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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 09.04.20

Coimbra: Igreja de S. Martinho do Bispo

A reconquista de Coimbra por D. Fernando Magno, em 1064, foi a viragem decisiva para a região, doravante definitivamente em posse dos cristãos. À frente da cidade de Coimbra e de toda a região, D. Fernando colocou um moçárabe, o alvasil D. Sisnando para que a povoasse e defendesse dos mouros. O sábio governo de D. Sisnando resultou em grande progresso para a região: foram construídos castelos, edificadas casas, plantadas vinhas e arroteadas terras. É neste contexto que surge a figura do abade Pedro, vindo da região em poder da moirama. A 26 de Abril de 1080, D. Sisnando dou-lhe terras a sul do Mondego que ele diligentemente repovoou. O abade Pedro edificou aí, próximo à cidade, a igreja de S. Martinho, dando origem a uma das mais populosas freguesias rurais do país, mas hoje plenamente absorvida no perímetro urbano de Coimbra.
Em 24 de Fevereiro de 1094 o abade Pedro doou os seus domínios à Sé de Coimbra, onde avultava a igreja edificada à sua custa e dotada com as casas necessárias, vinhas e outras árvores e ainda uma torre de defesa. Os bispos continuaram a obra de repovoamento e de valorização da igreja. Em 1104 o bispo D. Maurício concedeu carta de povoação, espécie de foral, reformada por D. Bernardo, em 1141. Aqui mantiveram os bispos de Coimbra uma quinta de veraneio e também se refugiaram das cheias do Mondego, no século XVI, as freiras do convento de Santana, numa quinta doada pelo bispo D. João Soares.
Da igreja medieval, que sabemos ter sido protegida por muros e torres de defesa, praticamente nada resta. Foi renovada em tempos posteriores, com se vê pela porta principal, seiscentista, de frontão curvo interrompido, e pela torre dos sinos, datada de 1733 por um discreto relógio de sol. A torre encontra-se afastada do corpo da igreja e em quase alinhamento com a porta principal. Sabe-se que houve obras na igreja e residência paroquial contratadas pelo carpinteiro de Coimbra Xavier Gomes da Costa em 19 de julho de 1739.
A igreja atual começou a edificar-se em 1754. Em 18 de novembro desse ano a obra das paredes e frontispício foi contratada pelos pedreiros José Ribeiro Facaia e José Francisco Botas, por 780$000 réis. Logo a 20 foi feito contrato com os carpinteiros Custódio Gonçalves, Domingos Gonçalves e José Gonçalves para a obra de carpintaria, por 290$000 réis.

Igreja S. Martinho do Bispo, exterior.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, exterior. Foto Nelson Correia Borges

A fachada é de simples traçado, com dois corpos laterais vincados por pilastras unindo-se ao central mais alto por arco decorativo. No corpo central rasga-se um arco de volta perfeita, formando pequeno átrio abobadado. Aqui se encontra sepultado o padre António da Cunha Rebelo, certamente o mentor da renovação da igreja, como o epitáfio de 1780 humildemente deixa entender.
O corpo da igreja é amplo, de larga nave com cobertura lígnea em caixotões retangulares, aparentado com o de S. Bartolomeu de Coimbra, da mesma época.

Igreja S. Martinho do Bispo, capela mor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, capela mor. Foto Nelson Correia Borges

A capela mor profunda segue o mesmo tipo espacial.
O topo da igreja, acima do degrau, constitui um outro espaço, outrora separado por teia, como área mais sagrada. Aqui se encontra o revestimento azulejar, os altares laterais e colaterais e a capela-mor.
O retábulo principal é da primeira metade do século XVIII, com colunas torsas de grinalda no cavado, remate de anjos segurando festões de flores e mostrando as insígnias de S. Martinho. O trono e o camarim incluem elementos anteriores e posteriores.

Igreja S. Martinho do Bispo, altar lateral.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, altar lateral. Foto Nelson Correia Borges

Os retábulos colaterais e laterais são excelentes exemplares do estilo rococó coimbrão. Os colaterais, geminados, foram executados pelo notável entalhador Domingos Moreira, autor de vários outros trabalhos de igrejas de Coimbra e da região, morador em Santa Clara, com contrato lavrado em 28 de março de 1757. Custaram 215$000 réis. Mostram colunas de capitéis compósitos, concheados sóbrios e remate elaborado de volutas sobrepostas, com querubins e cabecitas aladas.
Os laterais, de idêntica estrutura, têm remates mais movimentados, com volutas em avanço e glórias solares. Todos os retábulos se encontram marmoreados de lápis-lazúli com dourados, o que aliado à azulejaria confere ao conjunto uma interessante nota cromática.

 

Igreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor.jpgIgreja S. Martinho do Bispo, azulejos pormenor. Foto Nelson Correia Borges

Os painéis de azulejo recortados são de fabrico coimbrão, provavelmente da oficina de Salvador de Sousa Carvalho. Na capela-mor representam S. Martinho celebrando e Aparição de Cristo a S. Martinho. No espaço dos retábulos, S. Domingos, Santo António e Última Ceia e Senhora da Conceição.
Entre as esculturas destaca-se a de S. Martinho, do século XVII e, da segunda metade do século XVIII, as de Senhora dos Remédios e Senhora da Conceição. Há ainda uma bandeira processional pintada por Pascoal Parente, em 1756 com Cristo crucificado e a Senhora do Rosário. A tela que preenchia o camarim do altar-mor, já de 1877, encontra-se agora no corpo da nave da igreja.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra, n.º 4781, de 2 de abril de 2020

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por Rodrigues Costa às 11:35

Quinta-feira, 23.03.17

Coimbra: O retábulo-mor de Santa Cruz

Tem a igreja de Santa Cruz de Coimbra um impressionante acervo de obras artísticas marcantes na História da Arte em Portugal: restos do vasto legado daquela que foi uma das mais importantes casas monásticas portuguesas. São merecidamente famosos os túmulos reais, o púlpito, o cadeiral, a sacristia, o claustro... Mas há uma obra a que não se tem dado o devido realce e que teve uma importância enorme pela definição de um estilo que se espalhou por toda a Beira até ao Douro: o retábulo-mor.

Santa Cruz a.jpg

A igreja de Santa Cruz já não apresenta hoje o aspeto que os frades crúzios lhe deram até ao tempo da extinção. A primeira metade do século XVIII fora de grandes mudanças arquitetónicas, devidas à ação de D. Fr. Gaspar da Encarnação, a quem se deve o Santuário, o Jardim de Santa Cruz e a transformação da igreja. As modificações que então se operaram tinham como objetivo dar-lhe uma feição mais moderna, num gosto que pode considerar-se vanguardista, um barroco moderado, mais classicista, em que são peças marcantes os retábulos. Desta reforma restam a Santa Cruz sobre o arco cruzeiro e os retábulos. Retiraram-se as grades conventuais que separavam a igreja dos fiéis do espaço clausurado; demoliram-se as pilastras de dourados capitéis que encobriam os elementos manuelinos, substituíram-se os retábulos colaterais de talha barroca por outros de pedra ao estilo neorrenascença.

Três fatores estão na origem desta inovação: a ação de Fr. Gaspar da Encarnação, a existência no mosteiro de livros com gravuras de retábulos, vindos de países germânicos (agora na Biblioteca do Porto) e os desenhos esclarecidos do Dr. António de Andrade, arquiteto com realizações de vulto, como o coro do mosteiro de Lorvão e a igreja do mosteiro de Salzedas.

O retábulo-mor causou grande impressão nos meios artísticos da cidade. Em breve foi imitado na capela da Ordem Terceira de S. Francisco, na igreja de S. Bartolomeu e em inúmeras outras realizações. Foi o pai de uma imensa prole espalhada pelo centro de Portugal. Se o riscador foi o Dr. António de Andrade, quem poderia ter sido o entalhador? Talvez Gaspar Ferreira, notável artista estabelecido em Coimbra e com outras obras em Santa Cruz. Mas não faltavam em Coimbra entalhadores de igual mérito, como João Ferreira Quaresma e Domingos Moreira.

Anterior ao estilo pombalino de Lisboa, com ele se relaciona, embora com características próprias que lhe conferem o direito de ser considerado estilo regional, justamente designado por rococó coimbrão. Apresenta um embasamento de linhas direitas, sobre o qual se erguem colunas de fuste liso, pintadas a imitar mármores raros. Esta visão classicista altera-se quando se chega ao remate superior. Aí a arquitetura movimenta-se de recortes e curvas e sobre os lados sentam-se figura alegóricas ou de anjos, em atitudes gesticulantes.

O retábulo crúzio é enriquecido com quatro anjos de grande porte e de muito bom nível escultórico: dois laterais e dois sentadas nos acrotérios. As roupagens esvoaçantes vinculam-se ainda ao barroco, mas as expressões são suaves e dulcificadas, características do rococó. A mensagem iconográfica que o retábulo pretende transmitir é evidente e acessível: a exaltação da Santa Cruz. No painel que tapava o camarim do trono, uma figura feminina mostrava aos crentes a Santa Cruz, envolta em anjos, tendo, na parte inferior, outras figuras da humanidade, em adoração. Os anjos laterais exibem o cálix e a lança; o acroterial esquerdo, o martelo e os cravos das mãos; o da direita, o cravo dos pés e a torquês. Rematando esta exibição ostensiva dos instrumentos da Paixão, o dístico da cruz, INRI, circundado pela coroa de espinhos, “explode”, no cume, em enorme glória solar, qual girândola de raios dourados e cabecinhas aladas de querubins.

Atualmente encontra-se a descoberto o trono eucarístico, outrora só visível em certas solenidades. É muito belo, mas, sem a tela que o ocultava, o programa iconográfico que presidiu à conceção do retábulo fica adulterado.

Borges, N.C. 2016. O retábulo-mor de Santa Cruz de Coimbra, In Correio de Coimbra, n.º 4634, de 23.02.2016.

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por Rodrigues Costa às 09:19


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