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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 04.11.21

Coimbra: Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz 1

O início do século XIX foi um período de grande instabilidade a nível nacional, primeiro com as invasões francesas e depois com as lutas entre liberais e absolutistas. Só a partir da década de 30, com a pacificação assinada em Évora Monte, se começaram a difundir os novos ideais de progresso que se viviam na Europa. Ao mesmo tempo foi nestas décadas que o Estado encetou a construção de uma Nação Liberal, definindo uma nova divisão e organização territorial, reformando o sistema administrativo, a justiça e o ensino. Neste contexto, interessa-nos destacar para o caso em estudo a extinção das ordens religiosas e a nacionalização dos seus bens.

… Na cidade de Coimbra, sede da única Universidade Portuguesa, esta medida teve um duplo impacto, por um lado encerrou vinte e três Colégios e obrigou à reforma do ensino, que acabou por conduzir à perda da exclusividade do ensino superior com a introdução em Lisboa e no Porto do ensino politécnico e das Escolas Médicas. Por outro, permitiu, como veremos, a modernização e o crescimento da cidade que se encontrava enclausurada entre o rio que recorrentemente invadia as ruas e edifícios da Baixa e uma cinta de colégios e mosteiros que condicionavam o crescimento da cidade.

Fig. 3. Planta da autora de reconstituição da ci

Fig. 3. Planta da autora de reconstituição da cidade no ano de 1834, com a indicação a vermelho dos Colégios e Conventos existentes

Foram vendidos em hasta pública ou convertidos nos novos equipamentos do Estado vinte e três colégios e sete conventos dentro do perímetro [urbano] … deste conjunto destacava-se, pela sua dimensão, o Mosteiro de Santa Cruz que ocupava uma área de 3,5 hectares e possuía mais 29 hectares correspondentes à quinta de recreio, o que perfazia uma área equivalente a 2/3 do total de área urbana edificada.

Perante um número tão elevado de edifícios e terrenos desocupados dentro do sobrelotado tecido urbano, o município começou a delinear uma estratégia de modernização da cidade a partir do aproveitamento de alguns destes edifícios. Com este intuito, no dia 10 de janeiro de 1835, apresentou ao Governo uma relação dos edifícios e das cercas, cuja cedência considerava indispensável. Solicitava parte dos edifícios do Mosteiro de Santa Cruz para implantar a Câmara e a Casa dos Jurados, o Convento dos Beneditinos no bairro alto e o Colégio da Graça no bairro baixo, para transformar em quarteis, as cercas dos Jesuítas e do Colégio de São Jerónimo para a construção de um cemitério e a cerca do Convento de São Francisco para outro cemitério na margem esquerda do rio. A Quinta de Santa Cruz para parque público, um terreno na cerca de Santa Cruz para a construção do Matadouro Municipal e, por fim, a cedência da água de duas minas do Colégio de São Bento e das águas do Colégio da Sapiência para reforçar a rede de abastecimento da cidade.

Dois meses depois, a edilidade evocava também a necessidade do pátio do Mosteiro de Santa Cruz para criar o mercado público e os restantes edifícios do mosteiro para reunir no complexo crúzio todas as repartições públicas da cidade. Requeria ainda a cedência do Colégio da Estrela para instalar a cadeia pública, o Colégio de Santo António da Pedreira na Alta para albergar um hospício e reforçava o pedido já apresentado pela Misericórdia do antigo Colégio da Sapiência. Nas imediações da cidade solicitava a Quinta de S. Jorge, propriedade do extinto Mosteiro de Santa Cruz, para criar uma escola agrícola.

Da análise deste plano, verifica-se assim que o município não se limitava ao simples aproveitamento dos vazios deixados pelas corporações religiosas, mas, ainda que por razões práticas e ainda que distante das modernas noções de zonamento, gerou conscientemente um novo polo de centralidade no antigo Mosteiro de Santa Cruz, concentrando todas as funções administrativas e aliando-lhe a função comercial e o matadouro complementar.

No ano seguinte, o governo de Passos Manuel, viabilizou parte da estratégia da câmara, ao ceder à câmara os tres Edificios dos extinctos Conventos de Santa Cruz, Graça e S. José do Marianos da dita Cidade de Coimbra, afim de serem applicados - o pr.º para a Caza das Audiencias do Jury, Cadea, camara, Adm.ao do Conc.º, e do correio; o segundo p.ª servir de Aquartelamt.tº de tropa; e o terceiro finalm.te para n'elle se estabecer o Hospital de S. Lazaro.

Fig. 4. Planta da autora com a indicação dos edi

Fig. 4. Planta da autora com a indicação dos edifícios e terrenos solicitados pelo município em 1835.

Três anos depois, a carta de lei de 30 de julho oficializou a cedência e, ainda que de forma involuntária, marcou o futuro desenvolvimento e crescimento da cidade ao fixar a obrigatoriedade de “abertura de duas ruas de communicação com o Bairro Alto, uma que conduza ao caminho da Fonte Nova, e outra ao de Monte Arroio.” Efetivamente, estas duas ligações foram mandadas executar no ano seguinte e pela primeira vez romperam os limites impostos pelo antigo Mosteiro. A primeira partia do antigo Pátio, e aproveitando o caminho dos Cónegos Regrantes, seguia junto ao limite da antiga Horta até à Fonte Nova. A segunda ligação, entre a Horta e a rua das Figueirinhas, correspondia a um declive muito acentuado e acabou por ser construída por uma escada de três lanços. Mantinha-se, contudo, a necessidade de estabelecer uma ligação para o Bairro Alto, utilizável por carruagens e, três anos depois, projetou-se e mandou-se abrir a rua pela Ribela, ou Horta dos extintos Crúzios, até às casas do extinto Colégio de S. Bento, para communicação da cidade alta com a baixa […]com a largura de 24 palmos, livres para a estrada de quaisquer marcos cunhais, soleiras e beirais dos telhados, que porventura venham a ter lugar naquele sitio, desde que a estrada se converta em rua.

Calveiro, M.R. Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz. Ensejo e pragmatismo na construção da cidade de Coimbra. In: Cescontexto, n.º 6, Junho 2014. Coimbra, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Pg. 227-240. Acedido em

https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/80969/1/Apropria%c3%a7%c3%a3o%20e%20convers%c3%a3o%20do%20Mosteiro%20de%20Santa%20Cruz.pdf

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:41

Terça-feira, 29.08.17

Coimbra: Colégio de Nossa Senhora da Graça

Fundou-o el-Rei D. João III em 1543 para os «Eremitas calçados de Santo Agostinho, sendo concluído, e por este monarca dotado, em 1548.

Incorporou-o na Universidade a carta-régia de 12 de Outubro de 1549.

Tinha o seu edifício na Rua da Sofia, a Ocidente do Colégio do Carmo, separados um do outro por uma viela, que depois se suprimiu.

Colégio de N. Senhora da Graça.jpg

Colégio de N. Senhora da Graça

 Foi muito favorecido por el-Rei com grandes privilégios. Eram apontados os seus colegiais como argumentadores subtis; o seu espirito combativo tornava-os por conflituosos e pouco simpáticos.

... É de todos os edifícios universitários aquele que melhor se conserva ainda hoje, quase intacta, a sua fachada, com as primitivas janelas, que iluminavam os escritórios de cada colegial, e ao lado de cada uma o postigo da alcova, onde dormia.

Em parte deste edifício esteve instalado, com consentimento dos religiosos, um hospital, no tempo da guerra miguelista.

Abandonado em 1834, logo a 10 de Janeiro de 1835 a Câmara de Coimbra representou ao Parlamento, pedindo o edifício para quartel. Foi concedido em 1836 com este destino, tomando dele posse a Câmara a 15 de Dezembro do mesmo ano. Nele se instalou o quartel militar.

Em 1857, o Comissariado dos Estudos requisitou da Câmara uma casa, para onde se mudasse a escola de ensino mútuo. Respondeu aquela que só tinha duas casas em condições, a do Colégio da Graça e a da torre de Almedina. Foi preferida a da Graça, devendo-se mudar para outra o quartel militar. Quando porém a Câmara mandou proceder às obras necessárias para a instalação da escola, opôs-se o oficial comandante do destacamento ali aquartelado. Deu isto lugar a vivas querelas jornalísticas.

Aloja-se atualmente (em 1938-1941) ali o quartel da Administração militar.

Colégio de N. Senhora da Graça igreja.jpg

Interior da Igreja do Colégio de N. Senhora da Graça

 Na igreja o culto esteve de princípio a cargo da Ordem terceira de Santo Agostinho; hoje é mantido pela Irmandade do Senhor dos Passos.

Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 196-197, do Vol. I

 

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por Rodrigues Costa às 10:11

Quinta-feira, 02.07.15

Coimbra, a Rua da Sofia e os seus Colégios 2

Colégio de S. Pedro
Em frente (ao Colégio de S. Tomás, hoje Palácio da Justiça) situava-se o antigo «Colégio de S. Pedro», fundado por D. Frei Rodrigo de Carvalho em 1540, para 12 clérigos pobres da diocese de Miranda do Douro que estudassem. O templo foi sagrado em 1548, mas os edifícios que se conservam já não são esses … o edifício foi entregue em 1584 aos frades calçados da Terceira Ordem Regular de S. Francisco, vulgarmente conhecidos por «Borras», devido à cor do hábito. A igreja atual foi começada pouco depois de 1621 e a zona residencial profundamente remodelada … Encontra-se hoje restaurada, mas nada mantém do antigo recheio, contendo alguns retábulos de talha de diversas épocas.

Colégio da Graça
… O Colégio de Nossa Senhora da Graça, fundado e dotado por D. João III em 1543. Pertencia à ordem dos Ermitas Calçados de Santo Agostinho, mais conhecidos por «gracianos». Após a extinção das ordens religiosas foi a igreja entregue à Irmandade do Senhor do Passos e a parte colegial ao Exército. A frontaria da zona habitacional do colégio é muito interessante, por manter ainda o conjunto alternado de janelas grandes e pequenas. A grande correspondia à sala de estudo e a pequena à alcova … Interessante é também o átrio da portaria de dois arcos e vão retangular intermédio, com alizar de azulejos do tipo «camélia». O claustro, da época da fundação, é exemplar curioso, por ter sido um dos primeiros ensaios das formas clássicas da Renascença.
A igreja ficou pronta em 1555. Tem uma sóbria fachada onde sobressai o portal de linhas clássicas … uma única nave abobadada e capelas nos flancos, que comunicam entre si. Nestas se encontram retábulos da época rococó, cobertos por dosséis a imitar tecidos. O retábulo-mor é um excelente exemplar maneirista, com armação arquitetónica de talha dourada a enquadrar seis painéis, alusivos à Vida da Virgem datados de 1644 e de autoria de Baltazar Gomes Figueira …
Um das principais curiosidades desta igreja é o conjunto de pedras tumulares e brasonadas que se encontram nas capelas laterais … A sacristia data do final do século XVII e contém um interessante retábulo de pedra.

Borges, N. C., 1987. Coimbra e Região. Lisboa, Editorial Presença. Pg. 80 e 81

 

 

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por Rodrigues Costa às 15:34


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