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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 14.06.22

Coimbra: Miguel Torga e os seus lugares na Cidade 1

Um dos itinerários organizados por Carlos Santarém Andrade, no âmbito da iniciativa Passear na Literatura, foi dedicado a Miguel Torga. Dessa iniciativa tão meritória, para além da memória, resta um pequeno e muito bem ilustrado folheto com o título … A ver correr Serenas, as Águas do Mondego.

É dele que nos socorremos para, mais uma vez, lembrar Torga e o seu percurso pela terra que adotou como sua.

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Folheto, capa

Adolfo Correia da Rocha nasceu em São Martinho de Anta, em Trás-os-Montes, em 1907. Depois de concluir a escola primária na sua terra natal e após uma breve passagem pelo Seminário de Lamego, ruma ao Brasil, com 13 anos de idade. Em 1925 regressa a Portugal, chegando a Coimbra no Outono desse ano, a fim de tirar um curso.

Para ingressar na Universidade precisava primeiro de fazer o curso liceal. Instalado num pequeno colégio na Estrada da Beira (hoje Rua do Brasil), faz os cinco primeiros anos em apenas dois.

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Morando depois numa casa ao fundo da Ladeira do Seminário, conclui num só ano os dois que lhe faltam, frequentando o Liceu José Falcão, então sediado no antigo Colégio Universitário de S. Bento, sobranceiro ao Jardim Botânico.

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Matriculado na Faculdade de Medicina, em 1928, publica então o seu primeiro livro, «Ansiedade». Frequentador da tertúlia literária da «Central», não tarda a sua colaboração na «Presença», em 1929, altura em que muda para a república «Estrela do Norte» (na sua ficção «Estrela de Alva»), também na Ladeira do Seminário, n.º 6. Com a chancela da «Presença» vem a lume o seu segundo livro, Rampa, em 1930. No entanto, em breve se dá a sua cisão com o movimento presencista, juntamente com Edmundo Bettencourt e Branquinho da Fonseca. Com este, que usa o pseudónimo de António Madeira, edita a revista «Sinal», de que apenas sai um número. A par dos estudos médicos a sua obra literária. prosseguia, com os contos de «Pão Ázimo» e os poemas de «Tributo», em 1931, ou «Abismo», também de versos, saídos dos prelos da Atlântica. Em todos eles usa ainda o seu nome civil, Adolfo Rocha. Finalmente, conclui o curso, em dezembro de 9933.

 

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Formado em Medicina, regressa a S. Martinho de Anta. Mas não cabiam na terra natal as suas ambições. E pouco depois está de novo em Coimbra. Sem uma situação profissional definida, numa terra em que abundavam os médicos, a escrita continuava, e mais uma vez a «Atlântida» lhe iria imprimir um novo livro. Escritor e médico, como depois escreveria, "serviria devotadamente a dois amos". Mas sentia que era necessário separar os nomes de quem empunhava o bisturi e de quem manejava a caneta. Adolfo Rocha seria o clínico, cuidando dos corpos. Para o escritor iria buscar na admiração por Cervantes e por Unamuno o nome de Miguel, a que acrescentaria Torga, matriz transmontana das urzes selvagens das suas origens. E quando em 1934 sai o livro A Terceira Voz, encimava o título o seu nome literário. "Com um Ósculo vo-lo entrego. Chama-se Miguel Torga'', escreveu pela última vez Adolfo Rocha no prefácio.

No mesmo ano vai substituir, temporariamente, o médico de Vila Nova, no concelho de Miranda do Corvo, tomando todos os fins de semana, quando as obrigações médicas não o impediam, o comboio para Coimbra, onde tinha um quarto para as suas pernoitas na A C. E. (hoje A C. M.), na Rua Alexandre Herculano. E do convívio à mesa da «Central», bálsamo semanal para o isolamento da aldeia, nascia mais uma revista, «Manifesto», que funda em 1936 com Albano Nogueira. Nesse ano, mais um livro, «O Outro Livro de Job». Não se demoraria muito em Vila Nova. O regresso do médico permanente, as intrigas aldeãs e a falta de saúde fazem-no regressar à cidade do Mondego.

Andrade. C.A. Passear na Literatura. Miguel Torga. Sem data. Coimbra, Câmara Municipal.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Terça-feira, 19.07.16

Coimbra: O estudante de Coimbra e as suas tradições 2

De uma coisa podemos falar, é que a resposta dos estudantes de Coimbra foi quase sempre a uma voz. A estreita união entre os elementos da sociedade académica, para o melhor e o pior, levava sempre a uma resposta unívoca.

Se alguém ofendia um ‘saca de carvão’, ofendia toda a Academia e a resposta era dada a uma voz; se alguém necessitava de apoio e solidariedade, corria a palavra e toda a Academia participava de qualquer ação benévola e filantrópica. Iguais entre iguais, unidos mais do que irmãos, os estudantes de Coimbra formavam um todo.

... A peculiaridade característica das instituições coimbrãs torna-as muito diversas de outras quaisquer instituições que lhe estejam ou não próximas em termos de identidade. Se se disser – ‘andar à lebre’; ‘ir ao prego’; ‘é da praxe’; ‘como manda a tradição’; ‘é uma república’; etc. – em Coimbra, têm todas estas expressões uma carga simbólica e valorativa.

Carminé Nobre ... diz-nos ... “A praxe é uma das tradições da Academia Coimbrã. Vão longe, felizmente, os tempos do ‘canelão’ e de outras manifestações praxistas que por vezes chegavam a atingir momentos de violência que degeneravam em graves conflitos académicos, sem resultados honrosos para a Capa e Batina.

Nesses tempos, Coimbra era o terror para os ‘bichos’ e ‘caloiros’ e a própria ‘carta de alforria’ do ‘semiputo’ era estritamente condicionada às leis praxistas.

... O ano letivo de 1928 iniciou-se com uma ofensiva dos praxistas que a todo o transe, queria manter essa tradição académica.

A ‘caça’ ao ‘caloiro’ e ao ‘bicho’, depois das horas regulamentares era feita por cardumes de troupes que se espalhavam por toda a cidade, batendo os lugares ‘estratégicos’ ... Nesse Outubro, porém a praxe começou a tomar aspetos conflituosos, de certa gravidade, porque aos grupos praxistas opunham-se estudantes anti-praxistas.

No fundo era uma questão política, que se debatia entre republicanos e integralistas e no meio dos quais a praxe era ‘um motivo’ ... Todo este movimento praxista e anti-praxista foi acompanhado por alguma bordoada pelas ruas de Coimbra. Na Alta, na Baixa, à porta dos cinemas e nos bairros mais afastados deram-se conflitos entre estudantes que algumas vezes tiveram o seu epílogo no Banco dos Hospitais.

... Em 1935, surgiu novo conflito com a ‘revolta dos bichos’.

Em Outubro desse ano, o estudante de Letras, Zé Barata ... desencadeou uma ‘ofensiva’ troupista que estabeleceu o pânico nas hostes do liceu José Falcão ... Esta ‘ofensiva’ criou exaltações de independência por parte dos ‘oprimidos’ e o grito de revolta surgiu, forte, teso e guerreiro ... Na Calçada, a ‘troupe’ do Zé Barata enfrentou essa manifestação, que da Alta partiu, aos gritos de ‘abaixo a tirania’... Este ‘choque’ provocou uma tremenda zaragata, na qual tomaram parte, também, estudantes universitários anti-praxistas, que não hesitaram em dar o corpo ao manifesto, na defesa do ponto de vista dos ‘bichos’

Ribeiro, A. 2004. As Repúblicas de Coimbra. Coimbra, Diário de Coimbra. Pg. 87 a 93

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por Rodrigues Costa às 23:50


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