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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 17.04.25

Coimbra: Hipólito Raposo e a sua vivência coimbrã

O Dr. Mário Araújo Torres, prossegue na tarefa a que meteu ombros de puxar para o nosso tempo, textos esquecidos: uns em que se faz a história, outros em que se contam vivências na nossa Cidade.

Daí, considerar que todos os conimbricenses lhe devem, mais uma vez, um reconhecido: Muito obrigado.

Na prossecução desse caminho acaba de publicar mais uma obra.

CD, capa.jpg

Op. cit., capa

Obra que leva o título Coimbra Doutora seguido de Livro de Horas (1908-1911) e que Mário Araújo Torres sintetiza, na contracapa da seguinte forma:

«Coimbra Doutora» foi o título dado por Hipólito Raposo à edição em livro, em livro da sua «Memória sobre tradições universitárias de Coimbra», com que concorreu e foi premiado nos jogos Florais Hispano-Portugueses de Salamanca, de 1909, onde descreve as fases principais da história da instituição universitária  portuguesa, desde a fundação em Lisboa em 1290 por D. Dinis, passando pelo ambiente do século XV até ao esplendor após a transferência para Coimbra em 1537, o declínio subsequente à entrada dos jesuítas e insta]ação da inquisição, ao ressurgimento dos estudos com a reforma pombalina, até ao século XIX e a luta pela modernização e europeização. Não se limitou somente à história institucional, traçando impressivos quadros da vivência quotidiana dos membros da Universidade, suas praxes e costumes. Conclui a obra com transcrições de poesias constantes de manuscritos descobertos, graças ao seu labor investigatório, na Biblioteca Joanina, designadamente sobre a jornada da Academia a Elvas, em 1645, na Guerra da Restauração.

Ainda escolar em Coimbra, Hipólito Raposo editou o seu «Livro de Horas», cobrindo o período de 1908 a 1911, onde, em pequenos capítulos, evoca monumentos e suas histórias (Mosteiro de Lorvão e Santa Comba), lentes (Avelino Calisto e Paiva Pita), estudantes (Diogo Polónio), a famosa Maria Marrafa (servente de estudantes e distribuidora de sebentas), artistas famosos (Mimi Aguglia), e diversos episódios da sua vivência coimbrã.

Com diversos condiscípulos seus (entre eles, Alberto de Monsaraz, Alberto da Veiga Simões, António Sardinha, Luís de Almeida Braga, Luís Cabral de Moncada, Manuel Eugénio Massa, Manuel Paulo Merêa), integrou o grupo, de Tendências literárias, designado por Exhoterikos, de cujo órgão – a Treiskaidekopeia – se publicou um único número, reproduzido no presente volume.

CD, contracapa pormenor.jpg

Op. cit., capa, pormenor

Sobre o autor dos textos ora relembrados é apresentado a seguinte nota biográfica.

CD, capa pormenor.jpg

Hipólito Raposo. In. Op. cit., capa, pormenor

José Hipólito Raposo nasceu em S. Vicente da Beira (Castelo Branco), a 13 de fevereiro de 1885. Filho de João Hipólito Raposo e de Maria Adelaide Gama, no seio de uma família de agricultores, profundamente religiosa, ingressou em 1902 no Seminário da Guarda, donde seria expulso em 1904, devido a atitudes de independência e frontalidade, que sempre o caraterizaram.

Cursou o ensino secundário no Liceu de Castelo Branco, finalizando-o no Liceu de Coimbra, cidade onde se matriculou na Faculdade de Direito em 1906, formando-se em 1911.

Ainda estudante, distinguiu-se pela frequente colaboração na imprensa periódica (crónicas semanais no «Diário de Notícias») e publicou os primeiros livros, sobre temas históricos e literários.

Terminado o curso, enveredou pelo ensino (Conservatório Nacional e Liceu Passos Manuel) em Lisboa, onde se fixou.

Em 1914 foi um dos fundadores do movimento politico-cultural «Integralismo Lusitano».

Teve papel relevante no pronunciamento monárquico de Monsanto, em 1919, tendo sido demitido das funções públicas que exercia e condenado a prisão no Forte de S. Julião da Barra. Cumprida a pena de prisão, exilou-se em Angola (1922-1924), dedicando-se à advocacia.

De regresso a Portugal, continuou a exercer a profissão de advogado e publicou diversas obras políticas, literárias e históricas.

Reintegrado no cargo de professor do Conservatório (1926), prosseguiu a sua atividade de doutrinador político independente.

Em 1940, a publicação da obra «Amar e Servir» em cujo prólogo tecia críticas à «Salazarquia», provocou de novo a sua demissão das funções públicas e a sua prisão, com subsequente deportação para a Ilha Graciosa.

Hipólito Raposo faleceu em Lisboa, a 26 de agosto de 1953, deixando uma vasta obra publicada sobre temas políticos, históricos, literários e artísticos.

Numa primeira leitura, Coimbra Doutora é uma visão muito própria da história da Universidade de Coimbra, dos factos e das pessoas que a marcaram. Visão polvilhada de memórias de estudantes que se destacaram aos longo dos séculos.

O Livro de Horas e a Treiskaidekopeia, cada um por si, constituem quadros que, para os princípios do século XX, nos permitem conhecer não só acontecimentos que em Coimbra ocorreram, bem como a idiossincrasia das pessoas que aqui se preparavam e construíam as bases do seu futuro pessoal e do futuro do País.

A leitura e a ponderação da obra ora editada merecem uma leitura e reflexão atenta. Quanto mais não seja para se aquilatar das profundas diferenças entre esse passado e o nosso presente.

Rodrigues Costa

Textos citados do livro: Raposo, H. Coimbra Doutora seguido de Livro de Horas (1908-1911). Recolha de textos, introdução e notas por Mário Araújo Torres. 2025. Lisboa, Edições Ex-Libris.

 

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por Rodrigues Costa às 17:27

Quarta-feira, 25.01.23

Conversas abertas. Recomeçam depois de amanhã, 6.ª feira

É já depois de amanhã, 6.ª feira, dia 27 de janeiro que às 18h00, se iniciam as Conversas Abertas deste ano que irão decorrer na Sala de D. João III, do Arquivo da Universidade de Coimbra.

E para bem começar o Dr. Mário Araújo Torres irá falar de três personalidades ligadas a Coimbra, que se tornaram marcantes na vida cultural nacional na segunda metade do século XIX, todos autodidatas.

Folha de sala.png

AUC. Pormenor da Folha de Sala

Sobre o Palestrante já tivemos ocasião de escrever, em 17 de fevereiro de 2022

Mário de Araujo Torres.png

Dr. Mário de Araújo Torres

Sendo a importância da reedição de textos, há muito esquecidos e esgotados, de autores que escreveram sobre Coimbra, inquestionável, lembra-se, mais uma vez, que após a sua jubilação o Dr. Mário de Araújo Torres, se dedicou à recolha e reedição – à sua custa, hoje, com mais de 10 títulos publicados – de autores que em Coimbra desenvolveram a sua atividade.

É exemplo um dos primeiros que editou: a produção etnológica e pedagógica do poeta Afonso Duarte.

Embora sabendo que Mário Araújo Torres é avesso a agradecimentos, temos repetidamente afirmado, e mais uma vez o fazemos, que Coimbra lhe deve um institucional: OBRIGADO.

Na modéstia do conimbricense que somos, pelo nosso lado, aqui fica esse reconhecimento, acrescentando que o Dr. Mário Araújo Torres é credor de todos os conimbricenses de uma palavra simples, mas que diz muito: OBRIGADO.

Agradecimento, que é feito perante o silêncio do Município já tantas vezes alertado para este seu dever.

Coimbra não pode, nem deve, continuar a ser madrasta quer para os seus filhos, quer para quantos fizeram de Coimbra a sua cidade.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 10:49

Quarta-feira, 17.06.20

Coimbra: O Antiquário Conimbricense

Esperando voltar, daqui a cerca de um mês, às publicações regulares de entradas neste blogue, faço hoje uma breve interrupção no silêncio que as circunstâncias me impuseram.

A razão deve-se à recente publicação do livro O Antiquário Conimbricense seguido de Elvenda ou Conquista de Coimbra por Fernando Magno, que constitui o quarto volume da série de livros antigos sobre Coimbra, resultante da recolha dos textos e notas levadas a cabo por Mário de Araújo Torres, que além disso patrocina a sua publicação.

Trata-se de mais uma reedição que Coimbra fica a dever àquele conimbricense de alma e coração, a quem a Cidade ainda não fez o agradecimento público pela meritória tarefa a que se propôs e já realizou.

Numa Nota Prévia, é traçada uma biografia de Manuel da Cruz Pereira Coutinho (1808-1880), o autor das obras ora reeditadas, das quais respigamos as seguintes passagens.

Nasceu na freguesia de Almagreira, concelho de Pombal, em 1808, no seio de uma família de parcos recursos, tendo, ainda moço, vindo para Coimbra trabalhar como caixeiro de um botequim, à Sé Velha. Por ocasião do seu falecimento, em 24 de janeiro de 1880, recordou Joaquim Martins de Carvalho que "na primeira quadra deste século, e ainda alguns anos depois, havia um botequim ( ... ) à Sé Velha", onde se via "a servir os fregueses, um mocinho, chamado apenas Manuel da Cruz ( ... ). Nos intervalos de aviar os fregueses agarrava-se logo aos livros, que lia com avidez, e, à falta de mestres, pedia a alguns frequentadores da loja para o ensinarem. O mocinho de então, totalmente desajudado e limitado exclusivamente aos seus próprios esforços, acaba de falecer nesta cidade ( ... ) na idade de 72 anos. Do pobre filho do povo, do caixeiro do botequim, saiu o sr. P.e Manuel da Cruz Pereira Coutinho, amanuense da Administração-Geral deste Distrito em 1837, Vice-Reitor do Colégio dos Órfãos a cargo da Misericórdia, secretário particular do Reitor da Universidade, Conde de Terena [Sebastião Correia de Sá, 1.° Conde de Terena, Reitor da Universidade entre 1841 e 1848], prior de S. Pedro, prior de S. Cristóvão, cónego honorário da Sé de Coimbra, associado provincial da Academia Real das Ciências, sócio efetivo do Instituto de Coimbra, vice-presidente da secção de arqueologia, distintíssimo paleógrafo, investigador e escritor incansável! Tanto podem o trabalho e a força de vontade." (O Conimbricense, n." 3390, janeiro de 1880).

Capa.png

Obra editada, capa

A iniciativa bibliográfica de maior vulto de Manuel da Cruz Pereira Coutinho foi indubitavelmente a edição de O Antiquário Conimbricense (1841-1842), por ele fundado, dirigido e inteiramente redigido.

Antiquário n.º 1.pngImagem acedida na obra ora editada, pg. 15

Foi a segunda mais antiga publicação periódica impressa em Coimbra (a seguir à Minerva Lusitana, de 1808-1811) e "a primeira publicação periódica portuguesa dedicada exclusivamente a antiguidades medievais que foi editada entre nós" (Mário Jorge Barroca, Epigrafia Medieval Portuguesa (862-1422), vol. lI, tomo I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, pág. 1659).

Elvenda.pngImagem acedida em: https://www.eclecticaleiloes.com/pt/auction/lot/id/22234

Em 1869, Manuel da Cruz Pereira Coutinho editou um prospeto anunciando uma sua nova iniciativa: o lançamento de uma publicação que deveria intitular-se Epigrafia Conimbricense ou Coleção de inscrições lapidares.

Na presente edição, reproduz-se integralmente o conteúdo de «O Antiquário Conimbricense, mas como nova disposição gráfica: na primeira parte, inserem-se, pela ordem em que surgiram nos diversos números, as inscrições lapidares, transcrevendo-se as respetivas leituras e notas históricas; na segunda parte, surgem, sem quebras de sequência, os documentos e notícias divulgados, agrupados por ordem cronológica e proximidade temática. Manteve-se a grafia dos documentos históricos reproduzidos, mas atualizou-se a dos textos da autoria de Manuel da Cruz Pereira Coutinho. Atribuiu-se numeração sequencial às notas de rodapé e completaram-se as referências bibliográficas, com menção completa dos nomes dos autores, títulos, editor, local e data da edição.

Quanto à projetada publicação Epigrafia Conimbricense ou Coleção de Inscrições Lapidares, reproduz-se o prospeto que anunciava essa iniciativa, em digitalização cedida pela Biblioteca Universitária João Paulo II, da Universidade Católica Portuguesa, que penhoradamente se agradece.

Da vasta colaboração de Manuel da Cruz Pereira Coutinho em publicações periódicas, reproduzem-se três artigos, diretamente relacionados com a história de Coimbra: "Ponte de Coimbra" (O Instituto, vol. I, 1853), "As Emparedadas de além da Ponte de Coimbra ou as Agostinhas Calçadas do Convento de Sant' Ana" (O Instituto, vol. XII, 1863), e "Chão da Torre" (O Zéphyro, n." 8, 31 de maio de 1872), este último sobre a Torre dos Sinos do velho Convento de S. Domingos, em Coimbra.

Mário de Araújo Torres

Este livro pode ser adquirido em: www.sitiodolivro.pt, ou 211 932 500.

 

 



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por Rodrigues Costa às 19:35


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