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A' Cerca de Coimbra


Sexta-feira, 11.11.16

Coimbra: Os Salatinas e a Música Tradicional de Coimbra 2

Por outro lado, a Serenata, que, como ritual, era prática frequente desde a época medieval, veio a dominar o imaginário lúdico-musical da cidade oitocentista, assistindo-se, a partir de finais dessa centúria, a várias serenatas levadas a efeito pelos cultores populares, por lugares e ruas do velho burgo, sendo de destacar as «serenatas fluviais» ao longo do rio Mondego, em ocasiões especiais de eventos a comemorar, nomeadamente em tempo de festas da Rainha Santa, em que tocadores, cantadeiras e cantores se faziam transportar em «barcas serranas».

Neste «imaginário» popular importa referir o período, a partir do último quartel do século XIX, em que, num bairro da velha «Alta», habitaram alguns dos mais ilustres cultores populares da cidade – os «Salatinas». Gente alegre e com grande propensão para a música, verdadeira depositária da autêntica memória musical coimbrã, eram eles quem melhor assimilavam e transmitiam às gerações vindouras as “malhas” de composição da Música Tradicional de Coimbra. Assim, até meados do século XX, homens como Alexandre da Silva Louro (1899-1985), alfaiate, serenateiro e cantador de operetas, Fernando Rodrigues da Silva (1915-1964), barbeiro, executante de violão e guitarra, Augusto da Silva Louro (1902-1927), funcionário dos Correios e executante de violão, José Maria dos Santos (1906-1976), funcionário da Biblioteca Geral da Universidade, jornalista e executante de violão, José Lopes da Fonseca (Zé Trego) (1883-1976), barbeiro, funcionário do Magistério Primário, serenateiro e executante de violão, Carlos da Silva Moeira (1904-1976), funcionário da Câmara Municipal, cantor e serenateiro, conhecido por o “rouxinol de Coimbra”, Raul de Carvalho Freitas (1931-?), bancário e cantor, Abílio Gaspar Madeira (1901-?), funcionário da Imprensa da Universidade e executante de violão, Carlos Alberto Louro da Fonseca (1930-1995), executante de violão, e Flávio Rodrigues da Silva (1902-1950), barbeiro e executante de guitarra, entre outros, fazem parte de uma plêiade de cultores «salatinas» a quem a Música Tradicional de Coimbra muito deve. Todavia, a partir de 1942, com a criminosa demolição da parte da «Alta» e o consequente desmoronar de todo o «imaginário» popular tradicional, assim como o posterior falecimento daqueles músicos populares, esta música foi perdendo as referências humanas que sempre a haviam mantido como uma tradição cultural vida de cidade. Porém, é bom não esquecer que existe toda uma riqueza etno-musical popular a redescobrir para que se não pense que Coimbra é, única e exclusivamente, uma terra de estudantes.

Cravo, J. 2012. Os Salatinas e a Música Tradicional de Coimbra. In: Músicos Salatinas. 1880-1947. Exposição Fotográfica e Documental. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 17-18

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por Rodrigues Costa às 09:37

Quinta-feira, 10.11.16

Coimbra: O Fio da Navalha e as Cordas da Guitarra

 

Mais de meio século depois, é preciso puxar pela memória. E voltar a entrar no Palácio dos Grilos, ou melhor, no antigo Colégio de Santa Rita, então, desde a destruição da antiga “Bastilha” em plena Rua Larga, a sede da Associação Académica.

No pátio da entrada os restos do monumento a Luís de Camões, em que sobressaia o Leão, que, inaugurado em 1881, fora também vítima do camartelo, vindo muitos anos mais tarde a ser reconstituído junto ao CADC, e atualmente colocado ao fundo da Avenida Sá da Bandeira.

Ultrapassada a porta principal entrava-se no que fora a igreja do Colégio Universitário. Sobre a porta, uma espécie de coro, com uma mesa de pingue-pongue; nas paredes algumas glórias do futebol, de separatas do “Mundo de Aventuras”, entre as quais Azeredo, ao que consta, hoje o mais antigo jogador da “Briosa” ainda vivo.

A antiga igreja era ampla. No que fora o altar-mor com os seus ornatos, um longo balcão corrido do qual o senhor Álvaro, qual comandante de navio, dirigia as operações, auxiliado pelo senhor Xico, satisfazendo o pedido dos académicos espalhados pelas mesas.

E, julgo que a memória não me trai, o bilhar completava o quadro.

Do lado direito de quem estava virado para o antigo altar, uma porta que dava para a sede propriamente dita, onde se situavam o Salão Nobre, a sala da direção da A.A., as várias secções, o Orfeão e a Tuna Académica, que aí tinham os seus ensaios, a sala e o pátio onde tantas e acaloradas assembleias magnas tiveram lugar nesses primeiros anos da década de 60. Isto sem esquecer o refeitório da Sociedade Filantrópica, num tempo em que as cantinas universitárias eram uma miragem.

Do lado contrário, à esquerda, uma porta semelhante dava entrada para uma insólita barbearia. De vez em quando ouvia-se o tic-tac de uma tesoura ou o som de uma navalha a ser afiada na tira de sola existente para o efeito.

Mas, sobretudo, ouviam-se os sons de uma guitarra ou de uma viola, sublinhados pela voz de um “sol maior” ou de um “ré menor”, um “outra vez” ou um “está melhor”, proferidas pelo senhor Fernando, o barbeiro que ensinou sucessivas gerações de académicos a acompanhar com os seus instrumentos a canção coimbrã.

Era, pois, aquele cubículo, um minúsculo conservatório onde, entre duas barbas e um corte de cabelo, estudantes aprendiam a tocar, e tantos foram, tendo como mestre Fernando Rodrigues da Silva, tal como o seu irmão Flávio, exímios executantes, na tradição familiar de seu pai, o violinista António Rodrigues da Silva.

No desenrolar da crise académica de 1962 a sede da Associação Académica viria a ser invadida pela polícia e os estudantes que nela se entrincheiraram presos, sendo então encerrada, e onde não mais voltaria a ter lugar.

Calaram-se assim os acordes melodiosos da velha barbearia. E o mestre Fernando passaria e fazer barbas e a cortar cabelos ao domicílio, continuando a dar lições na sua casa na Rua da Matemática.

Pouco tempo depois, em 2 de Dezembro de 1964, viria a falecer, com 49 anos apenas. Dir-se-ia que os deuses do Olimpo e os santos o chamavam para o Paraíso, não para lhes aparar as barbas ou cabelos, do tamanho de séculos, mas para, cansados da música celestial das liras e das harpas dos querubins, ouvirem algo de novo, mais vivo e vibrante: a viola e a guitarra de Coimbra, percorridas pelas mãos ágeis de Fernando Rodrigues da Silva.

Andrade, C. S. 2012. O Fio da Navalha e as Cordas da Guitarra. In: Músicos Salatinas. 1880-1947. Exposição Fotográfica e Documental. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 8

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por Rodrigues Costa às 21:07


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