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A' Cerca de Coimbra


Segunda-feira, 29.02.16

Coimbra, origens 5

As opiniões sobre a data das muralhas de ‘Aeminium’ são diversas. Fernandes Martins atribuiu-as ao século V. Nogueira Gonçalves concluiu que a data «mais provável é a da primeira reconquista, no governo de Afonso III, no século IX, a seguir à tomada de 878». Vergílio Correia admitiu uma data visigótica. A incorporação na cerca citadina de grandes silhares romanos de pedra branca, de elementos arquitetónicos, de lápides, cistas e cipos era, em sua opinião, prova indireta da construção das muralhas numa altura em que «aflorassem ainda na terra, ou constituíssem ‘res nullius’ os edifícios de que faziam parte». «Por outro lado, acrescenta, não se encontraram, até agora, nas muralhas, pedras de ornato paleocristão ou bárbaro». Ora, Coimbra foi cidade importante na época visigótica e quatro reis visigóticos cunharam aqui moeda. Esta principalidade politica poderia explicar a fortificação da cidade. Acrescentemos que a transferência da sede episcopal de Conimbriga para ‘Aeminium’, ocorrida entre 569 e 589, isto é, por alturas da queda do reino suévico, poderia ter contribuído para a edificação das muralhas.
Estabeleça-se, porém, um paralelo com as muralhas de Conimbriga, que são, sem dúvida, da época romana. Já existiam pelo menos em 468, pois nessa data tomaram os Suevos a cidade, destruindo parte da cerca. São mesmo anteriores aos inícios do século V, pois nessa época se fez um enterramento que temos de supor, pela sua posição, anterior à muralha. Ora, silhares de boa pedra branca idênticos aos que aparecem na muralha de Coimbra, elementos arquitetónicos, inscrições, também se encontram nas muralhas de Conimbriga. Nada obsta a que as de ‘Aeminium’ sejam contemporâneas. A cronologia das muralhas romanas peninsulares é ainda um problema, mas os elementos reunidos inclinam-nos a atribuí-las a um grande plano de fortificação de Dioclesiano e Maximiniano, iniciado nos fins de século III e naturalmente continuado pelo IV … Se estas datam dos inícios do século IV, não podemos, porém, deixar de admitir reconstruções posteriores, talvez profundas nalgumas zonas.
Em diversos pontos do recinto amuralhado da cidade se tem descoberto vestígios romanos, para além do criptopórtico e do arco à Estrela … Estes materiais, dispersos em vários pontos da cidade, sugerem, embora não provem, que a área circuitada pela muralha era toda ela ocupada. Aliás, seja a muralha do século IV ou do IX, não é muito verosímil que se tenha construído com largueza, incluindo amplos espaços não habitados.

Alarcão, J. 1979. As Origens de Coimbra. Separata das Actas das I Jornadas do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro. Coimbra, Edição do GAAC. Pg. 36 a 39

 

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por Rodrigues Costa às 11:55

Sábado, 15.08.15

Coimbra, os primórdios da alcáçova 1

É pois, decerto, sobre essa urbe, próspera e «moçárabe», onde entre os vestígios da antiga ordem imperial, que após cinco séculos de abandono lentamente se esboroavam, despontam os novos signos da sua dignidade eclesiástica, debilmente protegida pela «muralha romana» e pelos esforços (seguramente frustres) realizados pelos condes, que se abate, em Julho de 987, a fúria destrutiva de Almançor – fúria, na verdade – que as pedras do alcácer não deixariam, certamente, de «ilustrar».
Com o «repovoamento», porém, «sete anos» mais tarde, chegava também, por fim, uma «comunidade árabe». E, com ela, decerto, finalmente, a mesquita, islamizando a antiga catedral. Mas vinha sobretudo o eloquente sinal de submissão: o reduto «real». Assim pois, buscando, na sua dupla intencionalidade, a um tempo endógena e exógena, local estratégico e eminente onde cumprir o seu objetivo semiótico, erguer-se-ia no extremo do braço meridional da ferradura, o mais proeminente, aí onde, na expressão feliz de Fernandes Martins, se formava como uma esplanada, suspenso, um amplo «ninho de águias» - «ninho» cercado de falésias, defendido naturalmente a sul e a poente, acessível apenas por nascente e alcandorado sobre a «cutilada» que, vincando a colina, abrigava a antiga catedral e, com ela, o «núcleo duro» do agregado cristão. Implantação forçosamente ingrata, que obrigaria, por óbvios imperativos de ordem estática, à deformação da planta regular – tal como a «linha de fastígio» do dorso da colina que a antecede (hoje por completo rebaixada), levaria também a descentrar a porta-forte. Mas cumpria plenamente os critérios «representativos» que haviam presidido à sua edificação. A antiga zona residencial patrícia que, dez séculos mais tarde, as intervenções no «Pátio das Escolas» iriam desvendar, degradada havia muito por novas utilizações – senão mesmo (quase) abandonada – serviria pois, agora, de assento ao monumento que, pelo tempo fora, iria moldar a imagem da cidade … um «alcácer muçulmano», guarda avançada do Islão, de rosto à Cristandade e às pretensões hegemónicas dos monarcas asturo-leoneses.

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg. 192 e 193

 

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por Rodrigues Costa às 22:22

Terça-feira, 23.06.15

Coimbra e as suas muralhas 1

… data de 1930, por mão de António de Vasconcelos, a primeira reconstituição do circuito medieval das muralhas coimbrãs. Se o velho mestre não curara de deslindar a sua origem, mas tão só de definir o seu percurso, outro tanto não faria Virgílio Correia, que, no mesmo ano e sob o impacte da descoberta, nas infraestruturas do Museu que dirigia, do criptopórtico romano, afirmava, invocando Plínio, que “admitindo que «oppidum et flumen Minium» se referem a Coimbra, aí temos, além da designação do nome da terra, a sua qualidade de «oppidum», povoação de altura, fortificada, que de facto Coimbra é, e provavelmente sempre foi”. Apesar disso, não deixava de constatar que “acerca das muralhas romanas de Coimbra, nada conhecemos, até agora, de positivo. Em Junho de 1943, contudo, evocava Nogueira Gonçalves: “Alvorecia o século quinto. Iam caindo, feridas quase sem glória, as águias dos emblemas imperiais. Desabava a torrente dos povos bárbaros, alastrando em ruínas e morticínios. Em 409 … a primeira onda, a dos suevos, alanos e vândalos …”

Ganhava, pois, raízes, até por confronto com Conimbriga, onde os avanços da arqueologia comprovariam a origem tardo-antiga das muralhas, a tese da ereção da cerca coimbrã ao despontar do século V, perfilhada por Fernandes Martins, em 1951 e por Pierre David, desde 47, embora recuando a edificação dos muros, em ambas as cidades, à invasão dos Francos de 258. Antes que terminasse o ano de 43, contudo, meses depois de Nogueira Gonçalves, recordando a invasão bárbara de 409, com ela relacionar a edificação das muralhas coimbrãs, as obras em curso do palácio universitário, proporcionando a descoberta do pano de muro e do cubelo (depois demolido) incluídos no átrio de S. Pedro, abriam novas perspetivas, em função das quais Virgílio Correia, estribado no confronto do “aparelho de construção, onde, como noutros pontos dos muros e das portas de Coimbra, foram empregados blocos romanos, de algum grande edifício desmontado para o efeito”, deduzia ser o mesmo «coevo das grandes obras de fortificação citadina, cuja origem e cronologia precisa são ainda um problema em aberto”

E concluía: “O problema da idade das primeiras muralhas de Coimbra apresenta-se como de difícil solução … Por outro lado, não se encontraram, até agora, nas muralhas pedras de ornato paleocristão ou bárbaro. Donde tornar-se admissível o levantamento da fortificação precisamente na época do domínio dos visigodos, que tornaram Imínio numa capital onde quatro monarcas cunharam moeda; e capital significou sempre, na Idade Média, cidade poderosamente fortificada. As muralhas apresentam, desde o Castelo, ao longo da Couraça de Lisboa, até ao Arco de Almedina, a mesma composição, com aproveitamento nas fiadas inferiores de silhares do grande aparelho romano. Mal conhecidos os muros do lado poente e norte … sendo porém absolutamente seguro que a parte visível sobre a Ladeira dos Jesuítas é de época tardia, de material uniforme”. Por seu turno … exarava Nogueira Gonçalves … “As fortificações militares da cidade pertencem a diversas épocas…”


Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg.195 e 196

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Sábado, 20.06.15

Coimbra no final do período romano

Não é hoje fácil, sem esforço de imaginação, reconstituir com verosimilhança o que foi o processo de implantação do «alcácer de Qulumryya». Como escreveu Borges Coelho … «é necessário, antes do mais, varrer da paisagem toda a imensa massa construída, apagar as casas e o asfalto, completar e aguçar os cabeços das colinas …»
… De facto, de origem antiquíssima, … tudo leva a crer, no qualificativo «oppidum» com que Plínio designara «Aeminium», naquela que constitui a sua mais antiga referência escrita e que a arqueologia, pouco a pouco, parece desvendar, Coimbra, erguida sobre um «monte redondo», como no século XII, a desenhava Idrisi; numa eterna confluência estratégica (de valor militar, económico e cultural) entre o sul e o norte, o litoral e o interior; «cidade-ponte», como alguém lhe chamou; ostentaria por certo, no declinar da Antiguidade, os vestígios grandíloquos do seu passado patrício, emergindo da ingrata topografia fornecida por uma colina, disposta, na verdade, em ferradura, vincada a meio da «cutilada» que a castiça expressão de Fernandes Martins consagraria: o fórum monumental, com o seu criptopórtico, o aqueduto, o cemitério, tudo leva a crer, junto a S. Bento; a ponte, também, unindo a estrada (de traçado polémico), que ligava «Ulissipo» e «Bracara Augusta»; um provável porto fluvial, umas termas, talvez, junto a Santa Cruz; talvez ainda um arco triunfal, ao cimo da couraça, um teatro, um circo, eventualmente; implantado tudo, num esquema de aproximada ortogonalidade; marcado tudo, já, sem dúvida, de um selo de declínio que os sucessos terminais do Império justificariam e a própria «domus» do Paço das Escolas fielmente testemunhará; como minado estaria (a ter existido) o «plano hipodâmico», pela utilização orgânica característica da Antiguidade Tardia, decorrente da contração demográfica e económica e da perda de relevo institucional. E muralhas ainda, parece, implicadas aparentemente na designação de «oppidum» exarada nas palavras de Plínio, a cuja sombra (como quer que tivesse sido) teria corrido a vida nos obscuros séculos da primeira Idade Média.

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg. 190

 

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por Rodrigues Costa às 17:33


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