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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 29.05.18

Coimbra: O trajo académico

É um hábito comprido de panno preto, sem mangas, atado atraz com cordões e guarnecido na frente com duas ordens de pequenos botões bem juntos, que começam no pescoço e descem até aos pés; eis a primeira parte do vestido. 

Estudante UniversidadeCoimbra séc. XVIII.png

Estudante da Universidade de Coimbra, séc. XVIII

 Por cima d’este se usa um outro preto e comprido, com mangas largas, precisamente como o dos pastores protestantes. Cada um traz na mão um pequeno saco de panno preto, onde, à falta de algibeiras, se acham o lenço, a caixa de rapé e outros objectos semelhantes. Os estudantes vão sempre com a cabeça descoberta, mesmo durante os maiores calores de verão:- Eis porque as ruas estão sempre cheias de homens que oferecem um aspecto triste e monacal”.

Desta forma descrevia Link o estudante universitário de Coimbra, retratando-o pelas impressões que lhe deixou a estada na cidade de Coimbra, e que relata na obra «Voyage en Portugal depuis 1797 jusqu’en 1799».

Era este o trajo académico do séc. XVIII, bem diferente do modelo utilizado no século anterior.

Trajo académico,  João Abel Manta.JPG

 Trajo académico, painéis de João Abel Manta, 1958

 A disciplina académica impunha ao estudante regras de comportamento e decoro no trajar, vedando-lhe o uso de certos adereços e cores, procurando uma uniformidade do vestuário usado que evitasse revelar as distinções classistas e um dispêndio desnecessário.

... As referências à indumentária são mais pormenorizadas nos Estatutos manuelinos (ca. 1503) onde, no parágrafo ”Da honestidade dos vestidos” se proíbem os pelotes, capuzes, barretes, gibões de cor vermelha ou “verdegaio” e os cintos lavrados a ouro.

Provavelmente estas diretrizes eram por vezes infringidas e daí a emissão de certos diplomas régios, repondo ou especificando melhor as recomendações sobre o trajo académico, de que é exemplo a Carta de 14 de janeiro de 1539 de D. João III. Nela se enumeram os adereços proibidos: barras e debruns, pano frisado, golpes e entretalhos nas calças, lavor branco ou de cores diversas em camisas, lenços, etc. O comprimento de pelotes e aljubetas seria abaixo do joelho e sobre todo o vestuário apenas se podiam usar lobas ou mantéus sem capelo.

... Em 1863 pensava-se já na alteração deste vestuário... “Acerca de acabar-se com as batinas, fácil seria fazelo, se fora substituil-as. Ja se lhes fez uã modificação, e há tempo p.ª meditar até ao fim do anno lectivo”.

...em Edital de 21 de Setembro de 1907, em que apenas se consente o uso de gravata preta “não podendo ostentar coletes d’outra côr nem barrete algum além do gorro”.

Em Março desse ano era proposta... em Conselho de Decanos, a sua completa abolição pois o mesmo não era sequer usado a rigor.

... Só em 1910 o seu uso se tornará facultativo, por Decreto de 24 de Outubro.

 

Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 147-149

 

 

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por Rodrigues Costa às 22:17

Segunda-feira, 28.05.18

Coimbra: Museu da Ciência da Universidade de Coimbra

Os caloiros que iniciaram a licenciatura em Ciências Físico-Químicas em 1963, reuniram-se ontem e mais uma vez, desta feita em Coimbra. Do programa constou missa e a recordação da bênção das pastas e ainda uma visita ao Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, num retorno aos locais onde tiveram das suas primeiras aulas.

Para esta visita – que se recomenda a quem ainda a não fez – foi elaborado o pequeno guião que aqui se divulga.

 Breve síntese histórica

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra ocupa atualmente dois edifícios: o Laboratorio Chimico e o Colégio de Jesus. Ambos pertenceram ao Colégio dos Padres Jesuítas, também denominados Apóstolos (o nome perpetua-se na Couraça) e ao Colégio das Artes. A primeira pedra do Colégio dos Jesuítas foi lançada no dia 14 de abril de 1547 e a igreja, riscada pelo arquiteto Baltazar Álvares, membro da Companhia; a sua construção iniciou-se em 1598 e prolongou-se durante um século. 

Colégio de Jesus desenho.TIFColégio de Jesus e Colégio das Artes em 1732 (gravura de Carlo Grandi)

 O Colégio das Artes, entretanto criado por D. João III, ocupou, num primeiro momento, espaços pertencentes a Santa Cruz e foi entregue aos Jesuítas no ano de 1555, ainda antes do edifício (que se ergue quase paredes-meias com o dos Apóstolos e fora iniciado em 1568) estar concluído.

Os imóveis encontravam-se ligados por dois pequenos corpos de passadiço, perpendiculares à fachada oriental. Um fazia comunicar o Colégio de Jesus com o Colégio das Artes e o outro ligava o complexo colegial ao edifício onde, graças aos trabalhos arqueológicos recentemente efetuados, se ficou a saber que estava instalada a sala do refeitório bem como, provavelmente, as cozinhas e a ucharia, ou seja, estamos a referir-nos ao atual Laboratório Chimico.

Os Jesuítas de Coimbra gozaram por pouco tempo da sua igreja e das restantes estruturas, porque, em 1759, foram expulsos do país, o colégio extinto e os bens sequestrados. Os edifícios ficaram abandonados durante treze anos.

Aquando da Reforma Pombalina da Universidade, iniciada em 1772, parte do complexo passou para a posse da Universidade e a igreja, com mais alguns anexos, foram entregues ao Cabido diocesano.

O marquês de Pombal, ao implementar a reforma universitária que, obviamente, necessitava de espaços adequados, apoderou-se de uma parte considerável do Colégio de Jesus. Contudo, ciente da importância do ensino experimental, estava já na posse de planos trazidos de Viena de Áustria por Joseph Francisco Leal destinados à construção do Laboratorio Chimico; no entanto, este projeto não saiu do papel, tendo-o substituído um outro desenhado na Casa do Risco, sob orientação do engenheiro militar tenente-coronel Guilherme Elsden, que se salientou como diretor das Obras da Universidade de Coimbra. 


Laboratório Chimico.jpgFachada do Laboratorio Chimico, desenho de G. Elsden e R. F. de Almeida, 1777 in Franco, M.S. “Riscos das Obras da Universidade de Coimbra”, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra, 1983.

Trata-se de um edifício de grande qualidade, muito elegante e onde se destaca o frontão central, em corpo avançado sobre colunas. No entanto, o projeto original do coroamento do edifício foi alterado e só lhe foi aposto no século XIX.

Guilherme Elsden foi também o responsável pela adaptação dos edifícios preexistentes destinados a acolherem os Gabinetes de História Natural e de Física Experimental.

A estrutura vira para o Largo do Marquês de Pombal e mostra uma longa fachada de 110 metros de comprimento, de nobres linhas protoneoclássicas, onde se salienta o corpo central, coroado por frontão triangular preenchido por um belo relevo da autoria de Joaquim Machado de Castro, representando a Natureza e cinzelado pelo escultor António Machado. Nos gradeamentos das ventanas pode observar-se um pequeno medalhão com o busto do marquês de Pombal. 

Laboratório de Fisica.jpg

 Frontão alegórico

No interior destaca-se a escadaria de aparato e os alizares de azulejo.

Refira-se ainda que nas alas norte e poente do Colégio funcionaram, inicialmente, os Hospitais da Universidade de Coimbra.

Os objetivos pedagógicos que então se pretendiam atingir encontram-se bem expressos nos Estatutos Pombalinos, datados de 1772, onde se lê que “os estudantes não somente devem ver executar as experiências, com que se demonstram as verdades até ao presente, conhecidas … mas também adquirir o hábito de as fazer com sagacidade e destreza, que se requer nos Exploradores da Natureza”.

A adaptação dos dois imóveis a Museu da Ciência ocorreu nos primeiros anos do presente século, tendo a primeira fase sido inaugurada em 2006 sob projeto de João Mendes Ribeiro, Carlos Antunes e Desirée Pedro. Trabalhos que visaram, essencialmente, reconduzir os espaços ao seu aspeto inicial.

Está classificado, desde 2016, como Sítio Histórico pela Sociedade Europeia de Física.

Recordamos que foi nestes espaços, nos idos dos anos 60, que os caloiros que então eramos, tiveram as primeiras aulas da licenciatura em Ciências Físico-química.

 

A nossa visita

A duração prevista é de cerca de uma hora segundo o seguinte percurso:  

- Gabinete de Física

Foi equipado com seis centenas de máquinas que representavam o que de melhor e mais moderno então existia no campo da investigação científica. Cada uma delas tinha uma conceção que a tornava adequada a um dos capítulos do programa descrito no curso redigido por Dalla Bella.

O Gabinete de Física de Coimbra, mostra bem a profunda influência que as ideias e os instrumentos provenientes das mais diversas zonas da Europa tiveram em Portugal no século das luzes. O que resta dos instrumentos pertencentes ao Gabinete do século XVIII considera-se, atualmente, verdadeiras obras de arte, valorizadas pela riqueza dos materiais e pela perfeição da execução. Ocupam ainda as salas e o mobiliário primitivo, permanecendo no seu espaço de origem e mantendo as suas características específicas desde o tempo da fundação; constituem uma coleção de instrumentos científicos e uma representação notável da evolução da Física nos Séculos XVIII e XIX.

Visitamos o anfiteatro e as salas Figueiredo Freire (séc. XIX) e Dalla Bella (séc. XVIII).

- Gabinete de História Natural

Por força dos Estatutos Pombalinos da Universidade, datados de 1772, os professores da Faculdade de Filosofia deviam coordenar a recolha das espécies. O espólio assim obtido incorporou inicialmente a coleção privada de Vandelli e foi muito enriquecido com a Viagem Philosofica à Amazónia realizada por Alexandre Rodrigues Ferreira.

Os espécimes encontram-se organizados por regiões com recurso às técnicas de conservação e exposição então em uso. 

Visitamos as salas das viagens, do mar, de África, das avestruzes e de Portugal.

- Laboratório Chimico

Encontra patente neste edifício a exposição Segredos da luz e da matéria que trata este tema a partir dos objetos e instrumentos científicos das coleções da Universidade de Coimbra, uma das mais notáveis e raras da Europa. Um conjunto de experiências e módulos interativos possibilitam a observação de fenómenos, desde a experiência de decomposição da luz, de Newton, até à neurobiologia da visão.

 BORGES. Nelson Correia, Coimbra e região, Lisboa, Presença, 1987.

CORREIA, Vergílio; GONÇALVES, António Nogueira, Inventário artístico de Portugal. Cidade de Coimbra, Lisboa, Academia Nacional de Belas Artes, 1947.

DIAS, Pedro; GONÇALVES, António Nogueira, O património artístico da Universidade de Coimbra, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1991.

VASCONCELOS, António de, Escritos vários, vol. I, Coimbra, AUC, 1987 [Reedição].

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=content&option=museum&action=project&mid=5

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=content&option=museum

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por Rodrigues Costa às 11:19

Terça-feira, 22.05.18

Coimbra: Imprensa da Universidade

Em 1542, João da Barreira e João Álvares instalaram em Coimbra a sua imprensa, saindo logo nesse ano dos seus prelos a obra jurídica de Martín de Azpilcueta. O Reitor da Universidade... estabelece com eles contrato para serem impressores da Universidade... recebendo os ditos impressores doze mil reis anuais. Os mesmos impressores são comissionados para ir a Lisboa em 1546 recolher todo o material da Imprensa com que D. João III dotara a Universidade.

Estatutos da Universidade 1593.jpg

 Estatutos da Universidade publicados em 1593

Na oficina da Universidade continuou António da Barreira a atividade de seu pai João da Barreira, após o falecimento deste em 1590. Da sua mão saíram os Estatutos da Universidade publicados em 1593, cuja aprovação se dera já em 1591.

Nos Estatutos de 1559 surgem já referências a impressões da Universidade, ficando os assuntos com ela relacionados a cargo do guarda do cartório.

Inicialmente a Universidade não possuía oficina própria; tinha por isso necessidade de recorrer ao serviço de impressores com casa montada que se tornavam, deste modo, oficiais privilegiados da Universidade.

Estatutos da Universidade 1653.jpg

 Estatutos da Universidade publicados em 1653

 Os estatutos de 1653, ao referirem estes privilegiados registam a existência de “duas Impressões” privilegiadas, a par da existência de “quatro tendes de Livreiros”. O cuidado na impressão ficava confiado do “corretor da impressão”.

 

... A Imprensa do Colégio das Artes, de que é feito sequestro em 1759, será integrada na Universidade, entrando esta, assim, na posse de oficina própria. O mesmo acontecera com o material tipográfico da Academia Liturgica de Coimbra, incorporado na Oficina Tipográfica da Universidade quando, em 1767, a Academia é extinta. Devido às reduzidas dimensões para o que se desejava fosse uma tipografia à altura da Universidade reformada em 1772, é a oficina trasladada para o devoluto Claustro da Sé Velha de Coimbra... As instalações da Imprensa e seu edifício estão concluídas em finais de Junho de 1773. A oficina é depois apetrechada com prelos e outro material tipográfico.

O Decreto-Lei... de 30 de Junho de 1934 extingue a Imprensa da Universidade... Todo o seu material foi incorporado na Imprensa Nacional de Lisboa. Para aí se transferiram os antigos e valiosos prelos – já então peças históricas – e ainda tipos, vinhetas, gravuras e demais material tipográfico que era propriedade da Imprensa da Universidade.

 Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 147-149

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:00

Quinta-feira, 14.12.17

Coimbra: Claustro de Celas

É tão surpreendente a igreja de planta redonda do mosteiro cisterciense de Celas que quase ofusca a beleza do claustro e a originalidade da sua fonte central, cavada e escondida.

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 Convento de Celas, claustro

Mas neste quadrado ao ar livre, pouco estudado e ainda menos visitado, surge-nos, na fonte, o fascínio renascentista pela geometrização dos espaços. A disposição em planta do claustro, que se liga à igreja redonda, é o resultado criativo deste esforço de arrumação dos elementos construídos, deixados pela Idade Média neste ermo distanciado de Coimbra, conhecido por Vimarães.

Uma vez dentro do próprio claustro votamos a ter novo atrativo que desvia a atenção da fonte central: são os extraordinários capitéis, minuciosamente esculpidos e pintados com as cenas da vida de Cristo, cuja datação dos séculos XIII a XIV é insegura, mas que vieram do Paço Real da Coimbra, oferecidos por volta de 1533, por D. João III.

Celas Claustro fonte.jpg

 

Convento de Celas, fonte do claustro

 ... A originalidade da fonte reside no facto de ela estar afundada e mal se ver, apesar de respeitar a quadripartição por eixos e se encontrar no centro exato do claustro. De facto, a fonte redonda está abaixo  do plano do claustro e a ela se acede por escadas que descem cerca de 1,5 metros «Ao centro do jardim cava-se um tanque circular para onde se desce por quatro escadas de sete degraus dispostas segundo os eixos do claustro. Uma inscrição esclarece: ESTE . CHAFERIS . MANDOU / REIDIFECAR . A ILMª . SNRª . D / THEREZA . LUIZA . RANGEL . / SENDO . SGDª . VES . ABBADESA / DESTE MOSTRº . NO ANNO / DE 1761».

O espaço criado forma um cilindro e isola-se visualmente de quem está no claustro, oferece bancos redondos de pedra em circunferência assim criada, que escondem ainda mais quem neles se senta. A taça de água redonda com cerca de 40 centímetros de altura é cilíndrica e, do seu centro, a que corresponde também o centro geométrico do claustro, sai um repuxo. O conjunto não tem um único ornamento. Esta invenção pode ser uma simples resposta ao nível da água que se encontra, de facto, a 1,5 metro abaixo da cota do claustro com uma mina visível numa das paredes em arco deste cilindro vazio.  

Esta simplicidade revelou-se esteticamente genial: o desenho afundado, num claustro tão pequeno, aduziu-lhe a terceira dimensão, mas em negativo; conseguiu dar o efeito de espaço redobrado e, sem qualquer ornamento, consegue animar as paredes e as formas com efeitos de sombra projetadas nos degraus e nas paredes concavas. Interrogamo-nos, então, se este jogo de geometria a três dimensões e a total ausência de ornamento chegarão para confirmar o traço de um bom artista do Renascimento?

... Resta-nos assim apresentar – reconhece-se que um pouco a medo – a hipótese de poder ter sido João de Ruão o imaginário da fonte do claustro de Celas. 

Castel-Branco. C. Os jardins de Coimbra. Um colar verde dentro da cidade. In: Monumentos. Revista Semestral de Edifícios e Monumentos. N.º 25, Setembro de 2006. Lisboa, Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pg. 175- 177

 

 

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por Rodrigues Costa às 08:55

Terça-feira, 12.09.17

Coimbra: Colégio Real de S. Paulo Apóstolo

Foi primitivamente destinado a clérigos pobres, que quisessem vir formar-se na Universidade.

... D. João III mandou preparar-lhe edifício condigno, aproveitando o terreno e parte das casas arruinadas dos «Estudos-velhos», isto é, da Universidade dionisiana. Seria demolido o velho edifício, e far-se-ia nova construção. Nesse local ergue-se atualmente... o novo edifício da Faculdade de Letras.(o espaço aqui referido é hoje ocupado pela Biblioteca Geral da Universidade)

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Colégio Real de S. Paulo, fachada setentrional

 Principiou a construção do Colégio em 1550, e sobre a porta principal, a meio da fachada norte, que olhava para a rua Larga de acesso à Universidade, esculpiu-se o escudo das armas reais.

... Foi incorporado na Universidade por carta-régia de 23 de outubro de 1562.

Fez-se com toda a pompa a inauguração solene a 2 de maio de 1563 ... ficou ele sendo um Colégio secular de doutores e licenciados, que se propunham ascender ao magistério universitário, ou a outras posições sociais categorizadas.

... O trajo distintivo dos colegiais ... era, no feitio, perfeitamente igual ao dos de S. Pedro ... mas, desde o século XVII, diverso na cor das becas ... os de S. Paulo também a princípio as tinham roxas, mas depois, no século XVII, para se não confundirem ... passaram a usá-las azuis, e mais tarde, a 9 de janeiro de 1699, deliberaram substituir esta cor pela vermelha, quase cardinalícia, que conservaram até à extinção do Colégio..

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Colégio Real de S. Paulo, fachada oriental

Foi funesto ao edifício do Colégio de S. Paulo o terramoto de 1 de novembro de 1755, que se fez sentir com grande violência no bairro alto da cidade de Coimbra. Ficou muito danificado este edifício, e a parte média do seu lanço oriental derruiu. Havia grande perigo em continuarem a habitá-lo.

... Não se demorariam as providências, em breve estava reparado este edifício.

... Depois da extinção do Colégio em 1834, o edifício foi entregue à Universidade... Ali funcionou o Teatro Académico durante quase meio século.

... Por volta da era de 1888 ... foi totalmente demolido ... e principiou-se desde os alicerces a construção dum novo Teatro Académico ... (fevereiro de 1889), pararam as obras, e depois só de longe em longe iam prosseguindo morosamente, Por fim desistiram da continuação, e, decorridos anos de abandono, foi entulhada a parte construída, transformando aquele espaço num terreiro.

... portaria ... de 25 de julho de 1912 ... manda que seja cedido à mesma Faculdade (de Letras) o edifício em construção ... que se destinava ao Teatro Académico ... a Faculdade construiu para si, no lugar do Colégio Real de S. Paulo Apóstolo, aproveitando e adaptando parte da obra já feita, e fabricando de novo tudo o mais.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 225-232, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 08:24

Terça-feira, 29.08.17

Coimbra: Colégio de Nossa Senhora da Graça

Fundou-o el-Rei D. João III em 1543 para os «Eremitas calçados de Santo Agostinho, sendo concluído, e por este monarca dotado, em 1548.

Incorporou-o na Universidade a carta-régia de 12 de Outubro de 1549.

Tinha o seu edifício na Rua da Sofia, a Ocidente do Colégio do Carmo, separados um do outro por uma viela, que depois se suprimiu.

Colégio de N. Senhora da Graça.jpg

Colégio de N. Senhora da Graça

 Foi muito favorecido por el-Rei com grandes privilégios. Eram apontados os seus colegiais como argumentadores subtis; o seu espirito combativo tornava-os por conflituosos e pouco simpáticos.

... É de todos os edifícios universitários aquele que melhor se conserva ainda hoje, quase intacta, a sua fachada, com as primitivas janelas, que iluminavam os escritórios de cada colegial, e ao lado de cada uma o postigo da alcova, onde dormia.

Em parte deste edifício esteve instalado, com consentimento dos religiosos, um hospital, no tempo da guerra miguelista.

Abandonado em 1834, logo a 10 de Janeiro de 1835 a Câmara de Coimbra representou ao Parlamento, pedindo o edifício para quartel. Foi concedido em 1836 com este destino, tomando dele posse a Câmara a 15 de Dezembro do mesmo ano. Nele se instalou o quartel militar.

Em 1857, o Comissariado dos Estudos requisitou da Câmara uma casa, para onde se mudasse a escola de ensino mútuo. Respondeu aquela que só tinha duas casas em condições, a do Colégio da Graça e a da torre de Almedina. Foi preferida a da Graça, devendo-se mudar para outra o quartel militar. Quando porém a Câmara mandou proceder às obras necessárias para a instalação da escola, opôs-se o oficial comandante do destacamento ali aquartelado. Deu isto lugar a vivas querelas jornalísticas.

Aloja-se atualmente (em 1938-1941) ali o quartel da Administração militar.

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Interior da Igreja do Colégio de N. Senhora da Graça

 Na igreja o culto esteve de princípio a cargo da Ordem terceira de Santo Agostinho; hoje é mantido pela Irmandade do Senhor dos Passos.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 196-197, do Vol. I

 

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por Rodrigues Costa às 10:11

Quinta-feira, 10.08.17

Coimbra: Colégio de S. Tomás

Era destinado aos religiosos estudantes universitários da «Ordem de S. Domingos». Cronologicamente é o primeiro dos Colégios que se estabeleceram na Universidade portuguesa, depois da sua fixação em Coimbra.

Teve por fundador e grande protetor el-Rei D. João III.

... Estava em princípio do ano letivo de 1539-1540 ... quando, a 16 de Outubro, se deu a migração dos colegiais dominicanos da Batalha para a cidade do Mondego, albergando-se no próprio edifício do convento de S. Domingos, sito à «Figueira-velha», na margem direita do rio, (as ruínas estão a cerca de 12 metros, sob o Hotel Almedina)... É pois a esta data ... que devemos reportar o início deste primeiro Colégio universitário, que tinha por titular S. Tomás de Aquino.

Ali se manteve até 1546, em que os religiosos dominicanos se viram forçados a abandonar o seu convento, constantemente inundado e meio submerso pelo Mondego. As obras já corriam neste ano de 1546.

Construíram-se então dois edifícios distintos, mas vizinhos, na Rua da Sofia: um para o convento dos religiosos de S. Domingos, outro para o Colégio de S. Tomás, onde residiriam os dominicanos universitários, assim os lentes como os estudantes.

 

Colégio de S. Tomás, portal.jpg

Colégio de S. Tomás, portal

... Realizou-se com grandeza a fábrica do edifício, situado, como fica dito, na Rua da Sofia, ocupando o local onde hoje se ergue o palácio da Justiça; ainda neste se vê a bela arcada renascença do claustro colegial. O lindo e majestoso portal, que decorava a fachada, encontra-se enxertado na parede externa do Museu de Machado de Castro, que se defronta com o largo de S. Salvador.

Foi este Colégio incorporado oficialmente na Universidade por carta-régia de 20 de Junho de 1557.

Contou, entre os seus colegiais, teólogos muito notáveis, e até alguns célebres. Durante muito tempo foi este Colégio o principal fornecedor de lentes para a cadeira de Prima da Faculdade de Teologia.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 184-186, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 20:41

Terça-feira, 08.08.17

Coimbra: Colégio de Jesus 2

Pertenceu aos «Padres da Companhia de Jesus» ou «jesuítas».

Fundado em 1542, este Colégio foi o primeiro que a Companhia teve em todo o mundo... Funcionou a princípio provisoriamente numa casa na... Couraça dos Apóstolos.

Por carta régia de D. João III, datada de 16 de Agosto de 1544 foi concedida aos colegiais deste instituto ... «todos os privilégios, liberdades, graças e franquezas ... de que usam ... os lentes e deputados e conselheiros da Universidade»

... A 14 de Abril de 1547 ... lançamento da primeira pedra, a obra do edifício definitivo, o maior e mais grandioso que jamais se ergueu em Coimbra.

...A planta destas construções tem a forma de um retângulo, medindo tanto o lado oriental como o ocidental 108 metros de extensão, e os lados meridional e setentrional 94 metros cada um.

Colégio de Jesus desenho.TIFColégio de Jesus

 ... Mais tarde construíram-se dois pequenos corpos de passadiços ou corredores, perpendiculares à fachada oriental, projetando-se para leste: um dava comunicação do Colégio de Jesus para o Real Colégio das Artes; o outro comunicava com um outro edifício fronteiro, onde estavam a cozinha, a dispensa e outras oficinas, sito aproximadamente onde hoje é o Laboratório Químico.

... A obra ia prosseguindo, embora um pouco lentamente... É preciso que se saiba que do antigo edifício pouco resta além do templo e de parte das paredes, ainda assim profundamente modificadas e enobrecidas.

... Foi este (o templo) a última parte do edifício a construir-se, pois corria já o ano de 1598 quando... colocou «ritu pontificali» a primeira pedra. Decorreram quarenta e um anos enquanto se foi construindo a grande nave com as suas capelas; ... logo este corpo se isolou, por um taipal ... levantou-se um altar provisório ... benzido na tarde de 31 de Dezembro de 1639.

... Continuaram a decorrer as obras durante mais de meio século, até se achar completo o transepto e capela-mor. Foi em 1698, a 31 de Julho, que se fez a inauguração do templo... havia passado um século desde a bênção e colocação da primeira pedra.

Mas estava então ainda longe o complemento das obras, que foram continuando, tanto no exterior como no interior, durante o 1.º quartel do século XVIII. A parte superior da fachada deve ter sido executada no princípio deste século; o douramento do retábulo do altar-mor concluiu-se em 1712, e os retábulos colaterais do transepto foram dourados em 1724.

... Pouco tempo gozaram os jesuítas de Coimbra a sua magnificentíssima igreja colegial, depois de concluída e perfeita.

Presos a 15 de Fevereiro de 1759... foi extinto o Colégio, e os respetivos edifícios ficaram abandonados durante treze anos.

... foi cedido ao Bispo e ao Cabido de Coimbra o templo ... para servir de catedral, com o seu claustro e com o corpo meridional do Colégio que lhe era contiguo, assim como grande parte do edifício que se estendia a ocidente da igreja; à Universidade, para instalação dos museus e mais estabelecimentos das Faculdades de Medicina e de Filosofia, foi concedido todo o resto do edifício.

O Hospital Real de Coimbra... Ficou instalado no ângulo NO do edifício.

Após a proclamação da Republica os serviços universitários ocuparam as partes do edifício que estavam em poder dos cónegos, com exclusão da igreja, torres dos sinos, claustro, sacristia e algumas dependências desta.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 190-196, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 10:10

Terça-feira, 01.08.17

Coimbra: Colégios Universitários

Breve explicação

Com a presente é iniciada uma sequência de 28 entradas dedicadas aos Colégios Universitários de Coimbra.

Este conjunto de entradas têm como principal fonte um muito interessante texto sobre o tema do Doutor António de Vasconcelos, o qual é parte do seu livro Escritos Vários.

Os Colégios são apresentados na ordem definida por aquele Professor, a qual respeita a sequência cronológica do ato fundador de cada colégio.

 

Transferida para Coimbra a Universidade portuguesa em 1537, logo em 1539 vem o primeiro Colégio colocar-se à sua sombra, seguido doutros, que sucessivamente se vão fundando e anexando, construindo-se edifícios próprios, sempre sob a proteção e, geralmente com subsídios e amparo do grande Rei-mecenas D. João III

... em 1557, já em volta do gigantesco tronco da florentíssima e frutífera Universidade de Coimbra, vegetavam, exuberantes de vida, como vigorosas vergônteas, à roda de feracíssima oliveira, nada menos de 14 colégios universitários!

O número foi depois crescendo sucessivamente, de forma que, ao findar o século XVI já eram 16, quando terminou o século XVII contavam-se 20, e no século XVIII atingiu o número de 23; aqui parou.

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 Planta com a localização dos Colégios Universitários de Coimbra e respetiva legenda

Não eram todos os Colégios do mesmo tipo; se bem os considerarmos, temos de os agrupar em três classes ou tipos distintos. Vejamos:

Entre eles havia 1 Colégio inconfundível, que era o principal, e parecia dever estar solidamente unido à Universidade, como parte essencial e indispensável. Era o Real Colégio das Artes ... onde se ministrava o ensino das línguas e literaturas, da filosofia e humanidades, o que constituía a 5.ª das Faculdades académicas, a Faculdade das Artes. Por isso se dava a este Colégio a denominação de «Escolas menores», em contraposição às «Escolas maiores», onde residiam as 4 faculdades principais.

... Era pois singular este tipo de Colégio universitário.

... Ao segundo tipo pertenciam 2 colégios – o de S. Pedro e o de S. Paulo ... Ali faziam os colegiais a sua preparação e tirocínio para o professorado universitário.

Trajos dos colegiais.jpg

 Trajos dos colegiais dos dois Colégios Reais, de S. Pedro, e de S. Paulo

 ... Havia um terceiro tipo colegial, que era o mais numeroso. Colégios de alunos ou leigos, que neles viviam agremiados, para seguirem os estudos universitários, sustentados pelas rendas das respetivas instituições, rendas estas devidas quer à munificência régia, quer à caridade doutros benfeitores, quer a consignações feitas por entidades religiosas interessadas.

Alguns deste Colégios se fundaram primitivamente para abrigar e sustentar rapazes seculares pobres, geralmente clérigos.

... Outros foram desde o princípio fundados pelas Ordens monásticas, para ilustração e ensino daqueles de seus frades, para isso escolhidos.

 ... Também as Ordens militares tiveram Colégios universitários para os seus freires estudantes.

... Os edifícios dos Colégios das Ordens religiosas e militares não eram habitados exclusivamente pelos frades e pelos freires alunos; ali residiam também, com os estudantes, os lentes das Ordens respetivas. Lá viviam ainda os frades leigos e serviçais necessários, constituindo cada Colégio uma família numerosa.

... À frente de cada um destes Colégios estava um prelado, que em geral se apelidava Reitor, em linguagem académica; excetuava-se o do Colégio das Artes, que era tratado por Principal.

Todo o seu pessoal: prelado, lentes, estudantes, familiares e serviçais, eram considerados pessoas da Universidade, para o efeito de gozarem os respetivos privilégios, foro e isenções.

Cada Colégio tinha os seus estatutos ou regulamentos privativos ou especiais, mas estavam sujeitos às numerosas prescrições dos «Estatutos da Universidade».

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 161-165, do Vol. I

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por Rodrigues Costa às 22:14

Segunda-feira, 19.12.16

Coimbra: Mosteiro de Santa Cruz construção e reconstruções

1131, 28 de Junho – Colocação da primeira pedra do Mosteiro de Santa Cruz “o nascimento visível da comunidade sediada na zona dos Banhos Régios, a pouca distância da muralha norte de Coimbra”.

1150 (cerca de) – Ano provável da conclusão do templo, bem como da parte conventual

... subsistem alguns vestígios arquitetónicos da notável igreja românica, que se pode conhecer e reconstruir através de restos construtivos e decorativos de valor excecional, porque realçam um saber qualificado, verdadeiramente responsável pela solidez das estruturas ainda visíveis, levantadas sob orientação técnica do mestre Roberto, coadjuvado de canteiros peninsulares ... a nave, de grandes proporções e com abóbada de berço, seguia da capela-mor até próximo do coro superior, a que correspondem os dois tramos dos atuais abobadamentos. Nos flancos, possuía três capelas laterias, em pleno coincidentes com as presentes e que mutuamente se ligavam por grandes arcos, perspetivando naves colaterais, cujos eixos eram perpendiculares ao da principal. Um átrio, repartido de três estreitas naves perpendiculares e cortadas de três outras transversais, abria na direção da nave central.

 1500 (ao longo do século) - ... nos inícios de Quinhentos, começaram as obras do conjunto monumental, repartidas em três fases: a de dom Pedro Gavião que, sob a direção de Boytac, mandou desmanchar o nártex, as abóbadas, fez os atuais abobadamentos e janelas elevadas, a casa capitular, a capela das Donas, a sacristia manuelina; a do Venturoso (D. Manuel I) que, na supervisão de Marcos Pires, estabeleceu terminar os coroamentos da memorável igreja, bem como reconstruir o claustro do silêncio; por fim a de Dom João III, na qual Diogo de Castilho, com Nicolau Chanterene, levantaram o novo portal de pedra branca, na fachada românica

... Repentinamente, tudo desaparecia das interessantes estruturas medievais. Em presença daquelas intensas devastações, o pequeno mosteiro das Donas extinguia-se, ficando livres esses espaços, antes ocupados; o prolongamento das novas alas possibilitaram o claustro da Manga; também um grande refeitório, com anexos e cozinha, ficava circundado dos imprescindíveis apoios e serviços; enfermaria, dormitórios dos cónegos, dos noviços, repartições civis e portaria – com um outro claustro restrito.

Dias, P. e Coutinho, J.E.R. 2003. Memórias de Santa Cruz. Coimbra, Câmara Municipal. Pg. 22, 54, 59 e 61 a 62

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por Rodrigues Costa às 09:37


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