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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 02.04.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 2

A notícia da nova tentativa de criar uma unidade de lanifícios no antigo convento de Sâo Francisco da Ponte foi divulgada com regozijo pelo periódico «O Conimbricense», no dia 17 de março de 1888, invocando a oportunidade criada pela junção de «tres activos e habeis industriaes, todos de Sadadell, provincia de Catalunha, no visinho reino».
… A escritura de constituição da sociedade de comércio e indústria Peig, Planas & C.ª foi lavrada, em 24 de julho de 1888 … apresentando como finalidade «a fiação e manufactura de toda a espécie de tecidos de lã e estambre no edifício de São Francisco da Ponte».
... O período de montagem da estrutura fabril iniciou-se logo em abril de 1888, com a vinda de máquinas a vapor, caldeiras e teares mecânicos do estrangeiro, que, depois de montados nas salas do antigo complexo conventual, foram alvo de um período de testes para aferir o seu correto funcionamento, Finalmente, no dia 7 de dezembro, o periódico O Conimbricense anuncia «que se acha em plena laboração a fabrica de lanificios dos srs. Peig, Planas & C.ª, no edifício de S. Francisco além, da ponte. Estão trabalhando os differentes teares, fiações e cardas, e em geral todos os machinismos. Ainda bem que vemos em Coimbra a funccionar uma importante fabrica de lanificios, que pode vir a ser um forte incentivo para a creação de outras».

8-Excursao-FLSC-ao-Porto-usm-med-min[1].jpgPessoal da Fábrica em visita à Exposição Têxtil, no Porto. Fotografia de Lara Seixo Rodrigues, acedido em https://www.acabra.pt/2019/03/convento-sao-francisco-aborda-memorias-a-cores/

… Na aproximação da data comemorativa dos 50 anos de atividade (1938), os responsáveis pela empresa relembraram, em comunicado, a odisseia percorrida até então, enaltecendo a papel fundamental daqueles que nela labutaram e, em particular, as diligências iniciais dos sócios fundadores: «Se atendermos à vida difícil que têm atravessado as realizações industriaes portuguesas, particularmente nos lanifícios, o cincoentenário da Fábrica de Coimbra representa uma invulgar afirmação do valor conjunto dos seus dirigentes e dirigidos, pois todos se esforçaram atravez dos anos nem sempre fáceis e das circunstâncias quasi nunca propícias, por elevar sem descanso o progresso e o prestígio deste estabelecimento fabril».
… As mortes de Jaime Castanhinha Dória, em 9 de junho de 1956 e, no ano seguinte, de Vitorino Planas Dória (30 de junho) provocaram alterações significativas na direção da unidade fabril, a que se juntou o afastamento total de Luís Elias Casanovas, por já antever as dificuldades que o futuro dos lanifícios em Portugal, e da fábrica de Santa Clara em particular, teria com a emergência das unidades de confeção e do pronto-a-vestir. Entre saídas e decessos, podemos afirmar que se fechou um ciclo na gerência do estabelecimento fabril. Os novos tempos trarão novos donos, selecionados, uma vez mais, no seio familiar.

Complexo industrial da Fábrica de Lanifícios.jpg

Complexo industrial da Fábrica de Lanifícios em Santa Clara. Finais da década de 70 do século. Fotografia do arquivo particular de Pedro Planas Meunier, acedida, em https://www.publico.pt/2019/07/08/local/noticia/ascensao-queda-fabrica-coimbra-1878945

… Após o período fatídico de sucessivos falecimentos, a sociedade concentrou-se nas mãos dos herdeiros de Vitorino Planas Dória, dividindo-se pelas suas filhas Maria Irene Dória de Aguiar Planas Leitão, Maria Emília Dória de Aguiar Planas Raposo e Maria Vitorino Dória de Aguiar Planas Meunier, casada com o engenheiro George Greenwood Meunier (1926-1996). Este último tomará o comando da gestão da unidade fabril e, a 14 de dezembro de 1962, ascendeu ao estatuto de sócio a partir da compra das quota-partes pertencentes às irmãs da sua esposa.

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed. Pg. 37-59

 

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por Rodrigues Costa às 11:07

Terça-feira, 31.03.20

Coimbra: Fábrica de Lanifícios de Santa Clara 1

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aér

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, vista aérea das instalações

A Fábrica de Lanifícios de Santa Clara apresenta-se como referência máxima do sector têxtil num polo citadino [de Coimbra) sem grandes tradições no referido do ramo, cujo período anterior à firma em evidência se pautou sobretudo, pelo amadorismo das confeções caseiras dos teares manuais e por tentativas de organização de módulos de produção de tecidos dos que não vingaram no tempo.

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidad

Fábrica de Lanifícios de Santa Clara, publicidade

Neste último aspeto, atenda-se, como exemplo, à fábrica de tecidos da Rua de João Cabreira, fundada nos finais da centúria de Setecentos pelos empresários Manuel Fernandes e Guimarães, Manuel Fernandes da Costa e António Machado Pinto, ficando famosa pelos seus damascos «que se tornaram notáveis pelo gosto dos seus lavores e pelo ouro que entrava em muitos», segundo a apreciação do jornalista conimbricense Joaquim Martins de Carvalho.
Os mesmos negociantes fundaram, na cidade, outra unidade de produção de tecidos de algodão em vistosas instalações, uma vez que os relatos asseveram a existência na loja de materiais nobres como o bronze, o aço e madeiras do Brasil. O fornecimento da matéria-prima (fio de algodão) proveio de uma fábrica Tomar; de onde, igualmente, chegaram, para ocuparem um lugar no corpo de funcionários, Bernardo Ferreira de Brito, Paulo José da Silva Neves e Pedro Espingardeiro, epitetados de “habeis artistas”. Em termos de equipamento para produção, o citado espaço deteve 12 teares, cada um com 100 fusos, resultando num tecido de boa qualidade, «não obstante o motor ser de trabalho manual, e por isso sem a regularidade precisa; mas tudo venceu o machinista com a sua rara habilidade».
As causas subjacentes ao definhamentoe respetivo fecho dos dois espaços remetem-se para o roubo de uma porção significativa de fazenda por parte de um familiar dos sócios, bem como a instabilidade proveniente das invasões francesas e a abertura do mercado português aos produtos provindos da Inglaterra, numa consequência evidente do Tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810.
Invoque-se, de igual modo, a importância da tentativa de implantação, já em 1875, da Fábrica de Fiação e Tecidos de Coimbra, uma vez que o objeto do presente estudo irá aproveitar as bases materiais deixadas por uma firma que não conseguiu estabelecer-se de modo definitivo e cujo projeto não deixou de espelhar um ímpeto de grandeza que trouxe em si o gérmen da própria derrocada. Se os primeiros tempos nos parecem auspiciosos, dada a grande procura na subscrição do capital social fixado em 150 000$000 réis – divididos em 1500 ações de 10$000 réis cada uma –, o conhecimento, por parte da opinião pública, dos detalhes da compra do convento de São Francisco da Ponte pela quantia, por muitos considerada exorbitante, de 30 000$000 réis, gerou a fuga do investimento inicial através da desistência de muitos dos subscritores.

Um «valente canudo».jpg

«valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade»

Apesar do citado revés, os membros da direção deram continuidade ao projeto, a partir da transformação do complexo conventual em unidade fabril, acrescentando ao edifício uma chaminé industrial, descrita pelo periódico A Voz do Artista como um «valente canudo que lá se ostenta altivo e que devisamos de diferentes pontos da cidade».

Freitas, D. M., Meunier, P.P. e Mendes, J. A. (Cordenação e Prefácio). 2019. O Fio da Memória. Fábrica de Janfícios de Santa Clara de Coimbra. 1888.1994. S/loc, s/ed.Pg. 27-29

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por Rodrigues Costa às 11:55

Segunda-feira, 16.11.15

Coimbra na Revolução Industrial 1

Coimbra, do ponto de vista dos ideais, das novas correntes estéticas e das ideias políticas, fervilhava, no terceiro quartel do século XIX … Todavia o seu tecido produtivo continuava a ser o artesanal, muito semelhante ao que sempre fora, desde a Idade Média. Mesmo a Fábrica de Sabão, fundada em 1871 por Augusto Luiz Martha, em Santa Clara (nas proximidades da Feitoria dos Linhos e junto ao futuro Portugal dos Pequenitos) não contribuía para alterar o panorama. Com efeito, aquela não passava de uma grande oficina, que produzia sabão manualmente, como aliás continuaria a fazer, durante mais de um século, mesmo após ter instalado a linha de produção automática … nas unidades artesanais conimbricenses produziam-se artigos de primeira necessidade, sobretudo os relativos à alimentação, ao vestuário, ao alojamento e pouco mais. As fontes coevas mencionam, por exemplo: padarias, refinarias de açúcar, pastelarias e confeitarias, unidades de produção de gasosas, trabalhos de construção civil, alfaiatarias e sapatarias, cordoarias e pirotecnia.
Os produtos destinavam-se, fundamentalmente, ao mercado local ou ao autoconsumo.
… Ao aproximar-se o final de Oitocentos, chegam finalmente a Coimbra os primeiros ecos da Revolução Industrial, através da famosa Fábrica de Lanifícios de Santa Clara que, durante cerca de um século, produziu tecidos de lã, de elevada qualidade, que rivalizavam com o que de melhor se fazia no mundo … A fábrica começou a laborar em 1888 … quando foi constituída a firma “Peig, Planas & C.ª” … tendo encerrado no final dos anos de 1980.
… Além dos lanifícios, a têxtil algodoeira foi igualmente uma das indústrias-piloto da primeira fase da industrialização … Foi a firma Aníbal de Lima & Irmão (sociedade em nome coletivo, estabelecida em 1867) que introduziu a indústria de malhas em Coimbra … instalando a respetiva fábrica, sucessivamente, no Largo do Romal … no Rego de Benfins … e finalmente, na Rua do Gasómetro (futura Rua João Machado).
As suas instalações foram edificadas em 1906-1907, onde se manteve em laboração até 1978.
… Também o Banco Comercial de Coimbra … lutou com enormes dificuldades para sobreviver cerca de um quarto de século (1879-1899).
… Indústria igualmente relevante, nesta fase do desenvolvimento industrial, foi a da cerâmica e da porcelana. Também neste domínio Coimbra tinha tradição. A primeira, que remonta à Idade Média, viria a adquirir certo prestígio do século XVIII para o XIX, graças a Brioso e Vandelli. O seu legado, após uma longa interrupção, viria a ser retomado pela Cerâmica Antiga de Coimbra (Quintal do Prior, também conhecido por Terreiro da Erva), em cujo local se trabalhava o barro, pelo menos, desde 1867.
… merecem destaque, em Coimbra:

a) A Cerâmica Limitada, e a instalação da sua Fábrica no Loreto, junto à Estação de Coimbra B (em 1919), ainda recordada pelo painel de azulejos – visível da referida estação … nela chegaram a trabalhar 1.000 operários, tendo encerrado em 1980.
b) Por sua vez, em 1924, a Sociedade de Porcelanas, Ld.ª … introduziu o fabrico de porcelanas em Coimbra…

Mendes, J. A. 1910. Coimbra Rumo à Industrialização. 1888-1926. In Caminhos e Identidades da Modernidade. 1910. O Edifício Chiado em Coimbra. Actas. 1910. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 138 a 143

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por Rodrigues Costa às 12:35


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