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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 09.11.22

Personalidades de Coimbra: Campos Coroa, um Homem de causas

Perfazem-se hoje, seis meses desde que José Emílio Vieira de Campos Coroa partiu.

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Campos Coroa. Acervo Família Campos Coroa

O tempo ainda é escasso para uma análise mais aprofundada, mas importa começar a situar o Homem e o seu percurso para que a lei da morte não o faça esquecer. Um bom exemplo dessa possibilidade é a página oficial na net do Clube a que presidiu durante sete anos, onde a única referência que lhe é feita surge na secção «Histórico dos Presidentes«, onde se lê “OUT 1995 – DEZ 2002 CAMPOS COROA”.

Nascido em Coimbra, numa Família profundamente ligada ao Teatro dos Estudantes da Universidade – um dos seus fundadores e diversos dos seus atores – desde cedo também pisou os palcos.

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A Castro. Campos Coroa, como  um dos filhos. Acervo Família Campos Coroa

A sua vida de homem adulto desenvolveu-se por duas áreas.

A medicina cujo curso concluiu em 1977, quando já era casado com a Dr.ª Helena Coroa, também uma reputada médica oftalmologista, de quem viria a ter quatro filhos.

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O dia da formatura. Acervo Família Campos Coroa

Segundo informações cedidas pelo seu filho José Emílio, frequentou o Internato Geral primeiro nos HUC e depois no Centro de Saúde Pombal. Tendo concorrido ao Serviço Médico à Periferia em 1980, iniciou o mesmo em Arganil, quando em maio desse ano foi chamado a cumprir o Serviço Militar que se prolongou até julho de 1982.

Como complemento de um reduzido salário cumpriu vários contratos renováveis nos extintos Serviços Médico Sociais, no Distrito de Leiria.

Encontrava-se ainda a cumprir Serviço Militar quando teve que se submeter a exame para a especialidade, sendo colocado inicialmente em Bragança e concluído, a partir de 1983, no Hospital da Figueira da Foz.

Importa salientar uma outra vertente, a do homem caritativo.

Um primeiro exemplo. No Instituto de Cegos, com o qual colaborou graciosamente até 1985 e aonde se deslocava, mesmo a altas horas da noite, levando medicamentos e administrando-os ás crianças cegas que o compensavam oferecendo escritos em Braille.

Aliás foi no contacto com os cegos que nasceu a sua opção pela especialidade de oftalmologia, como contou numa entrevista.

Tudo indicava que iria escolher ortopedia, ou fisiatria uma vez que eu, durante 12 anos fui médico do futebol da AAC, como também fui do andebol (funções exercidas «pro bono»). Mas também dava consultas gratuitamente às crianças do Instituto de Cegos do Loreto e, um dia, na véspera de escolher a especialidade, estacionei o carro do lado de fora, entro, e quando chego ao pé de uma miúda, sem fazer barulho nenhum, ela diz-me: «Olá dr. Coroa». Como sabias que era eu? - preguntei, e ela respondeu: «Tu bates com o calcanhar do pé esquerdo no chão com mais força do que com o direito». E na realidade é verdade, porque muito rapidamente gasto os tacões do pé esquerdo, porque a diferença de dimensão dos membros é insignificante, mas resulta nisto e a miúda topou.  Estavam umas flores num canteiro e ela perguntou-me se gostava mais das rosas brancas, ou das rosas vermelhas. E eu perguntei: O que é isso do vermelho? E a miúda respondeu. «Então não sabes, o vermelho é a cor do sabor do sorvete de morango!» No dia seguinte escolhi oftalmologia.

De assinalar outra tarefa a que o casal meteu ombros, contada na primeira pessoa: Durante dois anos, todos os fins de semana ia acabar a lista de espera do Hospital de Faro, por contrato, com uma equipa de Coimbra …. Vimos centenas e centenas de doentes, tratámos centenas e centenas de diabéticos, operamos milhares de cataratas e outros tipos de cirurgia.

Lado caritativo, por certo pouco conhecido da generalidade, e assim deve continuar, de que damos só mais um exemplo. O do apoio a uma família São-Tomense a quem, do seu bolso, doou o necessário. pelo menos entre 2000 e 2003, para que uma Filha pudesse prosseguir os estudos. A Família ainda guarda as cartas de agradecimento que, por tal, lhe foram dirigidas.

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Carta de agradecimento por mais um donativo. Acervo Família Campos Coroa

Mas a memória que os conimbricenses guardam mais profundamente é a de dirigente desportivo. O que é perfeitamente compreensível pois, em minha opinião, Campos Coroa foi o último Presidente carismático do AAC/OAF.

A sua carreira de dirigente associativo começou, em 1974 quando foi eleito diretor da secção de Futebol da AAC.

Mas será mais adequado voltar a ouvi-lo, numa entrevista ao ´«Campeão das Províncias, datada de 18 de outubro de 2012, intitulada Tive uma Académica de causas, na qual lembra a sua carreira de dirigente.

O Fausto Correia era o presidente e eu era o adjunto, mas já tinha estado na Direção de Mendes Silva. Depois fui presidente da AAC/OAF de Outubro de 1995 a Dezembro de 2002. Peguei na Briosa na ll Divisão, onde estava há 10 anos, e subi por duas vezes à I Divisão, onde a deixei.

 

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Campos Coroa, presidente da AAC/OAF. Acervo Família Campos Coroa

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Uma fotografia mítica. Acervo Família Campos Coroa

Deu-me prazer fazer uma Académica mais aproximada da Académica que penso dever existir. No meu tempo houve sempre jogadores que eram estudantes da Universidade de Coimbra. Tínhamos o velho estádio sempre cheio, onde cabiam 15 000 pessoas, e deixava entrar os estudantes dizer «Abaixo a coincineração» e, em conjunto com a DGAAC, envergar camisolas com «Liberdade para Timor-Leste».

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Fotografia com Xanana Gusmão. Acervo Família Campos Coroa

Dentro das possibilidades, era uma Académica de causas.

Nota: Agradeço à Família Campos Coroa a cedência da documentação que permitiu a elaboração desta, tão justa, entrada.

Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 10:42


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