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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 17.04.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 2

De outro comerciante que já morreu, o Ribeirinho, reza a tradição que, tendo falido, se fingiu amalucado em harmonia com certos fins que tinha em vista…

O Ribeiro (Caricatura Miguel da Costa).jpg

  O Ribeirinho – Caricatura de Miguel da Costa

 Ora o Ribeirinho, lá pelos modos, tinha as suas aspirações a poeta e, como tal, deu-se ao luxo de publicar um livro intitulado Allegorias as célebres Alllegorias onde conseguiu, não sei porque artes diabólicas, armazenar quantos pontos de admiração havia neste e no outro mundo até essa data. E a academia, sempre disposta a fazer das suas, sabendo isto e sabendo mais e melhor que o Ribeirinho era homem de muitos haveres, mas avarento como poucos, ia buscá-lo a casa em engraçadíssimas marchas aux flambeaux, percorrendo as ruas da cidade com ele ao colo, fazendo-o recitar, de momento a momento, as melhores produções do seu livro que, diga-se a verdade, tanto valiam umas como outras.

O Ribeirinho.jpg

 O Ribeirinho

Mas ele, saracoteando- se todo, em pose de passar à posteridade, num gesto estudado e ridiculamente impagável, recitava, tornava a recitar, enfiado na sua capa sem mangas e nas suas calças de xadrez, entre a galhofa e o aplauso das turbas que ele generosamente julgava contentar atirando-lhes sempre à queima-roupa, com um – obrigado rapazes. Passado algum tempo o Ribeirinho, que nos últimos meses se dizia um desgraçado, morria deixando em testamento uma fortuna razoável em belos contos de réis!... Ai quem me dera ser um desgraçado assim!

 

Houve ainda outro, certo dia em Coimbra nunca lhe soube o nome, que mandou anunciar, em todos os jornais da terra, que vendia belos chouriços alentejanos e quis ver, no alto do anúncio, em caracteres de palmo e meio: – A LOJA D’UMA PORTA SÓ. Eis senão quando, logo ao outro dia de manhã, viu postar-se-lhe em frente da porta um grande, um numeroso grupo de estudantes exclamando admirados:

 – Olhem A LOJA D’UMA PORTA SÓ!

O homem, não sei porquê, prevendo qualquer cousa de extraordinário, não ficou lá muito bem-disposto com a cena e com aquele ar irónico que via nos rapazes, mas saiu detrás do balcão, avançou até á porta e perguntou, forçando um sorriso:

– Que hão de querer?

– É aqui A LOJA D’UMA PORTA SÓ?

– É sim senhor, porquê?

– Porque não tem senão uma porta!

E logo outro:

– Porque tem unicamente uma porta!

E outro:

– Porque tem uma porta apenas!

E ainda outro:

– Porque tem simplesmente uma porta!

E acrescentando todos ao mesmo tempo:

– Porque tem UMA PORTA SÓ!...

E o certo é que o homem afinou com a brincadeira, foi aos ares, deu ao diabo os estudantes e desatou num berreiro infernal despejando quantos insultos conhecia. – Mariolas! Vadios!...

 

Como umas coisas fazem lembrar as outras e as palavras são como as cerejas, segundo exclamava uma criada velha que eu tive, agora me recorda que lá ouvi contar, não sei a quem, que houve outrora um barbeiro, atrás da igreja de S. Bartolomeu, que, todos os dias, barafustava endiabrado só porque os estudantes, muito ingenuamente, iam perguntar-lhe como é que os sinos da igreja próxima tocavam a fogo, a batizado, ao Senhor fora e como davam as Trindades.

Mas, como estes, houve e há tantos ainda por aí fora!

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

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por Rodrigues Costa às 09:44


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