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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 23.11.16

Coimbra: a Roda dos Expostos

As «Ordenações Filipinas» (1603), livro I, título 88, Parágrafo II, legislavam sobre os filhos ilegítimos, obrigando a família da criança, até ao terceiro grau, tomá-la à sua guarda e criação, e na falta de familiares a serem entregues em hospitais e albergarias. O mesmo princípio era aplicável aos filhos de religiosos ou de mulheres casadas, com os maridos ausentes.

... A Misericórdia de Coimbra tinha já no seu «Compromisso» de 1620 um capítulo que tratava «De como se há-de acudir aos meninos desamparados», e onde se dizia não lhe caber o encargo com os meninos abandonados ou enjeitados, que pertencia sim às Câmaras Municipais, mas tão-somente lhe pertencia a defesa daqueles a quem as mães morriam, ou adoeciam demoradamente, e não tivessem família para as acolher

... as provisões régias de 7 de Maio de e 14 de Novembro de 1708 fizeram passar para o total encargos das Misericórdias o acolhimento de todos os expostos.

... vindo a ser oficialmente reconhecidas as «rodas» no reinado de D. Maria I, através do seu ministro Pina Manique, e, pela lei de 24 de Maio de 1783.

... em 19 de Setembro de 1826 é publicado um decreto que ... criava em cada distrito administrativo, e a ser suportado economicamente pelas Câmaras ... «rodas» para criação de expostos.

... em 19 de Março de 1839 que se «assentou em princípio» tomar conta daquela administração, fazendo publicar um regulamento, contido em 106 artigos, e cujo preâmbulo abria com as palavras «a Câmara Municipal desta Cidade de Coimbra compelida pela lei a tomar sobre seus já sobrecarregados ombros o fardo da Administração dos Expostos, fardo tanto mais pesado quanto é certo o lamentável estado a que por força das circunstâncias se acha reduzido um estabelecimento tão pio...»

... constantes foram as dificuldades da Câmara na sustentação, proteção medico medicamentosa, e até de alojamento, para centenas de crianças, que no clamor horrorizado de Martins de Carvalho «os infelizes expostos estão também sofrendo o péssimo estado da receita das câmaras municipais. Há dias abriu-se o pagamento às amas do trimestre de Outubro a Dezembro de 1856. Pagou-se a quantia de 1.200$000 réis, que existiam em cofre, e suspendeu-se o pagamento às amas que restavam, que eram ainda mais de dois terços.»

E seria o Mesmo Martins de Carvalho que explodindo em raiva, escrevia pouco depois «consta-nos que no mês de Agosto findo entraram na roda desta cidade 24 expostos e faleceram 32! Isto é horrível e extraordinariamente desumano! Por esta forma está a roda convertida em um açougue. Desgraçado do recém-nascido que entre o limiar daquela casa”

... 1863-15/XI – O Asilo da Mendicidade aloja-se na casa da Travessa de Montarroio onde antes estivera a Roda dos Expostos

... 1864-21/III – A Junta Geral do Distrito alija de si a manutenção da Roda dos Expostos que atribui, nos termos legais, à Câmara, mantendo-se assim até 1872, ano em que se passou a denominar de «Hospício»

... 1865-10/III – Muda-se a roda dos expostos da casa de Montarroio para o dormitório do Pilar, de Santa Cruz

 

... Expostos no período de 1849 a Outubro de 1857

1849 - Expostos entrados, 648; Expostos falecidos, 536

1850 - Expostos entrados, 597; Expostos falecidos, 343

1851 - Expostos entrados, 683; Expostos falecidos, 338

1852 - Expostos entrados, 604; Expostos falecidos, 262

1853 - Expostos entrados, 470; Expostos falecidos, 52

1854 - Expostos entrados, 600; Expostos falecidos, 60

1855 - Expostos entrados, 462; Expostos falecidos, 224

1856 - Expostos entrados, 477; Expostos falecidos, 339

1857 - Expostos entrados, 404; Expostos falecidos, 239

 

22 de Fevereiro de 1911, é publicado o Decreto que extinguiu o «hospício».

Silva, A.C. 1972-1973. Anais do Município de Coimbra. 1840-1869. Pg. XIX a XXI, LII a LVIII

 

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por Rodrigues Costa às 11:11

Terça-feira, 22.11.16

Coimbra: o 8 de Maio de 1834

A Câmara, com a saída das últimas tropas de D. Miguel, reúne extraordinariamente em 7 de Maio, véspera da entrada em Coimbra das tropas liberais vindas da Mealhada, e a contragosto, ou por fracas convicções políticas, a Câmara da presidência do Vereador mais velho, Dr. Joaquim da Costa Pacheco, delibera «proclamar Dona Maria II Rainha de Portugal, com geral satisfação e entusiasmo não só dos membros da mesma Câmara. Mas de toda a cidade, de cujos sentimentos estão sabedores os mesmos representantes da Cidade e da Câmara.»

Esta deliberação foi levada ao comandante das forças liberais, estacionadas, como se disse, na Mealhada, forças que «passaram» por Coimbra no dia seguinte, sob o comando do Duque da Terceira.

Aquela «satisfação e entusiasmo» era postiça dado que a cidade, pela situação especial de nela estar a Universidade, o Bispado, e os numerosos Colégios religiosos, fora sempre mais para a banda da fação de Dom Miguel, só que a repentina metamorfose dos edis não obstou à sua substituição imediata.

Quanto à Câmara, parece que nada mais aconteceu que esta mudança, já o mesmo não se dando com o Bispo Dom Joaquim de Nazaré, que indo despedir-se, ao Alentejo, de Dom Miguel, foi preso no regresso a Coimbra, em Arraiolos, e depois levado para o Castelo de Lisboa, onde esteve preso cinco meses.

E os saneamentos também chegaram à Universidade, sendo dela expulsos quarenta e seis lentes e numerosos estudantes.

O período que se seguiu àquele 8 de Maio, após uns dias de euforia liberal, foi o que era de prever, como reação a anteriores perseguições miguelistas. Dos partidários miguelistas, os mais notáveis que não puderam fugir, foram presos e alguns assassinados nas ruas.

Martins de Carvalho, impoluto liberal, que sempre combatera o miguelismo e por isso se homiziara e sofrera prisão, escreveu atribuindo esses crimes a exaltados, não escondendo que, em Coimbra, se instalara a anarquia e pela Beira era grande a inquietação, formando-se quadrilhas de bandidos e assassinos como os Brandões e outros.

Silva, A. C. 1988/89. Notas para a história da zona envolvente do Mosteiro de Santa Cruz. Separata de Arquivo Coimbrão, vol. XXXI-XXXII. Coimbra. Câmara Municipal. Pg. 26 e 27

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por Rodrigues Costa às 23:20


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