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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 24.12.15

Coimbra, caminhos e bairros a nascente da Cidade

Nada mais natural pensar que a antiga estrada da Beira até á Portela tenha seguido um traçado que a atual decalca; o próprio terreno parece indicar esse lógico trajeto; e todavia não se deu isso.
… A estrada da Beira partia não da ponte mas da parte alta, da porta do Castelo … Passada a porta da fortaleza tinha-se logo abaixo ao lado direito o caminho que permitia voltar á cidade pela porta da Traição; à esquerda a estrada de Entremuros que levaria a Fonte Nova, de onde se tomaria para a porta Nova ou rua das Figueirinhas ou ainda se cortaria a norte para o Montarroio.
… Muito naturalmente o sítio, na parte mais plana, a do colo do monte, pedia um agregadozinho populacional. Ao lado direito, aonde vinha bater o muro da velha quinta dos crúzios, havia um, como hoje, em frente ao aqueduto. Prolongava-se mais que agora (e duma demolição recente ainda nos lembramos todos), fazendo uma correnteza de casas, tendo só encostadas aos arcos e em frente portanto das outras umas duas ou três.
Tinha para o lado da Penitenciária a modesta capela de S. Martinho, e em ponto levemente anterior o oratório do Santo Cristo das Maleitas, transformação dum cruzeiro de caminho.
Era este o fatal bairro popular que precedia a entrada das cidades fortificadas. Tabernas, pequenos negócios, gente sem eira nem beira, vivendo em tugúrios e pronta a qualquer serviço humilde, a alombar todos os carregos, a encarregar-se de qualquer recado, tudo isso aí ficaria.
Sigamos o caminho, passando sob o arco principal, pois que a topografia foi modificada com o muro do jardim botânico. Era aqui o ladeirento e pequeno campo de Santa Ana, com o chafariz, donde seguia o caminho de Celas e cortava o da Beira para o novo bairrozinho, o de S. José, tirando o nome do colégio conventual de S. José dos Marianos (hospital militar).
… Começava a descida e, à capela de Santo Antoninho dos porcos (pois que ali se fazia o mercado deles) passava o caminho pelo desvio angular que ainda ali se vê, para depois se meter pela ladeira calçada das Alpenduradas.
No fundo da descida, depois do mercado e das traseiras da fábrica, atingindo o vale, encontrava-se, como hoje, o começo do bairro do Calhabé e que se continuava esgarçadamente até perto da passagem de nível, sítio este aonde todos nós conhecemos umas casa baixas. Numa destas parece que viveu o velho Calhabé, prazenteiro e bebedor, mas que fora homem de representação.
Já outrora ninguém pensaria que ainda fosse cidade o Calhabé, bem ao contrário do que os justos fados talharam e que começa a realizar-se: o Calhabé ser a cidade e Coimbra um pobre bairro do mesmo Calhabé!
Podia-se descansar um pouco que uma nova ladeira esperava o caminhante. Lentamente subia-se á Portela da Cobiça. Lançado um último olhar à cidade afastada, transposto o colo, caminhava-se pelo vale transverso até ao rio, que depois se ia acompanhando para cima das Torres. Em frente aos Palheiros esperava-se que a barca do concelho viesse da outra margem e nos transportasse.
A cidade, aonde ficava ela!
… Lá seguiriam os viandantes, pelo cume, até Carvalho. Por Poiares, Almas da Serra, (S. Pedro Dias) iriam cair na Ponte de Mucela, aonde buscariam agasalho conforme a sua bolsa.
A serra máxima, a da Estrela do pastor, esperava-os.

Gonçalves, A. N. 1952. Antigos Caminhos e Pequenos Bairros a Nascente da Cidade. In Diário de Coimbra, edição de 25.12.1951

 

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por Rodrigues Costa às 10:42

Terça-feira, 24.11.15

Coimbra, o Bairro de S. José, a capelinha de Santo Antoninho dos porcos e a Estrada da Beira

A partir da segunda metade de Oitocentos projetaram-se e começaram a crescer os bairros de S. José e de S. Sebastião; o primeiro encostava-se à cerca do Seminário e abrangeria, outrora, a zona que ia da esquina do Jardim Botânico ao começo da ladeira das Alpenduradas; tirara o seu nome do colégio conventual de S. José dos Marianos (hospital militar). O segundo desenvolvia-se à sombra do aqueduto, quiçá confundindo-se parcialmente com o bairro de S. Martinho.
… O Bairro de S. José, que outrora servia de cenário à feira dos porcos, prolongou-se pela Rua de S. José, posteriormente dos Combatentes da Grande Guerra, até ao Calhabé que, em meados do século XIX, não passava de uma quinta com uma única casa.
… Entre as direções apontadas como possíveis para responder à necessidade do alargamento do espaço urbano pode referir-se o Bairro da Estrada da Beira que, desde 1887, vinha ganhar forma. Nessa data, a conhecida via iniciava-se no Largo Príncipe D. Carlos (Portagem) e estendia-se até ao Calhabé, mais ou menos ao local onde se encontra a passagem de nível; mas nem sempre assim foi, porque, na verdade, a Estrada da Beira partida da parte alta, da porta do Castelo, baixava ao longo do aqueduto, passava sob o arco principal, atravessa o “jardim dos patos” e seguia até à capela de Santo Antoninho dos porcos, cruzava o bairro de S. José e metia pela ladeira calçada das Alpenduradas. No fundo da descida, depois de desenrolar um pouco, subia à Portela da Cobiça, caminhava pelo vale transverso até ao rio que era atravessado numa zona situada um pouco acima das Torres do Mondego.


Anacleto, R. 2010. Coimbra Entre os Séculos XIX e XX. Ruptura Urbana e Inovação Arquitectónica. In Caminhos e Identidades da Modernidade. 1910. O Edifício Chiado em Coimbra. Actas. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 169 e 170

 

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por Rodrigues Costa às 10:43

Quarta-feira, 11.11.15

Coimbra, Torga e a cidade 1

Muda-se para Coimbra (em 1940). Mora numa pequena casa no n.º 32 da Estrada da Beira, com vista das traseiras para os laranjais do Mondego. Aí recebe intelectuais e amigos: Ribeiro Couto, Eugénio de Andrade, Ruben A., etc.
… Coimbra é assim vista por Torga, no volume Portugal (1950:

Passeando Coimbra a certas horas do dia e da noite, é flagrante que um manto de luz sedativa a ilumina. Tanto o sol como a lua se esforçam por mantê-la numa irrealidade poética, feita do alvoroço das sementeiras e da melancolia das desfolhadas. Cenário para um perpétuo renascimento do espírito que, além da pureza de um céu límpido e aberto, poderia ter a Grécia e a Itália reunidas na mesma colina debruada de choupos e de oliveiras. Mas aproveitaram a oferenda apenas o ópio sentimentalista. E o Penedo da Meditação, a Lapa dos Esteios, o Jardim Botânico e o Parque de Santa Cruz vivem permanentemente num banho-maria nostálgico que, sendo uma realidade física local, é simultaneamente a atmosfera mental do português” (Portugal, Coimbra, 6.ª ed., 1993, p. 90).

 

Abre consultório no Largo da Portagem, n.º 45. Aí exercerá a especialidade de otorrinolaringologia durante mais de cinquenta anos … Torga vai todos os dias ao consultório, de elétrico ou de trolley, passando primeiro pela tipografia ou pelas livrarias da Baixa, e detendo-se na Central, e mais tarde no café Arcádia, onde se junta a uma pequena tertúlia.
Com vista sobre o rio e a cidade, o consultório é a sua “janela” sobre o mundo. É também um dos seus lugares de escrita, sobretudo nos últimos anos, quando tem menos clinica, e de encontro com amigos, intelectuais e políticos. Aí recebe jovens poetas que o procuram, admiradores conhecidos e desconhecidos, escritores estrangeiros e, mais raramente, jornalistas, em longas conversas por vezes documentadas nas páginas do Diário.
… Passa a morar (1953) na rua Fernando Pessoa, nº 3.

Rocha, C. 2000. Miguel Torga. Fotobiografia. Prefácio de Manuel Alegre. Lisboa, Publicações D. Quixote. Pg. 76, 80 e 81, 117

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por Rodrigues Costa às 22:54


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