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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 23.11.23

Coimbra: a terra que Torga amou 3

Frente ao rio ao longo dos tempos, escreveria mais tarde:

MEMORIA

De todos os cilícios, um, apenas,

Me foi grato sofrer:

Cinquenta

A ver correr,

Serenas,

As águas do Mondego.

Como dramaturgo publica em 1941 «Terra Firme. Mar» e nesse ano inicia o seu «Diário», o primeiro de 16 volumes em que, ao longo de mais de 50 anos, nos deixou as suas reflexões, os seus pensamentos, os seus poemas, as suas angústias e a sua visão de um mundo em constante mutação.

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Torga. «Diário. II». Acedido em https://www.bing.com/images/search

O seu consultório era também a sua oficina. de escritor.

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O seu consultório era também a sua oficina. de escritor

Um a um, novos livros iam saindo da sua pena; «Rua», «Lamentação, «O Senhor Ventura». A partir de 1944, com «Libertação» é a Coimbra Editora que lhe imprime que lhe imprime os seus livros: «Novos Contos da Montanha», «Vindima», «Odes», «Sinfonia», «Nihil Sibi», «O Paraíso», «Cântico do Homem», e tantos, tantos outros.

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Torga. «Contos da Montanha». Acedido em: https://www2.unicentro.br/pet-letras/2017/08/29/resumo-da-obra-contos-da-montanha-de-miguel-torga/

Miguel Torga conhecia profundamente o seu país, desde as agrestes terras do norte às suaves planuras do sul. A sua ligação à terra, às montanhas, aos rios, é uma das suas mais evidentes características. Escritor telúrico, como tão largamente é referido, ele próprio, filho de camponeses transmontanos, aspirava a ser um semeador de poesia:

 

RASTO

Semeador de versos? Quem me dera!

Não haveria homem mais feliz.

Ter o espírito em flor na primavera,

E o corpo, no inverno, com raiz.

Não.

Retalho apenas a ilusão…

À teimosa procura

Dum singular e único sinal

Que todo me defina e me resuma,

Vou desfolhando a rosa da expressão

E deitando no chão

Caídas as palavras, uma a uma.

O constante peregrinar, o calcorrear do país, estão bem patentes na sua obra. consubstanciados no seu livro «Portugal», um retrato vivo e nítido da terra portuguesa.

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Torga. «Portugal». Acedido em https://livrariaultramarina.pt/product/portugal-miguel-torga-1950-1a-edicao/

E nos volumes do «Diário» são constantes as impressões que lhe causam e as reflexões que lhe inspiram as suas viagens de norte a sul do país.

Mas Miguel Torga viajou também por outras paragens. Mais uma vez a Europa, de novo o Brasil da sua adolescência, o México, Angola e Moçambique, a longínqua Macau, deixando-nos de todas essas viagens as suas sensações, os seus poemas.

Numa cidade que mudava, também ele mudara de residência. E na Rua Fernando Pessoa, para os lados da Cumeada, passa a ter o seu novo lar, em 1953, a que, em breve, o sorriso de uma filha vem dar nova vida.

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O reconhecimento da sua obra não tardaria, com a atribuição de vários prémios, quer nacionais quer internacionais, e a sua universalidade está bem patente na tradução dos seus livros nas mais variadas línguas e nos mais diversos países.

«Orfeu Rebelde», o título de um dos seus livros, aplica-se com propriedade à sua obra e à sua personalidade. Poeta da rebeldia, avesso a escolas literárias, Torga foi um lutador solitário, usando a caneta como arma para transmitir toda a sua força interior. Que está bem expressa no seu poema

 

ORFEU REBEIDE

 Orfeu rebelde, canto como sou:

Canto como um possesso

Que na casca do tempo, a canivete,

Gravasse a fúria de cada momento;

Canto, a ver se o meu canto compromete

A eternidade no meu sofrimento.

 

Outros felizes, sejam rouxinóis …

Eu ergo a voz assim, num desafio:

Que o céu e a terra, pedras conjugadas

De moinho cruel que me tritura,

Saibam que há gritos como há nortadas,

Violência faminta de ternura.

 

Bicho instintivo que adivinha a morte

No corpo de um poeta que a recusa,

Canto como quem usa

Os versos em legítima defesa.

Canto, sem perguntar à Musa

Se um canto é de terror ou de beleza.

O tempo corria, inexoravelmente. Para trás iam ficando as longas jornadas de caça, o subir dos montes, a descida dos vales. O médico usaria menos vezes o bisturi, daria maior descanso ao estetoscópio. E um dia o velho consultório da Portagem deixaria de ser o ser o seu posto de observação. Estávamos em 1992: "Desfiz-me do escritório. Mil circunstâncias adversas conjugaram-se encarniçadamente nesse sentido. E adeus, meu velho reduto, onde durante tantos anos lutei como homem, médico e poeta". Mais do que uma porta que se encerrava era uma vida que se escoava, fechadas que estavam as janelas por onde o mundo entrara pelos seus olhos iluminando as paredes do que fora espaço de tertúlia. alívio de dores e oficina de poesia.

Longa fora a sua vida. Grande é a sua obra. Por fim, a doença que lhe debilitou o corpo, não o impediu de escrever, escrever sempre. O último poema que publicou, no 16° volume do «Diário», em 1993, é uma despedida comovente:

 

REQUIEM POR MIM

 E tenho pena de acabar assim,

Em vez de natureza consumada,

Ruína humana.

Inválido do corpo

E tolhido da alma.

Morte em todos os órgãos e sentidos.

Longo foi o caminho e desmedidos

Os sonhos que nele tive.

Mas ninguém vive

Contra as leis do destino.

E o destino não quis

Que eu me cumprisse como porfiei,

E caísse de pé, num desafio.

Rio feliz a ir de encontro ao mar

Desaguar,

E, em largo oceano, eternizar

O seu esplendor torrencial de rio.

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Torga na sua Casa de Coimbra, da Rua Fernando Pessoa

 Estava a chegar ao fim a luta desigual que Miguel Torga travava, há anos, com coragem e estoicismo. E um dia, a 17 de janeiro de 1995, termina uma vida de interrogações e ansiedades. Só ficava a poesia. E no dia seguinte era a despedida de Coimbra, o fim da jornada em que a cidade, ao longo de sete décadas, se habituara a ver o seu perfil de granito transplantado para a suavidade do seu calcário. S. Martinho de Anta reclamava o seu filho, para o afagar no seu húmus materno.

 Andrade, C. S. Passear na Literatura, A ver correr, / Serenas, / As águas do Mondego. Sem data. Coimbra. Edição do Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 21:39

Terça-feira, 21.11.23

Coimbra: a terra que Torga amou 2

Formado em Medicina. regressa a S. Martinho de Anta. Mas não cabiam na terra natal as suas ambições.

MT. 7.jpgTorga em S.Martinho de Anta. Imagem Col. CF

E pouco depois está de novo em Coimbra.

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Op. cit., s/ numeração

Sem uma situação profissional definida, numa terra em que abundavam os médicos, a escrita continuava, e mais uma vez a «Atlântida» lhe iria imprimir um novo livro. Escritor e médico, como depois escreveria, "servira devotadamente a dois amos". Mas sentia que era necessário separar os nomes de quem empunhava o bisturi e de quem maneja a caneta. Adolfo Rocha seria o clínico, cuidando dos corpos. Para o escritor iria buscar na admiração por Cervantes e por Unamuno o nome de Miguel, a que acrescentaria Torga, matriz transmontana das urzes selvagens das suas origens. E quando em 1934 sai o livro «A Terceira Vez», encimava o título o seu nome literário, “Com um ósculo vo-lo entrego. Chama-se «Miguel Torga", escreveu pela última vez Adolfo Rocha no prefácio.

No mesmo ano vai substituir, temporariamente, o médico de Vila Nova, no concelho de Miranda do Corvo, tornando todos os fins de semana, quando as obrigações médicas não o impediam, o comboio para Coimbra. onde tinha um quarto para as suas pernoitas na A. C. E. (hoje A C. M.), na Rua Alexandre Herculano. E do convívio à mesa da «Central», bálsamo semanal para o isolamento da aldeia, nascia mais uma revista «Manifesto», que finda em 1936 com Albano Nogueira.

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Pastelaria Central, onde acontecia a “Tertúlia do Torga” que também tinha lugar nos cafés da ”Brasileira” e do “Arcádia”. Imagem da Col. CF. Op. cit., s/ numeração.

Nesse ano, mais um livro, «O Outro Livro de Job». Não se demoraria muito em Vila Nova. O regresso do médico permanente, as intrigas aldeãs e a falta de saúde fazem-no regressar à cidade do Mondego.

Mais uma vez em Coimbra procura um destino profissional duradouro, tirando uma especialidade: "Dispus-me, finalmente, a meter o corpo aos varais. Comecei a praticar no consultório de um colega otorrinolaringologista". Mas, ao mesmo tempo, a escrita não para. E, assim, em 1937, publica «A Criação do Mundo. Os  Col. CFDois Primeiros Dias», biografia romanceada dos seus primeiros anos de vida, até aos primeiros tempos no Brasil. Ainda nesse ano colabora na «Revista de Portugal», dirigida por Vitorino Nemésio. E em Dezembro faz uma viagem a Espanha (em plena guerra civil), França e Itália, dando um salto a Bruxelas, para visitar o seu amigo Nemésio, então professor na capital belga. Em 1938, novo livro da «Criação do Mundo, o Terceiro Dia» relato da sua vida, desde o regresso do Brasil até à partida para a viagem à Europa.

Concluída a especialidade, nova fase surge m sua vida. Como não era fácil abrir consultório cm Coimbra, vai para Leiria, onde "montou a sua tenda", segundo as suas próprias palavras. Foi determinante para a escolha da cidade a proximidade de Coimbra o que lhe permitia ir aí todas as semanas, para o convívio literário de que necessitava e pela proximidade das livrarias, das tertúlias e da tipografia onde imprimia os seus livros. E um deles, saído em 1939, «O Quarto Dia da Criação do Mundo», narração da sua viagem pela Europa, da Espanha franquista e da Itália de Mussolini, bem como do encontro em Paris com os exilados do regime salazarista, iria levá-lo à prisão do Aljube, em Lisboa, onde passou o Natal desse ano e escreveu alguns dos seus mais significativos poemas.

Liberto da prisão, regressa a Leiria. No ano de 194 a vida de Miguel Torga iria tomar um novo rumo, com o casamento com Andrée Crabbé, uma jovem belga que conhecera em Coimbra em casa de Vitorino Nemésio, de quem era aluna em Bruxelas.

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Andrée Crabbé Rocha e Torga. Acedida em  https://www.bing.com/images/search

E nesse ano publica um livro de contos, «Bichos», um dos mais representativos da sua obra A censura não dormia e, no ano seguinte, um outro livro do escritor, «Montanha» é apreendido.

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Torga. «Os Bichos». Op. cit., s/ numeração

Continua a viver, agora casado, em Leiria. Mas a cidade não preenchia os seus anseios. E quando pensa em mudar de ares, a resposta surge naturalmente: "Coimbra como não podia deixar de ser. Era ela, quer eu quisesse quer não, a minha Agarez alfabeta, o húmus pavimentado que os meus pés pisavam com mais amor".

E assim, mais um nome vinha juntar-se aos clínicos da cidade. Num primeiro andar do Largo da Portagem estava agora o seu consultório. Na parede uma placa: "Adolfo Rocha - Ouvidos, Nariz e Garganta".

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 Op. cit., s/ numeração

Em frente, o pequeno jardim, com a estátua de Joaquim António de Aguiar, mais além o Mondego e, em fundo, o verde do horizonte de Santa Clara.

Não longe, no nº 32 da Estrada da Beira, num caminho bordejado pelo Parque da Cidade, instalara-se o casal. Nas traseiras, a vista descia até ao Mondego numa paisagem inspiradora

O seu consultório era não só um local de alívio para os seus doentes, mas também um ponto de reunião com os seus amigos e com sucessivas levas de estudantes, onde tudo se discutia, da política à literatura, e sobretudo, as suas janelas eram os olhos com que Miguel Torga viu, no decorrer dos anos, o mundo à sua volta e as alterações que se iam desenrolando e de que, observador atento, deu conta nos seus livros.

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Adolfo Rocha no seu consultório. Op. cit., s/ numeração

Andrade, C. S. Passear na Literatura, A ver correr, / Serenas, / As águas do Mondego. Sem data. Coimbra. Edição do Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 11:12

Terça-feira, 05.04.22

Coimbra: António Nobre, aluno da Universidade 2

António Nobre não passa despercebido na Coimbra de então. Os poemas dispersos já publicados, o esguio da sua figura, a palidez do rosto, o singular modo de vestir a capa e batina, fazem-no sobressair de entre os seus pares.

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Fotografia do Poeta. In: Passear na Literatura. António Nobre

 À mesa do «Lusitano», sede das tertúlias boémias e literárias, naquele século XIX de todos os poetas, vai nascer uma revista, grito de uma geração que quer deixar em páginas impressas a afirmação do seu pensar. E surge assim A «Bohemia Nova», que na sua efemeridade, é a presença de uma nova poesia, que desencadeará um vendaval de apaixonadas discussões literárias.

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Imagem acedida em https://almamater.uc.pt/republica/item/65714

 O fim do ano escolar aproxima-se, e com ele a deceção dolorosa de um ano perdido, com a “quadrilha” de lentes, nas suas próprias palavras, a negar-lhe a aprovação.

Após as férias, no regresso a Coimbra, António Nobre, no acto da matrícula, dá como morada a “Estrada da Beira”.

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Estrada da Beira. In: Passear na Literatura. António Nobre

“Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,

Donde ouvia arrulhar as pombas no telhado;

Oiço o relógio a dar as horas vagamente,

Devagar, devagar, como os ais dum doente;”

«Só — Na Estrada da Beira»

 Se aí não vem a viver, ficará para sempre ligado a essa rua pelo grande amor da sua vida, Margarida Lucena, a sua Margareth, que cantou em versos, com o nome de «Purinha»:

«Aquela, que, um dia, mais leve que a bruma,

Toda cheia de Véus, como uma espuma,

O Senhor Padre me dará para mim

E a seus pés, me dirá, toda coroada: Sim!»

E entre os fugazes encontros no Jardim Botânico e as novenas nas Ursulinas, a casa amada na “Estrada da Beira”:

«Vejo o teu Iuar e a ti, tão pura, tão singela,

E vejo-te a sorrir, e vejo-te à janela

Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,

Ansiosa, olhando dentre as folhas do arvoredo,

Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,

Que às vezes não me fosse um carro atropelar.»

Durante o ano letivo, mora numa casa que dá, por um lado, para a Rua do Correio (hoje Joaquim António de Aguiar) e por outro, para o Beco da Carqueja, mesmo ao pé “de uma das melhores coisas de Coimbra, a Sé Velha; é uma esplêndida igreja, estilo mourisco, que eu tanto desejaria transportar para a Boa Nova, fazendo dela o tão desejado Torreão”.

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Beco da Carqueja, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Moro, já sabes, no Beco da Carqueja: beco célebre, a que se refere, na sua História de Portugal, o Oliveira Martins. Aqui, numa casa vizinha (nesta quem sabe?), houve uma associação secreta composta de estudantes e conhecida popularmente pelo “Bando da Carqueja”, cujos fins, atém de políticos olhavam a guerrear os Isentes e aquela Universidade:”

«Carta a Alfredo de Campos, 9 Janeiro 1890»

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Beco da Carqueja, in: Passear na Literatura. António Nobre

“Não escrevi e gastei, ou antes estraguei duas folhas de papel: uma por hesitar na preferência das minhas duas adresses— Beco da Carqueja, 114 Correio;

...Queria antes de acabar, falar-te desta República a que os meus companheiros, talvez influenciados pela epidemia-Dandy— chamam Le Château jaune.

«Carta a Alberto de Oliveira, 9 Janeiro 1890»

 Das janelas da sua nova casa, espraiando a vista, olha-se o rio, que lhe inspira quadras como esta, que irá entrar no folclore coimbrão:

«Vou encher a bilha e trago-a

Vazia como a levei!

Mondego, qu’é da tua água.

Qu’é dos prantos que eu chorei?»

E lá mais longe, o Choupal, que lhe guia a mão nos versos que compôs:

«O choupo magro e velhinho,

Corcundinha, todo aos nós,

Es tal qual meu avôzinho:

Falta-te apenas a voz.

 

Fui plantar o teu cabelo

Entre os choupos, no Choupal,

E nasceu, anda lá vê-lo,

Um choupinho tal e qual.

 

Ó boca dos meus desejos

Onde o padre não pôs sal,

São morangos os teus beijos,

Melhores que os do Choupal!»

 

Andrade, C.S. Passear na Literatura. António Nobre. S/d. Coimbra, Câmara Municipal

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:48


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