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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 12.09.23

Coimbra: Mantilha portuguesa.

O tema da “Mantilha Coimbrã”, já foi tratado no blogue “A’Cerca de Coimbra” em 21 e 23 de junho de 2022. Na altura, respigamos um artigo publicado no número 7 da Munda, revista do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro [GAAC], assinado pelo Professor Doutor Nelson Correia Borges.

Posteriormente, aquele conceituado Investigador, publicou no Boletim Informativo da Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego um texto mais pormenorizado que intitulou “A Mantilha Portuguesa. Glória e declínio de uma peça do trajar das nossas Avós”. Dele extraímos as informações que ora se divulgam.

Como é sabido, não existe em Portugal um trajo nacional, antes, pelo contrário, uma grande variedade devido à diversificação e características próprias das múltiplas regiões e sub-regiões etnográficas. No entanto, ao longo dos tempos, houve algumas formas de trajar e certas peças de vestuário que tiveram implantação praticamente em todo o país. Estão neste caso os resguardos exteriores do corpo, em que podemos incluir o gabão e a mantilha.

A mantilha é, sem dúvida a peça mais interessante e também a mais bem documentada, apresentando-se com inúmeras variantes no que toca à parte que envolvia a cabeça. Referimo-nos obviamente, à que as nossas avós usaram desde tempos ancestrais até meados do século XIX e não à mantilha de rendas de uso mais recente.

…A mantilha de rendas, geralmente de cor preta, de origem espanhola, foi introduzida em Portugal depois de 1900. divulgada de terra em terra por mão dos vendedores ambulantes galegos. Utilizou-se para cobrir a cabeça da mulher quando ia à igreja, até aos tempos do Concílio Vaticano 11 (1962-1965). Finda a sua utilidade, caiu em desuso. As mulheres das classes populares, porém, sempre preferiram usar para o efeito o lenço de seda ou o cachené.

… À velha mantilha feminina surgem as primeiras referências em finais do século XIV e um século depois já ela podia ser incluída entre as muitas “coisas de folgar e gentilezas”, reunidas por Garcia de Resende no seu «Cancioneiro Geral».

… No século XVI o uso da mantilha era, sem dúvida, generalizado e, como peça estimada, deixada em testamento. Encontrámos-lhe o rasto, ocasionalmente, em dois documentos tabeliónicos de 1577, da região de Coimbra, que a referem a par com outros elementos de vestuário. Os séculos XVIl e XVIIl fizeram da mantilha uma peça imprescindível à indumentária barroca, introduzindo-lhe variantes no formato da parte que resguarda a cabeça. adaptada aos elaborados toucados então em moda.

A mantilha era uma espécie de manto ou capa, com alguma roda, que descia até abaixo do joelho, ou mesmo até ao tornozelo. Em cima, abrigando a cabeça, ficava a coca, espécie de arco, amado em papelão e barbas de baleia, terminando ou não em bico. Na sua confeção utilizavam-se tecidos de diversas texturas e materiais: a baeta, o durante, o camelão, o lapim, o "pano fino", ou mesmo tafetá de seda. A cor preferida era o preto, solene, mas havia-as também roxas e cor de pinhão, como a mencionada no «Cancioneiro Geral». Normalmente era debruada com uma tarja de veludo, liso ou lavrado, da mesma cor do tecido, e não tinha colchetes nem botões: fechavam-na à frente com a mão.

Embuçada na mantilha, que lhe podia esconder todo o corpo e mesmo grande parte da face, a mulher tinha a possibilidade de sair tranquilamente à rua sem receio de ser reconhecida. As portuguesas amantilhadas constituíam, por certo, uma nota de pitoresco nas ruas das cidades, captando a admiração dos estrangeiros que passavam pelo nosso país. É o caso de dois embaixadores venezianos, vindos a Lisboa em 1580, que salientam no trajar feminino " o manto grande de lã ou de seda, segundo a qualidade da pessoa. Com ele cobrem o rosto e o corpo inteiro, e vão aonde querem, tão disfarçadas que nem os próprios maridos as conhecem: vantagem esta que lhes dá maior liberdade do que convém a mulheres bem-nascidas e bem morigeradas".

Esta circunstância não podia deixar de ser refreada, tanto mais que os abusos acabariam sempre por surgir. Assim, e em 1644 foi decretado que nenhuma mulher andasse embuçada nas ruas de Lisboa, com graves penas, mas esta resolução não chegou a ser extensiva ao resto do reino onde amantilha continuou q ser usada com honra de proveito da mulher portuguesa.

… “Este adorno está hoje completamente fora de moda, e apenas fazem dele uso algumas mulheres antigas e nobres, ou as beatas de algumas terras da província”. “Eduardo Faria, porém em 1857, afirma que a mantilha era particularmente usada em Coimbra” e não restam dúvidas de que assim acontecia.

Cidade de cunho predominantemente eclesiástico, na sua instituição universitária, onde os colégios monásticos e os conventos se topavam a cada esquina, não admira que a mantilha fosse um correspondente modo de trajar feminino algo freirático. A mulher de Coimbra introduziu-lhe uma coca em bico que faz lembrar certas toucas da Renascença, ampliadas.

Conhecemo-la de gravuras e da descrição de alguns detratores. A representação mais antiga é uma belíssima gravura a "pointillé", incluída na obra de Henry L'Evêque. (The Costume of Portugal, Londres, 1812.), com a legenda que está na imagem,

MP. 1.jpg

Op. cit., pg 12

 Nela se recorta uma esbelta figura feminina sobre paisagem da cidade, onde se reconhece a Sé Nova e o Mondego. Envolve-se na mantilha com graciosidade, deixando a descoberto parte da "camisa" e da saia preta. Calça sapato de cetim, meias finas e usa um colar de duas voltas. Em segundo plano segue, ao lado do homem, outra mulher também de mantilha. Parece-nos, todavia, que esta gravura não representa com fidelidade a parte envolvente da cabeça – a coca -, a qual. segundo outros testemunhos era de maior dimensão, e a forma, ainda que não se afastando das suas linhas gerais, aparece aqui mais comedida.

Assim a viu, por volta de1834, o oficial do exército britânico Carlos Van Zeller com a sua coca muito saliente, terminando num bico que, pelo que afirma, encurvava quase até ao nível do queixo. Não se poupa ao comentário depreciativo comum a quantos, nesta época,se referem a esta peça de vestuário.

… Van Zeller acompanhou as notas manuscritas de alguns esboços que se revelam preciosos para melhor conhecer esta parte da mantilha coimbrã.

Com efeito o que verdadeiramente aparta e define a mantilha de Coimbra é a coca, só encontrando rivais nas do Porto, Viseu e Braga, que não lhe ficam atrás na singularidade.

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Op. cit., pg. 15

Outra representação da mantilha coimbrã é-nos dada pela muito divulgada água-tinta de George Vivian da obra Scenery of Porfugal & Spain, editada em Londres, em 1839.

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Op. cit., pg. 11

 Esta bela paisagem é um manancial de informações sobre o trajo popular em Coimbra, na época, já que junto à fonte de Santana se agrupam diversas figuras citadinas que vão desde os estudantes, à esquerda; às senhoras de mantilha, à direita. Ali as vemos conversando, uma de frente, outra de costas.

O desenho é em tudo coincidente com a descrição de Borges de Figueiredo. …. Creio que ainda nalgumas partes do nosso Portugal se veem as clássicas mantilhas.

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Op. cit., pg. 26.

Mas a mantilha de Coimbra era muito diferente das outras, pelo menos não me consta que em outras partes se usassem do feito daquelas, Compunha-se de uma tira e papelão grossa arqueada e convenientemente coberta de fazenda preta; colocada sobre a cabeça  e segura sob o queixo por fitas, caía o pano preto exterior pelas costas e peito a modo de mantéu: até aqui nada de extraordinário; mas dos diversos pontos do papelão que cobria a cabeça partiam algumas barbas de baleia que a distância de dois palmos da testa se uniam formando vértice, tudo isto coberto de fazenda igual à restante.

…. Existe ainda um outro desenho, certamente de autor nacional, desconhecido, e que deverá datar do segundo quartel do século passado.

MP. 5.jpg

Op. cit., pg. 14

O traço é desagradável, mas elucidativo, confirmando os testemunhos na anteriores. Nele se vê uma cena matutina. O garotito e a manteigueira descalços, contrastam com a senhora de mantilha que se dirige, possivelmente para a igreja.

MP. 6.jpg

A mantilha de Coimbra, reconstituição. Imagem acedida en https://www.facebook.com/grupofolcloricodecoimbra/photos/pb.100047535110552.-2207520000./1279911812121393/?type=3

Acrescentamos uma imagem da reconstituição deste trajo, feita segundo a orientação do Professor Doutor Nelson Correia, que é utlizada nas apresentações do Grupo Folclórico de Coimbra.

Borges, N.C. A Mantilha Portuguesa. Glória e declínio de uma peça do trajar das nossas Avós. Separata do Boletim Informativo da Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego. Páginas 7 a 26. Sem data. Coimbra, AFERM.

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por Rodrigues Costa às 10:19

Quinta-feira, 23.06.22

Coimbra: Mantilha Coimbrã 2

A muito divulgada água-tinta de G. Vivian, que é o n.º XVI de Scenery of Portugal & Spain, editado em Londres, em 1839, e de que apresentamos um pormenor na Fig. 3, é um manancial de informações sobre o trajo popular em Coimbra, na época, já que junto à fonte de Santana se agrupam diversas figuras citadinas que vão desde os estudantes, à esquerda, às senhoras de mantilha, à direita. Ali as vemos, conversando, uma de frente outra de costas, amantilhadas com a extraordinária coca armada em papelão e barbas de baleia.

Fig. 3.jpg Fig. 3 - Pormenor da estampa XVI da obra de G. Vivian, “Scenery of Portugal & Spain”, Londres, 1839, vendo-se, à direita, duas mulheres de mantilha

O desenho é em tudo coincidente com a descrição de António Cândido Borges de Figueiredo que, recordando com certa saudade as senhoras, que conheceu, de mantilha, não se abstém de ridicularizar esse trajo feminino:

«Quando eu era pequeno, quando eu usava calcinhas curtas, [...] nesse tempo, aí de 1858 para 1859, lembro-me perfeitamente de ter visto ainda algumas senhoras de mantilha, principalmente na semana santa. Conquanto eu então apreciasse muito o cortar bonecos de livros e colá-los em papel, para desassombrar as figuras das letras, confesso que, todas as vezes que percebia que íamos à missa ao Salvador, não cabia em mim de contente. É que, naquela igreja encontrávamos sempre as senhoras S., a casa de quem íamos depois da missa. Ora a casa das senhoras S., e as donas dessa casa tinham a arte de me atrair. A casa atraía-me, porque na sala havia sobre as mesas um papagaio e um gato empalhados, e uma recova de cavalinhos de vidro, e um pavão também da mesma matéria cuja cauda era composta de vidro em cabelo. [...] Quanto às senhoras S., essas atraíam-me, porque me davam uns certos bolinhos, muito melhores que especiones [...].

«Devo ser – e sou – grato à memória daquelas excelentes criaturas, que me deram tantas gulodices; todavia não posso deixar de rir-me ainda hoje do aspecto que as três senhoras – mãe e filhas – apresentavam quando iam à missa. As suas tradições de família, o seu recato, a sua devoção, não lhes permitiam adop- tar a moda. Nada direi da saia, ou vestido, preto quasi sempre, e, quando não preto, então da cor da túnica do senhor dos passos; mas a mantilha...

«Creio que ainda nalgumas partes do nosso Portugal se vêm as clássicas mantilhas; mas a mantilha de Coimbra era muito diferente das outras, – pelo menos não me consta que em outras partes se usassem do feitio daquelas. Compunha-se de uma tira de papelão grosso arqueada e convenientemente coberta de fazenda preta; colocada sobre a cabeça e segura sob o queixo por fitas, caía o pano preto exterior pelas costas e peito a modo de mantéu: até aqui não há nada de extraordinário; mas de diversos pontos do papelão que cobria a cabeça partiam algumas barbas de baleia que a distância de dois palmos da testa se uniam formando vértice, tudo isto coberto de fazenda igual à restante e apresentando a figura da maxila superior do ranforincho, ou, melhor, do pterodáctilo... E que lindos rostos, que rosadas e mimosas faces se escondiam sob esse hediondo e ridículo trajo!

«Mas foi o que usaram as damas do high-life de outrora; quem não trajava de mantilha, tinha de pôr o capote de cabeção e o lenço de cambraia muito branco c muito gomado. O bico formado atrás da cabeça pelo lenço era a perfeita antítese do bico da mantilha. As senhoras S. foram, creio eu. as últimas damas que usaram mantilha.»

Ainda um outro desenho, certamente de artista nacional, mas de autor desconhecido e que deverá datar do segundo quartel do século passado, vem de encontro aos testemunhos anteriores. Nele se vê uma cena matutina (Fig. 4). O desenho é desagradável, mas elucidativo. O garotito e a manteigueira, descalços, contrastam com a senhora de mantilha que se dirige, certamente, para a igreja.

 

Fig. 4.jpg

Fig. 4 - Cena matinal, com senhora de mantilha. Desenho de autor desconhecido

E eis, suficientemente caracterizada, a mantilha coimbrã.

Borges, N. C. A Mantilha e o seu uso em Coimbra, In: “Munda”, 7, Coimbra, Revista do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, 1984, p. 60-71.

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:37

Terça-feira, 21.06.22

Coimbra: Mantilha Coimbrã 1

O Grupo de Arqueologia e Arte do Centro (GAAC), ao ser fundado na cidade de Coimbra, em 11 de maio de 1978, teve como primeiro objetivo «Promover o estudo, conservação, defesa e divulgação do património cultural, nomeadamente arqueológico, paisagístico, artístico e etnográfico». Ao longo dos anos, tem vindo a publicar a revista «Munda», cujo primeiro número apresenta a data de 11 de maio de 1981.

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Munda, n.º 1. 18 de maio de 1981

Esta revista, nomeadamente os números da sua primeira fase, atualmente apenas consultáveis em algumas bibliotecas, destacaram-se pela qualidade da colaboração e não pode deixar de se lamentar os injustamente esquecidos artigos ali publicados. Por isso, iremos procurar recordar neste blogue, sobretudo aqueles trabalhos cuja temática se relaciona com a nossa cidade.

Começamos com um escrito do Professor Doutor Nelson Correia Borges, intitulado «A Mantilha e o seu uso em Coimbra». O autor apresenta ali um aprofundado estudo sobre a origem e evolução desta peça do vestuário feminino, «que se destinava exclusivamente a cobrir a cabeça da mulher, e era usada sobretudo para ir à igreja até não há muitos anos».

A parte final do artigo é dedicada ao estudo das especificidades da mantilha usada pelas mulheres de Coimbra.

Nas duas próximas entradas transcreveremos o texto e inseriremos as imagens que o ilustram.

Rodrigues Costa

Fig. 1.jpg

Fig. 1 A lady of Coimbra in mantilla. Gravura da obra de Henry L’Evêque, “The costume of Portugal”, Londres, 1812

 A representação mais antiga (Fig. 1) é uma belíssima gravura a «pointillé», incluída na obra de Henry L'Evêque, The Costume of Portugal, publicada em Londres. em 1812. Ostenta a seguinte legenda: «A Lady of Coimbra in Mantilla». Nela se recorta uma esbelta figura feminina sobre a paisagem da cidade, onde se reconhece a Sé Nova e o Mondego. Envolve-se na mantilha, com graciosidade, deixando a descoberto parte da «blusa» e da saia preta. Notaremos ainda no seu trajo as meias brancas e os sapatos finos, além das joias que ostenta. Em segundo plano segue, ao lado de um homem, outra mulher, também de mantilha. Parece-nos, todavia, que esta gravura não representa com fidelidade a parte que envolve a cabeça – a coca –, a qual, segundo outros testemunhos, era de muito maior dimensão, e a forma, ainda que não se afastando nas suas linhas gerais, aparece aqui mais comedida.

Assim a viu Carlos Van Zeller, oficial do exército britânico, cerca de 1834, com a sua coca muito saliente, terminando num bicoque, pelo que afirma, encurvava quase até ao nível do queixo. Não se poupa ao comentário depreciativo comum a quantos, nesta época, se referem a esta peça de vestuário: «The walking dress of fema'e of Coimbra is ridiculous in the estreem. The mantilha is in every aspect the same as that of Oporto except the cape which projects to an extraordinary lengíh beyond the face so as nearly to hide it, ending in a sharp point which bends down wards nearly as far as the chin».

Além das notas manuscritas, Van Zeller fez alguns esboços, dos quais nos interessam particularmente os pormenores da mantilha coimbrã que reproduzimos na Fig. 2.

Fig. 2.jpg

Fig. 2 - Coca da mantilha coimbrã, segundo apontamentos de viagem de Carlos Van Zeller, em 1853

De facto, é a coca que verdadeiramente distingue e define a mantilha de Coimbra, só encontrando rivais no Porto, Viseu e Braga que não lhe ficam atrás na singularidade. Estamos em crer que o desenvolvimento do tamanho da coca foi uma consequência dos toucados, por vezes muito elaborados, em moda, sobretudo, na última metade do século XVIII.

 

Borges, N. C. A Mantilha e o seu uso em Coimbra, In: “Munda”, 7, Coimbra, Revista do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, 1984, p. 60-71.

 

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por Rodrigues Costa às 11:27


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