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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 01.03.18

Coimbra: Alexandre Herculano e a sua visão da cidade 3

Passada a Sofia, a primeira coisa notável que se encontra é o velho mosteiro de Santa Cruz, fundação do nosso D. Afonso Henriques. Da primitiva obra nada ou mui pouco resta. – Consta que o antigo mosteiro era um edifício cercado e torreado, como um castelo: o templo tinha três naves; os claustros eram três, as celas oitenta e quatro. Hoje é mui diverso o estado das cousas. Porventura as celas são mais numerosas, os corredores mais elegantes, as oficinas mais acomodadas, os claustros mais magníficos; mas a igreja pareceu-nos acanhada, mesquinha, mal traçada, e de mau gosto, porque a vimos depois de ter lido pomposas descrições dela. O que ainda se conhece que realmente foi bom, é o portal lavrado de laçarias, e vultos, e mil invenções curiosas. Cremos que infelizmente entalharam esta obra em pedra de Ançã, em lugar de pedra canto; e por isso está tudo estragado e carcomido.

Planta de Magne pormenor.jpg

 Mosteiro de Santa Cruz, pormenor da planta de Magne

 No corpo da igreja há muitas sepulturas de venerável antiguidade, e inscrições mortuárias que falam de nomes gloriosos: mas os mais notáveis sepulcros são os dos dois primeiros reis portugueses, D. Afonso e D. Sancho, colocados aos lados da capela-mor. Estes monumentos preciosos foram mandados fazer por el-rei D. Manuel, e aí se conservaram até o ano de 1832, em que D. Miguel os mandou arrombar, para ver o que continham: ainda no ano seguinte vimos as pedras quebradas, e os mal apagados sinais deste ato de barbárie.

As duas coisas mais importantes que havia no convento eram a livraria e o santuário: as preciosidades de um e de outro foram levadas para a cidade do Porto. Entre os quadros que adornavam o santuário dizem que estava uma «transfiguração» de Rafael, e a «adoração dos reis» de Rubens. Aí se mostrava uma espada, que se dizia ter sido de D. Afonso Henriques, e que se acha reunida á do moderno Afonso, o duque de Bragança, no museu do Porto, para onde também foi levada a escrivaninha e a pena com que assignaram os decretos do concilio tridentino, monumentos curiosos doados a Santa Cruz por D. Fr. Bartolomeu dos Mártires.

A quinta ou cerca de Santa Cruz é uma das mais extensas e maravilhosas de Portugal. Descrevê-la fora impossível na brevidade do nosso quadro. O lago é obra magnifica: mas as árvores que a rodeiam, cortadas em colunas e obeliscos, são apenas um dos mil exemplos de mau gosto dos antigos jardins. 

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 Sé Velha, antes do arranjo

 A paroquia de S. Cristóvão, ou Sé Velha, é o monumento de Coimbra mais digno de atenção, porque é porventura o único que resta em Portugal do tempo dos godos. A sua arquitetura não se parece, portanto, com a de outro algum edifício conhecido. As suas paredes, vistas exteriormente, assemelham-se às de um castelo; é talvez o que resta da primitiva, e um escritor moderno se enganou inteiramente, supondo os lavores da porta lateral do templo obra de arquitetos godos, quando basta vê-los para conhecer que foram lavrados no 13.º ou 14.º século. Posterior ainda a esta época é o interior da igreja.

No alto da cidade, onde estão os fundamentos do observatório novo, começado pelo marquês de Pombal, e nunca levado a cabo, jazia o antigo castelo, que foi demolido, e de que restam apenas alguns fragmentos. Este castelo era célebre pela ação heroica do leal Martim de Freitas,

A universidade está onde antigamente eram os paços reais, chamados das alcáçovas; neste edifício ainda existem muitos vestígios da sua origem remota. Nada diremos aqui acerca desse estabelecimento literário, que tantos homens ilustres tem dado a Portugal, porque o guardamos para um artigo especial.

A Sé Nova era a igreja dos jesuítas: ampla, e ao primeiro aspeto majestosa, um exame mais miúdo faz descobrir nela o ferrete de todos os edifícios daquela ordem – mau gosto de arquitetura.

Muitos outros monumentos notáveis se encontram na antiga capital dos portugueses, mas a brevidade necessária nos veda falar deles. Entretanto há aí uma cousa curiosa, de que ninguém tratou ainda, e que vale a pena de se mencionar. É esta a inquisição. Ela ainda está em pé com os seus corredores escuros, os seus carceres medonhos, as suas «espreitadeiras». Ainda aí se vê a casa dos tratos, com as paredes cheias de arranhaduras, e de manchas escuras, que porventura são de sangue!  - E não se deveria conservar este monumento de fanatismo para os vindouros, a quem parecerão impossíveis os horrores que se contam acerca da inquisição!

Nos arredores de Coimbra, pode-se dizer que cada pedra, cada campo, cada bosquezinho é um monumento histórico. – A fonte do Cidral e o Penedo da Saudade, quem os não conhece? – Atravessando a ponte para o lado de Lisboa, encontram-se à esquerda umas ruínas, e atrás delas um campo coberto de arvoredos e de hortas. Aqui houve um mosteiro ilustre: este foi o de Santa Clara, fundado por S. Isabel, e que o rio fez desaparecer. D. João 4.º edificou o novo no monte ao ocidente de onde em perspetiva se descobre a cidade.

Naquela margem do Mondego está também a Quinta das Lágrimas, e a Fonte dos Amores. No palácio pertencente à quinta sucedeu, segundo dizem alguns, o trágico sucesso da morte de D. Inês de Castro. A Fonte dos Amores, rica de recordações e pobre de adornos, lá corre ainda caudal para um tanque meio entulhado. Descrita por poetas, viajantes, e historiadores, calará acerca dela a nossa mal aparada pena, e só faremos um voto para que a mão do homem não derrube os últimos cedros que a assombram, e que são testemunhas das memórias de muitos séculos.

O Panorama. Número 51. 21 de Abril de 1838. Pg. 122-123

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por Rodrigues Costa às 22:15

Terça-feira, 12.12.17

Coimbra: Jardim da Sereia ou Parque de Santa Cruz

Na parte superior da cerca, para onde o espaço da encosta lhes permite abrir os eixos que formarão um parque traçado e dimensões barrocas. É assim que a quinta do Mosteiro de Santa Cruz se transforma num parque que adota a gramática construtiva de Versailles: um eixo de simetria, que se define ao longo de um imenso jogo da bola, duas vezes a dimensão do que havia sido construído em Mafra, no palácio real, e o eixo na cascata dividem-se em duas escadarias monumentais, com 5 metros de largura e totalmente simétricas, que sobem a encosta, formando o tão famoso «pied-de-poule» copiado por todas as cortes da Europa.

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 Jardim da Sereia, arco de entrada

O significado deste empreendimento monumental merece ser abordado: a simbologia é predominantemente religiosa, com o arco triplo da entrada enquadrando a perspetiva profunda do jogo da bola. Duas inscrições em latim revelam-nos a intenção do dono da obra: «Que o bosque de Idálio esconda, agora, os milagres da arte / E que o sagrado Ida não espalhe as suas fontes, / ao mesmo tempo, a arte e o murmúrio das águas honram este bosque / E não existirá outro igual a ele, nem mesmo o paraíso.»

E dão as boas vindas a quem entra: «o zelo dos antepassados preservou este jardim para eles, ó mundo, / para que não voltem às perfídias e às tuas tentações / e não voltarão às tuas volúpias; agora, este jardim enclausurado / é o único que tem as alegrias que eles conhecem verdadeiramente.»

João V pagou ... toda a obra do jardim da quinta de Santa Cruz ... o que é sempre extraordinário ... é a sua consistência em dar expressão às regras europeias do barroco.

... A monumentalidade disciplinada a um eixo, própria do estilo barroco, levaria, sem dúvida, à construção de duas escadarias simétricas em redor das cascata, não fora a habitual tendência para deixar obra incompleta. Uma só escadaria foi levada ao cimo da encosta, trabalhada em patamares de plantas diferentes, ornamentados com fontes ao nível dos pavimentos e azulejos nos assentos que os envolvem.

A última fonte do topo da escadaria termina numa parede revestida de pedra irregular calcária, formando uma gruta com um tritão com barbas quer abre a boca a dois golfinhos. Surpreendentemente é a este másculo tritão que chamaram sereia e, a partir dele, nasceu a designação de Jardim da Sereia.

 

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  Jardim da Sereia lago

 ... O outro arranque da escada desemboca numa íngreme ladeira que em tempos foi coberta por um túnel de loureiros e leva até ao grande lago circular. Esta peça é o ponto vital do jardim porque todo o sistema de repuxos das escadarias e da grande cascata é por ele alimentado. No centro do lago, numa ilha foi plantada uma laranjeira e, em redor do lago, uma sebe alta de ciprestes com arcos. Toda esta composição vegetal desapareceu e os bancos que encostavam à sebe de ciprestes, que um dia foram cómodas estadias viradas para o lago, flutuam tristes num espaço agora mal resolvido. 

Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 173-175

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por Rodrigues Costa às 09:06

Segunda-feira, 28.12.15

Coimbra, a Sereia e as suas estátuas

O Parque de Santa Cruz, vulgarmente conhecido por Jardim da Sereia, fez parte integrante do antigo Mosteiro de Santa Cruz. No século XVIII, na época do Prior, D. Gaspar da Encarnação, foi aquela vasta área ajardinada e dotada de artísticos tanques, fontes e de um recinto para o jogo da péla. A entrada principal está marcada por um bonito pórtico ladeado de dois torreões, com uma arcada tríplice, ornamentada com concreções calcárias, vindas das grutas da zona de Condeixa … Dominam o pórtico três esculturas barrocas, simbolizando as Três Virtudes Teologais: Fé, Esperança e Caridade … a Fé está ao centro e empunha, elevado na mão direita, um cálice, enquanto a Caridade fica cercada de crianças e situa-se à esquerda, e a Esperança do lado direito, apresenta-se com a corrente de uma âncora (já desaparecida) … Uma lápide com texto em latim e colocada por baixo da figura central, a Fé, alude no seu conteúdo, ao local paradisíaco da Sereia
… A Cascata (vulgar e erroneamente designada por Fonte da Sereia) coroa o espaço cenográfico e paisagístico, intensamente barroco, o Jogo da Péla.
A Cascata ergue-se como grandioso trono de retábulo, em degraus de concreções calcárias semeadas de plantas (avencas), e tem a ornamentá-la e escultura, em pedra de Nossa Senhora da Conceição. Em plano mais recuado dois medalhões de azulejo figurativo do século XVIII com as cenas bíblicas de Sara e Agor no deserto (lado esquerdo) e o profeta Eliseu a lançar sal nas águas de Jericó (lado direito). A ladear os azulejos as estátuas dos quatro evangelistas: São Lucas e São João do lado esquerdo; São Mateus e São Marcos do lado direito.
As esculturas em calcário, degradadas, que remontam ao século XVI … está incompleta, porquanto falta o anjo no São Marcos e o touro alado do São Lucas está amputado das hastes
… no cimo de um cenográfico escadório, entremeado de patamares com repuxos e tanques de água, bancos de pedra armados de azulejo com motivos paisagísticos, de animais e água, nos encostos, encontra-se a Fonte da Nogueira, chamada, também, do Tritão … no alto um nicho com uma imagem da Virgem, e na base um grupo escultórico que simboliza um Tritão a abrir a boca a um golfinho, e donde corre a água para uma concha … Tritão, que na designação popular é a Sereia (daí o nome porque é conhecido o jardim).

… Por iniciativa do Clube da Comunicação Social foi-lhe erigido (a Cabral Antunes) no Parque de Santa Cruz, um busto em bronze, inaugurado em Abril de 1987 … o trabalho artístico foi executado pelo escultor Celestino Alves André.
… A 14 de Dezembro de 1967, no 1.º centenário do nascimento do poeta (Camilo Pessanha), foi inaugurado em Coimbra, sua terra natal, e no Parque de Santa Cruz ... um busto em bronze … da autoria do escultor Cabral Antunes … A iniciativa foi da responsabilidade da Câmara Municipal de Coimbra

Nunes, M. 2005. Estátuas de Coimbra. Coimbra, GAAC – Grupo de Arqueologia e Arte do Centro. Pg. 47 a 63

 

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por Rodrigues Costa às 10:56


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