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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 14.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 4

Vista geral da Alta, antes das demolições.jpg

Vista geral da Alta, antes das demolições

Durante o primeiro terço do século XX, os grandes projetos de remodelação urbana centravam-se na Baixa, mas foi na Alta que, quase subitamente, eles se começaram a aplicar. Por razões que não cabem neste momento explicar, o Estado Novo encetou em 1942 um vasto projeto de reconstrução das instalações universitárias, que ocasionou a demolição de mais de duzentos prédios e a construção de grandes blocos destinados a Faculdades.

Prédios demolidos durante as obras da Cidade Universitária segundo o número de pisos

Tipos de prédios  Número  Percentagem

Um piso                          1                   0,5
Dois pisos                     10                   5,0
Três pisos                     46                 22,8
Quatro pisos                 95                 47,0
Cinco pisos                   49                 24,3
Seis pisos                       1                   0,5
TOTAL                        202               100,1

Localização dos prédios demolidos.jpg

Localização dos prédios demolidos

…. Na véspera da construção da cidade universitária, a Alta era mais importante do que hoje não só por razões simbólicas, mas também pelo número e proporção de habitantes relativamente ao total de Coimbra e pelo superior relevo económico. O crescimento urbano verificado até 1940 não diluíra a polarização Alta-Baixa e o incremento da circulação automóvel ainda não tornara obsoletas as suas íngremes e estreitas ruas.
Ao contrário do que pretendeu e em grande parte realizou o Estado Novo, durante séculos não houve segregação entre zonas residenciais e escolares. A vizinhança entre os locais de ensino e os quarteirões de habitação, associada à dispersão dos colégios e dos próprios estudantes, implicava as zonas mais afastadas da Alta na atividade universitária sem que, no seu núcleo, fosse sentida qualquer necessidade de isolamento. Mas o plano de Cottinelli Telmo, responsável pela revolução urbanística realizada ao longo dos anos quarenta e sessenta, no seguimento de sugestões anteriores, assumiu a ideia de monofuncionalizar a área universitária.
A demolição sistemática da zona superior da Alta permitiu construir o Arquivo (1943-1948), a Faculdade de Letras (1945-1951), a Faculdade de Medicina (1949-1956) e os edifícios da Matemática (1964-1969) e de Física e Química (1966-1975): quatro imóveis de estudada monumentalidade, que provocaram uma profunda rutura urbanística e arquitetónica. E ainda ficou por construir o hospital previsto para o local dos Colégios de S. Jerónimo e das Artes, e os pórticos unindo os edifícios.

Alta de Coimbra. Rua Larga.jpg

Alta de Coimbra. Rua Larga. Década de 40

Vista geral da Alta, depois das demolições.jpg

Vista geral da Alta, depois das demolições

…Toda a zona se encontrava vivificada por um ativo comércio, ocupando o rés-do-chão de inúmeros prédios, vocacionando para a satisfação das necessidades diárias e ocasionais da população. Lucília Caetano … concluiu pela existência, na área demolida, dos seguintes «artesãos e pequenas empresas artesanais»: em 1942, havia seis alfaiatarias, duas modistas de vestidos, um marceneiro e restaurador, quatro encadernadores e douradores, duas tipografias, duas latoarias, cinco barbearias e uma relojaria. De acordo com a mesma autora, havia em 1910 sessenta e sete estabelecimentos comerciais e artesanais na Alta destruída e quarenta e sete fora dela.
… O plano de Cottinelli Telmo não alterou apenas o rosto da acrópole universitária. Devido ao âmbito das expropriações e à inerente necessidade de realojamentos, o seu impacto estendeu-se ao resto da cidade.

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Vista geral do Bairro de Celas

Em 1952, o reitor Maximino Correia calculou em dois a três milhares o número de pessoas que foram obrigadas a abandonar a Alta, ou seja, cerca de 5% da população da cidade, que em início dos anos quarenta rondava os cinquenta mil habitantes. A construção de bairros de realojamento apressaram e em parte definiram esse desenvolvimento urbano.

Rosmaninho, N. Coimbra no Estado Novo. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 65-92.

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por Rodrigues Costa às 09:45

Terça-feira, 20.11.18

Coimbra: Estação Nova

A construção da rede de caminho-de-ferro foi uma das principais obras do século XIX o que explica as acesas discussões que provocou em Coimbra, debatendo o traçado adotado e a localização das estações que serviam a cidade.
O traçado das linhas, apesar de ter inflamado a opinião pública por quase 50 anos … interessa-nos antes analisar o processo e as consequências da implantação da estação da cidade, junto ao cais das Ameias.

Estação da zona do Padrão [Alexandre Ramires, R

Estação da zona do Padrão [Alexandre Ramires, Revelar Coimbra,22]

Quando se construiu a Linha do Norte, implantou-se a Estação de Coimbra nas imediações da cidade, na zona do Padrão. Na época discutia-se o traçado da Linha da Beira Alta, que segundo alguns estudos deveria partir de Coimbra pela margem do Mondego, prevendo a construção de uma nova estação dentro da cidade. A decisão de iniciar a linha da Beira Alta na Pampilhosa, muito contestada pela população de Coimbra, obrigou pela desconformidade com a lei de 26 de Janeiro de 1876, à criação de um ramal entra estação do Padrão e o centro da cidade. Depois de muito protelado o ramal foi construído, mas reequacionando-se a possibilidade de uma linha para a Beira pelas margens do Mondego implantou-se uma estação provisória, junto ao Cais das Ameias e lateralmente à via, o que permitia a possibilidade da linha ser prolongada anos depois.
O caráter provisório foi-se prolongando e as próprias dimensões da estação tornaram-se insuficientes para o afluxo de passageiros e de mercadorias, obrigando à construção de um conjunto de edifícios anexos em madeira. O que conduziu, a partir de 1899, a uma incessante campanha da Associação Comercial que reclamava a construção de um novo edifício. Apesar da urgência da melhoria deste equipamento, muito defendido na imprensa local, esta iniciativa não foi secundada pelo presidente do município, Manuel Dias da Silva, que procurava na época encetar os estudos para um Plano de Melhoramentos da cidade baixa, cujos resultados poderiam condicionar a construção da nova estação.
Por outro lado, anos antes, em Novembro de 1888, tinha sido concessionada à empresa Fonseca, Santos & Viana uma linha entre Coimbra e a Covilhã que acarretaria alterações na estação da cidade. Porém as dificuldades financeiras da companhia retardavam o início dos trabalhos e adiavam a necessidade de alargamento da Estação. Só no inicio do século XX, depois da Companhia Real de Caminho de Ferro Portugueses ter assumido a construção desta linha foi possível dar andamento e ao mesmo tempo encetar os estudos para nova estação nas Ameias.


Estação Nova primitiva CF.jpg

Estação primitiva

Inaugurada a linha para a Lousã a 16 de Dezembro de 1906 o problema da nova estação ganhou mais acuidade mas só começou a ser resolvido em 1918, no entanto o processo não foi pacifico. À data o município tinha em estudo um novo plano para a reforma da Baixa e depois de informado por via não oficial da aprovação pelo governo de um projeto para a nova estação, diligenciou junto da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses lembrando a necessidade de licenciamento municipal de todos os edifícios com fachada para a rua. Pese embora as diligências a referida companhia iniciou a compra dos terrenos necessários.
“A Companhia Portuguesa entendeu, porém, que a Cidade de Coimbra, quer pela categoria de 3.ª Cidade de Portugal, quer como centro da mais interessante região de turismo, era merecedora de um edifício mais vasto e de mais nobre aspeto do que o existente, e dispôs-se ao pesado sacrifício da sua construção, … visto tratar-se de um melhoramento de grande interesse para essa Cidade.”
Quatro anos depois, embora alegando que a “Companhia não se julga … na obrigação legal de submeter os seus projetos à apreciação de qualquer outra entidade, que não seja a Direção Fiscal dos Caminhos de Ferro” enviava à Câmara Municipal o respetivo projeto pela consideração que devo a V. Ex.ª e à Câmara da sua digna presidência para que V. Ex.ª e os munícipes de Coimbra possam apreciar a forma porque esta Companhia deseja contribuir para o embelezamento dessa cidade.
O engenheiro Abel Augusto Dias Urbano, na época chefe interino e como referimos responsável pelo Projeto para os novos arruamentos da cidade baixa contestou a implantação do ramal ao mesmo tempo que enaltecia a vontade de “substituir … a antiga Estação, acanhada, mal localizada, de aspeto sórdido e mesquinho de pequena Estação sertaneja” e propôs uma nova implantação para o edifício cerca de seis a dez metros para norte.

p. 395.jpg

Desenho de reconstituição da implantação da antiga estação
O objetivo era deixar entre a estação e o limite do cais uma distância mínima de dez metros para a construção de uma marginal, ao mesmo tempo que propunha que a fachada principal ficasse perpendicular ao eixo da Avenida Emídio Navarro.
Em resposta a Companhia comprovou a impossibilidade de satisfazer as exigências do município, pela exiguidade de terenos, mas comprometeu-se a minorar os problemas apontados e, com esta promessa o município, presidido por Mário de Almeida aprovou o projeto, esperando que “o mais breve possível, seja um facto o importante melhoramento que para a cidade representa a construção da projetada estação de caminho de ferro.”

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Planta de implantação da nova estação inaugurada a 15 de março de 1931

… Apesar destes intentos as obras só tiveram início cinco anos depois e suscitando novamente grande contestação.

p. 398 a.JPG

s/a, Estação de caminho de ferro,1954

Os diferendos subsistiram e o projeto aprovado e apresentado pela Companhia em 1923 foi construído sem fazer qualquer das alterações propostas … O edifício da autoria dos arquitetos Cottinelli Telmo e Luís Cunha, apesar da qualidade arquitetónica, em grande medida condicionada pelas limitações do espaço, descurou a inserção urbana e a almejada avenida marginal que ligaria o parque da cidade ao Choupal foi inviabilizada.

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Étienne de Gröer. Esboço da reforma da Baixa, no canto inferior esquerdo visível a nova estação. 1940

… Com efeito uma das principais críticas do urbanista Etiénne De Gröer à Baixa correspondia à implantação da Estação Nova … Este novo edifício devia servir de interface entre o transporte ferroviário e o novo transporte rodoviário … propunha a substituição do Ramal da Lousã por carreiras de camionetas de forma a relacionar a cidade com o rio sem o obstáculo da via férrea a atravessar o Largo da Portagem, principal entrada na cidade.

Calmeiro, M.I.B.R. 2014. Urbanismo antes dos Planos: Coimbra 1834-1924. Vol. I. Tese de doutoramento em Arquitetura, apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, pg. 393-400

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por Rodrigues Costa às 19:35


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