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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 31.01.17

Coimbra: Uma Escola de Canteiros 4

Coimbra: Uma Escola de Canteiros 4

António Carolino – Verga de uma fresta manuelin

António Carolino – Verga de uma fresta manuelina

 Dos outros lavrantes expositores, apenas não é discípulo de João Machado o Sr. António Carolino, artista de dotes naturais, que se tem desenvolvido á vontade, longe de qualquer direção, e que é um dos sócios mais recentes da Escola Livre das Artes do Desenho.

Expôs a verga de fresta manuelina, que reproduzimos e foi feita, como aliás todos os trabalhos de canteiro de que teremos a ocupar-nos, para o palácio que faz atualmente construir em Sintra o Sr. Dr. Carvalho Monteiro.

O desenho foi bem compreendido, num desenvolvimento gradual e natural das linhas, sem hesitações; a modelação é vigorosa, o corte largo, e planos bem acentuados e bem graduados.

José Ferreira – Gárgula.png

José Ferreira – Gárgula

A gárgula de José Ferreira é, pela conceção, uma das obras expostas em que mais se acentua o espirito da Renascença, pela visagem dolorida da máscara terminal.

Não é uma obra forte, como as gárgulas do Jardim da Manga ou do Colégio de S. Tomás, em que o espirito gótico se vê ainda bem na nitidez dos planos, no grotesco das figuras, na acentuação caricatural dos detalhes anatómicos; é antes um trabalho de completo espirito do renascimento na conceção e na sua realização técnica, de uma execução, de uma doçura exageradas talvez.

A boca é enigmática como a compreendeu a arte do renascimento; ri e chora, ao mesmo tempo, misteriosamente.

A anatomia, de visão, dá bem a carne, saindo viva do tufo de plantas que prende a gárgula ao edifício.

O movimento, escolho em que tantas vezes se embaraçam os artistas modernos, que tentam criar tipos novos d'estas delicadas fantasias artísticas, é bem achado: a figura adianta-se numa atitude natural, graciosa, em pleno equilíbrio no gigante de que espreita.

João das Neves Machado – Pia de água benta.png

 

João das Neves Machado – Pia de água benta

João das Neves Machado, primo de João Machado tem um modo de talhar a pedra, com decisão, em planos largos e encontrados, de um belo efeito decorativo. É um artista de recursos naturais, cuja individualidade se acentua dia a dia, conhecendo bem a natureza da pedra em que trabalha, e sabendo utilizar todas as suas qualidades nos efeitos decorativos que obtém.

A sua execução pode dizer- se colorida, tais são os efeitos de luz e sombra que procura, já pela disposição dos planos e volumes, já por particularidades de técnica que modificam o aspeto da pedra, nas esculturas de outros, uniformemente branca e monótona.

Carvalho, J.M.T. Uma escola de canteiros, In Illustração Portugueza, 2.º semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 162-165.

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por Rodrigues Costa às 10:54

Quinta-feira, 17.12.15

Coimbra, a Escola de Canteiros de Coimbra 2

A obra do “Monteiro dos Milhões” (o Palacete da Regaleira) começava a dar brado, e, em 1904, ‘O Século’, na correspondência de Sintra, escrevia:
… Os artistas de cujas mãos sáem éssas óbras primas em pédra são da Batalha …

… transcrito na ‘Resistência’, mereceu uma violenta réplica, saída certamente, porque o tom o deixa adivinhar, da pena do seu diretor, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho.
“ … Os artistas que fizérão as obras que o critico cita são de Coimbra e châmão-se António Augusto Gonçalves, João Machado, Jozé de Souza Barata e José Fonseca. João Machado e Jozé Barata são discipulos de António Augusto Gonçalves e estudárão na Escola livre das artes do desenho. Jozé Fonseca foi aluno da Escóla Brotéro e discipulo de João Machado. Jozé Baráta, lavra como nenhum outro artista português, em estilo manuelino. João Machado é um artista de sensibilidade artística rára, compreendendo e sentido as belezas de todos os estilos, como demonstrão as suas obras (…). Fonseca é um rapás muito novo, já oje um canteiro de valor e que mais poderá elevar-se, se continuar a estudar e não perder no meio lisboeta a modestia e a capacidade do trabalho”.

Mas o autor do artigo olvidara-se de um nome e, certamente a sensibilidade do artista visado terá sofrido com o esquecimento, pelo que no mesmo jornal, dias depois, voltou à carga … esqueceu-nos o nôme de um artista, injustiça que ôje reparamos. Chama-se êle João das Neves Machado; foi aluno da Escóla Brotéro, e é ôje socio da Escóla Livre das Artes do Desenho. É, com J. Fonsêca, um discipulo tambem de João Machado, na sua oficina completou a educação insuficiênte da Escóla Brotéro …”

… Um outro aspeto, quiçá bem importante, relaciona-se com a escola de canteiros de Coimbra que desde sempre se teve como ligada à obra … A maior parte dos artistas, encontravam-se associados à Escola Livre e praticamente todos a João Machado … Mas se alguns, como José Barata e António Gomes que se haviam deslocado para Sintra, a fim de trabalhar na Regaleira, regressaram à cidade, outros, como José e Luís Fonseca por lá se quedaram, o primeiro na vila e o segundo em Lisboa.
Mestre Fonseca acompanhou os trabalhos da Regaleira, pode bem dizer-se, desde o princípio até ao fim.
Esta verdadeira escola de canteiros de Coimbra, durante a sua vigência, assume tal importância na vida artística do país que ouso perguntar-me se ela, dentro destes parâmetros, se pode considerar periférica.

Anacleto, R. 1997. Arquitetura Neomedieval Portuguesa. 1780-1924. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Pg. 335 a 337

 

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por Rodrigues Costa às 10:30


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