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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 11.04.23

Coimbra: A Tricana, outra visão 2

Parece ter andado confundida durante muito tempo a designação de Tricana, isto é, o mesmo título deve ter cabido à mulher do povo de Coimbra e à dos seus arredores.

No «Álbum de costumes portugueses», edição de David Corazzi, vem entre os cinquenta cromos, cópias de aguarelas originais, uma camponesa dos arredores de Coimbra, lindo trabalho do grande artista Manuel de Macedo, acompanhado dum artigo do notável escritor Manuel Pinheiro Chagas.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 574.jpg

Op. cit., pg. 574

 A confusão é manifesta, ou ter-se-á de aceitar que o trajo era por então igual nas mulheres do povo – citadinas e arrabaldinas.

A saia, o avental, o traçado do xaile, o atar do lenço é, por assim dizer, o que veio até nossos dias.

Na descrição de Pinheiro Chagas, às mulheres dos arredores de Coimbra chama-se Tricana, não distinguindo a situação ostentosa daquelas que habitavam na cidade...

Fica averiguado o caso das mulheres da cidade terem usado o trajo descrito pelo autor [Borges de Figueiredo] da «Coimbra Antiga e Moderna», ou seja o capote e lenço, e as outras, de mais elevada categoria, mantilha e mais ademanes que referi.

Ainda é dos nossos tempos o final deste trajo em mulheres do povo.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 566.jpg

Op. cit., pg. 566 

…. Parece, pois, que o trajo das raparigas da cidade, vindo até nossos dias, se afastou daquele modelo para tomar o aspeto do usado pelas mulheres dos nossos arredores. Pelo menos o figurino é tão aproximado que o próprio historiador Manuel Pinheiro Chagas, na interpretação da aguarela de Manuel de Macedo, junta-as num só epíteto — Tricanas.

Ora esse trajo, o vestir das nossas Tricanas, vindo às ruas e às Fogueiras de S. João, nesta roda de mais de meio século, é o que se considera dentro da tradição popular.

…. Está consagrado pelos literatos, poetas e prosadores, é o lindo modelo de muitos trabalhos dos nossos Artistas.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 620.jpg

 Op. cit., pg. 620

Comecemos por Manuel da Silva Gaio, conimbricense insigne, poeta e prosador de admirável sentido, verdadeiro Mestre na nossa literatura, espírito de requintada delicadeza:

 «Ninguém como ela traja

A gôsto do namorado;

Lenço de pontas atraz,

Chalinho de sobraçado,

 

Chinela curta, a fugir,

Embora o pé seja leve

E pequenino de ver

Na meia branca de neve;

 

Corpete todo a estalar,

Saia subida e ligeira,

Aventalinho tamanho

Como Rilha de figueira...»

 

Não é possível melhor descritivo, em verso, do trajo das nossas tricanas.

 Depois vem o consagrado Trindade Coelho, no seu livro sempre novo, «In illo tempore»:

«Sua chinelinha de biqueira, em que só lhe cabe metade do pé; sua meia branca, ou às riscas, muito esticada; saia de chita, das cores mais claras, deixando ver os tornozelos e acima dos tornozelos duas polegadas de perna; aquele aventalinho muito pequenino, que é mais um chic do que outra coisa; o chambre de chita clara, aberto no peito em decote quadrado; e então o xaile de barras, ou a capoteira, passando por debaixo do braço direito e lançado (com elegância que se não descreve, mas que os estudantes copiaram para as suas capas) por cima do ombro esquerdo! »..

A descrição do trajo da Tricana em Trindade Coelho é perfeita, dando-nos em pormenores a forma como se vestiam na época em que foi escolar de leis na nossa Universidade.

 Também me permiti a descrição do trajo da Tricana para uma das minhas crónicas de «O Primeiro de Janeiro», depois reproduzida no meu livro - Nos Domínios de Minerva:

- «Vestiam chambres brancos, talhados em quartos, ornamentados à altura dos peitos com uma rendinha quási gomada, a contorná-los, e muitos deles, nesses quartos que lhes subiam até ao pescoço, formando uma pequena gola de lindo enfeite, tinham umas pregas para maior realce ou fantasia. As mangas fofas, apertadas nos pulsos, terminavam por uns punhos largos e rendados, vindo esses chambres a meter-se, à altura da cinta, debaixo das saias.

Estas eram sempre de pano preto lustroso, rodadas, até à altura do artelho, tendo a maior parte dessas saias uma barra larga de veludo e debruadas em toda a roda com uma fitinha de lã.

Usavam então os saiotes encarnados, de pano próprio para ajudar a fazer o rodado das saias de fora.

As meias, confecionadas por elas, eram brancas, de interessantes rendados.

O avental, descaindo até aos joelhos, era um adorno interessante pelas fantasias delicadas, que quebravas a monotonia das saias negras.

A chinelinha, a brincar-lhes no peito do pé, a desprender-se com o andar cadenciado, saltitante, de gáspeas de verniz, formando bico, tinha arte nos pospontos ou no debruado, em arrebiques e bordados semelhando rendas de bilros.

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 579.jpg

Op. cit., pg. 579

Por último, o xaile, de várias cores, liso, ou de ramos e cercadura vistosa, franjado, tomava aspetos, sobre o busto, no contorno das formas, duma graciosa e caprichosa escultura saída das mãos de artista portentoso. Vinha prender-se ao alto no ombro esquerdo, num delicado nó, para deixar livres os braços, como asas soltas para os espaços infindos...».

OS. Tricanas dos arredores, op. cit., pg. 570.jpg

Op. cit., pg. 570

Sá, O. 1942. A Tricana no Folclore Coimbrão. In: O Instituto, vol. 101, pg. 361-632. Coimbra, Imprensa da Universidade. Acedido em: Acedido em: http://webopac.sib.uc.pt/search~S17*por?/tinstituto/tinstituto/1,291,309,E/l856~b1594067&FF=tinstituto&1,1,,1,0

 

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por Rodrigues Costa às 10:09


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