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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 05.04.22

Coimbra: António Nobre, aluno da Universidade 2

António Nobre não passa despercebido na Coimbra de então. Os poemas dispersos já publicados, o esguio da sua figura, a palidez do rosto, o singular modo de vestir a capa e batina, fazem-no sobressair de entre os seus pares.

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Fotografia do Poeta. In: Passear na Literatura. António Nobre

 À mesa do «Lusitano», sede das tertúlias boémias e literárias, naquele século XIX de todos os poetas, vai nascer uma revista, grito de uma geração que quer deixar em páginas impressas a afirmação do seu pensar. E surge assim A «Bohemia Nova», que na sua efemeridade, é a presença de uma nova poesia, que desencadeará um vendaval de apaixonadas discussões literárias.

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Imagem acedida em https://almamater.uc.pt/republica/item/65714

 O fim do ano escolar aproxima-se, e com ele a deceção dolorosa de um ano perdido, com a “quadrilha” de lentes, nas suas próprias palavras, a negar-lhe a aprovação.

Após as férias, no regresso a Coimbra, António Nobre, no acto da matrícula, dá como morada a “Estrada da Beira”.

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Estrada da Beira. In: Passear na Literatura. António Nobre

“Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,

Donde ouvia arrulhar as pombas no telhado;

Oiço o relógio a dar as horas vagamente,

Devagar, devagar, como os ais dum doente;”

«Só — Na Estrada da Beira»

 Se aí não vem a viver, ficará para sempre ligado a essa rua pelo grande amor da sua vida, Margarida Lucena, a sua Margareth, que cantou em versos, com o nome de «Purinha»:

«Aquela, que, um dia, mais leve que a bruma,

Toda cheia de Véus, como uma espuma,

O Senhor Padre me dará para mim

E a seus pés, me dirá, toda coroada: Sim!»

E entre os fugazes encontros no Jardim Botânico e as novenas nas Ursulinas, a casa amada na “Estrada da Beira”:

«Vejo o teu Iuar e a ti, tão pura, tão singela,

E vejo-te a sorrir, e vejo-te à janela

Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,

Ansiosa, olhando dentre as folhas do arvoredo,

Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,

Que às vezes não me fosse um carro atropelar.»

Durante o ano letivo, mora numa casa que dá, por um lado, para a Rua do Correio (hoje Joaquim António de Aguiar) e por outro, para o Beco da Carqueja, mesmo ao pé “de uma das melhores coisas de Coimbra, a Sé Velha; é uma esplêndida igreja, estilo mourisco, que eu tanto desejaria transportar para a Boa Nova, fazendo dela o tão desejado Torreão”.

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Beco da Carqueja, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Moro, já sabes, no Beco da Carqueja: beco célebre, a que se refere, na sua História de Portugal, o Oliveira Martins. Aqui, numa casa vizinha (nesta quem sabe?), houve uma associação secreta composta de estudantes e conhecida popularmente pelo “Bando da Carqueja”, cujos fins, atém de políticos olhavam a guerrear os Isentes e aquela Universidade:”

«Carta a Alfredo de Campos, 9 Janeiro 1890»

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Beco da Carqueja, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Não escrevi e gastei, ou antes estraguei duas folhas de papel: uma por hesitar na preferência das minhas duas adresses— Beco da Carqueja, 114 Correio;

...Queria antes de acabar, falar-te desta República a que os meus companheiros, talvez influenciados pela epidemia-Dandy— chamam Le Château jaune.

«Carta a Alberto de Oliveira, 9 Janeiro 1890»

 Das janelas da sua nova casa, espraiando a vista, olha-se o rio, que lhe inspira quadras como esta, que irá entrar no folclore coimbrão:

«Vou encher a bilha e trago-a

Vazia como a levei!

Mondego, qu’é da tua água.

Qu’é dos prantos que eu chorei?»

E lá mais longe, o Choupal, que lhe guia a mão nos versos que compôs:

«O choupo magro e velhinho,

Corcundinha, todo aos nós,

Es tal qual meu avôzinho:

Falta-te apenas a voz.

 

Fui plantar o teu cabelo

Entre os choupos, no Choupal,

E nasceu, anda lá vê-lo,

Um choupinho tal e qual.

 

Ó boca dos meus desejos

Onde o padre não pôs sal,

São morangos os teus beijos,

Melhores que os do Choupal!»

 

Andrade, C.S. Passear na Literatura. António Nobre. S/d. Coimbra, Câmara Municipal

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:48


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