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O início do século XIX foi um período de grande instabilidade a nível nacional, primeiro com as invasões francesas e depois com as lutas entre liberais e absolutistas. Só a partir da década de 30, com a pacificação assinada em Évora Monte, se começaram a difundir os novos ideais de progresso que se viviam na Europa. Ao mesmo tempo foi nestas décadas que o Estado encetou a construção de uma Nação Liberal, definindo uma nova divisão e organização territorial, reformando o sistema administrativo, a justiça e o ensino. Neste contexto, interessa-nos destacar para o caso em estudo a extinção das ordens religiosas e a nacionalização dos seus bens.
… Na cidade de Coimbra, sede da única Universidade Portuguesa, esta medida teve um duplo impacto, por um lado encerrou vinte e três Colégios e obrigou à reforma do ensino, que acabou por conduzir à perda da exclusividade do ensino superior com a introdução em Lisboa e no Porto do ensino politécnico e das Escolas Médicas. Por outro, permitiu, como veremos, a modernização e o crescimento da cidade que se encontrava enclausurada entre o rio que recorrentemente invadia as ruas e edifícios da Baixa e uma cinta de colégios e mosteiros que condicionavam o crescimento da cidade.
Fig. 3. Planta da autora de reconstituição da cidade no ano de 1834, com a indicação a vermelho dos Colégios e Conventos existentes
Foram vendidos em hasta pública ou convertidos nos novos equipamentos do Estado vinte e três colégios e sete conventos dentro do perímetro [urbano] … deste conjunto destacava-se, pela sua dimensão, o Mosteiro de Santa Cruz que ocupava uma área de 3,5 hectares e possuía mais 29 hectares correspondentes à quinta de recreio, o que perfazia uma área equivalente a 2/3 do total de área urbana edificada.
Perante um número tão elevado de edifícios e terrenos desocupados dentro do sobrelotado tecido urbano, o município começou a delinear uma estratégia de modernização da cidade a partir do aproveitamento de alguns destes edifícios. Com este intuito, no dia 10 de janeiro de 1835, apresentou ao Governo uma relação dos edifícios e das cercas, cuja cedência considerava indispensável. Solicitava parte dos edifícios do Mosteiro de Santa Cruz para implantar a Câmara e a Casa dos Jurados, o Convento dos Beneditinos no bairro alto e o Colégio da Graça no bairro baixo, para transformar em quarteis, as cercas dos Jesuítas e do Colégio de São Jerónimo para a construção de um cemitério e a cerca do Convento de São Francisco para outro cemitério na margem esquerda do rio. A Quinta de Santa Cruz para parque público, um terreno na cerca de Santa Cruz para a construção do Matadouro Municipal e, por fim, a cedência da água de duas minas do Colégio de São Bento e das águas do Colégio da Sapiência para reforçar a rede de abastecimento da cidade.
Dois meses depois, a edilidade evocava também a necessidade do pátio do Mosteiro de Santa Cruz para criar o mercado público e os restantes edifícios do mosteiro para reunir no complexo crúzio todas as repartições públicas da cidade. Requeria ainda a cedência do Colégio da Estrela para instalar a cadeia pública, o Colégio de Santo António da Pedreira na Alta para albergar um hospício e reforçava o pedido já apresentado pela Misericórdia do antigo Colégio da Sapiência. Nas imediações da cidade solicitava a Quinta de S. Jorge, propriedade do extinto Mosteiro de Santa Cruz, para criar uma escola agrícola.
Da análise deste plano, verifica-se assim que o município não se limitava ao simples aproveitamento dos vazios deixados pelas corporações religiosas, mas, ainda que por razões práticas e ainda que distante das modernas noções de zonamento, gerou conscientemente um novo polo de centralidade no antigo Mosteiro de Santa Cruz, concentrando todas as funções administrativas e aliando-lhe a função comercial e o matadouro complementar.
No ano seguinte, o governo de Passos Manuel, viabilizou parte da estratégia da câmara, ao ceder à câmara os tres Edificios dos extinctos Conventos de Santa Cruz, Graça e S. José do Marianos da dita Cidade de Coimbra, afim de serem applicados - o pr.º para a Caza das Audiencias do Jury, Cadea, camara, Adm.ao do Conc.º, e do correio; o segundo p.ª servir de Aquartelamt.tº de tropa; e o terceiro finalm.te para n'elle se estabecer o Hospital de S. Lazaro.
Fig. 4. Planta da autora com a indicação dos edifícios e terrenos solicitados pelo município em 1835.
Três anos depois, a carta de lei de 30 de julho oficializou a cedência e, ainda que de forma involuntária, marcou o futuro desenvolvimento e crescimento da cidade ao fixar a obrigatoriedade de “abertura de duas ruas de communicação com o Bairro Alto, uma que conduza ao caminho da Fonte Nova, e outra ao de Monte Arroio.” Efetivamente, estas duas ligações foram mandadas executar no ano seguinte e pela primeira vez romperam os limites impostos pelo antigo Mosteiro. A primeira partia do antigo Pátio, e aproveitando o caminho dos Cónegos Regrantes, seguia junto ao limite da antiga Horta até à Fonte Nova. A segunda ligação, entre a Horta e a rua das Figueirinhas, correspondia a um declive muito acentuado e acabou por ser construída por uma escada de três lanços. Mantinha-se, contudo, a necessidade de estabelecer uma ligação para o Bairro Alto, utilizável por carruagens e, três anos depois, projetou-se e mandou-se abrir a rua pela Ribela, ou Horta dos extintos Crúzios, até às casas do extinto Colégio de S. Bento, para communicação da cidade alta com a baixa […]com a largura de 24 palmos, livres para a estrada de quaisquer marcos cunhais, soleiras e beirais dos telhados, que porventura venham a ter lugar naquele sitio, desde que a estrada se converta em rua.
Calveiro, M.R. Apropriação e conversão do Mosteiro de Santa Cruz. Ensejo e pragmatismo na construção da cidade de Coimbra. In: Cescontexto, n.º 6, Junho 2014. Coimbra, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Pg. 227-240. Acedido em
Fundou-o el-Rei D. João III em 1543 para os «Eremitas calçados de Santo Agostinho, sendo concluído, e por este monarca dotado, em 1548.
Incorporou-o na Universidade a carta-régia de 12 de Outubro de 1549.
Tinha o seu edifício na Rua da Sofia, a Ocidente do Colégio do Carmo, separados um do outro por uma viela, que depois se suprimiu.
Colégio de N. Senhora da Graça
Foi muito favorecido por el-Rei com grandes privilégios. Eram apontados os seus colegiais como argumentadores subtis; o seu espirito combativo tornava-os por conflituosos e pouco simpáticos.
... É de todos os edifícios universitários aquele que melhor se conserva ainda hoje, quase intacta, a sua fachada, com as primitivas janelas, que iluminavam os escritórios de cada colegial, e ao lado de cada uma o postigo da alcova, onde dormia.
Em parte deste edifício esteve instalado, com consentimento dos religiosos, um hospital, no tempo da guerra miguelista.
Abandonado em 1834, logo a 10 de Janeiro de 1835 a Câmara de Coimbra representou ao Parlamento, pedindo o edifício para quartel. Foi concedido em 1836 com este destino, tomando dele posse a Câmara a 15 de Dezembro do mesmo ano. Nele se instalou o quartel militar.
Em 1857, o Comissariado dos Estudos requisitou da Câmara uma casa, para onde se mudasse a escola de ensino mútuo. Respondeu aquela que só tinha duas casas em condições, a do Colégio da Graça e a da torre de Almedina. Foi preferida a da Graça, devendo-se mudar para outra o quartel militar. Quando porém a Câmara mandou proceder às obras necessárias para a instalação da escola, opôs-se o oficial comandante do destacamento ali aquartelado. Deu isto lugar a vivas querelas jornalísticas.
Aloja-se atualmente (em 1938-1941) ali o quartel da Administração militar.
Interior da Igreja do Colégio de N. Senhora da Graça
Na igreja o culto esteve de princípio a cargo da Ordem terceira de Santo Agostinho; hoje é mantido pela Irmandade do Senhor dos Passos.
Vasconcelos, A. 1987. Escritos Vários Relativos à Universidade de Coimbra. Reedição preparada por Manuel Augusto Rodrigues. Volume I e II. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 196-197, do Vol. I
Colégio de S. Pedro
Em frente (ao Colégio de S. Tomás, hoje Palácio da Justiça) situava-se o antigo «Colégio de S. Pedro», fundado por D. Frei Rodrigo de Carvalho em 1540, para 12 clérigos pobres da diocese de Miranda do Douro que estudassem. O templo foi sagrado em 1548, mas os edifícios que se conservam já não são esses … o edifício foi entregue em 1584 aos frades calçados da Terceira Ordem Regular de S. Francisco, vulgarmente conhecidos por «Borras», devido à cor do hábito. A igreja atual foi começada pouco depois de 1621 e a zona residencial profundamente remodelada … Encontra-se hoje restaurada, mas nada mantém do antigo recheio, contendo alguns retábulos de talha de diversas épocas.
Colégio da Graça
… O Colégio de Nossa Senhora da Graça, fundado e dotado por D. João III em 1543. Pertencia à ordem dos Ermitas Calçados de Santo Agostinho, mais conhecidos por «gracianos». Após a extinção das ordens religiosas foi a igreja entregue à Irmandade do Senhor do Passos e a parte colegial ao Exército. A frontaria da zona habitacional do colégio é muito interessante, por manter ainda o conjunto alternado de janelas grandes e pequenas. A grande correspondia à sala de estudo e a pequena à alcova … Interessante é também o átrio da portaria de dois arcos e vão retangular intermédio, com alizar de azulejos do tipo «camélia». O claustro, da época da fundação, é exemplar curioso, por ter sido um dos primeiros ensaios das formas clássicas da Renascença.
A igreja ficou pronta em 1555. Tem uma sóbria fachada onde sobressai o portal de linhas clássicas … uma única nave abobadada e capelas nos flancos, que comunicam entre si. Nestas se encontram retábulos da época rococó, cobertos por dosséis a imitar tecidos. O retábulo-mor é um excelente exemplar maneirista, com armação arquitetónica de talha dourada a enquadrar seis painéis, alusivos à Vida da Virgem datados de 1644 e de autoria de Baltazar Gomes Figueira …
Um das principais curiosidades desta igreja é o conjunto de pedras tumulares e brasonadas que se encontram nas capelas laterais … A sacristia data do final do século XVII e contém um interessante retábulo de pedra.
Borges, N. C., 1987. Coimbra e Região. Lisboa, Editorial Presença. Pg. 80 e 81
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