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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 05.03.19

Coimbra: Estalagens Coimbrãs e do seu termo 3

Por se tratar de um retrato muito interessante e realista da vida coimbrã do século XVI concluímos esta série de entradas onde reproduzimos parcialmente o trabalho de Carneiro da Silva intitulado As Estalagens Coimbrãs e do seu termo, com a transcrição do «Regimento dos vendeiros e estalajadeiros», aprovada pela Câmara de Coimbra em 16 de abril de 1568 e transcrita pelo autor na publicação referida.

… se praticou o regimento do agasalho dos caminhantes e nobreza … e porque era importante haver nela até quatro estalagens, e uma no burgo de Santa Clara, que fossem abastados de todos os mantimentos necessários e camas para gente nobre e de outra sorte, e boas pousadas bem providas de pão, vinho e carnes e pescados, e palha e cevadas e boas estrebarias … a que os estalajadeiros se obrigariam em Câmara e pelo regimento que ora lhe era dado».
Passara um ano entre a elaboração do regimento e a sua aprovação, decerto em acertos quanto aos preços e qualidade dos alimentos a fornecer aos viandantes. Acordou-se então numa tabela de preços que pelas suas muitas curiosidades de transcreverá. Assim:
«Item: o pão o farão e o darão aos caminheiros de dois, quatro e oito reais, conforme o peso da ordenação;
Item: uma posta de carne de vaca de qualidade, que cosida pese um quarto de arrátel, cinquenta reis;
Item: uma posta de carne de porco que cosida pese um quarto de arrátel a darão por cinquenta reis;
Item: uma posta de carneiro de um quarto de arrátel que cosida pese o mesmo, cinquenta reis;
Item: uma posta de pescada fresca de quarto de arrátel darão cosida por cinquenta reis a posta;
Item: o quartilho de vinho darão pelos preços da almotaçaria, conforme os presentes acordos, e por mais fino que seja não passará de tal preço nem o poderão alevantar do preço que a Câmara ordenar, e daí para baixo o poderão os almotacés prover o vinho somenos sem alterar o preço que sair na Câmara;
Item: terão medida aferida de real de azeite;
Item: levarão por uma camara fechada com sua cama e enxergão, colcha e dois lençóis de linho lavados, com seu cobertor de papa ou de pano e travesseiro enfronhado, tudo limpo, por noite e dia trinta reis;
Item: uma cama da dita maneira, por noite, vinte reis; uma cama somenos com seu enxergão, colchão com seus lençóis lavados, sem cobertor ou manta, por noite e dia quinze reis;
Item: de manta e seus lençóis, cinco reis;
Item: de uma esteira, um real por cada pessoa;
Item: por joeira de palha darão cinco reis, a qual palha será marcada com a marca da cidade;
Item: venderão o alqueire de cevada conforme aos preços da lei;
Item: levarão de estada de cada besta um real, e terá boas manjedouras, sem serem rotas, e terão nelas encaixadas umas manjedouras de alguidares de barro;
Item: não consentirão nas estrebarias porcos nem galinhas, nem terão mulheres de partido em suas estalagens ou pousadas, nem consentirão jogos de cartas nem dados.

Nota:
Arrátel era uma unidade de peso que, ao tempo do Regimento, equivalia a 0,459 kg. Constata-se, pois, que um quarto de arrátel representava pouco mais de 114 gramas, o que aponta, na época, para um custo bastante elevado da alimentação.

Silva, A.C. As Estalagens Coimbrãs e do seu termo. Separata da Munda. 1988.

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por Rodrigues Costa às 11:26

Quinta-feira, 28.02.19

Coimbra: Estalagens Coimbrãs e do seu termo 2

Ao longo do texto de Carneiro da Silva As Estalagens Coimbrãs e do seu termo, para além das três estalagens mencionadas na entrada anterior, são ainda referidas:

- Estalagem de Santa Clara, primeira
… nas reuniões da Câmara de 22 de julho de 1642 e na de julho de 1644, se discutiram os problemas que o estalajadeiro … criava na sua «Estalagem de Santa Clara» … por estar notificado não usasse de venda nem de agasalho pessoa alguma em sua casa, de «mau viver», e ele fazia o contrário.

- Estalagem de Santa Clara, segunda

Panorâmica do Bairro de Santa Clara aa.JPG

Panorâmica do bairro de Santa Clara. Notar a estrada para Lisboa, e no extremo esquerdo da gravura [não identificada] o que foi segunda estalagem de Santa Clara

Em 1674, Cosme Francisco Guimarães, morador em Sansão, pagava o foro de 200 reis de explorar aquela estalagem no Rossio de Santa Clara [a qual fora construída] «para substituir outras que se tinham arruinado com as cheias perto da ponte.»

- Estalagem na Rua da Sofia
Na passagem do século XVI existiu na Rua da Sofia, na vizinhança da entrada da Rua Nova [uma estalagem que] Diogo Marmeleiro de Noronha … fizera … para agasalho dos passageiros e caminhantes com muito gasalhos e camaras fechadas para fidalgos e pessoas graves.

- Estalagem da Quinta da Portela
Em 16 de Dezembro de 1624 «Diogo Marmeleiro de Noronha me enviou dizer por sua petição que ele queria fazer junto à sua Quinta e lugar da Portela uma estalagem que seria de grande comodidade dos passageiros que caminhavam por aquela estrada que era das mais seguidas da dita cidade por ser a de Madrid e por naquela paragem passar uma barca o rio Mondego, que quando no inverno com alguma cheia não podia passar a dita barca, e os que então caminhavam ficavam dormindo pelos pés das árvores sem terem nenhum agasalho pelo que me pedia lhe fizesse mercê de lhe privilegiar a dita estalagem e mandar passar seu privilégio».

Para além destas surgem, ainda, as seguintes outras referências a estalagens:

- Estalagem das Cardosas
No Paço do Conde … onde hoje está [esteve] uma casa de brinquedos, e onde serviu uma Mariana que há muito deve atender os viandantes do céu.

- Estalagem do Lopes ou Hospedaria do Caes Novo
Situava-se nas imediações do atual Banco de Portugal, visto que tinha outra entrada pela Rua do Sargento-Mor, e ter particularidade de ser pouso de estudantes endinheirados, acabados de chegar, até se mudarem para o seu território da Alta.

Na parte final do texto o Autor refere ainda que Camilo esteve hospedado na «Marquinhas do Leite Morno», na Rua Larga … e que pelos séculos XVII, XVIII e XIX existiram no burgo as estalagens «do Galego» … do «Fernando» mais conhecida pela «Estalagem do Inferno» a do «Raimundo da Teodora» … a do «Francisco Lopes de Carvalho», próximo da ponte, e a hospedaria do «João de Aveiro» que um incêndio destruiu em 1902.
Aqui e ali, muitas vezes nas proximidades das estalagens, existiam também as «albergarias».

Silva, A.C. As Estalagens Coimbrãs e do seu termo. Separata da Munda. 1988.

 

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por Rodrigues Costa às 11:38

Terça-feira, 26.02.19

Coimbra: Estalagens Coimbrãs e do seu termo 1

O problema da instituição e administração das estalagens ou «estaos», era antigo e frequentemente levantado pela administração municipal junto do poder régio. É assim que D. Duarte numa sua carta de 1436, «mandamos que taes pessoas pousem nos Estaos que há pelo caminho, ou da dita cidade [de Coimbra] e não nas aldeias e casais que estão fora das estradas».

Estalagem de caminho px de Cª.jpg

Estalagem de caminho. De salientar os diferentes tipos de meios de transporte


Estalagem de caminho em Espanha.jpg

Estalagem de caminho em Espanha

Nas Cortes de Lisboa de 1440 pediu-se o «estabelecimento de estaos para pousadas nas cidades, vilas e aldeias e a taxa dos mantimentos, camas e mais serviços presentes neles».
…. Há notícia da existência na cidade, nos princípios do século XVI de três estalagens, da sua localização e nomes dos proprietários:

- Estalagem Nova

Capela do Senhor do Arnado 01.jpg

Capela do Senhor do Arnado que se situava cerca do local onde hoje se encontra o monumento a Cindazunda

Situar-se-ia na entrada da cidade para quem viesse do norte, próximo da «goleta» [Então o «porto dos oleiros», teria algum pequeno canal que ligava ao rio, e assim o topónimo «goleta»], próximo do local onde existia um crucifixo em pedra, a céu aberto, que levou à edificação da Capela do Arnado no meado do século passado [século XIX]
Aquela zona era desde a Idade Média domínio dos oleiros, até que no século XVIII se mudaram para a zona do Terreiro de Santa Justa e foram ali substituídos pelos cordeeiros vindos da sirgaria de Santa Clara, destinada a outros fins.

- Estalagem do Pintor

Estalagem da Donata.jpgA quinhentista estalagem do Pintor, que no século XIX era estalagem da Donata

[Situava-se] na, na Rua de Tinge-Rodilhas, depois Rua da Louça … que muito anos depois seria conhecida pela «estalagem da Donata», alojada em edifício ainda hoje existente, muito degradado, e que merecia recuperação para fins turísticos.

Nota 1
Quando era muito jovem, as camponesas que vinham vender à praça – ao Mercado D. Pedro V – guardavam neste edifício os burros onde transportavam os legumes, as galinhas, os ovos e a fruta destinados a serem ali comercializados. Atualmente, e depois de obras de recuperação, com entradas pela Rua da Moeda e pela da Louça, funciona no edifício um estabelecimento que vende, entre outras vitualhas, leguminosas, batatas e rações para animais.

Nota 2
De assinalar que esta estalagem na parte inicial do texto é designada por «Pintor» e na parte final do mesmo texto por «Prior».

- Estalagem do Paço do Conde

No centro do casario quinhentista, o gravador [Hoe

No centro do casario quinhentista, o gravador [Hoefnagel] fez ressaltar o Paço do Conde de Cantanhede com seu claustro, depois Estalagem do Paço do Conde.

Em 1662 estabeleceu-se uma das melhores estalagens do país no que fora o rico paço do Conde de Cantanhede, D. Pedro de Menezes, no centro mais vivo da cidade, próximo da praça, da Câmara, dos açougues, da «casa-do-ver-do-peso», ponto de reunião obrigatório a mercadores e vendeiros, por ali chegarem e estacionarem os carros e azémolas que vinham do sul, do norte e das Beiras com a maior parte dos géneros de que se alimentava a cidade. Era o terminal dos grandes carroções, já que eles, por disposição camarária não podiam ir até à Praça.
O edifício magnífico, fora construído nos anos do meado do século XVI …. Parece que a ocupação do edifício por tão nobre família não chegou a efetivar-se … nos primeiros meses do ano de 1622, escreveu a Filipe III … «que fizera uma estalagem para agasalhar os passageiros e caminhantes e almocreves com muitos aguazalhados [quartos] e camaras fechadas para fidalgos e pessoas graves que fica sendo dos melhores deste reino por estar na melhor passagem da cidade e junto da praça dela…».

Silva, A.C. As Estalagens Coimbrãs e do seu termo. Separata da Munda. 1988.

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por Rodrigues Costa às 11:13

Sexta-feira, 05.02.16

Coimbra e as suas estalagens

Coimbra, em 1269, não possuía ainda estalagens propriamente ditas, pelo menos na Almedina … Um século depois Coimbra possuía já estalagens «mui boas e tais em que bem poderiam pousar se quisessem» os fidalgos que chegavam à cidade. Ficavam no arrabalde, a par de S. Bartolomeu e de Santiago, em 1377 .
… por volta de 1585. Neste ano … a Câmara acordou, «para bom regimento e agasalho dos caminhantes e nobreza desta cidade», que era importante haver nela cinco estalagens, das quais uma em Santa Clara.
… O ano de 1617 apresenta nove nas quais poderão estar incluídas simples vendas. Neste cômputo, a partir de 1610 deverá contar-se a estalagem que Diogo Marmeleiro de Noronha fez na «estrada pública» da rua de Santa Sofia … em 1613 encontramos nomeados dois estalajadeiros no Paço do Conde. Um, na Rua de Santa Sofia. Outro na Rua de António Azevedo, freguesia de S. João de Almedina. Na Rua do Arco, da mesma paróquia, depara-se-nos o estalajadeiro e alugador de bestas António João … Em 1623 havia em Coimbra pelo menos onze casas que forneciam só comida. Oito outras unidades davam dormida. Seis, cama e mesa.

… O treslado do regimento devia ser pendurado, em cada venda ou estalagem, em sítio que se pudesse ler, «na primeira casa omde se recebe os ospedes». Dele constavam os preços das comidas e dormidas, cuja conta não devia ser dada «em soma senão pollo miúdo» … O regimento, quanto à comida, tabela pão, carne de vaca, de porco e de carneiro, pescada fresca e vinho. Cada posta cozida, de carne ou peixe, devia pesar um quarto de arrátel (cerca de 115 gramas) e custava cinco réis. O regimento não faz referência explícita ao «azeite para o prato». Mas embora não o nomeando, acusa a sua presença ao obrigar o estalajadeiro ou vendeiro a ter uma medida aferida do «real de azeite».
Se as refeições se resumiam à «ementa» do regimento, bem simples eram: um ou mais pedaços de carne ou peixe acompanhados de pão e vinho. As postas seriam dadas «com sua cozinha se lha pedirem».
O regimento não fala de assados ou fritos … Mas o consumo de peixe frito (ou assado) está documentado tanto antes, como depois de 1586 … As camas mais caras das estalagens, ao tempo deste regimento, custavam trinta réis por dia e noite: numa câmara fechada, uma cama de «emsergão colchão», dois lençóis de linho lavados, cobertor de papa ou de pano e travesseiro enfronhado. Havia «camas de somenos» com colchão, lençóis, cobertor ou manta, por 15 réis … Algumas pousadas, além das camas, tinham também esteiras. Outras só esteiras. A dormida numa esteira custava um real por pessoa.

Oliveira, A. 1971. A Vida Económica e Social de Coimbra de 1537 a 1640. Primeira Parte. Volume II. Coimbra, Universidade de Coimbra, pg. 59 a 62, 68 a 70

 

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por Rodrigues Costa às 09:57

Sexta-feira, 08.01.16

Coimbra, encruzilhada de caminhos

O trânsito, para Sul ou para Norte do País, obrigatoriamente, devia passar pela cidade e por dentro da cerca: almocreves, mercadores, caminhantes e «outros quaeesquer que levarem cargas». A pena era grave: perda das bestas e do que levassem.

O trânsito que vinha do sul entrava, como é óbvio, pela ponte. Daqui passava pelo Arrabalde em direção à porta de Almedina. Em vez de seguir adiante, penetrava na cerca por esta porta e ia sair pela do Castelo. Descia depois pela Ribela, pelo caminho que passava atrás da torre do mosteiro de Santa Cruz. Uma vez de novo no Arrabalde, o tráfego apanhava o caminho de saída: por Montarroio, «assy como se vay sair per cima dos paacos da gafaria»; daqui em diante, «per sob onde esta a forca, assy se vay sair aa ponte da Auga de Maios». Chegado a este ponto, seguia «pelas stradas direitas».

O caminho do trânsito norte-sul não foi indicado. Talvez fosse o mesmo, agora, descendo a colina.

No Arrabalde, «a par de Sam Bertolameu e a par de Santiago» ficaram as estalagens. Mas não podiam vender outra coisa que não fosse palha.

Oliveira, A. 1971. A Vida Económica e Social de Coimbra de 1537 a 1640. Primeira Parte. Volume I. Coimbra, Universidade de Coimbra, pg.156 e 157

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por Rodrigues Costa às 10:41


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