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A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 06.11.19

Casa da Escrita: Conversas abertas, 6.ª feira, 15.11.2019, 18h00

Tendo surgido dúvidas confirma-se que a próxima Conversa Aberta, terá lugar na 6.ª feira, 15.11.2019, às 18h00 

Casa da escrita 1.jpg

Casa da escrita (Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590)

Tema: JOÃO DE RUÃO UM ESCULTOR DE COIMBRA
Palestrante: NELSON CORREIA BORGES 

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Natural de Lorvão, concelho de Penacova, é professor aposentado do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Fez doutoramento em História da Arte, tendo apresentado a dissertação intitulada Arte Monástica em Lorvão. Sombras e Realidade.
É académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa e fundador de quatro associações de defesa do património: o GAAC - Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, a Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão, o Grupo Folclórico de Coimbra e a Confraria dos Sabores de Coimbra. É membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra.
Coimbra, a arte monástica e conventual, o Barroco e o Rococó, designadamente a arquitetura e a talha, são os campos a que mais se tem dedicado, tendo apreciável número de trabalhos publicados sobre estas matérias, bem como nas áreas de Arqueologia e Antropologia Cultural, designadamente Etnografia e Folclore, que igualmente lhe têm servido de tema para palestras, conferências e participação em reuniões científicas.
De entre as monografias publicadas podem destacar-se:
João de Ruão, escultor da Renascença Coimbrã (1980)
A Arte nas festas do casamento de D. Pedro II (1983)
História da Arte em Portugal — Do Barroco ao Rococó (1987)
Coimbra e Região (1987)
Arquitectura monástica portuguesa na época moderna (1998)
Arte Monástica em Lorvão. Sombras e realidade. (2001)
Doçaria conventual de Lorvão. (2013, 2017)

Deposição, obra de João de Ruão.jpg

Deposição no tumulo, obra de João de Ruão

Virgem e o Menino, obra de João de Ruão.jpg

A Virgem e o Menino, obra de João de Ruão

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.
Tags: Coimbra séc. XVI, Casa da Escrita, João de Ruão, Renascença Coimbrã

 

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por Rodrigues Costa às 10:47

Sábado, 02.11.19

Casa da Escrita: Conversas abertas, 6.ª feira, 15.11.2019, 18h00

Casa da escrita, 15.11.2019, 6.ª feira, 18h00

Casa da Escrita 8a.JPG

Casa da escrita (Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590)

CONVERSA ABERTA, Tema: JOÃO DE RUÃO UM ESCULTOR DE COIMBRA

PALESTRANTE: NELSON CORREIA BORGES

ncb.jpg

Natural de Lorvão, concelho de Penacova, é professor aposentado do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Fez doutoramento em História da Arte, tendo apresentado a dissertação intitulada Arte Monástica em Lorvão. Sombras e Realidade.
É académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa e fundador de quatro associações de defesa do património: o GAAC - Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, a Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão, o Grupo Folclórico de Coimbra e a Confraria dos Sabores de Coimbra. É membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra.
Coimbra, a arte monástica e conventual, o Barroco e o Rococó, designadamente a arquitetura e a talha, são os campos a que mais se tem dedicado, tendo apreciável número de trabalhos publicados sobre estas matérias, bem como nas áreas de Arqueologia e Antropologia Cultural, designadamente Etnografia e Folclore, que igualmente lhe têm servido de tema para palestras, conferências e participação em reuniões científicas.
De entre as monografias publicadas podem destacar-se:
João de Ruão, escultor da Renascença Coimbrã (1980)
A Arte nas festas do casamento de D. Pedro II (1983)
História da Arte em Portugal — Do Barroco ao Rococó (1987)
Coimbra e Região (1987)
Arquitectura monástica portuguesa na época moderna (1998)
Arte Monástica em Lorvão. Sombras e realidade. (2001)
Doçaria conventual de Lorvão. (2013, 2017)

S. Silvestre, obra de João de Ruão.JPGSanta Catarina de Dornes, obra de João de Ruão

Jardim de Mangua, obra de João de Ruão.jpgJardim da Manga, obra de João de Ruão

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 11:27

Sexta-feira, 25.10.19

Casa da Escrita: Conversas abertas, 6.ª feira, 15.11.2019, 18h00

Casa da Escrita 5a.JPG

Casa da escrita, Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590

Tema:
JOÃO DE RUÃO, MESTRE DA RENASCENÇA COIMBRÃ.
Palestrante: Nelson Correia Borges

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Natural de Lorvão, concelho de Penacova, é professor aposentado do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Fez doutoramento em História da Arte, tendo apresentado a dissertação intitulada Arte Monástica em Lorvão. Sombras e Realidade.
É académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa e fundador de quatro associações de defesa do património: o GAAC - Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, a Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão, o Grupo Folclórico de Coimbra e a Confraria dos Sabores de Coimbra. É membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra.
Coimbra, a arte monástica e conventual, o Barroco e o Rococó, designadamente a arquitetura e a talha, são os campos a que mais se tem dedicado, tendo apreciável número de trabalhos publicados sobre estas matérias, bem como nas áreas de Arqueologia e Antropologia Cultural, designadamente Etnografia e Folclore, que igualmente lhe têm servido de tema para palestras, conferências e participação em reuniões científicas.
De entre as monografias publicadas podem destacar-se:
João de Ruão, escultor da Renascença Coimbrã (1980)
A Arte nas festas do casamento de D. Pedro II (1983)
História da Arte em Portugal — Do Barroco ao Rococó (1987)
Coimbra e Região (1987)
Arquitectura monástica portuguesa na época moderna (1998)
Arte Monástica em Lorvão. Sombras e realidade. (2001)
Doçaria conventual de Lorvão. (2013, 2017)

D. Duarte, obra de João de Ruão.jpg

D.Duarte de Lemos, obra de João de Ruão

Sé Velha, capela, obra de João de Ruão.jpgSé Velha, capela, obra de João de Ruão

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 11:15

Terça-feira, 02.07.19

Coimbra: Retábulo da Vida da Virgem, na Sé Nova

Os retábulos dos altares da Sé Nova formam um conjunto notável e raro que demonstra a evolução da talha desde os fins do séc. XVI até ao princípio do XVIII. Já aqui nos referimos ao retábulo barroco da capela de S. Tomás de Vila Nova. Quedamo-nos agora no que representa a Vida da Virgem, na segunda capela do lado direito, a seguir à porta da entrada.

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Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem

Datará ele de cerca de 1676 e apresenta uma estética ainda claramente maneirista.
É uma bela composição arquitetónica, fazendo apelo a elementos clássicos. Divide-se em três panos verticais e três zonas em altura. Pares de colunas laterais, com entablamentos em avanços e recuos definem espaços preenchidos por relevos. São totalmente revestidas com motivos vegetalistas. O topo, em meia lua, para se adaptar à abóbada da capela, é preenchido por motivos decorativos envolvendo um medalhão oval com simples pintura alegórica, outrora um Pentecostes, de Josefa de Óbidos, que agora se encontra no museu Machado de Castro.

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor. c

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da predela

A predela do retábulo é ilustrada com três relevos baseados em gravuras do renascimento italiano. O Nascimento da Virgem é o mais pitoresco, com a parturiente numa cama de dossel, uma serva aquecendo a roupa e outras três dando banho à menina, enquanto S. Joaquim dorme recostado numa cadeira. Segue-se a Apresentação de Maria no templo e os Esponsais da Virgem com S. José, acompanhados, respetivamente de três figuras femininas e outras tantas masculinas.

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da

Sé Nova. Retábulo da vida da Virgem, pormenor da Coroação da Virgem

Mesmo um olhar menos experimentado notará que os relevos do andar superior não têm o mesmo nível de execução dos do inferior. O tema central do andar inferior é a Coroação da Virgem, de figuras delicadas e suaves, tanto da Virgem como da Trindade, como dos inúmeros anjitos envolventes, que formam uma auréola oval por sobre a Virgem. Nos intercolúnios laterais vêem-se a Assunção e a Anunciação. A Virgem da Assunção é criatura de graça recatada e pura, panejamentos naturais, bem talhados. O estreito espaço disponível obrigou o escultor a colocar o anjo da Anunciação quase na vertical, parecendo descer com sua mensagem sobre a Virgem recetiva, resultando numa cena de gracioso encanto.
A parte superior destes relevos laterais denota, porém, já mão de outro artista menos hábil. Será o mesmo dos relevos da parte superior, de figuras mais rígidas e tipificadas. O quadro central é dominado pela Senhora da Conceição e os laterais mostram a Sagrada Família e a Visitação a Santa Isabel.
O retábulo da capela fronteira, dedicado à Senhora do Pópulo ou Santo António é, sem dúvida, do mesmo escultor dos relevos da parte inferior da Vida da Virgem. Apresenta uma linguagem já protobarroca e tem como principal valor artístico a Assunção, plena de serena graciosidade.
Quem terá sido o escultor destas figuras vagamente aparentadas com a escultura castelhana contemporânea?
Não existe prova documental para este retábulo, mas outros indícios indicam o nome de Manuel da Rocha. Manuel da Rocha era original da região do Porto e veio estabelecer-se em Coimbra, cidade onde o trabalho não faltava para dotação dos colégios universitários que então ainda se erigiam. Casou em 1647 com uma filha de Manuel Tibau, outro escultor radicado em Coimbra. Em 1654 contratou fazer o retábulo da Senhora das Neves, antecessor do que agora se encontra na Sé. Faleceu em 30 de janeiro de 1676, sendo sepultado na igreja de S. João de Santa Cruz (hoje o Café), onde repousam também outros artistas de Coimbra, designadamente João de Ruão. A morte impediu-o de terminar o retábulo da Vida da Virgem, continuado talvez por um seu colaborador, donde a diversidade de execução que ficou saliente.
A capela apresenta um revestimento lateral de mármores polícromos almofadados que deixam livre espaço superior outrora ocupado por pinturas que agora se encontram noutro lugar da Sé. A sua linguagem encontra-se, por isso incompleta, mas as figuras de Manuel da Rocha continuam a encantar com o seu ar de repouso, de ventura íntima e serena tocada de ternura que, porque não?, continuam a encaminhar-nos à devoção.

Nelson Correia Borges. Correio de Coimbra, n.º 4744, de 20.06.2019

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por Rodrigues Costa às 10:34

Terça-feira, 17.07.18

Coimbra: Igreja de São Tiago cronologia

- Nos finais do séc. XI/ início de XII, existia uma edificação romano-bizantina, da qual ainda estavam inteiros dois pórticos, em 1894. Em 1131 aparece referida tendo por prior um D. Onorio. Até 1183 esteve sujeita ao Arcebispo de Compostela, e a partir daí passou a pertencer ao bispo conimbricense. 

- Foi sagrada sob a designação de basílica em 1206, devido a profanação, reparação ou reconstrução.  

- Em 1500, D. Manuel funda a Misericórdia em Coimbra. E, em 1526, esta muda-se para o celeiro da Igreja Paroquial de São Tiago. Em 3 de Junho de 1546 é lançada a primeira pedra da Igreja Velha da Misericórdia sobre uma das naves de S. Tiago, concluída em 1549, com capelas, retábulos e varanda de João de Ruão. No entanto acontecem divergências com a paróquia, e saem, e em 1571 começam mesmo a construir outro edifício na mesma praça, mas em 1587 suspendem os trabalhos. Voltam a S. Tiago em 1589. São retomadas as obras. Deu-se a deformação da frontaria com o acrescento de dois pisos. A rosácea é rasgada e convertida em janela de sacada. Em 1772 vão para a Sé Velha, mas pouco depois voltam para São Tiago. De facto, a Misericórdia tinha tido várias localizações, mas acabava sempre por voltar. No séc. XVIII nova reforma desfigurou-lhe completamente as naves interiores, tendo as suas paredes sido todas estucadas. 

- Em 1841 a Misericórdia vai definitivamente para o Colégio da Sapiência, junto com o Colégio dos Órfãos.

Igreja da S. Tiago e Misericórdia 02. Boletim.JPG

 S. Tiago antes das obras

 - Em 1858, quando a Câmara procede ao alargamento da “tortuosa, escura e estreitíssima” Rua do Coruche, para a converter na atual Visconde da Luz, as absides da capela-mor e laterais foram cortadas e, portanto, as proporções da planta inteiramente alteradas. Além disso não se respeitou a disposição da antiga escadaria que dava acesso à porta principal, tendo sido introduzida como que uma escadaria “em trono”.

Igreja de Santiago obras.jpg

S. Tiago durante as obras

- Em 1861, é demolida a Capela-mor de São Tiago e parte do Adro da Misericórdia Velha. Para restabelecer o acesso às instalações, constroem-se umas escadas e um patim gradeados.


S. Tiago depos obras 1.JPG

 S. Tiago depois das obras

 A antiga Igreja da Misericórdia vem a ser demolida em 1908. Em 1930, a igreja é visitada por um conjunto de especialistas, no sentido de serem tomadas opções para o restauro. No entanto o restauro só se conclui em 1935, pelos Monumentos Nacionais.

 

Anjinho, I. 2006. Da legitimidade da correção do restauro efetuado na Igreja de S. Tiago em Coimbra. Acedido em 2018.01.23, em https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31091/1/

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por Rodrigues Costa às 09:33

Terça-feira, 13.03.18

Coimbra: O Santo Cristo do Arnado

O Professor Doutor Nelson Correia Borges acaba de divulgar este excelente texto sobre o Santo Cristo do Arnado. Consideramos que as informações nele contidas, dada a sua importância, merecem uma mais ampla difusão e não devem ficar confinadas ao círculo restrito dos leitores do jornal onde foi publicado.

Santo Cristo do Arnado.JPG

 Senhor Santo do Arnado. Claustro da Sé-Velha de Coimbra

 

Era um cruzeiro de caminhos, como tantos outros que assinalam a entrada das localidades. Situava-se na antiga entrada de Coimbra, para quem vinha do Norte.

A velha estrada do Porto correspondia à atual rua da Figueira da Foz. Passava à Gafaria de S. Lázaro, fundada e dotada pelo rei D. Sancho I e, antes de chegar à rua da Sofia, aberta por Fr. Brás de Braga para a construção dos colégios universitários, derivava para o lado do rio em terreno de areais que deram o nome ao sítio: Arnado. Foi nos campos do Arnado que o mesmo rei D. Sancho I, ainda infante, fez o seu alardo em 1181, isto é, reuniu os homens de Coimbra que com ele partiram para combater vitoriosamente no Alentejo um rei mouro de Sevilha. O largo ainda hoje mantém aproximadamente o mesmo espaço de outrora. Dele partia uma viela para o porto de Santa Justa, no Mondego, a que corresponde a atual rua do Arnado; uma outra azinhaga, mais a sul, conduzia ao porto dos Cordoeiros. Daqui se entrava na cidade pela rua Direita, uma das mais importantes de Coimbra, onde se estabeleceram violeiros e cordoeiros.

Bem no meio do largo, no século XVI, os frades do convento de S. Domingos, que ficava próximo, erigiram o cruzeiro, cobrindo-o com uma cúpula sobre quatro colunas. Esta solução construtiva ainda hoje se pode ver em Arazede, Assafarge, Pocariça, Ventosa do Bairro, Vila Nova de Anços e em outras povoações da região.

Em 1652, um devoto, de seu nome Gaspar Mendes ou Gaspar dos Reis, decidiu fazer-lhe algumas benfeitorias: ergueu mais o cruzeiro por causa do assoreamento, ou levantando os degraus antigos ou construindo novos degraus; fechou o espaço entre colunas por três lados, colocando no da frente uma grade. Em 12 de Julho de 1655 os padres de Santa Justa-a-Antiga fizeram uma procissão com o Santo Cristo do Arnado até à sua agora capelinha, sinal de que as obras se prolongaram até esta data, tendo sido durante elas a imagem guardada na igreja de que agora só restam vestígios no Terreiro da Erva.

A imagem rapidamente ganhou fama de prodigiosa. Constou-se mesmo que em 1 de agosto de 1722 suara sangue e água, o que gerou grande afluência de devotos. Logo se tratou de ampliar o espaço reduzido que continha o cruzeiro, transformando-o em capela de uma nave com capela-mor, circundada de sacristia e arrumos. As obras começaram em 1723 e terminaram em 1729, sendo, entretanto, benzida em 1727.

A capela do Santo Cristo do Arnado foi demolida pela Câmara nos primeiros decénios do século XX, para obras de urbanização. Há anos atrás, quando se abriram rasgos para colocar o coletor grande da cidade, pudemos ver os seus restos destroçados e recolher um azulejo de fabrico local, para recordação. As lápides com inscrição relatando a história da capela foram recolhidas ao Museu Machado de Castro e o cruzeiro antigo levado para o claustro da Sé Velha, onde se encontra.

O conjunto escultórico, talhado em pedra de Ançã, é impressionante.  A cruz eleva-se sobre uma coluna de fuste liso com capitel coríntio renascentista, tendo no ábaco a cruz de Cristo. Lateralmente colocaram o brasão de armas da Ordem de S. Domingos e na frente as armas reais com uma píxide sobre a coroa. A cruz é de secção retangular e ergue-se sobre uma base de rocha com uma caveira e tíbias cruzadas. A escultura mostra um corpo emaciado, com os sofrimentos da Paixão patentes, o rosto desfalecido e sereno. Não poderia deixar de ter produzido grande impressão e fervor religioso quando se encontrava na sua casa. Se pensarmos que no século XVIII deve ter havido alguma intervenção na imagem, fácil nos é relacioná-la com o Cristo dos Olivais, de autoria comprovada de João de Ruão. Trata-se de uma obra que seguramente teria saído das oficinas do mestre escultor francês.

Recentemente procedeu-se ao arranjo urbanístico do Largo do Arnado. Foi pena não se ter aproveitado o ensejo para ali colocar uma qualquer memória de um culto que foi marcante no passado da cidade e que marcou muitas gerações de conimbricenses. A lendária Cindazunda já tem lugar de maior honra no brasão de Coimbra.

Nelson Correia Borges

 

Correio de Coimbra, n.º 4.683, de 2018.03.08

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por Rodrigues Costa às 09:01

Quinta-feira, 14.12.17

Coimbra: Claustro de Celas

É tão surpreendente a igreja de planta redonda do mosteiro cisterciense de Celas que quase ofusca a beleza do claustro e a originalidade da sua fonte central, cavada e escondida.

Celas claustro.jpg

 Convento de Celas, claustro

Mas neste quadrado ao ar livre, pouco estudado e ainda menos visitado, surge-nos, na fonte, o fascínio renascentista pela geometrização dos espaços. A disposição em planta do claustro, que se liga à igreja redonda, é o resultado criativo deste esforço de arrumação dos elementos construídos, deixados pela Idade Média neste ermo distanciado de Coimbra, conhecido por Vimarães.

Uma vez dentro do próprio claustro votamos a ter novo atrativo que desvia a atenção da fonte central: são os extraordinários capitéis, minuciosamente esculpidos e pintados com as cenas da vida de Cristo, cuja datação dos séculos XIII a XIV é insegura, mas que vieram do Paço Real da Coimbra, oferecidos por volta de 1533, por D. João III.

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Convento de Celas, fonte do claustro

 ... A originalidade da fonte reside no facto de ela estar afundada e mal se ver, apesar de respeitar a quadripartição por eixos e se encontrar no centro exato do claustro. De facto, a fonte redonda está abaixo  do plano do claustro e a ela se acede por escadas que descem cerca de 1,5 metros «Ao centro do jardim cava-se um tanque circular para onde se desce por quatro escadas de sete degraus dispostas segundo os eixos do claustro. Uma inscrição esclarece: ESTE . CHAFERIS . MANDOU / REIDIFECAR . A ILMª . SNRª . D / THEREZA . LUIZA . RANGEL . / SENDO . SGDª . VES . ABBADESA / DESTE MOSTRº . NO ANNO / DE 1761».

O espaço criado forma um cilindro e isola-se visualmente de quem está no claustro, oferece bancos redondos de pedra em circunferência assim criada, que escondem ainda mais quem neles se senta. A taça de água redonda com cerca de 40 centímetros de altura é cilíndrica e, do seu centro, a que corresponde também o centro geométrico do claustro, sai um repuxo. O conjunto não tem um único ornamento. Esta invenção pode ser uma simples resposta ao nível da água que se encontra, de facto, a 1,5 metro abaixo da cota do claustro com uma mina visível numa das paredes em arco deste cilindro vazio.  

Esta simplicidade revelou-se esteticamente genial: o desenho afundado, num claustro tão pequeno, aduziu-lhe a terceira dimensão, mas em negativo; conseguiu dar o efeito de espaço redobrado e, sem qualquer ornamento, consegue animar as paredes e as formas com efeitos de sombra projetadas nos degraus e nas paredes concavas. Interrogamo-nos, então, se este jogo de geometria a três dimensões e a total ausência de ornamento chegarão para confirmar o traço de um bom artista do Renascimento?

... Resta-nos assim apresentar – reconhece-se que um pouco a medo – a hipótese de poder ter sido João de Ruão o imaginário da fonte do claustro de Celas. 

Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 175- 177

 

 

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por Rodrigues Costa às 08:55

Quinta-feira, 07.12.17

Coimbra; Mosteiro de Santa Cruz, os claustros que haviam

D. Manuel I mandou reconstruir o Claustro do Silêncio, já na altura com quatrocentos anos. Durante cinco anos (de 1517 a 1522) o arquiteto Marcos Pires refez os arcos e o deambulatório, reservando para um canto uma fonte triangular, cuja taça mais parece medieval por tão simples e sólida.

Santa Cruz claustro.jpgClaustro do silêncio

Todo o espaço do claustro se submete a uma geometria simples de cinco arcos em cada lado, mas os motivos vegetais e as cordas estilizadas, que na Idade Média se concentravam nos capitéis, revestem agora por completo as três colunas de cada arco, sobem ao fecho das abóbadas do deambulatório e desdobravam-se em frisos à volta da fonte triangular que ocupa o canto sudoeste.

Não admira que ao entrar no Claustro do Silêncio se reconheçam, em espaço menor, as mesmas formas, penumbras e ambiente do claustro dos Jerónimos; as plantas, frutas, cordas e ramos talhados em pedra vieram trazer o manuelino ao mais antigo monumento de Coimbra... A fonte central ... pertence já a um período distante do manuelino: foi encomendada ... ainda durante o domínio espanhol, sendo, no entanto, encimada por uma estátua que segura o escudo nacional.

 

Claustro da Manga.jpg

 Claustro da Enfermaria ou da Manga

 A D. Manuel I se deve, também, a decisão do aumento do convento em redor de um novo claustro: o claustro da Enfermaria, ou da Manga, que hoje não conhecemos como claustro, mas onde uma fonte de traça tão arriscada quanto bela marcou – esse sim – o seu centro; peça inigualável da nossa arte paisagística do Renascimento, nela convergem a inovadora pureza de traços e o uso da água em grande espelho, sobre o qual se eleva um pavilhão abobadado. Um repuxo ao nível do chão marca o centro geométrico de toda a construção, e cai sobre uma taça circular encastrada no pavimento. Para chegar a este pavilhão-ilha, quatro pontes nos eixos do claustro conduzem a quatro degraus que elevam a construção central e reforçam a terceira dimensão do claustro.

A data da feitura desta obra é conhecida: entre 1553 e 1534 foram feitos pagamentos a Jerónimo Afonso, o empreiteiro, e a João de Ruão, o “imaginário”. Em 1589,o castelhano Frei Jerónimo Logroño, percorreu o país, fazendo-lhe referência: (...) o pátio deste claustro não é de lajes ou jardim, mas sim de água, embora não faltem pedra e verdura para a perfeição da obra / O centro está ocupado por uma fonte, de tão raro gosto que quase nem sei descrevê-la, isolada entre quatro pomares, separados por canais que enchem tudo de frescura / Quatro escadas de pedra, ricamente lavrada, cada qual de sete degraus, acompanhada de bestiães esculpidos. Conduzem a um soco oitavado muito perfeito e galante, sobre o qual se levanta uma fonte de grande artifício, porque a água que cai dela sobre os tanques, recolhe-se por canos secretos e assim corre a água continuadamente, sem que se saiba de onde vem, nem para onde vai / Em volta, sobre a água, erguem-se quatro capelas redondas, abobadadas, lavradas primorosamente, de mui formosa pedra, a que chamam as Ermidas, aonde os religiosos vão orar quando querem; e para a sua tranquilidade, o que se recolhe levanta uma ponte levadça que há para entrar, a qual serve ao mesmo tempo de porta, e ali se conserva o tempo quen lhe parece.

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 Claustro da Enfermaria ou da Manga na atualidade

... Por altura do restauro efetuado em 1957 ... quando se abriu a rua a norte, reduziram-lhe a dimensão total e a dos lagos, ficando só a notável escultura de João de Ruão, apertada entre os edifícios e amputada do seu espelho de água.

 Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 171-173

 

O terceiro claustro – o Claustro das Limeiras – estava localizado junto à portaria do convento e foi destruído aquando da construção dos Paços do Concelho, na área hoje ocupada, grosso modo, pelo átrio de entrada.

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:30

Quinta-feira, 19.10.17

Coimbra: Colégio de S. Agostinho 2

Foi longo o processo de maturação que, no Mosteiro de Santa Cruz, haveria de conduzir à construção do Colégio de Santo Agostinho que sobrevive... Num ambiente de contenção financeira sempre denunciada pelos cronistas, apenas do Capitulo Geral de 1569 «se comessou a tratar da mudança do nosso Collegio apartado do Convento de S. Cruz» a despeito de todos os obstáculos movidos pelo bispo de Coimbra, contra a eventualidade de que o «Collegio se apartasse do Convento de S. Cruz e se edificasse nas cazas de João de Ruão, que he o mesmo sitio onde depois de muitos annos o fundou» ... no local encostado à muralha, onde, aliás, já anos antes o mosteiro se tinha preocupado em alargar através de compras e trocas de terrenos.

... Tradicionalmente... o edifício do Colégio de Santo Agostinho anda atribuído a Filipe Terzi, mas, intencionalmente ou não, os cronistas nem sempre têm acertado nas atribuições que fazem ... a presença frequente de Jerónimo Francisco em Santa Cruz indicia uma ligação que parece apontar para a hipótese de uma fortíssima contribuição no problema construtivo que, nesta data, mais afetaria os crúzios: o colégio novo.

Colégio de S. Agostinho pulpito.jpgColégio de S. Agostinho igreja púlpito

A estrutura colegial, que sobrevive às transformações posteriores e ao violento incêndio de 1967, ajusta-se à especificidade do terreno ocupado, com a linha da fachada poente assentando os alicerces no antigo pano da muralha da Almedina.

A igreja e o claustro dinamizam o espaço onde se encontraram a estabilidade e o equilíbrio para fornecer aos colegiais um percurso ordenado e inteligível. Tanto quanto é possível apurar pelas plantas do edifício, e depois das reformas do século XIX para albergar o Colégio dos Órfãos, a Misericórdia e, recentemente, a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, a nota mais dissonante à normal constituição dos espaços colegiais é dada pela presença do corredor que estabelece a ligação entre o portal (aberto em 1859) e o claustro (desembocando no ângulo sudoeste), protegendo a entrada principal da igreja e provocando a formação de uma ala com diversas dependências, onde se instala, agora, a Misericórdia.

Colégio de S. Agostinho claustro.jpgColégio de S. Agostinho claustro

... Inteiramente nova na cidade é a conceção plástica que envolve o claustro retangular datado de 1596.

Craveiro, M.L. O Colégio da Sapiência, ou de Santa Agostinho, na Alta de Coimbra. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 68-71

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por Rodrigues Costa às 22:19

Sexta-feira, 16.06.17

Coimbra: S. António dos Olivais, de ermitério a freguesia 3

A capela ficou novamente só, com o seu ermitão, naturalmente um pobre homem que tinha a chave, como outrora acontecia em qualquer capela de perdida aldeia.

Mas, na cidade, os acontecimentos que rodeavam a vida de António, o franciscano, colhiam eco e, quando foi conhecida a notícia da sua morte, dada a aura apoteótica que o envolvia, esperava-se uma glorificação rápida, acontecida logo no ano seguinte, em 1232.

Sto. António cónego regrante. Início s. XIX.jpg

 Sto. António cónego regrante. Início séc. XIX

O Santo, em Coimbra, tinha vivido em dois lugares: o abacial mosteiro de Santa Cruz e o ermitério de Santo António dos Olivais, onde então ainda permaneciam os frades; na igreja crúzia, a primeira capela da esquerda, passou a ostentá-lo por orago e nos Olivais, o próprio oratório conventual mudou de “dono”: de Santo Anton, o ermita, transmutou-se em Santo António, o pregador.

Contudo, em Coimbra, a capela dos Olivais constituiu-se sempre como o principal santuário antoniano ... A capelita ... deve ter continuado na posse do cabido, que, nos fins do século XV, em virtude do incremento do culto aí praticado, a mandou reformar e ampliar. Ficou com a área que atualmente ocupa, exceção feita à capela-mor que, no século XVIII sofre ligeiro aumento.

Em 12 de Maio de 1536 o cabido catedralício passou alvará de pagamento de 1.800 réis, a João de Ruão, pela cruz de Santo António que se encontrava albergada num pequeno alpendre, aberto por todos os lados. A estrutura, que apenas no século XVIII, aquando da aposição dos azulejos, temáticos... deve ter assumido a configuração atual, ocupava ... uma posição topográfica comum aos cruzeiros, pois erguia-se na confluência da estrada do Tovim com a Calçada do Gato, justamente nas proximidades do santuário antonino, então ainda pertença do cabido da sé.

Cruzeiro do Senhor Santo Cristo.tif

 Cruzeiro do Senhor Santo Cristo já transformado em capela

 O templete do Santo Cristo, quadrangular, apresenta nas esquinas, assentes sobre um embasamento, pilares dóricos lisos, com exceção dos da fachada principal que ostentam finos lavores renascentistas relacionados com a temática da paixão; decoram o friso enrolamentos em forma de S e cobre-o um coruchéu quadrado, revestido com tijolos de orelha, vidrados a verde e melado.

No interior destaca-se a imagem de Cristo crucificado, saída do cinzel de Ruão, com a data de 1536 gravada no pé ... a construção do templete do Santo Cristo se pode considerar como marco do final da primeira fase, ou seja, o período de ermitério.

Em 1540 ... o olival, a horta e as ofertas feitas à casa de Santo António, bem como o conjunto ermítico, transitaram do cabido para os franciscanos capuchos da província da Piedade e, anos depois, em 1763, como resultado de uma nova divisão de províncias levada a cabo pela ordem franciscana, fica adstrito à da Soledade.

Veio dos frades o aspeto pitoresco que o sítio apresenta e também deles ficou o conjunto construtivo, pois conservaram a mesma igreja e construíram a residência conventual ... contudo, na primeira metade de Setecentos, prolongando-se até ao final da centúria, levaram a cabo obras de envergadura que passaram pela modificação da frontaria da igreja, pela construção do escadório com as suas capelas e pela feitura da sacristia.

Encerrou-se, em 1834, com a extinção das ordens religiosas, o ciclo monástico e, no ano seguinte, o convento foi vendido a um particular.

Anacleto, R. 2005. Santo António dos Olivais: De Ermitério a Freguesia. Conferência na cerimónia comemorativa do aniversário da criação da freguesia.

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por Rodrigues Costa às 10:18


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