma corrente doce de amor e conciliação. Nenhuma outra terra como Coimbra testemunha tão completamente, na sua pobreza arquitetónica, na sua graça feita de remendos e pitoresco, nos seus recantos sujos e secretos, os limites da nossa capacidade criadora, a solidão da nossa alma, e o camponês com que nascemos para tirar efeitos cénicos do próprio gosto de erguer uma videira.”

Ribas, T. (1991?). Coimbra Vista por Miguel Torga. Lisboa, Inatel, pg. 1, 5 a 8

 

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por Rodrigues Costa às 11:59

Quarta-feira, 11.11.15

Coimbra, Torga e a cidade 1

Muda-se para Coimbra (em 1940). Mora numa pequena casa no n.º 32 da Estrada da Beira, com vista das traseiras para os laranjais do Mondego. Aí recebe intelectuais e amigos: Ribeiro Couto, Eugénio de Andrade, Ruben A., etc.
… Coimbra é assim vista por Torga, no volume Portugal (1950:

Passeando Coimbra a certas horas do dia e da noite, é flagrante que um manto de luz sedativa a ilumina. Tanto o sol como a lua se esforçam por mantê-la numa irrealidade poética, feita do alvoroço das sementeiras e da melancolia das desfolhadas. Cenário para um perpétuo renascimento do espírito que, além da pureza de um céu límpido e aberto, poderia ter a Grécia e a Itália reunidas na mesma colina debruada de choupos e de oliveiras. Mas aproveitaram a oferenda apenas o ópio sentimentalista. E o Penedo da Meditação, a Lapa dos Esteios, o Jardim Botânico e o Parque de Santa Cruz vivem permanentemente num banho-maria nostálgico que, sendo uma realidade física local, é simultaneamente a atmosfera mental do português” (Portugal, Coimbra, 6.ª ed., 1993, p. 90).

 

Abre consultório no Largo da Portagem, n.º 45. Aí exercerá a especialidade de otorrinolaringologia durante mais de cinquenta anos … Torga vai todos os dias ao consultório, de elétrico ou de trolley, passando primeiro pela tipografia ou pelas livrarias da Baixa, e detendo-se na Central, e mais tarde no café Arcádia, onde se junta a uma pequena tertúlia.
Com vista sobre o rio e a cidade, o consultório é a sua “janela” sobre o mundo. É também um dos seus lugares de escrita, sobretudo nos últimos anos, quando tem menos clinica, e de encontro com amigos, intelectuais e políticos. Aí recebe jovens poetas que o procuram, admiradores conhecidos e desconhecidos, escritores estrangeiros e, mais raramente, jornalistas, em longas conversas por vezes documentadas nas páginas do Diário.
… Passa a morar (1953) na rua Fernando Pessoa, nº 3.

Rocha, C. 2000. Miguel Torga. Fotobiografia. Prefácio de Manuel Alegre. Lisboa, Publicações D. Quixote. Pg. 76, 80 e 81, 117

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por Rodrigues Costa às 22:54


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