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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 02.03.17

Coimbra: Hospital da Convalescença

... é certo que, antes de 1774, essa entidade (o Hospital da Convalescença) figurava em separado, com uma dotação própria e sua escrituração à parte, ainda que estabelecida no mesmo edifício do hospital Real ou da Conceição.

...por provisão de D. João V, de 16 de Novembro de 1743 ... vê-se ... doou, o Dr. Sebastião Antunes ... para os convalescentes desse hospital, de que a dita Misericórdia fizera aceitação, a qual desejava conservar os convalescentes nas mesmas casas da convalescença do hospital, que para esse efeito foram compostas e reparadas à custa da herança.

Antigo Hospital Real.jpgHospital Real

... Esta particularidade, de se achar o estabelecimento da convalescença no mesmo edifício dos hospital propriamente dito, dá a conhecer, que seria destinado a receber os doentes deste, quando entrassem no período de convalescença; semelhantemente ao que se praticava nos muitos hospitais estrangeiros.

... O  nosso antigo hospital da Convalescença teria talvez uma organização mista, para receber os convalescentes de moléstias crónicas, quase nas condições de doentes incuráveis, os entrevados, os inválidos por velhice, e geralmente os «incuráveis», que não eram admitidos nas enfermarias do hospital propriamente dito. Sendo assim, aquele hospital da Convalescença também teria desempenhado a moderna missão dos asilos de mendicidade.

... Os primeiros vestígios duma instituição desta ordem ... encontram-se no 2.º regimento d’el-rei D. Manuel, de 16 de Junho de 1510, determinando que no seu hospital real não fossem admitidos os doentes de moléstias incuráveis ... Depois daquela determinação de D. Manuel, continua dizendo o mesmo regimento que ficam os incuráveis nestes dois hospitais a cargo dos seus administradores, sendo suprido pelos «oficiais da Misericórdia o mais provimento d’esmola e cura». Termina aquela disposição com as seguintes palavras, que deixam muito obscuras as relações da Misericórdia com estes hospitais «e quanto hao que toca a estes dous espritaes, nõ fareis nada ne se cumprirá este cap. p.s nós mãdamos dar a mjã o de Sã J.º»

Simões, A.A.C. 1882. Dos Hospitaes da Universidade de Coimbra. Coimbra. Imprensa da Universidade, pg. 39-43.

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por Rodrigues Costa às 09:56

Terça-feira, 28.02.17

Coimbra: Hospital real

O hospital de Coimbra, hospital de D. Manuel, hospital real, hospital novo, hospital d’el-rei, hospital geral, hospital público, hospital da Praça, hospital de Nossa Senhora da Conceição ou hospital da Conceição, aparece fundado, ou pelo menos profundamente reformado, por el-rei D. Manuel, em 1508 ou poucos anos antes, na praça de S. Bartolomeu, hoje Praça do Comércio, num edifício que este monarca mandou construir à sua custa ... Faz esquina com a rua das Azeiteiras, e compreende aquele grupo de casas até ao largo do Romal.

Antigo Hospital Real 02.jpgHospital Real

... o primeiro «regimento» deste hospital, de 22 de Outubro de 1508, onde se vê a expressa declaração de D. Manuel, de que tinha mandado construir o edifício à sua custa; e que o havia dotado com as rendas de pequenos hospitais existentes na cidade, e com cem mil réis da sua fazenda.

... o primeiro hospital da cidade ou primeiro do estado em Coimbra (excluindo as gafarias) teria sido a pequena albergaria dos «Miléos», que já existia muito antes de 1468.(1)

... o «Conimbricense» ... tinha publicado uma relação dos hospitais e albergarias incorporados no hospital real ... em 26 de Dezembro de 1866 e 2 de Janeiro de 1867. É a seguinte: «Hospital de Santa isabel da Hungria (paços de Santa Clara); de Nossa Senhora da Vitória (rua do Corpo de Deus); dos Mirléos (defronte da porta principal da igreja de S. Pedro, junto ao paço das Alcáçovas); de S. Lourenço (próximo da capela do Senhor do Arnado); de S. Marcos (ao cimo do beco de S. Marcos); de Santa Maria de S. Bartolomeu (na freguesia de S. bartolomeu); de Montarroio (em Montarroio); albergarias e hospitais de S. Gião (rua das Azeiteiras); de Santa Maria da Vera Cruz (proximo da igreja de S. João); de S. Cristóvaão (perrto da igreja de S. Cristovaão=; de S.Nicolau; de Santa Maria da Graça; da Mercê; e de Santa Luzia.»

... apesar do seu carater de obra real, nem por isso tomou grande vulto, porque foi aberto e conservou-se por muitos anos com 17 camas somente, 12 para homens e 5 para mulheres; não entrando nesse número de camas para alojamento dos transeuntes ou da albergaria propriamente dita.

... Supondo que o hospital da Conceição ou primitivo hospital de D. Manuel fora fundado na praça de S. Bartolomeu em 1508, tudo leva a crer que, sem interrupção, ali se conservasse até à sua mudança em 19 de Março de 1779, para o edifício dos Jesuítas, no angulo N.O., com entrada pela Couraça dos Apóstolos.

Simões, A.A.C. 1882. Dos Hospitaes da Universidade de Coimbra. Coimbra. Imprensa da Universidade, pg. 16-20, 73-74

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:05

Quinta-feira, 01.12.16

Coimbra: a Baixinha 2

No final do século XVI, o arrabalde apresentava uma estrutura bastante consolidada e o seu poder económico superava já o da Alta, tornando-se num centro vital para a sobrevivência da cidade. Em relação à morfologia, foi a altura em que se finalizou a ligação entre os adros de Santa Justa, o largo de Sansão e a Praça do Comércio, formando-se um aglomerado contínuo. “A cidade afirmou urbanisticamente a sua determinação em se instalar na zona mais baixa e plana.” O território distinguia dois conjuntos urbanos que vieram evidenciar a polaridade entre a Alta e a Baixa. Os dois polos tinham funções diferentes no panorama citadino e não entraram por isso em colapso, uma vez que se completavam nas necessidades funcionais da urbe. Na cidade Alta, intramuros, vivia o clero, os cónegos da Sé e outros beneficiários eclesiásticos, a nobreza local, os seus servidores e algum povo. Na cidade Baixa, habitavam o povo miúdo, os comerciantes, os artesãos e alguns mesteres. Já no século XV, a praça do arrabalde tinha sido denominada pelo infante D. Pedro como a P r a ç a d a C id a d e, expressão que denota claramente a importância crescente da cidade Baixa no contexto urbano. O sistema já consolidado do arrabalde é composto sequencialmente pelo Largo da Portagem, Rua dos Francos, a Praça do Comércio e a Praça 8 de Maio. Todos estes elementos formalizam a estrutura principal da Baixinha e referenciam-na como espaço singular da urbe. O modelo de rua e praça, de cheios e vazios representa, assim a imagem da cidade medieval com estruturas agregadoras de lugar da vida comum e das atividades relacionais da sociedade. A condição central da praça funciona como “sala de estar” urbana de encontro e troca, pois faz confluir todos os percursos estreitos para um lugar amplo e espaçoso de desdensificação da malha construída e concentra programaticamente funções importantes no contexto urbano

 ... Era à volta da praça principal do arrabalde que se concentravam os principais serviços comerciais. Atualmente, com uma forma alongada, esta praça resultou da união das igrejas de S. Bartolomeu (o adro de trás) e de S. Tiago (o adro cemiterial fronteiro), da consolidação, em contínuo dos respetivos núcleos e da reconformação da estrutura viária Norte/Sul. Localizada próximo da porta principal da cidade e em zona ribeirinha, a praça serviu as necessidades mercantis e agregadoras da dinâmica urbana da cidade medieval. Por ser uma área plana de fácil acesso e ponto de transição do rio para a cidade intramuros, rapidamente ganhou um estatuto central e identificador para a comunidade urbana. Logo se tornou a Praça da cidade e o valor da sua propriedade superava o das restantes zonas. São características evidenciadas pela altura dos edifícios que, era térrea na cidade em geral e atingia os três pisos neste local. Inicialmente foi intitulada Praça de S. Bartolomeu como referência à igreja que a conformava. Mais tarde, passou a ser referido o seu papel de Praça do Comércio.  A transferência de poder e de funções da cidade Alta para a Baixa, mais especificamente para a Praça do Comércio, veio acentuar e potenciar a sua condição central no seio do restante tecido. O reconhecimento deste espaço como praça surgiu no século XV, quando foi transferido para o local o mercado que inicialmente se realizava na parte alta. Com melhores características espaciais e de acessibilidade para o efeito, a praça foi progressivamente palco de feiras, mercados e açougues da cidade. A ação de D. Manuel, no século XVI, instaurou um processo de reestruturação e consolidação na cidade de Coimbra. Os empreendimentos de renovação e requalificação urbana levaram a cabo o melhoramento dos pavimentos das ruas e a redefinição programática da praça, com a localização do pelourinho, da Casa da Câmara, do Hospital Real e da Misericórdia, na primeira ação global de modernização. Neste mesmo século, o Mosteiro de Santa Cruz promoveu uma intervenção urbanística de grande importância, pela reconformação do seu espaço fronteiro, potenciando o desenvolvimento da interação social de mais um espaço urbano. Foram instaladas fontes de abastecimento público de água e era o espaço preferencial para as atividades lúdicas. A denominação de Largo de Sansão viria a mudar no século XIX, adaptando-se a designação de Praça 8 de Maio. A Rua Visconde da Luz, que estabelecia a sua ligação com os restantes espaços do sistema, ganhou gradual importância na vida urbana, instalando-se aí ourives e latoeiros. O sistema de largos, ruas e praças estava assim conformado e interligado no novo zoneamento urbano. 

Ferreira, C. 2007. Coimbra aos Pedaços. Uma abordagem ao espaço urbano da cidade. Prova Final de Licenciatura em Arquitectura pelo Departamento da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, orientada pelo Professor Arquitecto Adelino Gonçalves, p. 32-34

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por Rodrigues Costa às 16:58

Quinta-feira, 14.01.16

Coimbra, agricultura e pecuária 1

Os olivais ainda não impunham a sua expressão na paisagem coimbrã em 1085, embora já o azeite entrasse na onomástica coimbrã … Do século XII há inegáveis testemunhos da presença da oliveira nesta região. Mas a riqueza agrária é dadas pelas vinhas, plantadas numa zona muito vasta, a começar junto das portas das muralhas (Porta do Sol, pelo menos).
A paisagem agrícola era então muito mais caracterizada pela cepa do que pela oliveira. Junto da cidade, pertencentes a Santa Cruz, havia algumas oliveiras em Montarroio. Ao certo, um olival em «Lagenas», perto do Mondego, um outro (com vinha) em Vila Franca e um terceiro (olival, ou vinha e olival) na Várzea do Mondego … Mas sabe-se que em 1379 os olivais caracterizavam a paisagem coimbrã na margem esquerda do Mondego, no termo da estrada que vinha de Almalaguês … Nos finais do século XIV a cultura da oliveira estava, assim, muito divulgada em Coimbra. O azeite constituía então o principal produto agrícola.

Em 14 de Maio do mesmo ano (1488), considerando a notória destruição dos olivais velhos e novos pelos «muitos bois» de Santa Cruz e moradores da cidade, já o monarca havia concedido à Câmara que pudesse pôr aos daninhos aquelas penas que lhe parecesse. E eram bem necessárias porquanto a «novidade» dos olivais constituía ainda (e continuou a sê-lo durante muito tempo) a melhor cultura para «governança e repairo» dos moradores da cidade estava muito diminuída … ao gado de Santa Cruz outro se veio juntar: os bois dos obrigados a darem carne à cidade, ao Bispo, ao Cabido, os necessários ao serviço do Hospital Real, das freiras de Santa Clara e de outros; depois, com a transferência da Universidade, os animais dos seus carniceiros e recoveiros, dos colégios e dos mosteiros.
… O número (de bois que pastavam nos olivais da cidade) cresceu de tal modo que, em 1556, os vereadores se veem obrigados a solicitar providências régias. Embora os olivais continuassem a ser «o principal proveito desta cidade e de que os moradores della se mais ajudão», não havia quem os quisesses pôr «porque loguo he tudo destruído» … Ao prejuízo causado por estas reses somou-se, sobretudo após a transferência da Universidade, o provocado por animais diversos, nomeadamente os que podiam ser destinados ao talho. Entre eles os porcos.
Nos açougues citadinos o abate de porcos era muito inferior à dos bois e, sobretudo, à dos carneiros. Mas o facto não excluía uma criação de gado porcino que se nos afigura, pelo menos em algumas épocas, com certo relevo.
As posturas municipais decretadas sobre a pastagem dos porcos dentro da cidade ou do aro dos olivais foram múltiplas e visaram não só a defesa das culturas mas também a higiene da área urbana.
Pelas ruas, praças, rossios e arrabaldes costumavam os donos trazer este gado.

Oliveira, A. 1971. A Vida Económica e Social de Coimbra de 1537 a 1640. Primeira Parte. Volume I. Coimbra, Universidade de Coimbra, pg. 84 e 85, 88 a 90, 91 a 93

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por Rodrigues Costa às 11:36

Segunda-feira, 19.10.15

Coimbra, passagem pela cidade de D. Manuel I em 1502

A passagem do Rei D. Manuel pela cidade, em 1502, a caminho de Santiago de Compostela, iria fazer-se sentir na vida do velho burgo. De facto, o Venturoso viria a impulsionar várias obras e melhoramentos em toda a cidade. Assim aconteceu na quase abandonada alcáçova dos reis portugueses … Também a velha ponte de pedra sobre o Rio Mondego é reconstruída e alindada nessa época, bem como o terreiro da portagem. Igualmente é criado o Hospital Real, na Praça de S. Bartolomeu … sendo também reedificado e ampliado o antigo Hospital dos Lázaros, fora de portas, à saída norte da cidade … Particularmente importante foi a renovação do Mosteiro de Santa Cruz, tendo ao rei merecido especial atenção os túmulos de D. Afonso Henriques e D. Sancho I … e o próprio edifício da antiga câmara onde reunia a vereação, a velha Torre de Almedina, iria sentir o efeito de vários benefícios.

Andrade, C.S. Nota Introdutória, In Foral de Coimbra de 1516. Edição fac-similada. Coimbra, 1998, 88 e 89

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por Rodrigues Costa às 09:42


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